maio 10, 2006

"..Et exultavit.."

Voltei a cantar hoje. Depois de umas semanas afectada, por causa de uma laringite, decidi fazer uns vocalizos, pegar nas partituras e partir no comboio, que já está muito, muito atrasado. Bem, o resultado não foi dos melhores, mas também a falta de estudo e de trabalho só implica este tipo de consequências.. E como tive inválida..melhores dias virão.
Deixo-vos o meu Dia 4, da viagem ao Egipto..e aproveito para informar que estou a escrever o Dia 5..sai a passo de caracol, mas saí e em breve, espero eu, está concluído..

Dia 4 20/07/2004 Terça-Feira

Assuão

No dia a seguir acordei como sempre, cansada, com o corpo todo trucidado, como se tivesse passado a noite numa luta desgarrada com o sono, querendo parar a música irritante do despertador. 6:45. Tinha voltado a dormir umas cinco horas e meia, o cansaço ia-se acumulando mas ainda não se tinha apoderado do meu organismo o suficiente para me tirar o entusiasmo. Afinal de contas, tinha muito tempo depois para estagnar até fazer morrer os pensamentos.
Levantei-me. Bocejava, olhava para o quarto sem, no entanto, conseguir ver a confusão de peças de roupa já usadas, no dia anterior, amontoadas, pousadas na cama ao lado. A confusão do quarto já existia desde que tinha saído do 211 para o jantar da noite anterior e lá estava, composta pelos meus véus como se fossem maltrapilhos para o lixo, a toalha do banho em cima da cama, a mala das rodinhas aberta como se tivesse sido agitada em trapézios de circo, a saia, os lenços, os óculos de sol espalhados na colcha da cama. Depois de desperta, pronta para sair no meu visual branco, reparei que teria de reservar algum do meu tempo para arrumar condignamente aquele quarto. Afinal este era o meu último dia a bordo do “Beau Rivage”, no dia a seguir rumaria para o Cairo e teria de caber tudo na minha mala. Parecia inimaginável, confesso.
A rotina já se tinha instalado e, lentamente, tinha-me habituado à chave defeituosa do 211, à música ambiente da ala dos quartos, à prematura vida matinal no barco, recheada de uma musicalidade francesa e de uma mordomia irritante, onde cada empregado nos saudava e servia na melhor das excelências. A rotina do pequeno-almoço, a rotina das visitas, das viagens de camioneta até um determinado local arqueológico, a rotina da guia que se tornou uma presença obrigatória, a rotina do calor, a rotina da comida, que jamais nem nunca me fez mal, a rotina do cheiro daquela terra, a rotina da presença do Nilo, a rotina da língua árabe, a rotina da especiaria, a rotina de estar de férias no Egipto. Nada me perturbava. Tudo me maravilhava.
Após uma ligeira refeição na imensa sala de refeições na cave, um dia estava prestes a iniciar-se, um último dia no barco, um último dia antes de chegar ao limiar da metade da minha calma aventura pelas inefáveis terras do Nilo.
8:00. Partimos. Sentei-me, confortavelmente, na parte traseira do nosso veículo, rumo à grandiosa barragem do Assuão. Mirabulando, reflectindo sobre aquele país, ouvia Ana que explicava, no seu português enrolado, explicações sobre a história da barragem do Assusão, considerada por muitos prejudicial à fertilidade dos campos e responsável pelo visível desvanecer do outrora largo e dinâmico rio Nilo, símbolo da vida e das forças que guiavam os antigos egípcios na suas vidas. O autocarro ia, aos solavancos habituais, pelas velhas estradas de alcatrão da cidade, semelhantes a carreiras de uma civilização rural em estado avançado de extinção, onde a pobreza, apontada pela assimetria visual e física, se encontrava mais camuflada com pequenos espaços verdes, pelo bonito edifício de uma estação de televisão egípcia, pelo rosado “Old Cataract Hotel”, no qual Agatha Cristhie escreveu “A Morte no Nilo, e por uma minoria de edifícios circundantes de vedações ajardinadas, pequenos arbustos enganadores de bem estar e uma frescura viva em cada alicerce exposto.
Demos voltas à cidade, durante uns vinte minutos, sempre com a voz de Ana a servir de acompanhamento, voz que se tornara ruído, fragmentos de sons distorcidos onde o vago de “Nasser”, “velha barragem dos ingleses”, “grande barragem”, “papiro” e “perfumes” ecoavam na minha mente, de cinco em cinco minutos, como um sussurro repetitivo, acompanhando a analogia da paisagem, conjugado nos saltitares de um autocarro exposto a um calor precoce e limpo. Distraí-me, apenas olhei para a simplicidade das pessoas, tapadas pelas túnicas, bordadas, escuras e protectoras de um sol ardente, para as crianças sujas, descalças, de cigarro na mão. Observei que as pessoas eram mais escuras e com olhos claros, o que fazia daquele povo do já Alto Egipto uma aproximação à África negra, à África do Sudão, país a sul dali, sendo também a presença do povo Núbio, autónomo mas não independente da República Islâmica do Egipto, com a sua beleza negra e mista, um reforçar para que a fisionomia do povo daquela cidade se destacasse em relação a tudo o que tinha constantado anteriormente. O superficial lago Nasser encontrava-se diante dos nossos olhos, construído décadas antes com os seus 500 kilómetros quadrados de extensão, num fio de azul sossegado e direito, morto, plástico, parado, irreal, numa morbidez e aridez, num espaço sujo, descolorido, “desverdejante” que ignorava a beleza do Nilo, representando sob o meu crítico e firme olhar o chamamento para um espaço e tempo remotos, fugazes ao meu desejo.
Parámos na Grande Barragem do Assuão, com quatro metros de espessura, cento e onze de altura e novecentos e oitenta de largura na base. Erguida para regular o fluxo do rio Nilo., a Grande Barragem do Assuão revela o apoio indiscutível da União Sociética nesta obra, o chamado “alto dique” de Assuão.
Teríamos cerca de cinco minutos para ver o lago, a seca paisagem e tirar fotos. O dia seria longo, muitas coisas nos esperavam e não me cansei em pedir para me tirarem fotos, numa boa disposição aberta e espontânea. Escusado será dizer que também tive de tirar fotos. “Não há almoços grátis..”. Já eram nove da manhã, e embora o calor estivesse longe de atingir o seu clímax, sentia a boca seca e a mochila vazia por não ter uma provisão. Dirigi-me a um quiosque perto e, com uma grande e fresca garrafa de água “Baraka”, decidi abastecer-me por entre o abafado ar que consumia as nossas energias. Avistei do outro lado um enorme templo egípcio, segundo Ana, o Templo de Kalabasha, construído já na era romana, na qual o Egipto foi ocupado e governado por romanos.
“Famiiiliiaaa”. Ana e o lenço de padrão laranja num ponteiro, agitado com fervor. No meu visual claro, vislumbrei o cenário com atenção e ingressei no autocarro, num lugar traseiro perto do grupo que me acompanhava a cada refeição, neste novo dia-a-dia.
O infinito lago Nasser me surpreendera pela sua imensidão e vastidão, como se fosse uma mancha, uma nódoa no deserto, mas não me fascinara com a sua uniformidade e unicidade, apenas me colocara espantada perante tal infinidade de água, não um elo de dinamismo egípcio mas uma metáfora de algo inerte, inútil, incapaz de igualar todo o passado vivo em casa esquina. Á medida que dialogava com os meus companheiros e o autocarro avançava, Ana ria-se de microfone ligado, começando a discursar sobre o Tenplo de Philae, dedicado à conhecida deusa Isís, seu centro de culto, construído originalmente na Ilha de Philae, ali no Assuão. Correndo risco de submersão, deu-se a transladação do monumento para a Ilha de Agilika, transformada para se assemelhar ao local original de construção do grande templo.
9:30. O autocarro pára, coloco os óculos de col, ponho na cabeça o chapéu de ganga, ícone da mulher ceifeira, levo as malinhas comigo e parto. Num segundo, homens de túnicas distinas e diferentes nos bloqueam o caminho, uma rampa descendente, com as suas estátuas, postais desdobráveis, tentando apelar-nos com o Figo ou o Cristiano Ronaldo. Ana dá um bilhete a cada um do seu grupo afilhado e seguimos viagem até ao cais.
Talvez pelo grande fluxo de turistas, os nativos ali se encontravam, sentados na lateralidade daquela modesta avenida até à água, com os seus artefactos e obras de arte, as suas pirâmides e camelos de madeira, sempre dispostos a fornecer um sorriso gratuito, esfumante e sujo, por entre gengivas escuras e esquecidas algures no tempo.
Finalmente entrámos no barquito de madeira, cuja pintura branca e colorida escamava, devido ao uso diário e intenso, repetível e mecânico. Sentada a uma ponta, sob a sombra do terraço, vejo o jovem egípcio, de uma pele muito escura e olhos verdes, de uma beleza abismal, a largar o transporte do cais, desapertando uma forte corda, desfazendo o grande nó. Olho à minha volta e dou-me conta das dezenas de barcos ali presentes, decorando também o local os pequenos aglomerados verdejantes distantes, pontuais e pouco profundos. Vejo casas.
“Prrrrrrr”. O motor arranca, o barco inicia a sua trajectória e miro as casas coloridas na encosta, as casas inacabadas, o cinzento abundante e, mais uma vez, a roupa estendida que fornece um simples modo de existência humana naquele espaço desorganizado e caótico, tão perto de uma centena de vidas ocidentais e desgarridas de côr. Deixo a paisagem traseira do barco, viro-me para a direcção efectuada e vislumbro, a uns cem metros dali as paredes do Templo de Isís, com os seus baixos relevos, figuras humanas e divinas, hieróglifos e zoomorfismos.
A pequena ilha pareceu-me uma visão, com a beleza das paredes erguidas, a água lisa e dormente à sua volta, a vegetação floral, deífica e um amontoado de pedregulhos de naturalidade aparente, indiscutível. Esqueci as toneladas cimentadas e gigantescas da Grande Barragem e voltei anos atrás no tempo, imaginei as côres, as roupas, os cheiros e a realização de rituais, assombrados por velas, instrumentos e túnicas puras.
Chegámos. O calor começa a apertar e bebo quase metade da minha “Baraka”.
Uma multidão de cabeças circulava pelas várias áreas do Templo, onde guias de várias nacionalidades e côres explicavam as origens do templos, os relevos das imponentes paredes edificadas, as figuras de Isís e as suas asas protectoras de ouro, revelando o símbolo da vida: o “anj”. Sendo um legado do Antigo Egipto, dos complexos artísticos mais bem conservados, os capitéis papiroforme e Hatorianos, com a cabeça da deusa Hátor, encantavam o grupo com a sua perfeição, perante o sol abrasador que humedecia a pele facial. Seguia Ana, tirava fotos e ouvia as suas breves explicações, afirmações que se tinham tornado clichés: “O tecto caió pur causaa de terramoto acôntecidu nu ano di venti sete antess di cristu”. Querida Ana. Nem se apercebia da quantidade de vezes que dizia as mesmas frases. O seu discurso parecia tão mecânico, tão sabido, tão interiorizado que as pupilas não tinham expressão, as palavras fluíam, por vezes, sem uma intenção ou um significado. Mas cada um de nós entendia o que ela dizia..Bem, mesmo quando dizia “borrar” em vez de “apagar” e “cucarachas” em vez de “baratas”. “A genti sabe..”, “a deusa Hátor, deusa da música, da arte e de todas essas coisas muito bonitas” e “estes capiteís que andam pur aqui” tornavam-se já expressões-chaves das suas explicações, motes linguísticos, dicas para iniciar qualquer facto ou relevo histórico, enquadrados naquelas pedras milenares.
Eram quase 11:30. Depois de ver aquela paisagem e disfrutar do encanto mágico daquele paraíso cultural, voltámos ao barco protegido para ter com um motorista qualquer, cuja cara era semelhante a um árabe qualquer: complexão facial morena e um belo bigode farfalhudo.
Próximo destino: o Instituto do Papiro em Assuão. Iríamos visitar um sítio onde se vendia papiro verdadeiro (e não o falso que se via nas ruas, nas mãos dos comerciantes), se fazia demonstrações das várias etapas do processo de produção da folha de papiro e, consequentemente e logicamente, poder-se-ia comprar folhas de papiro. Já conseguia imaginar o meu quarto com uma bela moldura, com um magnífico papiro na parede..”Famiiiliaa!Vamos!”. Acorda Lara. Deixei o dispensável na camioneta e lá fui, seguindo a guia e os meus compinchas para o interior do edifício.
Todo o grupo que habitava o “Beau Rivage” comigo, tinha vindo no mesmo avião comigo. Éramos cento e quarenta pessoas ao todo mas dez dessas pessoas foram para um cruzeiro de escalão inferior, de quatro estrelas, que, digamos com toda a frontalidade, não tinha comparação com o belo navio “Titânico”. Das restantes cento e trinta pessoas fez-se uma divisão, ou seja, as cento e trinta pessoas estão divididas e distribuídas pelos quatro guias, Ana, Aziz, Benji e Ali, que funcionam como tutores nestas jornadas, cada um com uma bandeira portuguesa, um lenço ou uma cantiga. Para que o programa funcione bem, os quatro grupos não podem ir aos mesmos sítios, ao mesmo tempo. Portanto, quando cheguei à porta do Instituto do Papiro, alguns companheiros já lá estavam, outros iam a sair com grandes cilindros em sacos de plástico, outros estariam noutro sítio qualquer a fazer algo...interessante, espero eu.
Já passava do meio-dia, o sol estava alto e no pico da sua luz, criando algum choque à entrada no edifício escuro, onde a visão demorou algum tempo a adaptar-se com o objectivo de poder distinguir as formas, as linhas, as côres. Desci umas escadas, segui as raparigas do Porto até nos confrontarmos com uma sala relativamente grande, recheada de molduras, expondo dezenas e dezenas de folhas de papiro nas paredes. Mesmo do lado direito das escadas havia um balcão grande, com três ou quatro funcionários, recebendo talões de clientes, pegando em folhas de papiros, enrolando--as e encaixando-as em fortes cilindros de papelão, forrados com imagens conhecidas da antiga cultura egípcia. O ritmo era veloz e certo, os sons difusos e distintos: vozes num árabe audível, num volume perceptível, papéis rasgantes, batidas agudas e fortes. Olhei em redor. Perdi-me um pouco, uma vez mais, no característico ambiente do Médio Oriente, onde a desorganização é uma regra certeira.
“Pum.” A batida. É uma demonstração da criação do papel de papiro, feita com o corte da flôr de papiro. Ana chama-nos e aproxima-nos do senhor que, num espanhol apressado e trapalhão, exemplifica para uma vintena de pessoas todo o processo manual e mecânico. A gordinha e fofinha Ana dá sinal para aguardarmos e diz: “Este senhor naum sabi português, mas fala espanhole e vaii explicá o fabricu da fôlha de papiru para vôcêss.” Assim aconteceu. De uma flôr de papiro, o hábil egípcio corta o caule em tirinhas miudinhas, coloca-as num engenho que as esmaga e alisa. O espanhol deste fabricante de folhas de papiro era rápido, circulando à velocidade de um comboio alfa. Só que tinha problemas nos travões. “E assi...bla bla..lo papiro es..bla bla bla”. O ruído naquele ambiente era elevado e a dada altura concentrei-me, unicamente, naquilo que fazia. Passados alguns dias das tiras de papiro ficarem de repouso, extraindo-se o sumo e alisando-se, já é possível tirá-las e formar uma folha de papiro à medida das nossas necessidades. Coloca-se uma tira na vertical, utiliza-se um rolo para ficar completamente direita, de seguida coloca-se outra tira na horizontal, ficando uma das extremidades por cima da ponta da tira que já tinha sido esticada. E assim, neste processo alternado de horizontal/vertical, colocam-se as tirinhas do caule do papiro, até aparecer uma folha fina, mas muito resistente, diante dos nossos olhos. Fico impressionada com a inteligência e modernização dos egípcios que, há milhares de anos, criaram as folhas de papel mais resistentes do mundo.
Teríamos todo o tempo para inspeccionar a sala e comprar folhas de papiro ao nosso gosto. No início, estava junto das três moças de sotaque breijeiro e nortenho, mas elas fugiram em rebanho para áreas longínquas, interpelando Ana em algumas vezes, noutras fazendo contas com uma caneta e um papelinho cheio de regras de três simples. “7 libras egípcias é um euro mais ou menos..Entaum 100 seraum..”. Parava diante de cada quadro exposto na parede e admirava-me com cada curva, só que os preços muitas vezes podiam servir como dados de repulsa activa no momento, contrabalançando com a beleza de dezenas de papiros, de vários tamanhos, pintados à mão, com formas, desenhos, mitologias, cores ricas e vivamente desenhadas.
“Alô Madame.” Um jovem funcionário surge. No Egipto não se conseguia ficar muito tempo sozinha, numa pose contemplativa e intelectual. Aliás, quase que diria que isso é um gesto anti-muçulmano, na medida em que naquele mundo onde me encontrava, a preocupação fundamental era saber se havia dinheiro para alguma comida até ao final do dia. Os intelectualismos e reflexões tinham apenas lugar no instinto de sobrevivência daquele povo, que dependia de trocos de turistas e de colecções de quinze marcadores de papiro falso, vendidas na rua em troca de um euro. Depressa senti-me com remorsos por desejar que o rapaz me virasse costas. Mas ele falava, falava e falava. A minha postura de ocidental, naquele instante, tornava-se uma realidade, mas minutos depois, tendo já dado alguns passeios à volta do recinto, entendi a sua necessidade de vender, de ganhar dinheiro e, por conseguinte, de estar ali. Decidi enfrentar o desafio de falar com um egípcio que não entendia inglês, nem era capaz de comunicar assim, fluentemente, abordando-o da melhor forma possível, utilizando aquilo que podia. A cada papiro que via, ele explicava qualquer coisa. Eu não entendia nada. “Sim, o quadro..the picture..o que representa? De que trata? Di que parle it-il?”. O meu francês tinha ficado muito enferrujado, especialmente depois daquele ano fatídico de 1996, quando o meu pai foi parar a um hospital algures na França, depois de termos ido a Paris e, como ninguém falava inglês no hospital, vi-me obrigada a exercitar os meus conhecimentos da área para conseguir interagir. Felizmente, havia um médico no hospital que falava inglês e conversou comigo. Mas desde aí que o francês foi para uma gaveta da arrecadação apoeirada e, agora, via-me forçada a utilizar uma imaginação poliglota, falando “línguas mixes”, sentindo-me uma mulher de quase um metro e oitenta a tentar ser idiota (a tentar falar muitas línguas), acabando por me sentir uma idiota total por não estar a ser consistente o suficiente para ser clara e óbvia. A ocupação francesa em África teve as suas consequências: a maioria da população egípcia, para além do árabe local, manejam razoavelmente o francês, servindo de arma para atrair turistas.
Tutankhamon, a deusa Maat e a representação do Mito da Criação, Nefertiti e o seu elegante pescoço, a deusa Isís com Hórus e Osíris, a astrologia egípcia: todos estes temas eram representadas nos papiros, sem fim. Fiquei fascinada com uma pintura de Nefertiti, cujo fundo era preto e a formosa imagem da cara da mítica mulher emergia, como se estivesse num dia de escuridão, brumas e sombras. Diferente de todas as outras imagens, decidi levar aquela e comuniquei a decisão ao rapaz. Ele informou-me logo que se comprasse cinco papiros, poderia levar outro. Foi isso o que aconteceu. Havia tanto papiro bonito, que escolhi cinco: a imagem de Nefertiti; a representação do olho de Hórus; a representação do mito da deusa Maat, a equilibrar o mundo, a deusa Nut, o símbolo do céu, a noite que surge depois de ter engolido o dia, conjuntamente com Geb, a terra; a chegada do defunto ao julgamento feito por Osíris, onde será pesado o seu coração, testando a sua leveza com uma pena; uma imagem da cabeça de Tutankhamon. O rapaz perguntou que papiro queria levar e apontei para uma moldura na qual se podia-se Nefertari e Isís juntas, de mão dada: Isís, com o disco solar e Nefertari, com as vestes soberbas do Império Novo.
Com a calculadora na mão, fazendo contas rápidas, o moço, talvez mais novo que eu, estendeu uma factura com o preço de cada papiro e com o total. Bem, no final de contas, o que são cinquenta euros quando se trata de papiro feito e comprado, in loco, no coração do Egipto?
13:15. Voltámos para a camioneta. Ainda nos esperava um sítio antes do bem merecido almoço no “Beau Rivage”. Acabei por voltar à rua para dar um euro a um rapaz de magra estatura, em troca de quinze marcadores de papiro falso, com imagens alusivas à mitologia e com símbolos hieroglíficos. No interior da camioneta havia uma arca com garrafas de água fresquinhas e por euro e meio, arranjava-se uma. Dei o dinheiro ao motorista de face inflexível e tirei uma garrafa. O calor do Alto Egipto era forte e quanto mais se descia no mapa, de mais água o organismo necessitava para a sua auto regulação.
“A genti sabi que os egípcios antigus, gostavam de perfumes e vamos cheirá agora uu Jasmin, a flôre de Lótus e outras côsas.” O português, único, de Ana. Sorria enquanto a ouvia. Daí a minutos estaríamos no “El Sultan”, um antigo palácio em Assuão que agora vendia perfumes, frasquinhos de vidro para as essências e outas coisas: era o “perfumes palace”, o “perfumes e companhia” da zona.
Chegámos. Um grupo de homens estava cá fora, numa espécie de varanda antes de se entrar no edifício antigo e de dimensões generosas. Todos de camisa branca, riram e exclamaram quando o nosso grupo passou diante dos seus olhares negros. Depois de subirmos umas escadas externas, que nos deram acesso ao andar superior da casa, acedemos a uma sala interior, com tapetes islâmicos e armários antigos com vitrinas cheias de frascos de perfume, centenas de frascos, de dimensões e côres diversas, organizadinhos em filinhas, na sua forma feminina e arredondada. Havia um aroma forte no ar, bastante familiar. Será que os egípcios tinham assaltado o Calvin Klein? Ana explica que teremos um guia, uma vez mais, fazendo uso do espanhol, para nos explicar todas as maravilhas daqueles cheiros desconhecidos.
Um rapaz alto, bonito e elegante, surge na sala. E é aí que nos sentamos nas cadeiras próximas dele. Na verdade, foi a indicação que ele nos deu...e a tempo, porque se a cadeira não estivesse lá perto, eu poderia ter caído no chão. Foi o homem mais lindo que até então tinha visto no Egipto e, certamente, dos que já tinha visto na minha vida e dos que alguma vez iria ver. Devendo ultrapassar o metro e oitenta, usava uma camisa branca semi aberta, umas calças pretas de poliester e um cinto castanho, de pele falsa, apertado na cintura baixa. Formoso e proporcional, o guia tinha o cabelo de um preto muito escuro, quase arroxeado, meio avolumado, as feições bem desenhadas e perfeitas com duas sobrancelhas firmes e grossas, dois olhos com pestanas compridas e ricas, um nariz comprido e esguio, bonito. Os lábios carnudos, as mãos firmes e grandes, de tons escuros e veias desenhadas, davam-lhe um ar muito atraente, em conjunto com a sua postura, os gestos, o tom de voz grave e sensual. Não fui só eu que me deixei levar pelo sorriso branco e limpo daquele homem perfeito, também outras mulheres comentaram a formosura daquele príncipe das arábias, agora posicionado do meu lado esquerdo, alto como um deus num pedestal.
Foi interessante perceber que os antigo egípcios foram os mentores dos perfumes, muito antes dos fraceses que, em noventa por cento dos perfumes e aromas base, vão às fragâncias egípcias roubar a base para esse negócio milionário. Daí, aquele aroma ser-me tão familiar. As grandes marcas internacionais de perfumes têm como base os extractos das flores da terra mágica do egipto, marcas como a Kenzo ou a Cacharel. De facto, cheirei algumas essências e vinha-me logo à cabeça o meu perfume, na maioria das ocasiões, “Flowers” da Kenzo. Jasmín e Lótus são as conhecidas e famosas essências de flores de perfume que cheirámos, com curiosidade, sendo demonstrado que uma só gota destes perfumes provoca um odor activo e forte, um efeito que muitas mulheres procuram evitar.
Das misturas destas essências, foram criados vários perfumes como o “Tu-nkh-Amon”, praticamente o mesmo cheiro que o “Dracoir Noir”, o perfume “Queen Hatshipsut” que se assemelha, em muito, ao meu usado perfume “Eternity” e a “Queen Cleopatra”, cujas reminiscências aromáticas nos lembram o perfume “Poison”. Engraçado. Há uma relação entre estes títulos. É claro que há perfumes locais, como o “Harem Perfumes”, a “Nefertity” ou “Amon – Ra” mas é o “Secret of the Desert” que dita a lenda de Nefertari e as suas técnicas de sedução para encantar o faraó Ramsés II. Olhávamos o guia que explicava que este perfume era muito antigo, remontava à época de Nefertiti, uma bela mulher, das mmais belas que já existiu no Egipto, que já utilizava aquela essência para atrair a atenção do marido e excitá-lo sexualmente. Nas suas palavras, “es la base del viagro ejípcio”. Uma risada geral propagou-se na sala. A base do viagra? Ele continuou. “Es meter esto en la piele e l’hombre hacerá louco. Una noche de sexo louco.” Os vários casais a bordo riram. Brincavam, afirmavam que queriam experimentar o produto para testar a sua eficácia. A história era curiosa. Nefertiti todos os dias à noite, antes de receber o seu amado, colocava gotinhas do perfume nos mamilos, no umbigo e no órgão genital, sendo isto o suficiente para que o odor fosse inalado pelo homem, provocando um sentimento de excitação, atracção e prazer. Nunca acreditei nesta lenda mas a convicção com que o rapaz transmitia a história e a contava, de uma autenticidade enganadora, conseguia divertir e quase fazer-nos pensar que ele estvivesse a relatar uma verdade universal.
Depois, cheirámos essências de especiarias que eram utilizadas como remédios e curativos: o “Musk” ou o “Royal Ambar”, utilizado para se ober um sono tranquilo, calmo e afastar os problemas de enxaquecas.
Shopping Time. Não consegui resistir à tentação de comprar quatro frascos pequenos de perfumes diferentes que me custariam à volta de sessenta euros. Bem, a minha carteira estava cada vez mais leve e, como havia multibanco ali, nem hesitei em utilizar o cartão. “Jasmin”, “Lótus”, “Secret of the Desert” e “Royal Ambur” foram os aromas que me entregaram, em quatro frasquinhos devidamente rotulados e identificados, numa caixinha, uma vez mais, de cartão forrada com imagens de estátuas, deusas e alegorias conhecidas. Uma moça de véu atendeu-me e eu agradeci, com o habitual “shokran”.
O grupo fazia compras, mostrava o que tinha comprado, falava avidamente e de tom leve. “O perfume da flôr de Lótus é muito forte..”. “Ah..eu gostei muito do de Jasmin..”. “Ahhh moço, não tem aí gardénia? Gosto muito.” 14:00. Éramos os últimos do barco a passar por ali, certamente já todos estariam refastelados a comer uma entrada qualquer deliciosa e uma carne picante, tendo como sobremesa umas belas fatias de melancia. A fome apertava e enquanto nos preparávamos para abandonar o velho palácio islâmico, observei o guia exótico durante uns segundos, numa discrição concreta enquanto preparava os óculos de sol e a minha mente para enfrentar a normalidade do calor daquele país e de todas as outras coisas que encontraria lá fora.
15:00. Assinei a folha, com o registo da garrafa de água que encomendamos, e fui vestir o meu bikini para dar um mergulho na piscina. Na verdade, quando chegámos ao “Beau Rivage” já todos tinham chegado à sobremesa pelo menos e o nosso almoço foi mais calmo do que o habitual, envolvendo também alguma lânguidez e sonolência.
Às 15: 30 os quatro grupos iriam sair do barco, numa visita facultativa entitulada “Aldeia Núbia”. Basicamente, em troca de trinta euros, iríamos de barco até uma praia fluvial do Nilo para tomar banho, andar de camelo até uma aldeia núbia, entrar numa casa dos nativos, comer alguma da sua comida, conhecer um pouco da sua vida. A visita estava programada para durar toda a tarde, prevendo-se que chegaríamos ao “Beau Rivage” por volta das 18:00. Como teria apenas meia hora para disfrutar do barco, decidi não ir fazer a sesta como parte do grupo. Fui ao 211, num ápice, vestir o bikini. “Pânico”. O quarto estava desarrumado, a roupa espalhada na cadeira e na cama ao lado. Teria de preparar tudo à noite antes de partir. Vesti, finalmente, o bikini, levei o protector, não sabendo ao certo porquê pois já sabia que não o iria usar, o telemóvel, os óculos de sol. Deixei o meu 211, com a sua televisão não operacional, fechei a porta à chave e, dirigi-me, através do corredor com música ambiente e retratos de destinos paradisíacos africanos, na parede, até à recepção. Entreguei a chave, subi as escadas para o primeiro piso, depois fui em frente e subi as escadinhas à direita, tornando a virar nessa direcção, para chegar ao terraço. Calor.Tirei uma das toalhas, reservadas aos viajantes num armário junto das espreguiçadeiras, estendi tudo num sítio próximo e entrei na água aquecida da piscina.
Via duas ou três pessoas do outro lado do terraço, a conversarem à sombra. Atracado ao porto, o “Beau Rivage” não se moveria, nem mais um milímetro. Aquele era o derradeiro destino antes de irmos para Abu Simbel de autocarro, uma conhecida localização a trezentos quilómetros, a sul. Entendi que não gozaria mais do facto de dormir enquanto o barco andasse, ou de apreciar a bela paisagem enquanto o “Beau Rivage” deslizava. Parte da viagem já tinha passado e, perante aquele cenário instantâneo de um barco fantasma, no qual as pessoas se refugiavam nos quartos para um repouso viciante, pensava na falta que me faria “Monsieur” ao servir-me o pequeno almoço, a vista para o Nilo da janela do meu quarto, o telefone a tocar para nos acordar diariamente, a pista de dança minúscula, o dormitar encantado numa espreguiçadeira, os “francesismos” no ar, as orações dos minaretes, os sorrisos cuja origem era um mistério, a sala de refeições, os avisos durante o jantar sobre a jornada do dia seguinte, o tilintar da chave do 211 na sua chapa pesada e dourada, o “Bonjour” mimoso, a almofada baixa e branca, a alcatifa do quarto e do corredor, a música no hall, as gargalhadas, as cartadas no terraço sob o aparato de um bafo afrodisíaco, a piscina cubícula, os tremeliques de um navio em movimento durante o almoço ou a noite, as mil palmeiras falando de beleza, a linha horizontal de um leito, outrora vivo, nesta temporalidade já adormecido.
Saí da piscina e conferi o relógio. Eram quase horas de partir. Sequei-me com a toalha, enquanto tremia. A água era quente e quando saía, embrulhava-me sempre na toalha como os miúdos fazem. Fui ao 211 e depois esperei ao pé da recepção, como sempre. As pessoas reuniam-se. Revi os meus companheiros mais novos de viagem, rimos e combinámos mergulhos de grupo na praia do Nilo.
15:30. Saímos. Cada grupo entrou num barquito diferente, coberto e modesto. Durante meia hora avançámos pelo Nilo, acabando por enveredar por ramificações, um rio estreitinho com muita vegetação, pedras, vida.
A aridez poderia ser uma constante, com dunas monstanhosas junto à margem do rio. A animação reinava no barquito. Um menino egípcio, conhecido, parente ou amigo do dono do transporte fluvial, cantava e batia palmas, tentava expandir a alma e o espírito de grupo que se encontrava, ainda, sob influência da acção anestesiante “pós-almoço”, onde a sonolência e o bocejar imperava. Mas logo, o rapazola pequeno, sujo e fascinante pelo seu olho verde de príncipe, montou uma banca no centro do barco, expondo colares, pulseiras e obras de arte artesanal, tentando culminar em si o centro das atenções do grupo.
Não liguei a nada, porque nada me agradava dali e o meu estado de espírito era outro. Tão perto daquela natureza exótica, observava felucas, pequenos pescadores e tocava ao de leve na água do Nilo. Garotos nadavam e aproximavam-se nós, como dolfinhos ágeis, de uma humildade presente e bela. Penduraram-se no barquito e cantavam, à espera de uma moeda ou de um sorriso. O barco avançavam e lá estavam eles, à pendura, de mão estendida. Um deles, era completamente careca e muito muito escuro, mas tinha olhos lindos, olhos que jamais tinha visto noutro lugar ou estância. Eram verdes, verdes que quase se tornavm amarelados, quando o sol incidisse neles. As longas pestanas abonecavam-no, davam-lhe um ar dócil e bonito. Contudo, a cabeça grande e disforme, transparecia uma imagem de doença e debilidade, algo que me fez sentir sensibilizada. Dois garotos brincavam nas águas perigosas do Nilo, arriscavam as suas vidas, brincavam na podridão e pobreza, tudo para conseguir uns trocos nossos, trocos esses que representavam fortunas para eles. Ninguém dá nada e, cansados, fogem para outro barco de turistas recheados. Um moço aproxima-se num pequeno bote e repete o mesmo ritual, já executado pelas crianças.
Agarra-se a um pneu que se encontrava do lado de fora do barco, pretendendo ir à nossa velocidade, procurando, como os meninos, uma moeda, um cobre, umas luzes para o ajudar a iluminar o caminho. Que expressão mais “cliché”. Ele acabou por desaparecer, sem eu própria me aperceber e, conforme os minutos escasseavam naquele passeio de brisa quente, íamos entrando por caminhos, navegando por leitos estreitos e quase selvagens, nos quais a vegetação era alta, diversificada, de uma virgindade incomparável à palmeira junto ao rio.
A dado momento, alguém grita. “Um crocodilo, um crocodilo!!”. Olho para trás, sigo o indicador das pessoas, espantadas, num misto de medo e aventura surpreendente, apontando para um pedragulho, a uns bons metros de distância, na rectaguarda lateral do barquito. O crocodilo repousava em cima da pedra, impávido e sereno, indiferente ao meio ambiente e à eventual poluição sonora que pudêssemos estar a provocar, passando no seu encalço. A meu ver, com aquele charme todo, só faltava uns óculos de sol à anos oitenta, o protector e uma toalha colorida, para o cenário ficar definitivamente completo. Completamente inerte, tivemos sérias dúvidas sobre o estado físico do animal, levando-nos a crer, em escassos milésimos de segundos, que estaria morto e embalsamado, pronto para ser levado para um grande museu sobre vida animal.
“Com que então já não havia crocodilos no Nilo, hein?” Mal acreditava no que tinha acabado de ver. Tudo o que tinha ouvido sobre crocodilos já me tinha sido confirmado como improvável e impossível. Não iria encontrar crcodilos no Nilo e todo o grupo se encontrava perplexo. Tirei a fotografia. Assim, não teria que enfrentar grandes contra argumentos.
Avançámos, lentamente, até chegarmos a uma pequena praia. Depois de termos avistado um animal tão pacífico e humanizante, muitas pessoas deixaram de querer banhar-se naquelas águas. Segundo Ana, o Nilo tinha um problema de contaminação da água, que poderia originar doenças várias, contudo, aquele cantinho estava limpo e parecia delicioso, na verdade. A água era bastante transparente e, conforme se avançava no nado, o fundo passava de areia a a um conjunto de pedras com gusmo.
Quando atracámos junto à areia da praia, os meus companheiros de viagem mais novos, já se encontravam em água, felizes e contente, em mergulhos chapados, tremeliques aéreos e gargalhadas sufocadas. “Isto é porque não viste o crocodilo.”, pensei. Teria uns minutos rápidos para disfrutar do local, depois iríamos de camelo num caminho estreito, feito de areia e terra batida, a meio do monte, tendo do lado esquerdo a beleza do Nilo. Despi-me para juntar-me à festa aquática. A ideia do crocodilo ainda me estava muito fresca, mas não consegui deixar de agarrar aquela oportunidade, seria talvez a única vez que poderia refrescar-me nas águas do mais comprido rio do mundo. Além do mais, o calor era muito, o corpo, perante tanta frescura, não resistiu.
Deixei tudo dentro do barco e fui a correr até à água, para junto dos novatos. Rimos, divertimo-nos e nadei para longe. Descontraí-me. O meu corpo estava leve à superfície, o cabelo comprido e liso, espalhava-se como se um grande e pomposo coral fosse. Sentia-me viva, limpa e feliz, com gotas de água morna a escorrer-me pela cara, o coro cabeludo imerso numa pureza plena de doçura, dirigido a sensações longínquas daquelas que já me tinha habituado a sentir na azáfama da cidade. Mergulhei. Quis abrir os olhos mas não consegui. Toquei com as pontas dos dedos dos pés no fundo, sentindo a dureza de pedrinhas e pedronas. O fluxo da água no nosso corpo é uma sensação maravilhosa, das mais poderosas e sensuais que se pode viver, como se ele fosse acariciado e tocado, embalado por infinitas partículas que o embelezam, soltam-no, fazendo-o voar. Eu sentia-me assim. Perdida naquele conforto e, ao mesmo tempo, protegida, semi adormecida à superfície, nadando e virando os membros corporais, de olhos fechados.
Contei que tínhamos visto um crocodilo mas não acreditaram, talvez por pensarem que sou muito criativa. Sei lá. Em vez disso, os novatos e inexperientes subiam para o terraço do barco e saltavam de cocras, repetidamente, de voz gritada e rebeldia segura, salpicando os restantes companheiros, numa despreocupação digna de inveja. Refilei por ser salpicada uma ou duas vezes mas depois desisti e comecei a interagir de uma forma totalmente informal. Por outras palavras, salpiquei também, forte e feio.
Saimos da água. Fui secar-me rapidamente com a toalha, vesti a roupa e lá fui eu, com a água a escorrer, conduzida até meia dúzia de camelos. Como o passeio de camelo não era obrigatório, quem não estivesse disposto a tal, iria de barco até à Aldeia Núbia. Deixei o dispensável no seu interior e, nervosa, fui convidada a subir para cima de um camelo, animal de duas bossas, alto, elegante, cujo cheiro, contudo, tinha um característico e forte odor. Não era a primeira vez que andava de camelo, já o tinha feito na Turquia nos meus ingénuos dezasseis anos. Tinha andado uns segundos para tirar uma fotografia e, apesar de ter uma vaga sensação de ondulação da experiência, não estava muito recordada do processo. Subi para cima de um camelo molengão e refastelado, indiferente à minha chegada, mastigando e remoendo qualquer coisa de irreconhecível. “Woowww”. A subida foi repentina e ri-me. Fomos.
Em filinha indiana, um grupo de quinze pessoas iam numa vaga estrada, em cima dos seus camelos. Já estava seca. O calor abrasador da tarde dissipava, num ápice, toda a frescura. À minha esquerda, encontrava-se o Nilo, uns cinquenta metros abaixo, pois o caminho estreito, cortava um monte a meio, colocando-nos, com alguma altura, acima daquela natureza verdejante e única. À medida que avançámos, o carreirinho subia mais e mais altos ficávamos. Para que o passeio fosse agradável, teria de ter as pernas para a frente, os pés cruzados e apoiados, segurando também na saliência da “cela” montada. De facto, estar em cima de um camelo podia ser pouco seguro. Para a frente e para trás, para a frente e para trás. A parte superior do meu corpo, com o movimento do animal, formava ondulações, estava constantemente em movimento e, dada a relativa altura do animal, um ou outro movimento inesperado, podia fazer desesperar as mentes mais inexperientes.
A viagem prosseguia e, após já não me lembrar o que estava ali a fazer exactamente, deixar de sentir as costas e os movimentos descuidados do camelo, observei o que me rodeava. Reparei na areia avermelhada e alaranjada, nas dunas do nosso lado direito que completavam aquele monte. De novo, a antítese do verde e do verdejante, junto ao Nilo e do árido, longe dele. Ao fundo, casas coloridas surgiam. Era o nosso destino.
“Vvvvvvv..Vvvvvvvvv”. O bafo do camelo que ia atrás de mim batia nas minhas costas. Virei-me para trás e dei um salto. A proximidade já tinha deixado de ser pública, há muito tempo, para ser de índole íntimo. Todos os camelos estavam ligados ao da frente por uma corrente, presa numa argola, uma espécie de piercing, que cada animal tinha numa das narinas. Daí, essa corrente se prendia à parte detrás do animal que seguia em frente. O que acontece é que o bicho atrás de mim não párava. A sua cabeça estava atrás, depois do meu lado esquerdo, colada a mim, assustando-me com dois grandes e pretos olhos parecidas com duas ameixas húmidas de longas pestanas vivaças. Quase encostado a mim, o camelo inclinava-se, provocando este facto uma gargalhada imenso no companheiro de viagem que incursava, feliz, na parte superior desse animal. Ri-me mas, dada a quantidade de vezes que o animal se encostava e se adiantava no passo, e, tendo em conta o bafo que deixava escapar da boca imunda e verde, constituída por todo o tipo de elementos defecatórios, afastei-me claramente dele, mexi os braços, assustei-o. Credo. Que cheiro. O animal lá andava, precipitava-se para o meu lado esquerdo e a monstruosa cabeça dava, de novo, uma lufada de ar fresco ao meu passeio, com a sua maravilhosa fisionomia. Irritada, praguejei contra o animal, mandei-o para trás. “Oh filho, tens de ir ao dentista que o verdete está a dar-te cabo da dentadura toda!” As gargalhadas, vindas de trás, eram ligeiras mais evidentes. A minha vontade era de lhe escovar os dentes mas, depois, com a patetice da situação caricata, acabei por me rir e gostar daquele camelo que mais se assemelhava a um burrito que já, noutra vida, tinha sido um porco.
Chegámos a uma aldeiazita junto ao rio, constituída por meia dúzia de casitas. As crianças vinham para junto de nós, queriam vender pulseiras pretas com escaravelhos colados, azuis. Eram todas muito bonitas e simpáticas, não nos largavam. Os barcos já lá estavam e fui buscar o resto das minhas coisas, caso fosse necessário. O calor ainda era insuportável no exterior, mas no interior a coisa não melhorava muito e, naquele momento, entendi que aquela família que cedera a sua casa para os turistas, fizera dela algo construído, algo de atraente para os turistas, um “produto” que não teria de corresponder, necessariamente, ao protótipo de casa de uma família núbia. Afinal de contas, quantas famílias daquelas tinham em casa pulseiras e peças artesanaias, em cima do banco de pedra, junto à parede, para vender? E um pequeno aquário com crocodilos bébés? E, quantas mulheres daquelas, faziam tatuagens, um euro cada? É certo que era o negócio daquelas famílias, um povo que se sentia submetido à vontade da República Islâmica do Egipto, sem terra própria, mas com valores rígidos e conservadores.
O interior daquele lar, como todos aqueles lares, era modesto, pequeno e abafado. O chão era a terra batida, com tapetes e as paredes tinham várias côres, sendo o branco predominante. Ana convidou-nos a sentar numa mesa, que estava a um canto, para lancharmos. “Os Núubioss têem vidass muito difíceis, a mulhé trabalha em casa e tem de fazé muiiito para u maridú.” O maravilhoso pão achatado em forma de círculo chegou à mesa, conjuntamente com outras guloseimas próprias como o queijo picante. “Hummmmm, que bom!” Devorámos tudo, bebemos colas fresquinhas e, passados instantes, mais doces típicos vieram. O chão de hortelã também parecia bom, contudo aquele calor pedia mesmo uma coca-cola fresca, uma das minhas bebidas predilectas.
Reparei na mulher que levava a comida. Olhava, constantemente, para o chão, na sua roupa, com o lenço na cabeça, os olhos distantes e um ar vago, infeliz. Era uma mulher jovem, poderia ter a minha idade, contudo parecia presa à sua vida e à sua condição enquanto rapariga. Tive vontade de lhe dirigir uma palavra mas a situação, o problema da comunicação e a falta de à vontade não me permitiram realizar tamanha ousadia. Afinal de contas, aquelas pessoas não iriam encarar bem este tipo de atitude, tipicamente ocidental. Ignorei o caso e pedi para fazer uma tatuagem na parte de trás do ombro esquerdo. Escolhi o olho de Hórus, um símbolo fascinante, que sempre gostara e, posto o fim do dia, onde um céu rosado surgia envergonhado, rumámos para o barco, chegando por volta das 18:00 ao “Beau Rivage”.
A tarde tinha sido cansativa e movimentada mas, mesmo assim, estava disposta a ir para a piscina. Ansiosa, depois de passar pelo 211, corri até à piscina, para dar um mergulho de despedida à amor passional, uma espécie de adeus eterno a alguém de quem gostamos mas que, segundo os cânones e regras, não poderemos, nem voltaremos a ver. O inconveniente foi ter tido a mesma ideia brilhante que metade das pessoas que estavam em viagem comigo tiveram.
A piscina minúscula e quadrangular estava cheia, com juventude e infantilidade personificada, pais, mães, piriquitos. Er. Engano. Saltei para a piscina sem pensar no meu olho de Hórus, a minha nova marca pessoal. Estiquei-me na “super, hiper, mega” descontracção de uma piscina de um final de tarde descontraído, sem pensar em actos ou consequeências. Na verdade, feito o balanço da primeira metade daquela viagem, sentia-me prestes a querer ficar ali, para todo o sempre, durante mil vidas, sem me preocupar com a minha remota e humilde presença, num amado paraíso abandonado, a milhares de milhas dali.
19:30. Saí da piscina, fiz nova maratona para o duche até estar pronta para o jantar. Tinha menos de meia-hora e sentia o tempo a voar. “Bolas, a tatuagem está a perder a côr.” Porta. Chave. Tirar roupa. Duche. Bater. Nódoa negra. Toalha. Limpar. Vesti um top preto, umas calças brancas, calcei as sandálias, arranjei-me, sem olhar para o lixo de moda naquele espaço e voei para fora, para o meu último jantar, através de uma porta organizadora de milésimas de sentimentos e tristezas recalcadas.
20:00. Estávamos prontos, à mesa, esperando que “Monsieur” e todos nos servissem, como nos tínhamos habituado. Falávamos da viagem, das saudades do barco, das tatuagens sexys que fizéramos. Trocávamos “olás” com os vizinhos de mesa e, tendo recebido de Ana uns belos brincos de prata, encomendados, representando dois cartuchos com o meu nome em símbolos hieroglíficos, alguns indivíduso simpáticos, como as moças do Porto e o senhor que conheci no aeroporto, teceram elogios à beleza do adorno. Sorri, plena de satisfação. “Por 30 euros, só podia ser uma coisa bonita”. Às nove e meia, haveria um espectáculo de dança do ventre na pista de dança, uma profissional ia lá. Estava expectante pela ocasião.
Acabei por, após o jantar, pagar todas as minhas bebidas durante a estadia, se bem que, devido à mudança de quarto no princípio da viagem, houve uma troca de contas, contas que não seria eu a pagar, nem o outro senhor que estava no meu quarto, anteriormente. Posto isto, juntei-me aos meus companheiros mais jovens que me acusavam de mentir em relação à minha idade, pois parecia ser muito mais nova. Ri-me. “Deve ser das roupas à camponesa, meus amores. Eu sou jovem mas mostro-vos o meu B.I.” E mostrei, eles resignaram-se à realidade, fomos em compasso lento para a discoteca e esperámos.
21:30. Começa o espectáculo. Uma rapariga nova, de atributos físicos apetrechados, arredondados e curvados, surge na pista. De nuances louras, beiças vermelhonas e com um fato branco brilhante e reduzido, a moça abanou-se, timidamente, à medida que três músicos se excediam nas suas capacidades. Acompanhada por um teclista, um percursionista e um tocador de pandeireta, os movimentos esquerda, direita, esquerda tinham uma expressão discreta e, digamos, pouco criativa. Conforme as notas se elevavam naquele tecido de meios-tons e harmónicos, a generosa cintura e dotada anca, movimentava-se, agudizando-se, formando círculos e pontadas certas e seguras, numa sensualidade pontual. Finda a primeira música, a dançarina saíu da pista, foi buscar senhoras para dançarem com ela. Ri-me. “Antoine”, um dos empregados do barco que tinha a sórdida mania de nos atirar gelo quando estávamos no terraço, perto da piscina, sorriu para mim, de bandeja na mão, sacudiu-se todo, abanando-se como uma mulher à procura de disputa. Apontou para a pista, querendo-me forçar a dançar para uma significativa plateia. Fazendo sinais à lourita, ela empurrou-me para a pista. Ele sorriu, satisfeito por ter cumprido a sua missão e, desta feita, eu e outras mulheres, dançámos em harmonia com aquela mulher, nos gestos, passos, voltas e agitares ondulantes. Mais uma vez, de sorriso aberto, acompanhava aquela egípcia, de olhos pintados e feições curvas, sobre a protecção de luzes coloridas e psicadélicas. Voltei a sentar-me ao redor e a apreciar um espectáculo que se acabou por revelar curto e fraco. Três músicas depois, a moça saíu.
Eram quase dez horas. Por volta das duas da manhã teríamos de ter a mala à porta do nosso quarto, para ser transportada para a camioneta. Até às três tomaríamos um leve pequeno-almoço no bar, seguindo para uma viagem de, sensivelmente, quatro horas até Abu Simbel. Comecei a pensar que não iria dormir, visto que teria de arrumar a panóplia de coisas que tinha, desalinhadas, no quarto e, também, desfrutar de tudo o que pudesse naquele último dia. Acompanhada, fui até ao quarto, atingir essa difícil e árdua meta de voltar a meter tudo na malinha mágica azul, de rodinhas ruidosas. Posto isto, e depois de entender que teria de levar tudo o que já tinha comprado, como a rababa e os papiros, em vários saquinhos, abalei para o terraço do cómodo navio, com as minhas recentes aquisições relacionais. Deitámo-nos, em espreguiçadeiras juntas e coladas. As moças do Porto encontravam-se na piscina, em gestos de diversão espontânea. Mas, logo, logo, ficámos quase sozinhos, a conversar sobre histórias surreais da vida e a contemplar aquele céu belíssimo. “Em portugal, não há um céu assim. Pelo menos, nada de tão iluminado por si mesmo, como se milhares de luzes distantes estivessem a invadir a atmosfera.” Comemos bolachas, dormitámos, por instantes, naquele cenário de paz de espírito, de uma inverosímil felicidade, apenas possível num sonho real de uma película. Os minutos passavam, assustados de si próprios e eu, consciente da unicidade daquele evento, abri, bocejadamente, as pálpebras finas, ergui a cabeça, senti a frescura do vento e desenhei o horizonte infinito na minha imaginação, marcado no decorrer da minha vida, saudando-o com um olhar brilhante, um sorriso mudo e um beijo ciumento.
Levantei-me e dirigi-me ao 211. Um “até breve” foi trocado e todos, isolados naquelas paredes íntimas, preparámos tudo para fechar o capítulo deste episódio marítimo em beleza. Troquei de roupa, refresquei-me. Incrível, não tinha sono, apesar de sentir o corpo pesado, cansado e dorido. Depois de ter todas as malinhas cheias, apetrechadas e organizadas, peguei nos sabonetes líquidos da casa de banho e guardei-os. Olhei à volta e tirei fotografias.
Estava pronta. Já eram quase duas da manhã. De mala e malinha nas costas, olhei em redor, à procura de vestígios pessoais, de objectos esquecidos ou escondidos. Ao meu olhar nada apareceu e, puxando a minha malinha, de sacos na mão e espírito de aventura, abri a porta, apaguei as luzes, fechei, devidamente, essa entrada, fixando a tabuleta do 211, fechando uma barreira física, desejável mas intransponível, esquecida, elemento de um passado listado e distante, porém, jamais incontornável perante o olhar acastanhado de uns olhos deslumbrados.

maio 09, 2006

" Tabaco, pizza e sexo"

" Tem boa imagem? É que se não tem, mais vale não vir.."
Amigos, amigos. Tcharann. A Puma está de serviço, novamente, ao vosso dispôr para responder às vossas dúvidas - isto se, vocês se dignassem a dar-me algum feedback, né? - e partilhar as vossas ansiedades. Não receiem o desconhecido, abracem-no como se fosse a coisa mais importante da vida, porque nunca sabemos quando é que ela vai ter um fim, não é?
Vá, não sejam tão críticos e rígidos comigo. Disse algum crime? Não, pois não? A vida é algo muito frágil. Cada vez tenho mais certezas disso, basta-me ver que um idiota qualquer na América invade culturas alheias, invocando os grandes valores da humanidade, espalhados peloa grandiosa Revolução Francesa de 1789, com o único e semítico objectivo de tirar os louros e os créditos para si, chupando qualquer regalia política e financeira. Para resumir, que eu ainda quero ir fazer a mudança do meu tio-avô para Alverca antes da meia noite, o cabrão quer o petróleo. Quer a massa, a pasta, o carcanhol, quer o bem bom, quer ir para oa Brasil durante 6 meses e sair de lá mais preto que um perú assado no dia de acção de graças americano, quer ir ter com o Bin Laden para organizarem um Ména.. Ups. Calma. Estas duas últimas coisas não faziam parte da lista. De qualquer das maneiras, não culpem o meu humor sarcástico. Desta vez não fui irónica, nem nada, nem o utilizei. É que o homem é mesmo um grande bronco e mais valia ter ficado no Texas a fazer criação de gado, a fazer pequenos almoços cheios de bacon e ovo para o rancho de filhos (ou filhas) que já conhecem o sabor do álcool desde que choraram pela primeira vez - ou seja, desde que nasceram - e..ups..eu não queria dizer que as filhas do Bush têm fama de alcóolicas..mas olhem..saíu-me..Mesmo depois de tudo o que eu disse, acho que, pelo menos, se tivesse ficado no Texas poderia ter tido a sorte de entrar no "Brokeback Mountain", melhorar a sua arte para a pesca e desejar querer desistir de um amor gay, impossível perante os olhares azedos da época, em vez de, agora, querer desistir do petróleo.."Oh I wish I could quit you..". Palerma..
Ontem tive uma boa companhia para jantar. É engraçado reparar nos pormenores das situações, não quando as estamos a viver, porque muitas vezes isso não é possível, mas sim quando as recordamos. E, azafadamente, parece que surgem uma data de coisas na nossa cabeça que antes não tinham surgido. É o chamado "Viver da Nostalgia". É? Quer dizer, não sei se é..Digo eu agora! Mas ao "nostalgear", ao recordar momentos de um passado não muito distante, temos não uma imagem perante nós, mas várias facetas e silhuetas dessa pessoa, um resultado amadurecido e recolhido pelas várias horas que se passaram em amena cavaqueira e espontaneidade, onde a verdadeira nunca toma um papel activo. Talvez porque não haja a necessidade de pensar antes de falar. Não vos parece lógico? Eu gosto de me relacionar com pessoas que tenham essa capacidade - apesar de podermos acabar a dar cabeçadas uns nos outros se tivermos opiniões divergentes - e mais, que não só tenham esse dom, mas como também o compreendam e apreciem, porque a meu ver, hoje pensa-se demais, reflecte-se demais antes de estar com alguém. Estudam-se os pormenores, encenam-se as coisas. É óbvio que isso é inevitável em certas situações. Vivemos de máscaras, de clichés, de um vestuário que forma uma imagem, de sinais importantes que vão fazer com que o próximo forme uma impressão da nossa personalidade, logo nos primeiros segundos de visualização. Não é interessante? É instintivo, faz parte de nós olhar e avaliar, fazer das pessoas meros rótulos e agrupá-los na prateleira, tal como alguém há uns anos uma vez me disse. E para quê? E para quê não falar o que me apetece no momento? Numa iluminação acolhedora, com uma música ambiente e umas vagas flores artificiais coladas à base de uma jarra de plástico, fatela e qualquer, porque não abrir a boca e falar ao na mesma banda sonora que o meu pensamento, difuso e complexo?
Luz. Cheiro. Um sabor crocante que nos aquecia o estômago. Um desejo reprimido. Lentes vagas, personagens ausentes. Palavras soltas e uma bola de fumo que se soltou na frescura da noite.
Depois disso, só sexo. Muito, muito sexo com uma pitada de infoteinment.
Qual é a coisa, qual é ela? Pois, vocês não adivinham e eu não me chamo Daniela.

maio 07, 2006

"Um oásis no deserto.."

"Oh I love to loveeeeeeeeeeee...but my baby just loves to dance... Yes, he does!!!"

Há uns meses atrás gostava de um rapaz. Muito. Muito mesmo. Estava apaixonada como nunca tinha estado antes e isso fazia-me sentir viva, feliz, confiante, segura, imparável. O tempo parava e eu ficava só a pensar naquelas recordações. E só essas recordações, valiosas por si mesmas, me davam forças para todos os dias acordar e fazer, simplesmente, o que tinha a fazer. Mesmo que essas memórias me iludissem, me atirassem para uma espécie de abismo em espiral sem saída, elas eram suficientemente fortes para me dar tudo o que eu precisava. No entanto, se esse amor me fazia sentir rica interiormente, a todos os aspectos positivos, também me dava o pior que há na vida. Que raio de amor é este em que não vejo o meu objecto amado? Que merda é esta em que não há contacto físico, não há palavras, pensamentos, jogo, sedução e sexo? Como é que alguém pode ser feliz só em pensamentos? Pois, não pode. E depois de picos de sonhos, em ilhas desertas, uma plenitude de calor e locomotivas de gelo, caía na realidade e saberia que esses desejos não existiam em mais lado nenhum, senão na minha mente. Eram do mais bonito que tinha sentido e vivido, mas era só meu. E não podemos ser felizes se não partilharmos com os nossos semelhantes tudo o que sentimos, o que vemos, o que vivemos, não é? Pelo menos com uma pessoa no mundo..e se fôr a nossa paixão, o nosso reduto, o nosso escape, tem de estar bem viva na nossa vida, a cada instante, pois é quem recorremos primeiro, caso haja uma necessidade..Estejamos bem ou mal, é assim que o ser humano vive, em conformidade e proximidade com o outro. Eu sabia que tudo não passava de um sonho, de uma ilusão, uma coisa fantástica que se desenrolava na minha cabeça, mas ao menos tentava acreditar, ter um objectivo que me dava forças, mesmo que fosse impossível, me levava para além do limite das coisas e me dava a convicção que tudo era possível de acontecer. Passaram muitos meses até sair desse estado de espírito, de não pensar nele, de deixar de o amar. E por mais incrível que pareça, nunca lhe disse nada. Nem uma mensagem, uma chamada, um sinal de vida. Apesar de lutar, desisti à partida de o tentar conquistar, mostrando-lhe o meu amor. O meu coração sabia que não ia acontecer nada, apesar de os milagres, hoje em dia, serem cada vez mais frequentes.
Para mim, isto pode ser o verdadeiro amor. O amor toma muitas formas e não se pode ser redutor ao ponto de se dizer "bem, esta é que a única forma de amor realística". Naaaaaaa...Ama-se de muitas formas e feitios, cada um ama como quer e como lhe convem. Mas o facto de viver com um amor trancado dentro de mim, de não o querer saltar para me proteger e a ele, de desejar apenas viver com naturalidade a vida, sem pressões, sem sufocos, sem humilhações, fez-me entender que o amava realmente. Não o persegui, não o enchi de pedidos, não o implorei para ser meu amigo. Fiz o que tinha a fazer e vivi bem com isso. Bem..bem, não vivi..Mas não se pode forçar o amor, ñão é?
É esta a mensagem que quero passar hoje...Carpe Diem. E sejam naturais. Basta.

março 30, 2006

"Inspirar, expirar..Inspirar, expirar.."

Greetings.
Hoje não me apetece mesmo escrever. Tenho a cabeça com muitas ideias, mas não me apetece expressar seja o que fôr, ou estar à frente do PC. Além do mais, morro de fome porque passei mais de uma hora no ginásio a malhar de tal forma, que quando cheguei ao WC e me vi ao espelho ia fugindo. Parecia a Rainha das Tomates no país da Tomatalândia. Bonito.
Posto isto e muitas outras coisas que agora, certamente e obviamente, não vou referir, deixo-vos a continuação do meu diário no Egipto. Caso tenham já lido o que publiquei e isso vos interesse...claro. Carolos e beliscões com carinho. L.


Dia 3 19/07/2004 Segunda-Feira

Esna – Edfú – Kom Ombo - Assuão

Estaria uma sombria noite, onde passadas as estreitas comportas da cidade de Esna, se caminhava por entre as misteriosas e desconhecidas águas do Nilo. Navegava-se há horas, numa velocidade incerta, em direcção à cidade de Edfú, depositório do Templo de Hórus, antigo monumento greco-romano dedicado ao belo e sagaz deus falcão, Hórus, filho de Isís, deusa da Magia e Osíris, deus dos Mortos.
O “Beau Rivage” perfurava essas águas, gentilmente, num compasso lento e constante, adequado ao sono profundo que residia no interior de cada cabine, em cada estreito e alcatifado corredor.
211. Silêncio. Silencio. Silêncio...O despertador, com a sua melodia “cartoónica”, iniciava a missão diária. Semi adormecida, e com visão desfocada, consegui parar o telemóvel na sua irritante melodia. Aliás, não escolhi aquela música estridente e barulhenta, na função de desempenhar o meu despertar, por acaso. Como se diz, não há coincidências. 6:45. Tinha dormido cerca de 5 horas e meia. Nada mau. O pequeno almoço seria às sete para podermos explorar Edfú às oito. Mais uns minutos...pode ser?..Deixei-me ficar na ronha confortável e “sabe a pouco” da camita uns 10 minutos, mas depois disso senti a obrigação psicológica e física de me pirar dali. Bolas, estava no Egipto, no meio do Nilo e ia ficar com uma crise de birra, por causa do sono? La, la, la.
Levantei-me e, activa, fazia o circuito quarto/casa-de-banho, casa-de-banho/quarto, variadas vezes. Desliguei o carregador da bateria da máquina fotográfica, que, após ter permanecido ligado à corrente eléctrica durante uns pares de horas, já tinha a luzinha de sinalização do aparelho um quanto tanto..”anormal”. Piscava incessantemente e irregularmente. “Upsssss..muitas horas..”.Abri a malinha de rodinhas, com a roupa amontoada, e saquei uma túnica azul, comprida e bordada. Vesti-a, em conjunto com a minha fabulosa saia de algodão branca, do dia anterior e, posto isto, alterei o esquema espacial para o binómio “desarrumação/arrumação” (costumo dizer que sou arrumada, de uma forma desarrumada), em vista de poder abandonar o meu pequeno refúgio em tranquilidade. “Não me esqueci de nada, pois não?” Peguei nas minhas malas, companheiras de viagem, pronta para iniciar outro dia no paraíso..detive-me. Fui até à janela, à margem direita da cabine e da minha nova cama. Estávamos parados. O rio permanecia calmo, como sempre, havendo, unicamente, pequenas ondulações provocadas pelo barco. O belo céu que pressagiava o nascer de outro dia produzido pela Deusa Mut, criadora do dia e noite, no Antigo Egipto, encontrava-se limpo, sem nenhuma réstia de nuvens, numa intemporalidade lindíssima. Sorri, observei atentamente e pela última vez, aquela fusão inequívoca entre água, ar e terra, fechei as cortinas e prossegui, num andar ritmado e acelerado, o meu caminho árduo e complicado até ao “Buffet”.
Após ter entregue a chave do 211 na recepção, fui tomar o meu desejado pequeno-almoço, indo cumprimentando os outros companheiros de aventura, pelo caminho. “Sim, desta vez dormi.” Ia conversando com várias pessoas sobre o meu ninho de sono. Estava satisfeita. Era a primeira da minha mesa a chegar ao local. Era habitual. O simpático empregado, careca, de bigode e com um francês perfeito, deitou água quente na minha chávena para fazer um belo chá, não sei de quê. Debati-me com ele, comicamente, por causa de uma garrafa de água. Ele, no seu francês e eu..no meu português, inglês, francês, espanhol. Portinglefranespanholarabês. Queria uma garrafa de água para levar para a visita. Não tinha água. Precisava de água. Parece simples..mas não foi. “Water”. “De l’eau..”. Gestos., a minha última salvação. Parecia um espectáculo de mímica na Feira da Ladra. Notava alguns olhares, mas continuava a tentar fazer passar a mensagem ao receptor. Esbracejava tentando transmitir a ideia de calor, passava as mãos na testa, cansada. Com a mão direita, pegava numa garrafa invisível e levava-a à boca, bebendo o seu conteúdo. “Ah!”, exclamou o empregado. Eu, sorri. Bip Bip. Mensagem Enviada.
Continuei a minha refeição, deliciada no chá com leite, saboreando a manteiga de pacote no pãozinho. Surge o “Monsieur” com algo na mão..uma espécie de tigela, daquelas com que damos leite aos gatos. Olhei e ri-me. O delicado árabe tinha-me traxido leite. Pelo menos, era um líquido branco e parecia-me ser leite frio. Voltei ao desespero mímico e tentei representar uma garrafa de água. “A bottle de l’eau..petit.”
Repeti, numa tentativa forçada. “Preciso de levar para o passeio.” Ria-me, sorria, já tinha desistido de falar naquela imensidão de línguas. Voltei, a seguir, a fazer o esforço gestual. “Monsieur” acenou que sim e foi-se embora. Certamente, voltaria com alguma coisa. Só não sabia se iria correpsonder às minhas expectativas.
Ei-lo de volta. Desta vez, com um copo de sumo de laranja, daqueles instantâneos.
Percebi que havia grandes problemas de comunicação, entre mim e “Monsieur”. Desisti. “Água, uma garrafa de água.” Ele sorri. “Ahhh..”. Finalmente. “Vive mais, comunica mais.”, já dizia o anúncio da Vodafone.
Cómico. Disse “Água” e fez-se luz no intelecto do gentil empregado-Tanta língua para nada. Continuámos a tentar dialogar, num estilo mais aprofundado, com o que a nossa vivência nos deu como seres sociáveis e comunicantes, mas a minha guia, Ana, a salvadora dos portugueses, apareceu e, uma vez mais, “salvou-me a vida”. Infelizmente, ali só vendiam garrafas de um litro e meio, algo que não me interessava, por dois motivos: 1º, a garrafa era pesada e eu já carregava coisas suficientes; 2º, estaria calor a mais para beber, apenas, meio litro de água fresco. “Obrigada, Ana.”
Daí a instantes, encontrava-me acompanhada, pois os meus companheiros de mesa surgiram. O senhor do Porto fez-me companhia até as raparigas da Invicta aparecerem, numa azáfama, quinze minutos antes da hora de partida anunciada.
Lá fomos nós.
Saímos do “Beau Rivage”, passando pelo porteiro que nos dava um cartãozinho, imprescendível para, no regressar, podermos ingressar no barco, com normalidade. Como o barco não estava junto à doca, mas sim acostado, lateralmente, a um outro mini paquete, tivemos de atravessar umas quantas salas de entradas, com diferentes recepções e côres que variavam, desde o cinzento ao azul, caracterizadas por um perfume activo e chão lavado para, por fim, aceder ao exterior.
O grupo da Ana juntou-se. 4 pessoas iriam numa charrette, esse transporte, símbolo romântico Queiroziano, do belo “fru-fru” do século XIX que, puxado por um cavalo, proporcionaria uma viagem muito nostálgica e interessante. Era mais que uma viagem. Era um outro tipo de viagem. Viagem no tempo e espaço.
Eu e as raparigas do Porto embarcámos na charrette nº 223. Teríamos de fixar este código, pois após a visita ao Templo e a visita ao mercado, regressaríamos com o mesmo condutor, na mesma charrette. A sensação de entusiasmo, perante tal possibilidade de viagem, que nunca tinha experienciado antes, era imensa e no arranque de tal mini aventura, o trepidar constante por cima da terra batida e o balançar semi deitado em cada curva, fazía-nos apreciar, de uma forma muito divertida e espirituosa, aquela viagem. Com dois lugares de um lado e outro, a charrette era preta, decorada com certos adereços fúteis como berloques coloridos e fotografias estranhas, mais parecidas com recortes de revistas lá do sítio, sendo-nos possível observar uma jovem que segura o seu bébé. Interrogo-me. “De onde, diabo, é que isto apareceu?” De costas, apreciava a paisagem pobre. Casas inacabadas mas habitadas, com roupa estendida no parapeito da janela. Uma loja da famosa cadeia “bata”, fechada. Tudo, o que se apresentava diante dos nossos olhos, estava envolto numa poeira imensa, tudo rodeado de crianças imundas e sujas, pedindo esmola.
Passando umas curvas e umas intersecções, chegámos, em segurança, ao Templo de Edfú, monumento erguido por greco-romanos com o intuito de honrar o deus Hórus, que se apresenta sob a forma de um falcão.
Consegui a minha água, com a garrafa de água “Baraka”, a marca mais conhecida por estas bandas, lembrando-me o “Luso”, com o seu logotipo por todo o lado.
Durante uma hora e meia, percorremos o vasto espaço daquele templo, entramos em câmaras interiores, santuários, sempre rodeados pelas altas e imponentes colunas de outrora, chocando com um número infindável de turistas de muitas nacionalidades, causando um “tráfego” naqueles corredores , diminutas mas regulares paragens nas explicações da nossa Ana.
O ar quente, mas seco, de cada divisão daquela velha casa sagrada fazia aumentar os níveis de suor e sede em cada um de nós. Tento coordenar a minha parte física com a minha parte psicológica, no esforço de conseguir assimilar a beleza do sítio, a par com o “pára-arranque” típico da visita, a tirada de fotografias e a explicação “portugalonhesa” da guia egípcia. Relevos, inscrições hieroglíficas, a história de ira de Hórus para com o tio Seth pela morte de Osíris, teletransportam a “família da Ana” que, após uns flashes pedidos e uns golinhos de água seguidos, aterram no mercado local.
Situado na rua principal que leva à entrada do Templo, o mercado de Edfú estende-se por uns 30, 40 metros, erguido sobre o caminho desértico e empoeirado, onde o som de rodas de charrette se funde com o apelo constante dos comerciantes, tentando fazer brilhar os olhos dos turistas, perante a panóplia de relíquias árabes, lenços brilhantes envoltos nas suas moedas douradas e lantejolas, estátuas, folhas de papiro, turbantes e túnicas.
“Madame! Anglais? Français? Italiana? Spañola? Portuguesa? Ah! Figooooo!” Perante os olhares dos vendedores que disputam um par de euros para sobreviver, deparei-me com esta evidência que o futebol português não era desconhecido. Figo, Cristiano Ronaldo, Rui Costa, Nuno Gomes, Deco..Cada um, ao saber que eu vinha de Portugal, enunciava logo metade da selecção nacional de futebol. Interessante. Irónico. Pessoas sobre o calor abrasador dos 40 graus, descalças, sujas, pobres, com o constante da sobrevivência incerta, sorriem abertamente e conhecem as tácticas da futebolística portuguesa. Mas era esse o negócio delas: cativar para sobreviver.
11:00. Foram-nos dados cerca de vinte minutos para explorarmos a arte de regatear. Depois disso, seguiríamos para o barco, à procura de matar a fome e o cansaço.
Olhei em redor e o cenário, diferente e pobre, apimentou-me o espírito, despontou em mim a sensação do novo e selvagem, cioso de ser descoberto e explorado. Como um novo desafio, observei as bancas. Vislumbrei os inúmeros lenços, decorados com moedinhas douradas: um conjunto forma um traje de dança do ventre. “Vou comprar um”, pensei. E comprei. Ao mínimo olhar preso num dos artigos de um comerciante, todo o processo natural se desencadeia: todos os esquemas valem para chamar a atenção do possível comprador.
Ao longo de 15 minutos iniciei a minha experiência na arte de regatear, conseguindo levar 4 lenços por pouco mais de 5 euros (50 libras egípcias), sendo preciso muitas doses de paciência, de aventura e um pouco de risco. Sempre sob a mira dos vendedores, fui vestida com o fato que iria comprar, sempre com o olho nas minhas malinhas, não querendo correr riscos nas terras do Nilo. O principal vendedor, sempre atento, pediu-me, após concluída a transacção, o meu relógio da Swatch que tanto gosto, de visor azul, com uma joaninha e um trevo nos ponteiros. “Regalo, Madame...”. Ri-me. A gentileza dos egípcios com as mulheres (e com as suas carteiras também) fez-me rir. Olhei para o relógio e constatei que já tinham passado dois minutos da hora prevista, já passava das 11:20.
Com a minha nova aquisição num saco de plástico preto, fino e transparente, soltei-me num passo apressado até perto da zona das charrettes, num local indefinido, amontoado de côres, de um cheiro a terra seca e quente, onde dezenas de transportes se enfileiravam, esperando que mais uma moeda vá ao seu encontro.
Resvalei, entendi que nenhuma das minhas companheiras de charrette ali estava, ficando na dúvida. O que teria acontecido? Os meus olhos alcançaram Ana e a sua bandeirinha laranja que, num momento fugaz e de tilintar de movimentos, se apressou para encontrar alguém que faltava numa charrette qualquer. “E eu Ana?”
Esperei. Duas ou três pessoas do meu grupo passavam, esperavam encontrar um rumo, uma linha que as pudesse devolver à sua bela charrette, um sinónimo de segurança e almoço garantido. Virei-me em todas as direcções, perscrutei as nuvens de pó castanha que se punham diante dos meus olhos, com o passar rasgado e sonoro de rodas gigantes, sempre num esforço inquieto de ter uma referência, fugindo de ser atropelada e invadida por vendedores infantis que, com pulseiras de escaravelhos, tentavam ganhar uma bela moeda de um euro. Mas o facto de me encontrar ali, sozinha e perdida, num pequeno mercado de rua de uma terra do Médio Egipto, fez com que sentisse algum desespero. Em breve, desdobraria todos os movimentos possíveis para me pirar dali para fora, deixando de ser perseguida por crianças, vendedores, egípcios envoltos numa cínica simpatia em troca de um euro, todos decorados nas suas exóticas e encardidas túnicas. De óculos escuros, lenço na cabeça para afastar o queimar de um abrasador sol, cedi aos apelos de um jovem egípcio, muito moreno e de fraca dentição, deixando-me guiar por ele, na possibilidade de me guiar à charrette número 223. Frenética, segui-o. Andámos uns metros por essa rua, consumida pela confusão e caos, desviando-me das gigantescas sacudidelas de charrettes, esperando alcançar uma imagem ou som familiares.
Nada disso aconteceu. Esperei pelo rapaz numa esquina, onde todas as carroças se amontoavam, mudas e tímidas, a um canto do sensasorial mundo islâmico, aguardando um sinal, uma confirmação da descoberta da minha volta para o “Beau Rivage”. “Madame, Madame, un euro!” As crianças, com os seus belos olhos, grandes e meigos, me cercavam numa dádiva de elogios e meiguice, levando-me a sentir tão próxima da sua realidade e ao mesmo tempo, tão incapaz de os ajudar. Um misto de comoção, impotência, solidão, afecto e revolta me entrou no espírito, pois a ver a amargura daquelas crianças, num riso forçado que apenas se mantia à luz de uma moeda, na sua luta pela sobrevivência, fugaz e instantânea a cada minuto, senti-me insignificante, inacessível para o que fosse, incapaz de exigir um cantinho para a minha felicidade. Que posso eu dizer ou fazer? Quem sou eu para pedir mordomias?
O rapaz surgiu. Grata, ofereci-lhe uma moeda. “Shokran, guapa.” Sorri e vi-o afastar-se, sorridente na sua miserável vivência quotidiana, abalando energicamente.
Esperei mas não muito. A ansiedade tomava conta de mim, os segundos não cessavam até observar o laranja esvoaçante de Ana, e os restantes companheiros de viagem. “Puff...aliviada.”
Esquecido o episódio, pedimos ao nosso condutor que nos tirasse uma foto, algo bastante incómodo, quando se é ingénua e ocidental, pois toda a simpatia de um egípcio tem, na maior parte dos casos, a finalidade de receber uma ou mais moedinhas (preferencialmente), em troca. Nenhuma de nós quis dar gorjeta, já nos tinham avisado que a gorjeta já tinha sido aviada, por conseguinte, o bendito senhor passou toda a viagem a zurrar, como um burro, proclamando sons parecidos com “euro” e “madame”. Sons esses que decidimos, em risada melódica e compassada, ignorar, na nossa descontracção turística, sentindo-nos protegidas e superiores, divertidas na nossa altivez indestrutível, certas de um final feliz.
Já passava do meio dia e meio. Volvemos até ao “Beau Rivage”, famintos por uma extasiática refeição, passando os soalhos dos diversos paquetes até passarmos pelos nossos quartos e a belíssima sala de refeições, onde uma meia dúzia de garçons, nos saudava, com um sorriso encantado e uma face polida. “Toda e qualquer semelhança, com a realidade egípcia, é pura e mera coincidência..”, pensei eu. Um barco de cinco estrelas, com tratamento de cinco estrelas, com empregados de cinco estrelas. Sentia-me uma princesa, literalmente, ao pé de toda aquela gente em processo de sobrevivência. Na mesa do costume, com as pessoas do costume, deleitei-me com o prazer da gula, desde a entrada até à condimentada carne, acabando na fruta e na exótica tâmara. Os empregados, nas suas brincadeiras habituais, serviam doses generosas, mesmo que já tivéssemos dito mais de três vezes “stop” ou acabado a refeição, o bom humor fazia parte do pacote que nós tínhamos negociado.
Naquela noite haveria o baile de máscaras e eu, mesmo tendo comprado um belo fato de ventre, sentia-me desconfortável e hesitante, já que a maioria da tripulação, idosa e e muito religiosa, poderia não aceitar bem essa minha ousadia e decidi que em Kom Ombo, no mercado, ensaíaria, uma vez mais, o persuadir do regatear, comprando uma bela túnica.
Meti-me na minúscula piscina, a saborear o “ir e vir” de palmeiras que, ora sumindo, davam lugar a grandes e cheias zonas desérticas com areal e montanha, ora vindo, implementavam uma sensação de fescura e vida nos nossos olhos, como nunca vivida antes. Os passageiros daquele esplêndido barco já faziam um balanço, já trocavam ideias e palpites, excitados e expectantes, envoltos numa brisa quentíssima e abafada, apreciando a beleza natural que uma viagem, de essência inatingível, lhes podia proporcionar.
Os meus olhos perdiam-se, e eu também, ao olhar tamanha infinitude e história. Um cultura perdida, uma cultura emergente. No trepidar de sons, brincadeiras, gritos, chapinhares e risos, perdi-me em cada pontinho que avançava no Nilo, com a abrasadora miragem que me era demonstrada, secando cada milésimo da fogosa aragem a minha eurubecida face, contrastando com a frescura amena do corpo, submerso naquela mini fonte de escapes.
Quase 17:00. Passou-se por felucas, humildes pescadores nos seus barcos e crianças que, nuas e atrevidas, se bamboleavam para nós, sorridentes, desaparecendo num mergulho. Casas cinzentas, desprovidas de côr, já faziam parte da paisagem permanente, na qual já se começava a avistar uma povoação, com a sua estrutra hiper aglomerada, de casas e coisas, com umas ruínas de um templo, situado junto às margens do rio.
Seco-me, visto-me e todos anseiam em continuar a bela visita pela mais enigmática das velhas civilizações, seguindo o seu grupo e a sua guia. “Famíííília”.
A pé, num compasso lento, seguimos pela rampa que nos daria acesso ao Templo de Kom Ombo, dedicado aos deuses Hórus, Deus falcão e Sobek, Deus crocodilo.
Pus creme, factor 40, e avancei frenética, habituada ao gesto automático da tirada de fotografias, de o retirar de imagens invulgares e caprichosas, onde sobreviviam vestígios coloridos dessa longínqua civilização.
O templo, greco-romano, foi dedicado a dois, grandes e antigos, deuses Egípcios e por esse motivo todo o templo é dotado de uma singular simetria, sendo o aproximar do crepúsculo uma hora favorável que nos leva a uma mais confortável posição, com uma fraca e quente brisa a soprar enquanto visitamos salas e santuários.
Não consigo deixar de reparar no fluxo de turistas por aquelas bandas e, claro, em vários portugueses que se denunciam através dos lenços, com a nossa bela bandeira, na cabeça. “Somos portugueses mas não digam nada, é segredo..Chiu..”. Eu e mais umas quantas pessoas velhotas esboçamos um sorriso tímido, sublinhando: “Não há problema, segredo guardado.” Felizmente não vi muitos gregos por ali..
Quase 18:00. Depois da visita história voltei ao mercado local e, uma vez mais, sozinha. Contudo, a atmosfera estava livre de pós e charrettes decoradas com fotos de revistas, pois o mercado situava-se num interior de um jardim, povoado de arbustos e médias árvores floridas, havendo um café ao ar livre onde uma bebida fresca caía sempre bem. Músicos animavam o fim de tarde e fumava-se “sheesha”, o cachimbo de água, generalizado em toda a comunidade masculina islâmica, em muitos cafés do Egipto.
Não parei e segui viagem. Tinha menos de meia hora para descobrir uma bela túnica para a festa, por um bom preço. Dejá-vu. Dezenas de comerciantes emergiram e lojas coloridas com roupa, e lembranças, compunham aquela comprida e estreita avenida junto ao rio. Cautelosamente, averiguei o merchadising até que um escuro e sujo comerciante, de dentição desfalcada e hálito fumarento, me fixou por estar a observar uma bonita túnica azul escura bordada. Logo veio o “ataque”. Não poupando esforços, o hábil egípcio buscou a vestimenta situada no topo da sua tenda, bem acima do nível das nossas cabeças e logo pediu 500 libras egípcias, equivalentes a mais de 50 euros. “Oh excelente. Vamos lá jogar um pouco este novo e interessante desafio.” Desta vez, foi mais difícil ganhá-lo já que tive de virar costas ao inteligente vendedor umas cinco vezes, apanhar com gafanhotos velozes, algumas agarradelas de braço, dois olhos vidrados, fixos de plena fúria e uma voz que se fazia ouvir a duzentos metros de distância. Felizmente, arrecadei a túnica composta por duas partes separadas, por menos dez vezes aquilo que o senhor me tinha proposto inicialmente.
Agradeci, com o ego triunfante. Uma mulher de preto, apenas com parte da cara visível, agachada no chão, perto de um cesto tapado, me chamava, flexionando o dedo indicador, faiscando o seu olhar de malícia. Hesitei, sentia-me compelida a destapar o cesto, arriscar, fazer o que a mulher queria mas não o fiz. A pressão das horas fez-me acelerar o passo naquela avenida junto à água, esquecer o cheiro cozinhado de suor, especiarias, tabaco e perfumarias exóticas, fez-me, porém, ficar com a dúvida do que realmente estaria no interior daquele cesto. Talvez foi melhor assim. Quase 18:30.
Tive acenos e olhares dos meus companheiros de viagem que por ali vagueavam, felizes da vida e, de certeza, mais pobres. Estava determinada a juntar-me a eles em direcção ao “Beau Rivage” mas um moço, magro e da minha altura, impediu-me, atravessando-se-me no caminho com um curioso instrumento musical. Sorri porque ele tocava, suavemente e bem, fazendo com que parasse, com que me esquecesse da pressa para me arranjar para o jantar, que me esquecesse de tudo, ouvindo paralisada um belo som, vibrante e místico. Regateei mas não muito. A pressa ressurgiu pois em breve o barco iria renascer, em vida pelo leito do rio Nilo. Levei o belo instrumento, uma “Rababa” e corri, meio perdida em direcção ao meu rumo.
Já passava das seis e meia. Tinha meia hora para tomar banho, escolher a minha fantasia para a festa árabe e arranjar-me. Mesmo assim, sem saber bem o que vestir, decidi refrescar-me na piscina, numa fim de tarde quente e viva, onde sentia que cada dia passava tão depressa como um segundo, numa escassez de temporalidade crescente e irreversível, como se cada dia fosse metade do anterior, como se o mais belo e lindo não conseguisse ser suficientemente vivido, tendo de ficar num passado que talvez não retornasse para mim. Mesmo nostáligca, senti-me feliz. As palmeiras, o deserto, o cheiro, o árabe silibado à distância pelos empregados, o sossego do coração, um pôr do sol, lento mas imponente, levavam-me a esboçar um sorriso para mim própria, como se eu fosse detentora de todos os meus sorrisos e alegrias naquele bago de felicidade temporal.
18:45. Tinha excedido o meu tempo de filosofias e resolvi explorar o meu pragmatismo aventureiro. Tinha exactamente quinze minutos para me sentir bem comigo mesma, ou seja, lavar-me, vestir-me, pintar-me, entre outras coisitas. Adoro aventuras.
Despi-me numa velocidade que não conhecia, atirando cada peça de roupa aleatoriamente pelo quarto, correndo pedaços de metros, fugazmente. Abri a torneira do duche, e esfreguei a minha densa massa capilar, cantarolando, com fúria do tempo que não parava.
Limpa e enrolada numa toalha branca, decidi experimentar os véus que produziriam um fato de dança do ventre, preto, composto de moedinhas douradas. “Bolas, telemóvel a tocar.” Err..Atendi mas tinha pouco mais de cinco minutos e, na bela decoração cénica do 211 com peças vestuárias no chão, na cama, na cómoda, na mala, um pouco por todo o lado, consegui disfarçar a transparência da minha máscara para aquela noite. Olhei-me ao espelho e maquilhei-me, utilizando o básico. Não tinha tempo e queria sair do sufoco do quarto para encontrar os meus amigos de viagem, nas suas máscaras, nas suas novas identidades, queria sair dos quinze minutos de pressão para viver duas ou três horas de descompressão total, sem inibições ou restrições. Saí do 211.
Cá fora, ouvi alguns assobios e sorri, avançando num compasso seguro e regular até à porta do bar para tirar uma fotografia. Tirei uma foto acompanhada mas o fotógrafo não desistiu e quis repetir a dose..O resultado é que não foi bom, ne c’est pas?
Cumprimentei todos que vi. Uma onda de boa disposição tinha entrado no barco. Não interessava a idade, nem donde vínhamos ou até se erámos meros desconhecidos juntos sob o mesmo tecto, mas marcantes eram os sorrisos que se contagiavam a si mesmos, os sorrisos e os olhares brilhantes que uma vez saídos, tão cedo não iriam adormecer. Ao invés, serviriam para libertar outros espíritos interiores, outras simpatias, gargalhadas e divertimentos. Era para isso que ali estávamos. Para sorrir.
Desci as escadarias para a nossa “cantina” e deparei-me com algo de novo, diferente das outras noites. Encostada à porta, vi um grupo de músicos, ao fundo da sala, a fazer soar ritmos velozes e alternados nos seus tambores, andando e formando uma roda, com roupa típica e com pequenos chapéus de algodão. Também eles sorriam e entoavam sons, cantarolavam. A iluminação da sala aumentava a unicidade daquele momento, havendo apenas uma quantidade de velas acesas, dando um aspecto sombrio, misterioso, onde pequenas sombras se formavam, os movimentos dos mascarados pareciam suaves e delicados como veludo, onde as feições dos rostos e a múltiplas roupas, feitas de lantejoulas, cores preciosas e bordados rigorosos, davam uma sensualidade lúgubre à arquitectura da sala. Mas eles pararam e eu acordei para o jantar.
Bateram-se palmas e fizeram-se muitas exclamações, à medida que se restaurava a electricidade e a magia se dissipara para dar lugar ao início de um também fabuloso banquete, vendo-se um buffet rico de travessas volumosas, pães variados, pratos que esfumando cheiros e especiarias, me fizeram abrir o apetite e aguçar a curiosidade.
Todos se dirigiam em direcção ao buffet, deixando uma vastidão de cadeiras sozinhas, onde cada um dos meus companheiros de aventura, envoltos nas suas belas máscaras, turbantes e pinturas, dialogavam e sorriam com os empregados, doseavam as suas refeições tirando de tudo um pouco, apimentando e picando os ingredientes.
Na nossa mesa, comemos, experimentamos a gastronomia egípcia: a carne com o temperado picante e aromático, o peixe com molho de tomate picante, as entradas, o pão fino e estaladiço, quente e delicioso.
A banda sonora daquela sala era constante, uma sinfonia de alegria, espírito e boa disposição, onde cada um encarnava uma personagem feita de novos sentidos. E eu e os quatro da minha mesa continuávamos, sorridentes. A fazer viver aquela festa.
Fim do jantar. É altura de avançar para o andar de cima, tendo como destino o bar. A pista de dança estava prestes a abrir, o D.J. já ensaiava o som que iria compôr aquela divertida festa árabe. Que festa está completa sem uma boa música para a malta aproveitar? Estava ansiosa para ir para a pista e dançar. Queria praticar alguns dos meus modestos conhecimentos de dança do ventre, uma arte que me entusiasmava bastante pela sua subtil beleza. Braços firmes mas ondulantes, cabeça direita, corpo energicamente lento e coordenado, rodando sobre si mesmo, tendo como guia a parte traseira do corpo num movimento fulminante e convicto. A difícil dança do ventre.
Falei com o simpático D.J. argeliano enquanto todo o grupo não se reunia e, antes que se fosse dançar na pista até gastar a sola dos sapatos, cada grupo tirou uma foto de recordação com o seu guia. Não pude deixar de sentir orgulho naquelas pessoas que faziam parte da minha vida há quarenta e oito horas e, no entanto, eram-me quase desconhecidas. Nada de relevante sabia delas, apenas conhecia a aparência.
21:30. Música. Todo o grupo se iam agrupando e, pouco a pouco, as senhoras da 3ª idade soltavam a sua irreverência sob os focos de luz, lembrando todos os “clichés” de filmes, anúncios ou imagens onde a mais inofensiva das velhinhas se revelava um animal selvagem difícil de domar, numa energia cómica e surpreendente. Dancei com os meus companheiros, fazíamos rodas, coreografias e cada um se mexia na sua forma mais particular. Todos temos uma personalidade. Todos. E uma personalidade distinta.
Acabei por sair dali passado algum tempo, apesar do barulho intenso das minhas moedinhas espalhadas pelo corpo e do encaixe numa nova personagem que morreria daí a escassas horas. Resolvemos jogar às cartas no terraço do “Beau Rivage” onde, já parado numa cidade egípcia chamada Assuão, se estava ainda quente e abafado, numa noite ideal para dormir sob o céu estrelado e magnífico do Médio Oriente. Nas nossas fantasias, jogámos, falámos e, mais tarde, deitámo-nos nas espreguiçadeiras junto à piscina, cansados do dia, cansados de nos divertirmos, querendo apenas observar o céu e ouvindo a música islâmica que vinha dali perto, de uma fantástica festa de casamento. Deitada, sentia que podia fechar os olhos e deixar-me embalar pelo calor da noite, pela frescura do ar, pela luz apagada das constelações, pelas notas árabes de uma festa que parecia distante, o suficiente para me adormecer sem incomodar nenhuma réstia dos meus sentidos. Arrastada pelos véus que me enfeitavam e pelas moedas que fugiam, reconhecida à distância pelo barulho que caracterizava o meu movimento, desloquei-me, levantei-me, perdida de sono. O cansaço vencia-me, o meu aspecto desgastado e “usado” de uma noite ímpar me levava a procurar um refúgio isolado e calmo, um berço para repôr o sono. Houve alguém que me apelidou de “Shakira” e no meu sorriso dormente, deixei-me comandar mecanicamente até à porta do 211, “jinglando” a cada passo, esquecendo quem era ou o que estava a fazer ali, regressando a uma cama que poderia até ser uma qualquer, normalíssima, igual à que tinha no meu quarto a mais de quatro mil quilómetros de distância.

março 29, 2006

"Ó tempoooo, volta para tráaasssss!"

"Um espelho que devia estar partido"
Olá amigos. Desapareci de novo, mas voltei, na tentativa de preencher um pouco dos vossos minutos com os meus segredos. Quer dizer, isto é uma treta do caraças, não vou divulgar publicamente os meus segredos, principalmente os íntimos, se bem que, diga-se de passagem, não são assim tantos quanto assim. De forma codificada, acabo por revelar aqui muita coisa..Mea culpa. Humpf.
Enquanto a merda do estágio não começa - e esta é a palavra correcta, porque já estou farta da situação - continuo a ir ao ginásio, continuo a suar que nem uma porca depois de 15 minutos no tapete, com corridas, muitas respirações bufadas e bochechas rosadas. Continuo a cantar, a preparar-me para a prova final daqui a uns meses e continuo a ler, a ter ideias, a ver filmes. Tenho saudades de ir ao cinema. Isso não tenho feito. Também tenho andado mais poupada. Sabe-se lá onde vou parar daqui a uns meses..
Acaber de ler o "Equador" e comecei já o "O Codex 632", de, um dos meus preferidos profissionais no mundo da comunicação e informação, o caríssimo José Rodrigues dos Santos. Foi como de uma tempestade tropical para o calor do deserto: é mais suportável, lê-se melhor, é mais leve. Em boa verdade, só estou na página 50 ou perto disso, mas as escritas são totalmente diferentes, apesar de ser indiscutível o elevado interesse que o "Equador" provoca. A temática é polémica e, a meu ver, muito actual. Como uma amiga me disse, "O tempo da escravatura ainda não acabou". E não acabou mesmo. Hoje as questões da pele, secalhar, já estão ultrapassadas - e digo secalhar, porque o nosso país, este Portugal pequenino, é dos países mais xenófobos, racistas e preconceituosos que já vi, algo que nunca tinha constatado com tanta evidência - e há outro tipo de estereótipos, de tipos sociais, de papeís que têm essa dignidade fascinante de substituir o preto chicoteado no óbó do Equador. A vida continuar a ser dura e longe de ser igual para toda a gente, esse lema da "igualdade de oportunidades" não é válido em lado nenhum, com muita pena minha. Nem aqui, nem na China. O marketing e a propaganda assolam o mundo, a estratégia tá em todo o lado e a ingenuidade descrita na literatura romântica francesa já não povoa o espírito de ninguém. Deixemo-nos de tretas, sim? É o que eu digo. Factor "C". Mas, mesmo assim, há que não perder esperanças. Analisar os terrenos, deduzir as hipóteses e encontrar uma via. A rápida, de preferência, com a portagem da honestidade. É pena as portagens dos dias de hoje serem tão caras. É uma tentação fazer corta-mato, não é?..Eu digo não. Ponto.
Vou voltar às minhas leituras e deambulações diárias. Deixo-vos o dia 2 da minha viagem ao país dos Faraós..Desta vez..com uma leitura mais espaçada, digamos. Cheers. L.
Dia 2 18/07/2004 Domingo

Luxor – Tebas - Karnak
Silêncio..
Trimmmmmmm..TiRiRi..TiRáRá.. O despertador toca.
“Oh bolas..Não dormi?!”
Era verdade..Tinha passado aquelas ínfimas horas a dar voltas na cama do meu 333, ouvindo os polícias na rua a falar o seu árabe, convulsivamente, perdendo por milésimas de segundos os sentidos, mas recuperando sempre, saindo do abismo do sono, perturbada pelo barulho desgastante e cíclico dos geradores, da sala ao lado.
4:45. 2:45 em Portugal. Great. Uma directa. Lentamente abri os olhos, sentindo aquele cansaço intenso nas pálpebras, um peso consternador nos glóbulos oculares, inimaginável. Levantei-me de repente, tentando despertar rapidamente.
“Lara, não podes falhar no primeiro dia.” Visto um top azul, uma saia comprida de algodão branca que, por muito que apertasse, me ia descaindo e coloco o meu lenço azul com pequenas lantejolas nos ombros. Refresco-me na casa de banho, mais desperta, sentindo aquele entusiasmo no corpo cansado da noite não dormida. Olho pela janela. “Ainda é de noite.” Pergunto-me porque nos mandaram levantar tão cedo mas, sem demoras, olho para o relógio. 5:00. Ok. Pego nas minhas duas mochilinhas, levo água, deito as sandochas do dia anterior no lixo e desloco-me até à porta do número 333, procurando a sua saída.
Caminho pelo estreito corredor, cruzando-me com algumas pessoas já conhecidas. Desço as escadas ensonada. Os “garçons” cumprimentam-me. Uns em francês, outros em inglês..O sono é bastante e o ar de zombie também, ligo o processador cerebral para mínimo e respondo sempre em português. “Bom dia.” Passando pela recepção, viro para a esquerda, desvio-me de um pilar para não esbarrar nele, desço as escadas e entro na enorme sala de refeições que me iria acompanhar na viagem.
A sala ainda estava muito vazia, poucas pessoas estavam já sentadas nas cadeiras almofadadas, comendo “les pétits croissants” e falando dos “barulhos que as impossibilitaram de ter uma noite descansada.” Pensei para mim, “Parece que não fui a única.” Deixo as minhas coisas no sofázito e busco pão, doce, manteiga..Um empregado ao pé do buffet pergunta-me “Feliz?”, pergunta à qual respondo, sem hesitar “Feliz mas com sono! Não dormi nada...” Curiosamente, quando o mocito percebe que fiquei no quarto 333 diz “Too bad..too much noise!” Finalmente, sentia que alguém me compreendia. Não é que, quando dissesse às pessoas que não tinha dormido nada, elas não compreendessem. Fora de mim afirmar tal coisa. A questão é que fazia MESMO muito barulho no meu quarto e não era “Aquele barulhinho de fundo.” No meu caso, era um barulhão incessante que, para além de ser chato por existir em alto volume, era repetitivo, sem cessar. Roinnnn..Roinnnn..Roinnn.
Decidi que ia pedir para mudar de quarto e foi, exactamente, o que fiz depois de tomar o meu pequeno almoço em tranquilidade com as três moças do Porto e um senhor que também viera sozinho.
6:00. Fui à recepção mas disseram-me que tratavam disso depois do almoço. “Ok, na boa.” Já estava a amanhecer. O céu era composto por uns tons rosas que ganhavam imponência e beleza com o decorrer dos minutos. Cá fora, fazia-se sentir um calorzinho agradável, pouco forte mas que denunciava, à partida, o calor que iria decorrer durante o dia. Lentamente, as pessoas se juntavam aos seus guias.
“Famiiliaa!”. Ana. Eu já estava no passeio, ao lado da escadaria, quando aparece a guia rechonchuda, de pele escura, cabelo preto preso e olhos delineados, procurando os seus filhinhos, com um ponteiro de professor na mão direita, estando atado ao topo deste um lenço laranja com outras formas, mal perceptíveis no meio.
Vê-me, junta-se a mim, cumprimenta-me com um sorriso que alguém denominou “semelhante ao da Fafá de Belém”. Simpática Ana.
O grande grupo vai-se aproximando e dividindo em quatro. Quatro guias, quatro camionetas, quatro grupos. Um mar de gente com bonés, óculos de sol, equipamento extraterrestre e chapéus de chuva, entravam para o seu respectivo veículo, quebrando, finalmente, a expectativa de se conhecer a antiguidade do Egipto.
E assim foi. Vislumbrei a beleza do céu rosado com o sol a nascer sobre o rio Nilo e as palmeiras ao fundo a contrastar com as montanhas áridas. Entrei na camioneta e sentei-me no fundo. A Ana falaria das nossas visitas: 1º, Colossos de Mémnon, depois, Vale dos Reis e das Rainhas, seguido do Templo de Hatshepsut e por fim, Templo de Luxor e de Karnak.
O nosso veículo arrancou. A condução meio descuidada não era muito propícia ao momento mas a beleza visível do Nilo fazia-me esquecer cada solavanco sofrido de 5 em 5 segundos. Bem, talvez não fosse tanto..mas andava por aí. O rosa estava a dar lugar ao azul, reflectindo a luz solar nas águas verdes do rio. Perto da estrada viam-se casas de muitas côres, muitas inacabadas com roupa estendida e rodeadas de terra, areia, deserto. Afinal, eram apenas as margens do Nilo que continham canais de irrigação, palmeiras e muita vegetação: a vida do Egipto. Mais de 90% das suas terras eram constituídas pelo calor do deserto, por dunas e montanhas sem fim. Mas essa era a beleza. Esse contraste fazia toda a diferença: um verde escuro e infinito, ao longo da costa, assombrada por curvas cremes, dando ao Vale do Nilo um exotismo, transportando-nos para outras eras e épocas. Ali podíamos viajar em sonhos, em pensamentos e voltar sempre felizes com o que tínhamos feito nos nossos pensamentos deambulantes. Constatei isto e percebi: ia ser a viagem da minha vida.
Colossos de Mémnon. Duas grandes estátuas perto das montanhas, onde se situa o Vale dos Reis e das Rainhas. Antigo, alto. Num mau estado de conservação mas bonito.
Vale dos Reis e das Rainhas. A antiga necrópole egípcia situada na marcante cidade de Tebas, um importante ponto na história da civilização das dinastias egípcias. A temperatura subia e a areia no ar também. Íamos em rebanho, seguindo o lenço mágico de Ana, visitanto os túmulos dos faraós e rainhas passadas. Tudo decorria na normalidade, com momentos de pausa em que a nossa bela guia dava umas explicações sobre o local. O que não foi nada, mas mesmo nada calmo, foi avistar abelhas do tamanho de grandes nozes a passar por mim. “aiiii..saiam daqui, suas macacas peludas!!”. Saquei logo o meu santo repelente e espalhei-o por tudo o que era sítio. Que alívio. Mas nunca mais pus os olhos em cima desse bendito repelente. Eu quero o meu dinheiro de volta..
História engraçada. Num dos túmulos de um príncipe, estava o seu feto com 5 meses. Pelo menos, acho que é isto. Em nenhum destes túmulos antigos era permitido tirar fotografias, como é compreensível, por uma questão de conservação das inúmeras paredes com os quadros em relevo e as suas escassas cores antigas. Ora, lá dentro o calor aumenta consideravelmente. Entrámos com cautela, pois o espaço era pequeno e estava protegido com vidro a toda à volta. Nessas paredes, observavam-se cenas em que o faraó e o seu filho, ofereciam aos deuses muitos bens. A deusa Ísis, o deus Osíris, todos eles estavam presentes nessa passagem importante: a entrada no mundo dos mortos. Todos os textos que tinham de ser lidos na cerimónia de enterro do defunto, encontravam-se esculpidos nas paredes com os milhares de símbolos hieróglíficos. Aves, ondas..Os cartuchos eram constituídos por estes símbolos, a escrita antiga dos egípcios e que continham a identidade do faraó, o intermediário entre o divino e o terreno. Mas..
Rewind. O cómico é que, quando me inclinei e aproximei para observar a múmia do príncipe, um simpático egípcio tinha uma mini ventoínha para refrescar. O que não foi nada simpático foi, logo 5 segundos depois, estender-me a mão e afirmar “1 euro”. “Ah..estes fulanos..”. Estranhei a ventoínha mas por momentos esqueci-me que, de 5 em 5 minutos, todos os egípcios nos rodeavam com um pretexto de ganhar pelo menos 1 euro. Sim, porque menos que isso não chegava para eles. Cedi, ofereci uns trocos ao senhor mas, visivelmente, não ficou lá muito contente. A frase do dia era sempre “1 euro madame.” Estamos num mundo cão, não é verdade?
Túmulos com résquias de côr, muito bafo quente e suor. Inscrições lindíssimas na parede que nos deixavam maravilhados, magnetizando os nossos olhos e os nossos sentidos. Ali sim, estava num mundo mesmo muito distante, anterior e magnífico.
Deviam ser quase umas 10 horas. Vendedores com as suas pequenas bancas, no meio do nada, com esculturas, lenços, postais, véus de dança do ventre e rolos de máquina fotográfica, rodeavam-nos, incessantemente. “La, la. Shokran”. Devem ter sido as palavras que mais proferi nesta semana. Homens com as suas vestes compridas e escuras, sinal de protecção do corpo, reduziam os preços das suas mercadorias à medida que nos afastávamos. “Not 40 euros, but 20!”. Sinceramente, não estava para aí virada, ía ter muito tempo para fazer compras. Parece que não fui a única a pensar assim. “Cabeças de Nefertiti há muitas!”, como dizia o outro. E a seguir..
Templo de Hatshepsut. A camioneta parou num ponto e a partir daí fomos de “comboiozinho à jardim zoológico” para esse antigo espaço de uma famosa rainha egípcia. Tantos turistas que passavam por ali. Nunca pensei encontrar tanta gente e logo, tão cedo. Mas eles não paravam de aparecer e estragar o fundo das fotografias. O que é que se pode dizer? Não posso vedar-me num raio de um kilómetro, pois nao? Talvez se estivesse ali o Bin Laden ao meu lado, piravam-se todos num instantinho. Havia uns quantos egípcios que se adequavam ao perfil..AhAh..que mázinha.
Mais uma vez, um simpático egípcio utilizou uma EAE. Estratégia Aproximação ao Euro. Infelizmente, não foi bem sucedido. Para além de ter oferecido os seus conhecimentos árabes para fabricar, quase instantaneamente, um turbante com o meu véu, ainda tirou uma fotografia. De novo, sofri de amnésia temporária mas quando o senhor proferiu as palavras mágicas, caí de novo na realidade. “Eles não são nada tímidos como os portugueses..”. Só me ria.
11:30. Esperámos que o resto do grupo tirasse fotografias e se juntasse para avançarmos no nosso passeio, regressando até Luxor.
O calor fazia-se sentir e o suor escorria pelas pernas, havendo sinais de alguma fadiga física. Não, isto não é para nenhum anúncio de fármacos ou medicamentos.
Apesar de algumas horas já passadas, a beleza do sítio fez-me querer continuar a procurar, a investigar, para encontrar mais raridades daquelas, algures escondidas entre uma palmeira e uma duna.
Avançámos na camioneta, de volta à nossa cidade, para observar os imponentes Templo de Luxor e de Karnak, uns quilómetros distantes um do outro. Paisagens lindas à vista de um sol forte e grande. Muitas palmeiras, centenas delas, eram avistadas da minha janela, todas juntas e unidas, decorando, sem fim, as margens ricas do rio Nilo. Canais de irrigação, faziam parte do cenário antes de atravessar a ponte. O rio Nilo. A força e vida daquela população, pobre e lutadora, que a cada dia sobrevivia com mais nada na alma do que a sua fé. Talvez não. Mas viviam como muitos não conseguiam viver. Era um povo forte e vivo. Com força de espírito.
Aliás, são ainda assim.
12:00. Templo de Luxor. Devem passar dos 40 graus. Calor. Um calor seco, suportável, mas desgastante para quem está a pé desde as 5 da manhã. Pior para quem não dormiu. Como eu. Roinnnn... Um obelisco enorme tapa a luz do sol. Tiro fotos e fotos. Maravilho-me com a perfeição das estátuas, grandes e antigas, que em tempos ostentariam uma magnitude: a imponência e poder incontestáveis do Faraó.
“ Que lindo”, pensei. Dezenas de turistas deambulavam entre as altas colunas, de belos capitéis e relevos circundantes, como se estivessem perdidas num labirinto com as suas máquinas, controladas pela beleza de um labirinto que queriam explorar e viver. Sentir. A alameda das esfinges era comprida e antecedia as duas grandes estátuas de Ramsés II na entrada. “Aa gênte sábe qui estê foi o faraóó maix mulherengue de todos us tempus. Tevi mais de 300 filios.” Sim, senhora, que contributo para a nação.
Templo de Karnak. Perto das 13:00. Fome, sede, cansaço. Vou à “cafateria”, como diz a nossa Ana, e compro duas garrafas de água. Uma delas, bebo freneticamente.
Tinha-se acabado a minha bateria da máquina fotográfica mas pedi ao senhor do norte para me tirar uma foto com a máquina dele, na Alameda dos Carneiros.
Maior do que o Templo de Luxor, em Karnak a sala das colunas possui mais de 300 daquelas. Grandes colunas que, em tempos, eram a vida do lugar, com inúmeras côres, feitas com os vários recursos que os egípcios retiravam das suas terras: folhas, lápis azuli..Quer dizer, acho eu.
Visita à sala das festas..E já alguém imagina os antigos sacerdotes a dançar à volta dessas colunas, todos de mão dada e perninha no ar, com as suas saias arrebitadas. Deve ser do calor..
Lago Sagrado de Karnak. Onde os sacerdotes se purificavam para poder realizar todos os rituais necessários. O grupo, por esta altura, está visivelmente esgotado, após tantas horas de caminhada, de pára-arranca, de exposição intensa ao sol. “Avança, Ana. Nós já percebemos.” Um templo sem fim, com um obelisco enorme junto à estátua do escaravelho que dizem dar sorte no amor, se dermos três voltas no sentido certo, ao contrário do sentido dos ponteiros do relógio. Criativos, estes egípcios. Um antigo jardim zoológico, num mau estado de conservação, aliás, num óptimo estado de degradação. As ruínas são imensas e o tal terramoto que aconteceu a 27 A.C. também não ajudou. Destruíu parte deste imenso templo e de muitas outras belas obras arquitectónicas egípcias. A natureza pode ser terrível, não é?
Mais uma história de esmola. Dentro de uma sala com colunas, neste templo, Ana falava do deus Amón-Rá e das formas que podia tomar, nomeadamente, como Amon-Min, representado com uma só perna nas paredes, tomando o símbolo da fecundidade e da fertilidade. O grupo saíu e eu fui a última a sair dessa mesma sala, ficando por momentos a olhar para as gravuras na parede, tentando imaginar como teria sido aquela imagem há milhares de anos atrás. Viro-me e caminho na direcção da saída. “Madame..”. Ok. Dou meia volta para trás e olho. Vejo um egípcio típico, de lenço na cabeça e a sua habitual roupa comprida, escura, a chamar-me. Chamava-me com um gesto, a sua mão queria-me puxar. Olhei, meio desconfiada, mas avancei, curiosa. Não fazia a mínima ideia do que ia suceder. Porque não arriscar? Era a única forma de perceber o que se passava. Mal não me ia fazer de certeza. Pelo menos, era o que o meu instinto me dizia na altura. Aproximo-me do senhor, que se encontrava junto à representação de Amon-Min. Ele pega na minha mão, toca por cima do Deus do sol e depois, repetidamente, toca na minha mão e na parede. “Ehlá, já fui abençoada por um Deus antigo.” Depois, no fim deste processo, toca-me no coração. Sorrio, acho piada. Pelos vistos, ele também achou piada ao facto de eu ter achado piada, e não demorou em estender a mãozinha para a esmolinha habitual, “1 euro”, uma grande fortuna para os egípcios. Mais uma vez, caí na esparrela..”hum, very clever..”. Sorri para ele, bem disposta e ele retribuí esse mesmo sincero sorriso.
Abalámos para o barco já passavam das 13:30 e a moleza começava a tomar conta de mim e do meu organismo. A fome já tinha vindo e ido mas trincava-se qualquer coisita.
Uma cabrazinha andava no meio das ruínas do templo e chamava por nós. Casais de mão dada, passeavam na rua. As mulheres com os seus véus, tapadas, caminhavam despercebidas. Ou não, pois esse facto, fazia com que olhássemos mais para elas. Os homens miravam, descaradamente, as outras mulheres, principalmente turistas que andavam de calções e de ombros descobertos.
As mulheres e as suas vestes. Esse factor era, deveras, interessante para a mente de uma ocidental. A mulher comum andava de véu na cabeça, vendo-se o rosto, mas em alguns casos só era possível alcançar os seus olhos. Nada mais. Seria possível para mim, em alguma situação imaginária e real, viver tapada, não podendo mostrar nem o meu ser exterior e físico, reprimida por leis religiosas e conjugais? Talvez. Neste momento, reflecti, quase como que instantaneamente sobre o assunto. A resposta é incerta.
Entrei no autocarro, no meu lugar habitual traseiro, em direcção ao “Beau Rivage.”
14:00. Almoço. O barco começa a andar e, enquanto desfrutamos do prazer da gula, olhamos pelas janelinhas no topo das duas paredes da grande sala, que ocupava grande parte daquele piso e observamos as palmeiras e as suas folhas em movimento, a caminhar, sem parar. Levanto-me, ligeiramente, para assistir com maior precisão ao espectáculo paisagístico que se apresentava diante dos meus olhos. Palmeiras de vários tamanhos..vegetação..O deserto, sempre o deserto montanhoso a proteger o vale do Nilo. O deserto. O verde. Um sem o outro não existem. Independentes, livres dessa oposição, matam toda a infalível existência de um rio, ícone de uma eterna música paisagística. O conjunto, a caixa, o aparelho, o visual: ofereciam uma beleza sem fim, uma metáfora que matava as grandes civilizações dos nossos dias.
Surpresa. As bebidas pagam-se à parte. Cada um pede o que quer e depois assina um recibo com a “encomenda” e, claro, escreve o número do quarto. Não pode haver enganos. Non, non monsieur. Hum...o quarto, é verdade. Lembrei-me que tinha de fazer uma operação antes de ir à piscina para uma banhoca.
Fim do almoço. Fomos até ao bar, claro, fomos conhecer o resto das instalações náuticas. Foi com alguma desilusão que percebi que a discoteca não passava de um círculo dentro do bar, com uma pilha de luzes psicadélicas em cima. “Oh, pode ser que com tanto espaço, consiga dançar como se fosse um pau de vassoura.“
O bar situava-se na parte superior do barquinho. O andar da recepção era constituído por dois longos e estreitos corredores alcatifados, com quartos de um lado e outro; por baixo, a salinha de refeições com uma W.C.; em frente da recepção, umas escadas que dariam a um espaço aberto com quartos de um lado, num novo corredor, a loja de roupa, “souvenirs” e ouriversaria; subindo-se umas escadas, ia-se para o quarto andar, com o bar, bastante grande à esquerda, uma nova ala de quartos; à direita passando a breve escadaria, chegava-se ao Convés Bar: o terraço do “Beau Rivage”, com uma humilde piscina de 52 metros quadrados, espreguiçadeiras para apanhar banhos de sol, uma parte coberta para tomar um cházito ou um bolinho e um chãozinho de relva artificial que escaldava cada dedinho do pé.
Fui à recepção. Encontrei Ana pelo caminho, que conhecia o meu problema do quarto e que me auxiliou. Levou-me ao quarto 211, no piso da recepção, ficando no interior do estreito corredor decorado com diversos quadros turísticos e orquestrado com uma música ambiente, árabe, mesmo ao lado daquela. O quarto parecia muito mais agradável que a minha “estreia”. Maior, com muito menos ruído, com uma casa de banho menos apertada e até, com um quadro na parede. Que bom, Ana. A tradutora de português-árabe, árabe-português deu carta verde para prepararem aquele quarto. Entretanto, dirigi-me ao meu 333 para preparar a transladação efectiva para o 211. Dito e feito.
Entrei no 333 e deparo-me com uma cena engraçada, que por acaso já tinha observado antes do almoço. Uma cobrinha feita com a capa do cobertor, da cama, por cima desta. A seu lado, um jarro branquinho com uma rosa. Artifical, claro. Se pusessem rosas verdadeiras, em todos os quartos, todos os dias, o negócio não devia render muito. Preparo a minha malinha azulinha com rodinhas e o resto. Ok, esqueci-me de duas garrafas de água no quarto, dentro do frigorífico. Mas agora é um pouco tarde para isso, não é? Não me lembrei disso e abalei, depois de me terem telefonado. “May I..?..”. “Yes, I’m ready. Thank You.” Segui o rapaz, que levava a minha bagagem, para o 211. Ali também tinham a mania de pedir gorgeta. Quer dizer, chamemos-lhe, hábito. Infelizmente, eu nunca me lembrava e a mão não ficava estendida por muito tempo. “I’m sorry.. Shokran.”
Que alívio. O sono pesava-me de uma noite barulhenta e de uma manhã muito, muito comprida. Contudo, sem hesitar, abri a malinha, procurando o meu bikini. Preparei tudo. Levei as minhas coisas “impossíveis de perder, senão estava frita”, o chapéu, os óculos, o protector solar. Deixei as coisas semi desarrumadas no quarto.
Abri a porta e tranquei-a, utilizando a chave presa a uma argola colada à chapa dourada, com o 211 inscrito. “Ai...”. Tinha alguma dificuldade em deixar aquilo mesmo fechado. Não conseguia fechar e, muitas vezes, também não conseguia abrir. Nunca percebi para que lado é que tinha de virar aquilo.
Rewind. Tinha visto os jovens com quem tinha falado no aeroporto e quando cheguei à piscina, eles já lá estavam. Travei uma rápida relação de à vontade e de sentida amizade.
O Nilo. Dentro da água morna e clorificada da piscina, observava toda a beleza única do rio. O exotismo prevalecia, o vento quente que nos rodeava. Uma feluca ou outra no rio, um transporte semelhante ao nosso, ao passar, que apitava. Senti-me tão bem que me esqueci de quem era ou de onde tinha vindo. A sintonia com aquela beleza, fez-me sorrir, fez-me descansar, repousar a alma de tudo o que tinha sido até então, de tudo o que tinha vivido ou visto. Ali, estava a viajar. A viajar pelo Nilo, um misto de sensações e sonhos. O verde, em determinadas alturas, parecia infindável, superior ao creme do deserto que mal se distinguia, nas suas formas dispersas. Mas não era assim.
Saí da piscina por instantes. Encostei-me ao corrimão do terraço. Imaginava como teria sido tudo aquilo há milhares de anos atrás. Imaginava uma população pobre, vivendo nas suas humildes casas de barro, cultivando e irrigando, protegidos com o forte calor e luz de Amón-Rá. A música egípcia. As cerimónias religiosas em templos coloridos, com tochas espalhadas. Os períodos de cheias e as secas que produziam guerras sem fim, conflitos entre as divididas regiões do Egipto. Um mundo tão longínquo, tão diferente, por certo, e tão perto de mim. Não me lembrei de nada que estivesse fora dali, que estivesse no meu antigo universo. Simplesmente, porque não tinha necessidade, não queria. A confortável sensação “lar doce lar” invadia-me a alma.
Sorri, olhando magnetizada aquela galáxia de beleza. Voltei para a piscina e diverti-me. Ri, falei, brinquei, estabeleci laços com uma data de estranhos que já pareciam ser a minha família.
18:30. Tínhamo-nos despedido de Luxor mais cedo para avançar para Esna, uma cidade complicada de atravessar, por causa das suas comportas que apenas deixavam passar um barco de cada vez. Tínhamos de chegar a Edfú no dia a seguir, para seguir a nossa interessante aventura. Avistei, ao longe, casas e prédios. Vestígios de uma pequena civilização. Mais. Muitos botes estavam ali, a aproximar-se de nós. Não percebi porquê na altura..mas não ia demorar muito tempo. As pessoas aproximavam-se do longo corrimão branco para espreitar os botes, povoados por vendedores egípcios. Botes rodeiam outros paquetes, os vendedores atiram roupa para os tripulantes. Gritam, falam numa vastidão de línguas, especialmente o espanhol. Aproximam-se de nós e esse ritual repete-se. Pequenos botes, com 2 ou 3 pessoas em cada, encostam-se ao “Beau Rivage”. Chamam por nós, gritam “Escucha!Mira!”, mostram vestes, túnicas compridas e de muitas cores. “Non te gusta? E esso?! Mira!”. Atiram roupas envoltas em sacos de plástico, freneticamente, tentam negociar aquilo que podem, numa energia espantosa. “Incrível, até comércio marítimo com tráfego intenso, existe por aqui.” Caramba, os fulanos não desistiam. Uma pessoa dizia que não..mas era a mesma coisa que abanar sim com a cabeça. Perguntavam-nos o nome, tentavam ganhar confiança, atiravam coisas para experimentar. Não consegui escapar, a este ataque tão curioso, mas não comprei nada. Se bem que ia precisar. A nossa “mãezinha” Ana já nos tinha avisado de um jantar especial, no dia a seguir, onde deveríamos estar mascarados. Não consegui esconder o meu entusiasmo. Uma festa árabe.
Depois de observar aquele cenário com interesse, retirei-me para os meus aposentos. Jantar às 20:00 e discoteca às 21:30. Ah pois. Ia-me divertir à grande e à francesa.
Hora de jantar. Faz-se ouvir um anúncio com a lista de actividades para o dia seguinte. Ida de Charrette até ao Templo de Edfú..passagem pelo mercado para compras..almoço..Ida ao Templo de Kom Ombo..Jantar e festa egípcia! “Um dia interessante”, pensei.
21:30. Procuro os meus amigos da piscina mas não os encontro. Dirijo-me para o bar com o resto da equipa. Sentamo-nos e esperamos que cheguem mais pessoas. O D.J. põe música. Pouco apelativa aos sentidos e às pernas. Mais tarde, falo um pouco com ele. Chegam mais pessoas e os meus amigos da piscina. Convenço-os a dançar. “Bora pessoal”. Um grupo de pessoas mais velhas junta-se a nós. Danço, danço e danço sem parar ao som de “Saturday Night” e outros. Durante um par de horas, esqueço-me da noite mal dormida e do sono. Sou levada pela dança de transe, que me contagia, voltando só ao quarto por volta da uma da manhã.“Great..”. Tomo um duche rápido para limpar o suor do corpo. Preparo o meu vestuário, as minhas coisas e enfio-me na cama, ciosa de algum descanso, procurando o aconchego da almofada baixa, deixando o peso, aparentemente, fino das pálpebras se sobrepôr à excitação da mente.. Roin..Roin..Zzzzzz....E assim foi.

março 19, 2006

" Laura y Javi"

"..Depende.."
Ando com umas ganas de viajar que nem vos conto nada. Antes do meu estágio, tenho de ir a algum lado, nem que seja aqui à vizinha Espanha explorar as grandes cidades - e não só -. Começo a ficar enjoada da minha rotina e já arranjei novas coisas para fazer.
Vou publicar o que escrevi sobre a minha viagem ao Egipto. Na realidade, a ideia era fazer uma espécie de relato daquela semana, uma descrição da viagem, do intimismo e de tudo o que me rodeava, com imensas sensações e descrições. Curiosamente, o Miguel Sousa Tavares teve a mesma ideia que eu e publicou o livro dele, o "Viagens", no final desse ano. Caramba, que imitador. E então, não acabei o meu projecto, só fiz metade. Mas é a metade mais dura, garanto-vos, depois com o speed todo e os dedos a funcionar, sai tudo num ápice. (E óbvio que não foi por causa do Miguelito que não fiz o resto..Olhem, faculdade..tempo..). Queria acabar esse projecto, mas receio que muitos detalhes se forem. Mas como também nunca foi suposto ser totalmente realístico..É realisticamente fictício..em pequenas descrições.
Deixo-vos a introdução e o dia 1, o dia da minha partida p lá. Duh. Óbvio, yah.
Fiquem egípciados. L.
Dia 27 de Julho de 2004, terça-feira, 11:07..Momento em que oficialmente dou início a esta descrição das minhas memórias, à descrição da viagem que mais marcou a minha vida: a ida ao Egipto. É o início de um roteiro de viagens, que não só descreve o percurso, como dá a conhecer o elo de ligação sentido com as belas terras do Nilo. Pelo menos, é essa a minha intenção. Vamos ver como sai.

Como tudo começou..
O meu fascínio pelo Egipto não é de agora, não é de jogar “Prince of Persia” ou ver “A Múmia” na televisão. Desde que me conheço, que lembro o Egipto, e toda a civilização islâmica, como sinónimo de exotismo e mistério, repleto de história e beleza cultural. As pirâmides de Gizé, consideradas como uma das sete maravilhas do mundo, sempre me aguçaram a curiosidade pela sua aparente monumentalidade e esplendor. Milhares de anos passaram e ainda surpreendem a humanidade...ou pelo menos, parte dela..
A civilização egípcia era das mais conhecidas da história humana, também a mais longínqua e o legado do rol de faraós e rainhas egípcios, era muito forte, pesado e fascinante pela monumentalidade das obras arquitectónicas e pelo misticismo que os símbolos hieróglíficos imprimiam às quentes terras antigas.Diferente da civilização em que vivia e conhecia e, após todo os incidentes terroristas e a agudização do conflito Ocidente/Oriente, a minha vontade de conhecer esse outro mundo, cresceu gradualmente. Descobri a minha paixão pela música do Médio Oriente, os sons apaixonantes, os ritmos sensuais, a beleza da dança do ventre. A imagem do pôr do sol no deserto, as felucas no rio Nilo, os camelos a caminhar, ao longe nas dunas. Tudo isto para mim, era de uma beleza sem fim.
A pouco e pouco, os meus conhecimentos sobre a religião Islâmica e a história egípcia foram aumentando. Sabia que havia uma importante deusa chamada Ísis, que os egípcios tinham uma escrita antiga, entre outras coisinhas..E sabia que segundo o Islão, o muçulmano poderia casar até com quatro mulheres. Com isto, coloquei a mim própria a questão de saber como seria tal nação que, pelo passado, deixou o património histórico e artístico que conhecemos, sendo considerada como moderna, avançada e que, pelo presente, é afectada maioritariamente pelos cinco pilares inscritos no Al-Corão, classificados por muitos de atrasados e retrógados. Eu chamo-lhes “cultura”. E não cito T. S. Eliot porque a injecção no semestre passado chegou..Mas, respeito a religião muçulmana, excepto os fundamentalismos da religião que não compreendo. Tirando isso, o Islamismo não é mais nem menos que outra qualquer religião ou modo de ser: o Catolicismo, o Protestantismo, o Ateismo, o Agnoticismo. Todas diferentes, todas iguais.
E assim, com essa curiosidade “adolescente” aguçada, o desejo tornou-se mais forte e maduro depois de ter tido aulas sobre a Arte Egípcia o semestre passado, em História da Arte.
O breve contacto com a antiga civilização egípcia, a importância do rio Nilo, fonte de fertilidade, vida mas também de morte, toda a mitologia daquele povo, suscitou-me a nostalgia de viajar pelo espaço, de viajar até ao Egipto e viver toda aquela história, aquele passado, podendo também contactar com o presente, tirar todas as dúvidas sobre os actuais dilemas da humanidade. As grandes obras de arte construídas pelos Egípcios fascinaram-me pela sua beleza e inteligência. Já imaginaram como há cerca de 4500 anos atrás, aquelas pessoas faziam as pirâmides, apenas com blocos de pedra retiradas da montanha, entre as quais, uma com quase 150 metros de altura? Impressionante. Mais do que se pode conceber ou imaginar, não é verdade?
E assim, quis partir em busca de uma viagem, que seria muito mais que isso para mim, seria uma aventura, uma experiência completamente nova, que abarcaria novas visões, novas sensações, novos contactos que me puseram com altas expectativas e sede de descoberta. Iria, enfim, saltar da sala de cinema para dentro do ecrân mágico. Entrar na tela, fazer parte das fotografias que conhecia...para mais tarde recordar.
Dia 1 17/07/2004 Sábado

Aeroporto da Portela, Lisboa


Grantur. Foi esta a operadora em quem confiei para fazer esta viagem. Talvez por o dono da agência ser amigo de um amigo do meu pai. Vale sempre um descontozito, não fica mal.
O avião partiria por volta das 14:30. Logo, abalei de casa antes do meio-dia para as formalidades. Sentia-me nervosa.. Saí do meu quarto, lentamente, lançando um último olhar longo e estranho, sabendo que quando voltasse a ali entrar, não seria mais a mesma pessoa. Senti-me transformada mesmo antes de o abandonar, quase como se, num ápice, já tivesse ido ao Egipto e voltado. E senti-me feliz, bem. Sorri, enfrentei o meu receio de embarcar nesta aventura e virei costas ao meu lar.
Chegados ao Aeroporto, notámos que havia um atraso de uma hora. 15:30. Senti um nervoso miudinho..”Já começa..começa bem!” Chegada ao Check-In (nº 26, 27 e 28), avistei um mar de gente, mais de uma centena de pessoas ali estavam nas filas, à espera para descarregar as bagagens...E, reparei, que a maioria estava na casa dos 60 anos. Nada que não previsse. Logo avistei duas presenças jovens e meti conversa, sempre é um descargo de consciência.“Ok, já conheço duas pessoas novas..ufff..”..Não que isso fizesse muita diferença, mas sempre me dava mais segurança para embarcar nesta viagem do deserto.
Fui falar com o rapaz da Grantur, o representante que lá se encontrava e perguntei a duração da viagem. Quando fiz os cálculos, percebi que iríamos chegar a Luxor – o destino – por volta das 23 horas, já que a viagem de avião duraria, aproximadamente, 5 horas. Iria haver jantar para nós no barco? A primeira confusão surgiu logo ali, sendo mais um motivo de nervosismo, conjuntamente com o atraso do voo, quando o moço respondeu que “É muito tarde para haver refeição..” Blá, blá, blá. Como se isso fosse desculpa. As refeições estavam incluídas. Da mesma forma, o jantar do 1º dia.
Ora, os meus ricos progenitores não tardaram em ter ideias preventivas para eu não passar fome, como comprar umas sandochas e umas coisitas, com um sumito a acompanhar e esconder algures nas malas. Foi o que aconteceu.
“Lara, assim não passas fome.” Esplêndido. O que seria de mim sem os meus pais? Podem cortá-lo à nascença mas o cordão umbilical nunca desaparece, qualquer que seja a idade. Nestes momentos antes da viagem, apercebi-me disso vezes sem conta. Infelizmente, durante uma semana, ele iria mesmo ser cortado. Afinal de contas, eu ia estar só a 4500 kms de distância da minha família. Não escondia um certo alívio. Ia ser um teste maravilhoso e agradável..Quer dizer, era o que eu esperava.
Almoço. Check-In feito. Comecei a confraternizar com um casal sobre a viagem. “Boa Lara..”. 14:45. Hora de embarque e de despedidas. Andei em direcção às escadas rolantes, e lá, rodei sobre mim própria, em semi cículo e acenei. Fico sempre emocionada nestas alturas, é mais forte que eu. Mesmo sendo aquele “adeus”, o início do “olá” à minha liberdade, nunca deixaria de ser um adeus.
Por fim, estava sozinha. Por meu risco e conta. “E agora?”, pensei. Agora, caminhava procurando a Sala de Embarque, passando pelos vários pontos de controlo, mostrando o passaporte e um sorriso. Ajuda sempre.
Cheguei, procurando um lugar para me sentar. Tudo cheio. Encostei-me algures, num daqueles corrimões, esperando ver aquele casal que conheci, entrar. Observava as pessoas, sentindo algum nervosismo habitual no ar. Eu própria, sozinha naquela viagem, sentia o palpitar do coração um pouco acelerado. Tudo coisas normalíssimas, não é verdade?
Tinha tudo o que precisava comigo..Quer dizer, algumas coisas estavam na minha mala de rodinhas que ia para o avião. Outras na mochila eastpak, como o protector solar, o chapéu à ceifeira, lenços de papel, óculos de sol, pensos higiénicos..É tão bom ser mulher. Na outra malinha pequenina, tinha os pertences valiosos, aqueles que se perdesse, ia ficar a beliscar-me durante várias horas. Melhor, não era eu que me beliscaria mas os meus caros progenitores, que tanto me avisaram dando o sermão da perca de objectos, dos “perdidos e achados”. Tinha que ter olhos a dobrar e atenção triplicada, para esta cabeça no ar não fazer nenhuma asneirada.
Passados 15 minutos, obeservei os meus “amigos” a chegar. Num passo alegre e apressado, como se faz no metro à hora de ponta para ir para casa, aproximei-me deles, com o visível entusiasmo estampado no rosto. Falámos brevemente de viagens, locais e até do filme dos “10 Mandamentos” que nunca vi..Pois, isto está atrasado de novo, não é verdade? Uma pessoa tem que arranjar tema de conversa, melhor, tem de conversar, para não ficar ali parado.
Finalmente, eram umas 15:40 quando a porta abriu e os passageiros começaram a dar os seus bilhetes para se dirigirem para uma nova porta de saída e descoberta: o voo 8010 da Lotus Air. Confesso que estava um pouco céptica em relação à qualidade do voo. Tinha lido na Internet umas críticas muito negativas em relação ao serviço da companhia aérea, nomeadamente, a comida. Mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, o serviço foi bastante satisfatório e os hospedeiros eram muito simpáticos. A comida? Foi das melhores refeições que comi num avião.
Rewind. Instalámo-no no avião. Eu fiquei sentada no lugar 13d, acho eu. Mesmo por cima da asa do avião, perto de uma porta de emergência central. Ao meu lado estava um casal de senhores de meia idade, muito simpáticos, com quem estabeleci logo uma relação de um grande à vontade. Engraçado, a senhora tinha o mesmo nome da minha mãe e até me ofereceu um rebuçado. Tinham vindo pela Inatel mas, pelo que eu descobri na altura, iam ficar alojados nos mesmos sítios que eu e iam fazer exactamente o mesmo circuito. Havia várias agências envolvidas como a TuriRamos e a ClubTour mas a Grantur era a operadora, funcionava para todos. O que eu ai desconhecia é que esse casal viria a fazer parte do mesmo grupo que eu, com a mesma guia.
Rewind. 16:00. O avião descolou suavemente. Cinco horas de avião que iriam custar a passar se não tivesse que fazer. Falava durante algum tempo com o casal ao meu lado e depois, levantava-me para falar com o outro casal do Porto. Aos poucos e poucos, as pessoas formavam grupinhos, metiam conversa, perguntavam nomes e falavam de viagens passadas. Ia-se formamdo alguma coesão e, o ambiente propício para o decorrer de uma viagem sem sobressaltos e tranquila, estabelecia-se. Contudo, havia sempre uma ou duas pessoas que permaneciam isoladas..Afinal, ainda nem se tinha dado o início dessa aventura..
A metade da viagem, veio a refeição. “Chicken or Beef?” pergunta a hospedeira, naquele inglês arabesco. (Os comunicados do capitão não se tinham feito perceber. Muita gente não percebia inglês, felizmente, eu conseguia perceber metade do que eles diziam, se tivesse sorte..) Satisfeita, escolho o “Beef” e, apesar de ser um rectângulo pequenito, a comida quente, da qual saía um fio de fumo visível, era saborosa. Queijinho triângular, pãozinho pequeno e redondo, uma fatia de tarte de chocolate muito rija, sal, pimenta, açúcar: compunham a travessa alimentar. Guardei alguma dessas coisas para recordação..Nunca se sabe.
A ansiedade crescia para sair daquele avião e pisar, finalmente, depois de um dia intenso, solo egípcio. Conversei com muita gente e, especialmente, com o hospedeiro que me falou da vida egípcia e do trânsito caótico nas ruas agitadas de Cairo com os seus míseros 17 milhões de habitantes. Se formos ver bem..O que é isso?
A viagem estava perto do fim e o início desta nova vida iria começar. Aterragem muito muito boa, mal se sentiu. Esperei pelo casal do Porto para sair e, mal passei pela porta do avião, senti um bafo de calor, forte. Eram 23 horas e estavam à volta de 33 graus. Quentinho, hãn? Luxor. O aeroporto era pobre em infra-estruturas, rendia-se ao simples facto de ser uma data de tendas amontoadas com alguns aparelhos tecnológicos no interior, de uma outra era, pelo menos. Meto-me na fila para sair dali para fora. O representante da Grantur divide o enorme grupo de 140 pessoas do avião, em 4 grupos, conforme as agências. “Autocarro 4”, diz o egípcio a sorrir, depois de verificar a minha documentação. Passo por outra cabine de controle onde ouço “very beautiful”. Sorrio. Chego até ao tapete, esperando ver a minha malinha das rodinhas azul que nunca mais chegava. Ei-la, por fim. Estico-me para a ir buscar mas um egípcio, nas suas vestes escuras e sujas, chega primeiro que eu, retirando-a do tapete. Ingénua, agradeço mas logo observo o estender da mão dele perante os meus olhos, pedindo esmola. Pensei “Os gajos do livro tinham razão.” Mal tinha chegado e já pedem dinheiro. Os guias da American Express são bons, nesse aspecto já estava avisada. Não sabia é que ia acontecer tão cedo.
Despeço-me do aeroporto em direcção à camioneta 4, onde conheço a minha guia, Hanan. Este é o nome verdadeiro, o seu nome egípcio. Só que para facilitar as hostilidades, disse para nos chamar Ana. Nome simpático. Gordinha, baixinha, pachorrenta, a minha guia ia acompanhar um grupo composto, sensivelmente, por 20 e poucas pessoas, nas quais estavam três raparigas do Porto, muito amigas, com quem tomei contacto imediato, mal entrei na camioneta. Lá estaria também o casal que veio ao meu lado no avião e uma série de pessoas que iria conhecer melhor, nos dias seguintes. Engraçado, a maioria das pessoas que foram nesta viagem eram mesmo do Norte. Coincidência.
Arranca o autocarro e a guia vai falando, num português muito perceptível, das nossas actividades do dia a seguir e do levantar às 5 da manhã para tomar o pequeno almoço. Isto sabendo que já ia para a meia noite. Lindo, Lara. “Família”, era assim que a Ana nos chamava. Aliás, era “Famíiliaa”. Isto porque íamos passar uma semana juntos, íamos conhecer o Egipto juntos. Olho pela janela da camioneta, tentando conhecer e assimilar o que se passava à mnha frente. Não via muito porque a iluminação também era fraca mas..Um café com homens a fumar cachimbo de água. Pessoas a verem televisão na rua. Tudo com um ar muito pobre, muito simples, muito modesto. Via-se uma palmeira ou outra de vez em quando. Durante este trajecto de 45 minutos até ao barco, a minha casa nos próximos 4 dias, senti-me bem por finalmente estar onde ansiava há anos e, especialmente, nos últimos meses. O que via naquele exacto momento era tudo o que procurava ver: um novo mundo, longe e afastado do meu, completo e incompleto, enigmático nas suas descobertas. Estava num sítio tão diferente do meu, que me sentia outra pessoa, mais feliz. É isto.
A camioneta pára. Saímos e avisto do meu lado direito, o rio Nilo. O cais está repleto de barcos e paquetes encostados, todos em filinha indiana, à costa. Vejo, de imediato, vários polícias do turismo, de farda branca com botões dourados, espingarda ao ombro e botas pretas. “Ok, polícias e segurança não falta. Hoje não morro.” Descemos umas escadarias meio íngremes e, após um incidente com uma senhora que escorregou e torceu o pé, avistámos o nosso barquinho.
“Beau Rivage”. Eu já conhecia o nome. O rapaz do aeroporto informou-nos e também já tinha visto fotos na Internet. Mas nenhuma foto substitui o prazer de se ter algo diante dos olhos. Era uma espécie de paquete. Não era grande, mas também não era pequenino. Afinal, se alojava mais de 100 pessoas teria de ter alguns quartos. Passámos para o barco, subindo uma tábua com corrimões e à entrada, os empregados, todos vestidinhos com uma farda verde com botões dourados, iam cumprimentando as pessoas. Simpáticos com o seu “Bonsoir”, iam indicando as escadas para descer ao piso inferior, para o qual também me dirigi. Mas antes disso, desfrutei do interior do barco. Já alguém dizia que fazia lembrar o Titanic e, de facto, há um toque qualquer. Será talvez pelo tecto que tinha um vitral lindíssimo com flores e muitas cores. O chão era aos quadrados e as cores dominantes da decoração eram o verde com um vermelho morto.
Parei para apreciar o luxo do barco e pensei “Uau..é aqui que vou ficar então..”. E segui os outros, para o piso de baixo, não sabendo bem o que me esperava...
“Madame,. s’il vous plâit”. Desci as escadas. A excitação do novo e fantástico estava bem presente naquele barco. Cheguei ao piso inferior e vi uma porta, uma entrada. Ao lado havia uma inscrição a dizer qualquer coisa como “Restaurant”.
Comecei a pensar que talvez o rapaz da Grantur no aeroporto não estaria lá muito bem informado, ou talvez, ou seus superiores.
Entrei e dei por mim com um espectáculo de pratos e travessas cheias de comida, uma festa para os meus olhos e para o meu estômago. Afinal sempre havia jantar. Do lado esquerdo da entrada, estava um balcão, um “buffet” com vários tipos de pratos onde podíamos tirar o que quiséssemos e a quantidade que quiséssemos. A sala era enorme e tinha inúmeras mesas. Escolhíamos a mesa e o lugar, ficando marcados para o resto dos dias. Sentei-me com as raparigas do Porto numa mesa, onde os nossos lugares eram dois grandes e confortáveis sofás verdes com outros tons. Que confortável.
Depois de comer e cumprimentar algumas pessoas, dirigi-me à recepção, de onde me levaram ao meu quarto. 333. Número giro hãn?
Subo as escadas. Sigo o empregado que leva a minha malinha mágica com rodinhas. O corredor é estreito e comprido. O meu quarto é o último de todos. As raparigas do Porto ficam ali perto de mim. Entro no quarto e respiro de alívio, se bem que acho um desperdício ter de deitar as sandochas suplentes fora.Mas melhor assim, não é? Não correu nada mal.
Olho o quarto. As duas camas de solteiro, a televisão em cima de uma cómoda, a janela, a pequenina casa de banho.Tomo um duche demorado, pois a pressão da água é muito fraca e não aquece. Ou então, fica mesmo quente. Preparo o básico para o dia a seguir e enfio-me na cama, com um sorriso no rosto e a sede de viver uma outra vida, num outro e belo lugar..
Roinnnnn..Roinnnn..Roinnnn...
Bolas! Não consigo dormir...Eram duas e tal da manhã. Ia-me levantar antes das 5. Iria dormir tendo o barulho das máquinas a chatear-me o tempo todo?..Saí do quarto e fui até ao corredor. “Ok, o barulho lá fora é o mesmo que dentro do quarto.” Fui à janela e vi um polícia sentado à beira rio, de costas para mim. Sorri e voltei para a cama. Fechei os olhos e acomodei a cabeça à almofada baixinha..hum...
Roinnnnn..Roinnnnn..Roinnnnn..
“Caraças!!!!!”

março 18, 2006

"Pienso en sus caricias, pienso en sus miradas..l'amor que antes tu me dabas.."

"Sí, tu me gustas.."
Hoje sinto-me muito Cubana.
Não paramos de recordar aquelas duas semanas passadas a 9000 kilómetros daqui, com o seu clima tropical, as toneladas de frango às refeições e as águas transparentes que teimam em perseguir a nossa imaginação, quando queremos pensar em algo para além do banal. Num dia de chuva como este, com uma aura deveras cinzenta, não consegui deixar de ir à janela e contemplar o mar, sendo visível a diferença entre este oceano e aquele que rodeava Cuba. O verde esmeralda, o azul transparente dão lugar a um cinzento agitado, num dia de Inverno que nunca parou. Ao ver a paisagem, coloco perto do Cabo Espichel dezenas de palmeiras, uma mancha verde destaca-se no fundo do rio Tejo e vejo a areia fina, os desenhos nela, a brasa do sol que estala a pele e as longas espreguiçadeiras, as anfitriãs do turista-leigo na praia. Acordo e só vejo pequenas estradas de chuva, desenhadas diante mim, na janela da minha varanda. Um nevoeiro, um borrão no céu, um mar revoltado, lembrando as imagens dos filmes noir, onde um detective surge do nada para buscar a mulher depressivo-suicida que se quer atirar da falésia - tal como a miúda que se atirou de uma, por causa do Casting dos "Morangos com Açúcar" -.
Fiz as minhas lides domésticas e antes do almoço pus música cubana a circular pela sala. E lá voltaram as imagens que insistem em povoar as minhas pupilas. Sol, calor, a humidade, a sujidade das ruas de Havana que se estrenha na nossa pele, o cheiro a sensualidade, a sexo, a vida. Lá veio a conversa de Cuba, como se não houvesse mais destinos no mundo igualmente, ou até mais, interessantes. Como se aquela terra fosse o nosso cantinho especial, a nossa casa de campo, o nosso refúgio, o local onde todos os problemas têm uma profunda alergia. É como eu costumo dizer: "Há coisas que nos marcam para sempre e nunca mudam." Cuba não muda e as pessoas que lá conheci também não. Não as esqueço. Há alguém fundamental e é dessa pessoa que me apetece falar agora..Sim, porque aqui falo de tudo o que me vem à cabeça, é verdade.
A. Era alto, tinha cerca de 1,85. Secalhar um pouco mais. Tinha sobrancelhas fortes e bem desenhadas, um nariz fino e comprido, dois olhos de um azul intenso, profundo, fortes como o fundo do mar e um sorriso aberto e descontraído, como se não houvesse amanhã. Pestanas longas, escuras, belas. O cabelo era meio ondulado e fino, bem tratado, sedoso como cabelo de mulher, sendo as suas pontas rentes ao lóbulo da orelha, com um leve degradé. Era bastante magro, de casual style, com os seus óculos de lentes castanhas à anos 80, os calções pelo joelho largos e uma sempre t-shirt onde se desenhavam as delícias da sua simplicidade. Lembro-me dele antes de o conhecer, estava no mesmo hotel que eu em Havana e reparei nele quando estava a tomar o pequeno-almoço no hotel. Reparei no cabelo e nos dedos, compridos, tal como sempre gostei de ver num homem. Mãos bonitas, com as veias finamente delineadas e de uma elegância consternadora. Quando percebi que iríamos fazer parte do mesmo grupo do circuito para o lado oriental de Cuba, pensei que poderia ser uma oportunidade para conhecer alguém. Não nos largamos a partir desse dia. Olhares, muitas conversas de "mojito", e cumplicidade trocadas.
A minha mente estava em Cuba, definitivamente, - ou então em Espanha.. - e nunca em Portugal. Não senti saudades ou uma réstia de vontade de regressar para cá, com uma ou duas excepções..compreensíveis. Com as conversas de horas em "portunhol" com o A. cada vez me distanciava mais da minha tão chamada pátria e sentia-me uma aventureira, à procura de novos conhecimentos, em terras que mal conhecia. O que nos unia era talvez isso, o empreendorismo em nos conhecer mutuamente, de viver aquela experiência que daí a uns dias tomaria o seu fim, regressando à rotina que tanto desdenhávamos. A família do A. era muito simpática, sempre sorridentes, sempre bem dispostos. Fiquei feliz quando soube que íamos ficar no mesmo hotel em Varadero. Felizmente, não fui a única a pensar assim, também ele ficou contente.
E já descansados no calor temperamental da praia - sim, porque segundo sim, segundo não, era com cada carga..-, conversámos sob o olhar da lua, junto à piscina, ou no bar, de copo à frente, falámos das nossas experiências das relações humanas, com uma confiança inabalável, de uma aparência consternadora, de anos e anos de existência. Na realidade, só nos conhecíamos há uns dias. Éramos dois românticos desconhecidos. E daí, os desconhecidos se contemplam sobre a sombra da atmosfera afrodisíaca e se aproximam, tornam-se namorados secretos, em sintonias que são só suas e só eles as conseguem sentir, naquelas águas mornas que lhes aquecia os corações e ligavam os seus olhos, através desse fio invisível, um brilhante estímulo para os seus púlpitos únicos.
Horas na piscina, um passeio de cinco minutos - devido aos mosquitos que nos queriam comer vivos -, gargalhadas e dobragens de filmes. Nunca me vou esquecer de ti. "Larita..Larita", dizia-me ele enquanto estava prestes a adormecer ao seu lado. "Te voy lebar como uma reina". Doce A. Na véspera da sua partida para Espanha, vi que realmente era um amor de verão, mas um amor de verão que ele não queria esquecer, nem apagar, porque segundo ele, dói. E dói. Muito.