fevereiro 12, 2013

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (VI)


Já era quase novembro, mas as árvores ainda tossiam com o arranhar quente que lhes vibrava na garganta. Lisboa deixava saudades, não porque estivesse longe do meu caminhar solitário, mas sim porque também ela iria mudar em breve. E, como toda a gente sabe, a mudança é sinónimo de transformação. É uma incógnita, o ser empurrado para o desconhecido sem saber se existe do outro lado alguém para nos amparar ou um colchão abandonado por  um vizinho da Colunex, desfigurado e deseintegrado da sua própria sociedade. Eu ainda não sabia se havia se tinha alguma destas opções à minha espera, mas estava à beira de uma prancha numa piscina, cuja profundidade e caráter são desconhecidas, e só faltava a ponta da coragem para saltar.

Até lá agarrava-me ao calor das ainda longas noites que insistiam em não sair. "Vais sair de casa, vais deixar os teus pais, vais fazer algo de completamente novo. Cuidado para não te arrependeres!" Sim, as altas temperaturas eram tramadas, autênticas filhas da mãe que, parasitas e indiscretas, se colavam à nossa cabeça. Tentadoras e sensuais por se contentarem com remendos de blusas velhas, mini-saias oréva e havaianas que se moldaram às curvas dos pés escuros calejados, depois de muitos dias de praia e de contacto direto com o sol. Era sinónimo de loucura, de prazer já conhecido e alcançado, de sabedoria e felicidade certa na nossa cabeça. Uma zona de conforto que me prende com algemas de chocolate, frutas exóticas e um gin tónico a destilar pela minha boca. Um êxtase de sensações enche-me a boca, coloreia a minha visão de formas psicadélicas à espera de serem agarradas, faz ondular os micro pelos escondidos nas linhas mais óbvias do meu corpo, mas estou presa. É uma luta  perdida, insuficiente. Inútil. Tal como a mudança de estação me assustava - sim, também porque não tenho paciência para camisolas e andar enchouriçada -, também a explosão na minha vida estava iminente. O que fazer? Fugir? Não. Vivê-la.

"Faíscas verdes. Sabem o que é? Vão saber, malta!". Abri os olhos e despertei para a realidade. Estavam no meio de uma sala cheia de pessoas, eram centenas que, tal como eu procuravam saber que diabo andavam aqui a fazer neste jogo chamado vida, e não se importavam de se misturar com desconhecidos durante intensas horas ao longo de um fim-de-semana prolongado, onde as trocas de cadeiras e os apontamentos eram o prato do dia. A sobremesa era a tomada de consciência, na maioria dos casos bem mais amarga do que doce. Seiscentas pessoas na sala Preto e Prata do Casino Estoril a ouvir um homem inspirador, conhecido por ser o guru do auto-conhecimento em Portugal. Sabedoria ou marketing? Honestalmente, provavelmente eram as duas, mas o que me importava era aprender mais sobre a vida, sobre o ser humano, sobre o ser com o qual tinha de viver todos os dias, desde que abria a pestana. E se o Dinis Só Nascimento podia abrir-me uma janela, eu iria querer descobrir a chave para abrir a porta.

"Está na altura de... trocarem de lugar novamente! Boraaa e nada de ficarem ao lado de alguém que conheçam, não vale!", desafiou Dinis, com a sua pêra bem desenhada e a sua voz segura, perante uma audiência manipulada. Agarrei na mala preta à tiracola, no bloco de notas, no pacote de bolachas abandonado aos pés e fugi daquela cadeira aveludada. Fugi com a preocupação de não esbarrar em qualquer-objeto-ou-ser-humano-ou-parte-de-ser-humano-além-de-prolongamentos-internos. Um lugar foi-me indicado, quer dizer, vi-o depois de um senhor de óculos e gargalhada jocosa desobstruir-me a vista. "Ena." Sentei-me e reparei na rapariga, de olhar triste, no meu lado direito. Desenhei um sorriso nos lábios e atirei-lho. Ela retribuiu, do baixo da sua cabeleira morena, com franja direita e pontas alinhadas três dedos depois da orelha. Parecia ter uma alma bonita, com a fragilidade feminina a boiar no seu rosto, mas a pele baça e amarela, tal como o fundo impercetível da sua irís fez-me perder o meu olhar. "Malta, próximo desafio. Em grupos de dois vão falar e trocar ideias. Qual foram os momentos altos deste ano? E os baixos? E quem é que mais amam e mais detestam? Porquê? Reflitam, escrevam primeiro para vocês e depois mostrem. Partilhem!" A "Beatriz Costa" do século XXI olhou para mim. "Como te chamas?", perguntei. "Ana Carolina", respondeu. "Olá, eu sou a Raquel. Vamos a isto?" Confessar os podres da minha vida a uma desconhecida podia não parecer fácil, mas o problema era admiti-los a mim própria. E andava agrilhoada há muito tempo, há demasiado tempo. Fui escrevendo, linha a linha, tópico por tópico, incrédula com a quantidade de coisas que teria de admitir. Senti uma pontinha de embaraço a crescer-me como uma onda, que de inofensiva e quebrada pela prancha deficiente de qualquer puto de três anos passou para uma potencial ameaça McNamariana. Pi, pi... pi, pi.. Uma mensagem. Interrompi a dura escrita e li a mensagem de um número que, de repente, não fazia ideia a quem pertencia. "Como está o carro? Já anda? É melhor não sair de casa quando estiver arranjado". Não escondi a surpresa. Era o M.


junho 15, 2012

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (V)

Tic tac. Tic tac. Nada mais era permitido ecoar, entre aquelas quatro paredes, para além da minha voz e do bater dos ponteiros do meu relógio de pulso, tao audível que fazia tremelicar qualquer formiga esfomeada, por cima de uma migalha de comida, de arte ou de algo mais, fosse lá o que fosse, algures perdido no tempo, jazido no soalho.

Diante de mim, com o cabelo grisalho vistoso, ainda que desalinhado, o M. escrevinhava, num esforço inesgotável, para acabar finalmente com a parte morosa da burocracia, deixando escapar um ar macambúzio e gelado, os olhos fixos no papel - que, em boa verdade, nada era senão mais um elemento ocioso, através do qual se protegia - e o lábio inferior virado do avesso mas severo, como uma criança amuada à espera do doce que não chega. O nariz, ligeiramente abatatado, não era excessivo na proporção da face, ao invés, transportava uma certa jovialidade cómica que transmitia um fervor para os dedos, ansiosos e irrequietos para lá chegar e brincar com o órgão do olfato. Porém, o que me despertou, naquele momento, foram as mãos. Dedos grossos, calejados e fortes. Dedos de quem trabalha, de quem pensa, de quem resiste. Dedos que transportam força, ainda que camuflada por tanta doçura. Pensei na bela doçura que aquelas mãos poderiam dar e o calor que poderiam fazer sentir. Todos podem sentir o que quiserem dentro de si, mas poucos podem expressar e concretizar essas emoções, carregadas pelos mistérios do cérebro. Aquelas mãos destilavam amor, carinho, força e integridade por cada ruela daqueles poros velhos. Não eram bonitas, não eram suaves, mas carregavam a natureza da vida.

Enquanto o destino me prendia àquela cadeira, desenhada com veios de uma densa antiguidade, perscrutei ainda mais aquela expressão solitária enrijecida pelas linhas do rosto, traçadas pelas partidas que surgiram desde o seu nascimento. Definidas pela reviravolta da ampulheta do tempo que, implacável no compasso do seu andar, com o derradeiro escape de cada grão de areia, não consegue provocar indiferença por onde toca. Acontece, mas não pára. Perdoa-se, mas não se esquece. Esquece-se o passado, mas influencia-se o futuro. Ou, se trocarmos as voltas às lógica do otimismo irracional, colocando o realismo na linha da frente, o tempo cria cicatrizes na nossa alma, irreversíveis, mas cujas feridas lambemos como cachorros indefesos, como se fosse a suprema cura para alcançar a vitória frente ao próximo male. Só que o próximo male tem por hábito ser maior e atingir no mesmo sítio da massacrada ferida.

Ring ring. Despertei da minha investigação com um toque constipado de um telefone bege, outrora escondido por livros, capas rijas e cinzas de tabaco, que transformavam a mesa num objeto de decoração de um café noturno. "Está? Sim, não há problema... Sim, claro." O que antes parecia ser um silêncio ensurdecedor, transformou-se praticamente num recital de poesia, com a voz forte, rouca e densa do M. a preencher as lacunas da sala, com uma dança de sorrisos com os olhos. Timidamente, comecei a rasgar o meu sorriso, não por causa da conversa - irrelevante e banalíssima -, mas pela impaciência infantil com que M. estava a lidar com o assunto. "Obrigada", atirou com firmeza, devolvendo o auscultador do telefone ao descanso, com aquela firmeza que, tantos dias depois, viria a ansiar reencontrar. "Está tudo bem?", experimentei. "Sim. Bem, sabe como é... confusões." Num discurso inflamado, contra as injustiças da sociedade, M. deu vida a mais um cigarro, mais um ponto alaranjado iluminou aquela sala com tanta escuridão, enchendo o metro e meio que nos distava com fumo que se amontoava e apalpava, tais eram as chupadelas que dali retirava. Se aquela voz enchia a sala, uma personalidade carismática e determinada começou a chegar aos meus olhos. Ainda que, até então, fosse parco em palavras, a extroversão, rara e quase considerada pela sociedade inadequada para um homem com mais de 40 anos, começou a ressurgir. E lançado o mote, não resisti. "Fuma aqui dentro porquê?! Sabe que não se pode fumar em locais fechados... e está aqui um pivete...". Manteve a postura séria, sem desarmar a expressão e frio replicou: "No meu gabinete mando eu. O gabinete é meu, trabalho aqui, portanto eu faço o que quiser, inclusive fumar." Não respondi, nem ousei. Lancei apenas um sorriso, e com sucesso, não tivesse o M. feito um convite com os seus olhos redondos e grandes, que lançaram faíscas de dor, durante aquele quarto-de-hora passado.

Ouviam-se, por certo, a largos metros de distância os nossos passos, dada a pouca afluência de alunos por aqueles corredores amarelados, com pinturas, mini-esculturas e peças de olaria a colorir a neutralidade das paredes. Como uma discípula, seguia a figura do M., que se tinha oferecido para me mostrar os recantos mais interessantes da universidade. Afinal, eu era uma entusiasta de história, de arqueologia e de arte. E nem a situação constrangedora em que nos cruzámos, graças aos misteriosos desígnios da vida, ditaram a expulsão da minha figura daquela sala de fumo, nem o fechar a sete chaves do capítulo do choque frontal na A5. Um choque de titãs. De duas almas fortes, mas com o coração em sobressalto. "Agora vou-lhe mostrar a minha sala favorita", advertiu, deixando o sorriso amarelado, desenhado com o toque persistente da nicotina, aparecer à luz do dia. Assenti e passei por uma porta, descendo meia-dúzia de escadas de pedra, com uma imagem esplendorosa a apoderar-se do meu raio de visão. "Uau", deixei escapar, com a ingenuidade de uma criança, espantada pela conjução de cores, odores e misturas históricas que se ergueram naquele instante. Dos passagens estreitas, inertes como a estrutura de um hospital, rebuscadas com pedaços de arte, saltei para uma fonte de inspiração, onde qualquer sonhador, artista e filósofo adoraria passar horas, numa comovida sensação de fazer amor com o universo, com o mais belo que há. Um estímulo sexual aos sentidos. Naturalmente, não fui exceção.

À nossa volta repousavam estantes, dezenas, centenas talvez, que cercavam toda a sala, quadrada, como muralhas de uma cidade medieval. Centenas de documentos, livros, portfolios e fotos, numa junção proveniente de uma dose elevada de loucura e também de coragem, davam o cunho histórico de uma biblioteca secular. No centro estavam uns estiradores, em forma de U, com cadeiras, que reforçavam os contornos acolhedores da sala de aula. Pincéis adornavam as mesas de trabalho e resquícios de tinta, bem como o seu cheiro, marinavam entre as paredes, gastas e escuras, fundindo-se com o bolorento odor do estuque. Pelo ar caminhava ainda o aroma a papel velho, a pensamentos queimados, uns quantos que terão ocorrido, em comunhão, numa salutar conversa entre alunos e professor, sobre princípios cujos fins ainda não estavam traçados. O que me fez recordar, num ápice, os tempos em que desejava pensar, porém com forçada atenção, naquelas mesas viradas para um crucifixo, em cima do quadro. A diferença é que, então, tudo parecia automatizado, à semelhança da minha vontade de estar naquelas aulas. Ali, tudo é natural, espontâneo, desejado e vivido até à máxima glória. Não precisei muito, apenas escassos segundos, para ter a certeza: o M. era um excelente professor e, principalmente, um excelente formador. O carisma, o sarcástico sentido de humor e aquele amor, camuflado por uma aparente frieza, mas real insegurança, eram os ingredientes perfeitos. Senti uma pontinha de inveja daqueles alunos. Será que ainda me podia permitir viajar, como uma jovem de 20 anos, trancada para sempre naquele éden intelectual, sem receber contas, despesas e responsabilidades estúpidas de um adulto típico, ou seja, sempre aborrecido de si próprio?

"Este lugar é excecional...". Aqueles olhos firmes voltaram a focar-se em mim, mas com alguma admiração, em vez de uma incontrolável raiva pelas decisões que o fado lhe trouxera como oferenda."É, não é?". Sorri, rendida. Caminhei, abraçada à humidade claustrofóbica da sala, apreciando cada segundo de cores, pinceladas, peças arqueológicas que o M. me mostrava e que tanto calor no coração me despertavam. Entre as explicações sucintas daquele homem - que as Estradas de Portugal tão amavelmente me haviam apresentado - e a catarse que os elementos causavam no meu corpo, vislumbrei umas estreitas escadas de madeira no lado esquerdo, quando estávamos virados para a porta, junto ao canto. Havia uma passagem para um segundo nível. Acima das prateleiras que me beijaram os olhos, quando ali surgi, estavam mais uns quantas, à primeira vista, abandonadas. "Que teto alto", julguei. Ao meu lado, M. sacava mais um cigarro, perante o meu olhar de espanto, antes que se transformasse numa reprovação silenciosa. Pouco tempo demorou, na realidade, tal como a minha permanência na sala mágica.

"Tenho de ir", atirei, triste. "Está a ficar tarde e estão à minha espera. Mas gostei muito desta visita... e desta sala." O M. sorriu, com o seu ar altivo, erguendo com orgulho um cigarro que me entontecia. "Quando quiser, pode aparecer", despachou, num discurso rápido, como se o medo pudesse impedi-lo de pronunciar aquelas palavras. "Obrigada, sim. Gostava muito de assistir a uma aula." Despedi-me do inebriante festival de elementos, virei costas e caminhei até à saída. Mas, naquele momento, não estava somente a virar costas a um edifício, mas a uma pessoa. Era uma despedida que, estranhamente, não queria celebrar. Deveria e poderia. Era o fim de um ciclo, o arrumar, em definitivo, a novela do meu carro, machucado, à hora de ponta, na pontinha de Lisboa. Não era isso, porém, que sentia. Era o fim do contacto com um homem diferente de todos os anteriores e que, talvez por isso, me tinha injetado no coração uma esperançosa luz. Confusa, nos labirínticos corredores, nunca deixava murchar um sorriso jovial. A cabeça não parava, como uma escada rolante em modo turbo, mas o esgar dos lábios, em forma de coração, não se apagava.

Calor. Luz em modo ecológico. Ressurge Lisboa, na sua beleza histórica, perante os meus olhos, com um elétrico amarelo a trilhar uma perpendicular vizinha. O inevitável adeus a espalhar charme. Seria a derradeira despedida? M. furtou mais um cigarro de um "não sei quê" bolso dos jeans azuis cansados. De pé, aspirava aquele prego do caixão e uma proeminente barriga despontou sob a luz da cidade. Agradeci, com um nervoso miudinho a trepar pelo estômago até se instalar, confortavelmente, na garganta. "Até um dia destes". Ele, escondido pela trepidação do fumo, tinha adquirido a proteção perfeita para se esconder da rutura. De fisionomia séria, esboçou uma despedida com os beiços, num gesto de aparente indiferença, como se nada fosse, como se o cigarro fosse a sua única amiga e amante, a sua única companheira, por lhe ser eternamente leal, mais do que fiel. Olhei. Lancei mais pensamentos através da mente do que com a fala, por uns breves segundos, até o alarme do "já chega" tocar e alcançar-se a fronteira do impoliticamente correto e bizarro. Sorri e virei costas, deslizando e empurrando o cortinado dos meus cabelos escuros compridos, por aquela rua, agora parecendo-me ainda mais preta do que tudo o que carregava, dentro de mim, até lá chegar. E assim, desliguei, esqueci, apaguei. Desemboquei noutra esquina, composta por uum arco-iris fabricado de uma feira popular, para me distrair dos momentos do tão fresco passado. Não por temer nada do que aconteceu, mas pelo temor do tudo que nunca poderia vir a acontecer.

junho 11, 2012

Colisão Frontal, Eucaliptos e a dor da independência (IV)

Era um velho dia de setembro, mas um calor estonteante bafejava-me o rosto sem mostrar quaisquer sinais de misericórdia. E mesmo que o choque, das recentes horas, insistisse em martelar-me na memória, à semelhança do embate do meu pára-choques a uma Suzuki preta, empoeirada pelo sabor a eucalipto do crepúsculo, um campo de borboletas decidiu rebentar dentro de mim e o meu corpo quase levitava, embora a lei da gravidade conseguisse provar, como sempre, o oposto.

Afinal não tinha arrumado o incidente de viação numa gaveta, com direito a tranca, cofre e urna dourada. Não. Dias depois, o M. ligou-me e informou-me: "a declaração amigável tem um erro nos dados." Enfim o reencontro. Por último, o contacto fora daquele cubículo chamado "sala de acidente na A5". É a mesma coisa que uma sala de espera de um dentista ou de um ginecologista, na qual o constrangimento natural supera a natureza da alma mais genuína. A música mastigada por dois acordes manhosos, revistas (re)mexidas com cantos polvilhados de cuspo e impressões digitais com odor a ranço ou os sofás que sobraram da última edição do Stock Market. Tudo isto em conjunto com a hipótese da televisão com 20 anos estar sintonizada nos programas da Júlia Pinheiro ou da Fátima Lopes desenvolvem as condições - necessárias, logo, perfeitas - para que os presentes se atiram para o fenómeno da "não comunicação" de cabeça, soprados pela autoridade sublime de um deus chamado padrão cultural social. Caso contrário, serão punidos. Um sorriso ou um gesto dessincronizado do todo o poderoso, invisível mas presente naquela esmagadora sala, pode dar azo a um olhar ou sussurro, assombrosamente, esmagadores.

Assombrada continuava eu pela beleza de Lisboa. Estava a passos largos da universidade onde o M. lecionava e, portanto, a uns minutos de conhecer mais sobre a personalidade daquele homem ou de contactar com o habitat de um verdadeiro animal da estrada. O sol ainda raiava bem alto e com um brilho nos olhos, talvez devido ao grito de revolta dos meus 28 anos, que me deram a provar o acanhado sabor a independência, avancei com o cortinado preto formado pelas linhas paralelas e simétricas do meu cabelo, acarinhado pela suave brisa. A cor da pele, a roçar o guloso caramelo, fazia-me confundir com uma turista ou uma trauseunte oriunda de terras latinas, mas o ar ansioso e as passadas firmes deitavam por terra a hipótese de ser uma mera diletante estrangeira, apaixonada pelos mistérios de Lisboa. Cheguei. Respirei fundo, coloquei a mão no interior da mala branca à tiracolo da Gola e confirmei que tinha tudo: carteira, telemóvel, chaves, estupefacientes... ups. Bem, tinha umas gomas no fundo do saco. Dei um passo em direção ao topo do degrau da porta de entrada e pousei a sola da sandália à moda dos gladiadores, castanha, com tiras e fivelas, em solo firme. "Sabe-me dizer onde é o gabinete do Professor M.?" Um porteiro negro, de óculos estranhos e postura hirta, olhava-me como se fosse um E.T. Deu-me as indicações e bati à porta, sentindo os efeitos do calor, passados despercebidos pelas calças de ganga, com gotas de suor a escorrer pelas articulações das pernas "Entre." Obedeci prontamente.

Um aroma, enjoativo e intenso, a tabaco inundou-me os orifícios nasais, de imediato, à medida que observava o caos espalhado naquela sala, como se um furacão tivesse pernoitado por lá, antes de atacar uma povoação inocente das caraíbas. Dezenas de livros espalhados, por aqui e ali, quase como se fossem frutos apodrecidos, esquecidos após a colheita. Um piano vertical, velho e murcho, estava encostado à parede direita, como se de um abat-jour dos chineses se tratasse, sem direito ao simples auto-respeito, tapado pelas camadas de pó e o peso do tempo, que quanto mais depressa flui na linha cronológica, mais cicatrizes, dor e mágoa impreme às coisas. E aquela sala estava carregada de perdição, de tristeza e desilusão que atiraram a mais bela das artes à superfície interna daquele buraco, para a transformarem em panquecas, sensaboronas e insípidas. E com um perfume de tabaco. Vislumbrei o M., curvado sobre a secretária, proporcionalmente baralhada a tudo o resto, e cumprimentei-o. "Olá." Ele levantou ligeiramente a cabeça, depois ergueu-se e apertou-me a mão, sem me fitar nos olhos. Delicadamente, ofereceu-me uma das duas cadeiras à sua frente, mas sem perder tempo. Mais uma vez, executei tudo como mandam as regras. Mas o ambiente, tão cáotico quanto genial, despertou-me a curiosidade. "Toca piano?" Um inesperado olhar assustado, tão forte e tão curto, foi atirado na minha direção. "Sim, em tempos. Noutros tempos, toquei. Quando me dava prazer, quando podia e era feliz." Uma flecha atingiu-me. Não esperava, de todo, aquela resposta e a minha tendência para querer decifrar aquele mistério aumentou exponencialmente."Que giro. E porque parou? Adoro música, é uma das minhas paixões. E também tive aulas de piano há uns anos." Alternando entre a reta final do preenchimento da maldita declaração amigável e um olhar de súplica por paz, a nossa interação tornou-se um crescendo de uma sonata, oportunamente, de piano. Começou inaudível, mas o compasso final rebentou com êxtase.

junho 09, 2012

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (III)

Saltos altos, leggings e um estilo pin up demasiado quente para a noite ventosa que se estendeu sobre a bomba de gasolina da estação de serviço.

O negrume já havia ultrapassado o meu estado de espírito. Cobria, num rompante guloso, todo o alcatrão e todos os vestígios de movimento em redor, exceção feita para as minúsculas luzes aceleradas que, paralelamente, serviam de fogo-de-artifício às nossas expressões graves. Dezenas, centenas, milhares talvez, de carros assinalavam um desfile de tubos de escape e pára-choques urbanos, rápidos como foguetes, cujo destino parecia até ser incerto para os condutores dos mesmos. Um espetáculo de luzes que se cruzavam e entrelaçavam, como se a luz pudesse ser uma opção naquela altura, em que o frio, mais do que o medo, provocava um tilintar nos pés irrequietos, a pele de galinha e uma estranha sensação de vazio. Seria o meu carro tão vital quanto um amigo, um familiar ou simplesmente uma pessoa que me faça crescer num gesto escondido pos verborreias mentais?

"Bem, está tudo tratado, mas não a deixo sozinha. O melhor mesmo é chamar um reboque...", atirava seco M. "Persistente o sacana", contei a mim própria. "Hum.... não, deixe estar, já estou perto de casa. Vou tentar ir até lá", respondi-lhe. De cigarro no canto da boca - mais um maravilhoso exclusivo num anoitecer pré-outonal -, arregalou os olhos, retirou o cigarro com o polegar e indicador destros e fez-se entender perfeitamente, ainda antes de silabar seja o que for. "É melhor chamar um reboque... o motor pode gripar e depois é bem pior, o radiador está só a deitar água. Tem a certeza que não quer um reboque?!" Nem disse muito mais. "Não." Matou o cigarro com uma só pisadela impiedosa da sua bota escura de chumbo. E atirou um "Vamos lá."

Quinze minutos depois. O pior havia acontecido e eu, no meu desespero disfarçado pela altivez feminina da minha indumentária sexy, não queria baixar a guarda. Mas o M. tinha sido O profeta. Uma espécie de adivinho das duas rodas, com a sua roupa de um preto uniforme, indiferente e desligada das modas que faziam o mundo - e o dinheiro - girar, eternamente, como dados a rebolar para a fatalidade de uma roleta num casino. "A temperatura aumentou e temos de esperar... Mas agora parece que está mesmo difícil", afirmei, com os lábios paralisados. Os olhos, redondos e castanhos, fixavam-me sem dó. "Eu bem te disse", falaram. "Pois, ok. A carteira é surda...", respondi com um risinho seco. Estava só, apenas com o meu orgulho frio e desapaixonado, numa berma de estrada. Optei por recorrer a um amiga, aquela que me ajudou a libertar-me, nos meus 28 anos.

Sim, tinha 28 anos quando a minha vida mudou. Mas ninguém disse que foi fácil, pois não? Crescer dói que se farta. "M.J.? Desculpa... Tive um acidente na A5 depois de termos estado juntas... Vens para cá? Obrigada, querida. Até já." Baixa, de pele clara, rosto arredondado e uma voz pueril, não tardeu em aparecer. Instante em que o meu Twingo parecia andar. E, subitamente, não havia motivos para ele, o meu protetor, poder ficar. Estarava tudo resolvido, bastava o seguro entrar em ação e pagar os danos materiais. Da minha parte ainda teria esse problema para resolver. Era altura de enfrentar as feras e seguir em frente, como sempre se fez e sempre se fará. Despedi-me da voz arranhada e da aventura personificada num arqueólogo, com rasgadas linhas de sarcasmo que o tornavam tão charmoso aos meus olhos de menina-mulher. Ainda não o sabia, mas o reencontro já havia sido traçado.

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (II)

Já era noite cerrada. Ainda sentia aquele arrepio que o meu sistema nervoso me tinha enviado. Devia ser uma espécie de presente de aniversário atrasado ou - visto que a bondade abunda por estas alturas - algo que fosse similar a uma oferta natalícia adiantada. Porque não, né? O M. por ali estava a acabar de preencher a declaração que eu, atabalhoadamente, não conseguira. Foi, por esses segundos arrastados, que comecei a analisar, discretamente, aquela figura, utilizando a minha timidez pueril como disfarce. Quase parecia uma criança perdida aos olhos de um mero mortal. Mas não passava de uma rapariga assustada protegida por uma vergonha cozinhada com stress, agressão e um cheiro a eucalipto que me dava comichão. Estava todo vestido de preto, como se fosse um adepto ferrenho de motas. Na realidade era um fã de motas, mas não fazia parte daquele gangue com longas barbas grisalhas, lenço na cabeça e brinco na orelha, a ganhar ferrugem há quilhénios. "Vocês que andam em carros, parecem sardinhas enlatadas", gozou, com os olhos semi-cerrados, gozando da confusão alheia. Era de outra estirpe o M. Mais baixo do que eu, com um farfalhudo cabelo grisalho com ligeiras reviravoltas nas pontas, revelava ser um autêntico pirata do tabaco, com o constante buscar de um cigarro para confortar a alma. Uma espécie de compra por impulso, com os danos colaterais de se ter uns pulmões mais negros que o pior dos mercados. Sempre com um cigarro ao canto da boca, a sua voz era forte, com um timbre de roquidão sensual. "É o que dá fumar tantos cigarros", pensei. Sem dúvida era o tom com que se dirigia e comunicava que fazia toda a diferença. Tudo o que dizia transformava-se numa interrogação, cuja resposta seria uma incógnita. Mesmo que a dêssemos, ele replicava com uma pergunta e a nossa mente, intuitivamente, respondia: "este homem é um ponto de interrogação". Nesse dia não percecionei com a devida profundidade tal caráter enigmático, mas percebi, a posteriori, que aquele senhor superava os limites da generosidade, na era esmagadora do egoísmo. Afinal protegeu-me, com notável desapego, mesmo depois de ter sido vítima de um acidente de viação. Protegeu-me. Protegeu naquela sua concha, uma armadura de aço, a agressora da sua integridade física. Como se lhe pertencesse, como se fosse um prolongamento de si mesmo.

maio 20, 2012

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência

Tinha 28 anos quando a minha vida mudou. Quando finalmente mudou. E num desses dias, descarreguei finalmente o peso - aquele que havia carregado, interminavelmente, como se fizesse parte do meu corpo desde sempre e do qual me sabia livrar. Sacudia, agitava, abanava, mas mesmo que, por segundos, ele voasse para outra dimensão, não tardava em regressar a cada átomo meu, como se fosse um amante-cola, sedento de toque e de chuvinha de amor.

Não chovia naquele dia, não. Mas uma tempestade obscura reinava dentro de mim, como se tudo perto de mim colapsasse e ruísse, sem piedade. Nada parecia fluir bem, fosse onde fosse e as tensões constantes em casa faziam com que tivesse o condão de irradiar energia negativa para qualquer objeto que estivesse na minha direção. Foi o que aconteceu naquele dia. Desabafei. E conheci o M.

Os eucaliptos rodeavam o caminho da auto-estrada em direção ao mar. A minha cabeça não paráva, corroía-se de pensamentos que, à força, eu temtava organizar. Tudo isto enquanto me mantinha focada no longa reta de alcatrão diante de mim. Pára, arranca, pára, arranca. Olhar para a esquerda durante meio segundo, voltar em diante...uma mota em cima do meu capot. AI! Trava! PUM!

Um solavanco percorreu todo o meu corpo que, sacudido, num ápice, assemelhou-se a um boneco, inanimado e ausente daquela realidade onde prosperavam carros e sinais de fumo. Sinais de vida, portanto. Vi que a mota parecia estar inteira. O mesmo não se podia dizer de mim, que rebentei no instante em que percebi que os danos poderiam ser irreversíveis. E foi aí que o inesperado aconteceu.

"Está bem? Sente-se bem?". Eu não respondia, escondida pela minha vergonha e pelo meu embaraço que me engoliram a língua. Esperava agressividade, cobrança, revolta, mas em vez disso recebi generosidade, compaixão e preocupação. As lágrimas apoderaram-se de mim, mas eu vi-o. Vi um enorme coração refletido nos olhos castanhos, grandes e redondos, que irradiavam força e personalidade. "Não, não estou bem...". "Mantenha-se calma, por favor. Onde tem o seu triângulo? Acalme-se, eu trato de tudo". Disse-lhe onde, mas quis ajudar, ainda que estivesse parada no meio da A5, na faixa do meio, com carros a passar por tudo o que era sítio. Sem pensar, abri a porta e fui ter com a "vítima". Ainda que por pouco tempo, é certo. "Sem colete aqui fora?! Já para dentro." Estava a ser protegida por quem tinha levado uma valente cacetada. Bem, até faz sentido. Não fosse eu, naquele momento, magoar-me.

Uma hora depois.

O radiador estava morto. O carro andava em modo de tartaruga. Eu já não tinha as cataratas do Niagara a brotar-me dos olhos, ainda que soubesse que tinha pedido aquela situação. Estava mais calma, mas, o mais estranho era que era o outro lado que permanecia calmo. E chegados à bomba de gasolina para tratar das burocracias legais da coisa, finalmente consegui ter outra perspetiva do M. "Olha, estou atrasado, uma colega tua hoje quis conhecer-me, o que se fazer?". Sorri, finalmente. 

setembro 14, 2009

Cruzamentos com múltiplas bifurcações

Verão. Alentejo. Brisa fresca.

A conversa ia quente, em cima de um banco de pedra. A contrastar com o gelo que sentia na ponta dos dedos dos pés, falávamos vivamente sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares. Sobre a inspiração de um homem que amou alguém na aridez do deserto, de certo modo semelhante à essência daquela relaçao. Ilusória, passageira e inerte.
"Posso?". Algo dera um ponto final às filosofias sobre a obra do escritor. Pelo menos, umas reticências, cuja continuação era indefinida e estava posta em causa. Era uma rapariga loura, de cabelos encaracolados, de figura esguia e bronzeado cor de caramelo. Segurava uma garrafa de vinho tinto, numa mão, e vários copos de plásticos, na outra. Os tiques demonstravam bem o efeito que a pinga estava a ter: um pestanejar constante e veloz, movimentos hiperbólicos e uma finura ténue de desiquilíbrio. Mas, no fundinho, a rapariga, de olhos verdes, parecia só querer um pequeno espaço do nosso banco. Olhei para a "Lúcia" perplexa, mas não havia sinais de qualquer reprovação.
"Sim, claro, sente-se", assenti. "Olhem, querem um pouco?". Silêncio estranho e constrangedor. "Vá lá! Está bom!". Não que tivesse o hábito de aceitar bebidas de desconhecidos, em noites de Verão, nas quais o nosso lado mais selvagem predomina. Mas aceitei. "Vá lá, enquanto o Bruno não chega". Olhámos para a rapariga com ar interrogativo. "Namorado?". Ela abanou a cabeça, num sinal bem explícito de negação. "Qual quê! É alguém..olha, conhecemo-nos agora". Mal percebia o que se passava ali, nem entendia que estava eu a fazer, ao cheirar o aroma de um vinho tinto vindo de uma desconhecida. Mas a despreconceituosa interacção agradou-me e, por isso, fomos mais longe. Percorridos quilómetros de conversa e blá blá blá sobre as nossas confissões - porque no fundo não passávamos de três mulheres desconhecidas, contudo com idades semelhantes e, por conseguinte, com preocupações idênticas -, ele aparece.
A "Sónia" e o "Bruno" eram um daqueles casais relâmpago. cuja duração média de vida são dias ou, na melhor das hipóteses, escassas semanas. O protótipo de relação mais comum, quando já toda a gente já bateu com a cabeça nas paredes, para cima de mil vezes e está imune. O mínimo de compromisso com o máximo de luxúria e descomplicação. A fórmula que, à partida, acaba por ser mais viável e cómoda. É o típico "Enquanto há tempo, paciência e alguma sexualidade, suporta-se. Depois disto não me venham com merdas, que tenho mais que fazer, sim?" Ele, bem parecido, atraente e simpático, ofereceu-nos mais vinho e juntou-se a nós no banco - o nosso cenário para a nossa pequena história.
Brindes, brincadeiras, relatos. Um pequeno relâmpago de maluquice atingia o nosso mini quarteirão, de cinco em cinco segundos. Risos, danças, pequenos mistérios revelados. Como se fôssemos amigos há meia dúzia de anos. E, pelo menos, com várias festas e karaokes em cima. Não esqueçamos as inconfidências, que metiam um namoro mal terminado, com casamento à mistura e um passado confuso. Cada vez que a palavra "Ana" saía daquela boca, um brilho nos olhos dele cortava tudo que estivesse à sua volta. Escutei, ouvi, senti. Imaginei mágoas, tão comuns em pleno século XXI, e pensei em fuzilá-las naquela cabeça. Não, pensei mesmo numa tortura à Idade Média. "Segue em frente. Esquece. Esquece". Por detrás daquela máscara de mel trintão pré Mourinho style, os olhos escondiam um passado tenebroso. Ela, sensual e exótica, falava alto e brindava aos fortúnios e infortúnios da vida. E as pilhas deviam ser duracell.

Verão. Alentejo. Brisa mais fresca. Uma hora depois.

A música misturava-se com as nossas vozes e as ondas do seu cabelo, cruzavam-se com o meu ruivo liso. Desdobrávamo-nos em mil pessoas, todas presentes naquela pista feita de fuguras solitárias, que exibiam, principescamente, um copo de cerveja na mão. Eu e ela tínhamos parado ali, aquele era o nosso momento de libertação, o nosso prazer, a nossa declaração de amor à vida. Numa espiral sufocante, não parávamos. Não desistíamos de sermos mulheres e, mais importante. Não queríamos parar de ser animais, seres selvagens, frenéticos, alucinantes. Stop.

Play. Era tarde. Reparei que a sala se tinha enchido de casais, com cheiro a sexo e sede de desejo. O tempo retomou o seu lugar, o ponteiro dos segundos não paráva de ditar a sua inflexibilidade e eu senti que o meu lugar já não era ali. Olhei à volta uma vez mais, despedi-me, sacudi o fumo dos pulmões e regressei à normalidade de um dia de férias. E nunca mais bebi vinho de estranhos.

julho 30, 2009

Rewind & Fast Forward

O tempo é implacável. Passa, convicto, sem dar-nos as oportunidades suficientes para fazer perdurar certos momentos ou para agarrar, como é devido, outros. Nos últimos anos do meu percurso, muitos caminhos desembocaram em ruas de um único sentido: becos sem saída e sem alternativas.
Agora há que virar o jogo, mudar as placas de sítio e contornar a minha direcção, com deterinação e assertividade. Talvez com a ajuda de um mapa, inicialmente. Regularmente, virei aqui expressar algumas das minhas inócuas ideias, sem grandes manobras de diversão no português. Acho.

março 12, 2008

"Lacrimae Rerum" - continua...

O momento.

Ding dong. Ouvem-se passos distantes que afunilam num crescendo sonoro até que uma voz, distintamente masculina, interroga o alegado intruso. “Quem é?”, inquere com firmeza.
A moça baixa, que estava do lado da rua, de fisionomia rebaixada e corcunda, todavia detentora de um cabelo muito louro e ondulado, envergonhou o olhar azul, acanhando-se por debaixo do boné vermelho. ”Boa tarde senhorrr, cômô ixtá?”, soletrou a medo a ucraniana ou russa, ou uma menina daquelas bandas, que segurava uma resma de papéis publicitários a uma grande superfície.
Clik. Ele já tinha visto tudo por detrás do óculo, mas decidiu dar o benefício da dúvida, já que raparigas de tez clara, cabelo fio de ouro e mau português são mais raras e ele sentia-se tremendamente aborrecido. “Estou bem obrigada e a menina?”, rematou com um sorriso arrasador.
Pum! Lá se foi a papelada para o chão, um rasgo forte de vento arrastou o boné e a boca da miúda descaiu, tal era a expressão de surpresa e fascínio naqueles olhos, que se outrora já foram misteriosos, agora não faziam quaisquer tenções de esconder um brilho de luxúria e desejo. “Senhorrr...você está a deixar-me louca..”, sussurra, à medida que se aproxima dele, em passos sensuais, com os canudos a roçarem a pele pálida. “É o homem da minha vida e vamos ser felizes..”, continua a “Nikita”, espetando lentamente os lábios finos.
Ele retribui. “Amo-te e agora que te encontrei, não te vou perder”. O céu azul profundo protege os dois amantes, que naturalmente selam o sentimento inesperado do momento com um beijo longo, suavemente, como se a ampulheta do tempo deixasse de funcionar e a constante dos segundos parasse. Perdidos naquele trocar de carícias, ele levou-a para a sua vida, pegou-a ao colo, sorriu, à medida que uns violinos acompanhavam os sorrisos pepsodent em slow motion..

“Miguelll!”. Susto. Lá se foi a ucraniana e, nem em sonhos, conseguiu o seu número de telefone. Bem, a semana passada foram brasileiras e cubanas, desta vez, a mulher da sua vida tinha hálito a “bife tártaro” mas era diferente, sem dúvida alguma, pensou, à medida que se aprumava para a reunião. E, claro, para um encontro com um dos intermináveis contactos da lista telefónica.

fevereiro 09, 2008

"Lacrimae Rerum"

Ela.

"Ana, és linda". Já tinham passado mais de cinco anos e ainda hoje aquelas palavras pareciam as primeiras e, ao mesmo tempo, as derradeiras, as mais importantes da sua vida, como se fossem dádivas da linguagem humana. O som saboroso, sussurrado e silibante proveniente daqueles lábios bem delineados e carnudos, desencadeava um entorpecimento dos sentidos que, até então, jamais havia conhecido.

De pálpebras cerradas, ela permanecia, impávida e serena, no mesmo local, mas tão determinada, que seria, para quem deambulasse ao seu lado, uma forte presença, um sinónimo de força inabalável. Indomável. Saboreava a brisa cortante, que empurrava grãos de areia para o canto dos olhos, e que rasgava a face lisa de pele aveludada. Apesar das mãos compridas e finas nunca aquecerem, o coração estava numa constante ginástica, feita de avanços e recuos, jogos de flexibilidade, em dose exagerada, que a transformam no expoente máximo da inflexibilidade. Os lábios finos já se queixavam, estavam secos, o calor apertava e réstias de suor colavam o top laranja às costas.

Ana. Abriu os rasgados olhos de avelã e presenciou a revolta da natureza. E tentou sair de dentro de si, mas o mar mostrava-lhe aqueles lábios. E tudo voltou, numa agonia indescritível: a perda, a solidão, a saudade, o amor que jamais voltou a renascer. Era um formigueiro, uma comichão que crescia a cada centímetro, ardia, doía, matava, moía. Uma lágrima desceu por aquela cara linda e, dez segundos depois, a figura incontornável da indomável mulher numa praia semi-deserta desvaneceu-se, dando lugar a uma criança frágil que fugia da vida.

Ele.

"Não sei donde vens, mas sei que o teu destino é aqui". A velocidade a que corria era frenética, mas ele sonhava, com os olhos a brilhar depois de a ter conhecido, com a lembrança daquelas palavras que proferiu, gravadas no seu pensamento.

"Olha, 200 mg de adrenalina, rápido, que está a entrar em taquicardia! Mexe-te!". O cabelo raspava no H2O circundante, ele lá corria no corredor, enfiado na bata semi-branca e os dedos das mãos robustas e possantes, delineados pela circulação sanguínea palpitante, saltavam à vista como peças de dominó em escada, numa agilidade mecanizada. "Já está!", proferiu, num som saboroso, silibante, sussurrado, proveniente de uns lábios delineados e carnudos.

Miguel. Os olhos verdes, cerrados e numa expressão grave, deixavam escapar muito mais do que parecia. Virado para o jardim do hospital, o espelho da alma perscrutava as sombras das árvores, à procura de um sinal dela. Da força indomável no olhar cor-de-avelã rasgado, nos lábios finos e rosados, daquela luz de presença naquele hospital.


setembro 19, 2007

Desabafo



Epá que há grandes bestas e filhos da puta lá isso há. Daqueles com maiúsculas por todos os lados, como se nos berrassem ao nosso ouvido, constantemente, a magnitude deles versus a nossa pequenez. E como se isso fosse a coisa mais importante, a notícia do dia e do topo da agenda noticiosa, em qualquer telejornal (ou mero jornal feito de papel escuro, daquele que suja as pontas dos dedos e etcetera e tal). Caso para reunir o Conselho de Segurança da ONU, organizar um debate para a Assembleia da República decidir se decreta um dia religioso para os portugueses venerarem ilustre personalidade.
Não suporto gajos (e gajas, claro, não sou machista) que se armem em merdas, isto é, que fazem questão de tratar os outros como animais, abaixo de cão, não tendo em conta os seus sentimentos, com os sucessivos atestados de estupidez que gostam de passar aos outros nos tempos livres. Em vez de verem TV ou irem praticar ginástica na horizontal, não. Têm que ir melgar os outros. “Ah e tal, qual é o vosso hobbie favorito?”. “Ah então, óvio que é passar atestados de estupidez a toda a gente para além de mim, que não é ninguém”. (E sim, o “óvio” é mesmo para ser escrito assim, não há ali qualquer erro ortográfico). Já não digo para lerem grandes obras da literatura clássica, ver museus paleolíticos ou ouvirem música clássica em dias de chuva, bolas. Podiam fazer algo realmente divertido e lúdico: ver um filme que “não aquece nem arrefece” num dia qualquer, dar de comer aos pombos no Rossio ou simplesmente não fazer nada. Não, prontos. Não querem. Têm de torturar os outros, fazê-los acreditar que a pequenez das suas cabeças é literal e psicológica, e regozijar-se disso para que o encolhido ego aumente em vão.
Meus amigos, digo-vos uma coisa. Filhos da puta (que não têm outro nome, desculpem lá, mas há coisas que têm e devem ser ditas) dispenso-os bem. Aliás, posso até arranjar meia dúzia e vender na nfeira de Carcavelos. Assim têm alguma utilidade. Mas deles quero é distância e limitar-me ao mínimo dos relacionamentos, para não haver situações digamos constrangedoras e…desagradáveis. Por isso, se forem desta “raça”, não me apareçam à frente. Só conseguem pena e pfft. Uma escarreta psicológica.

julho 26, 2007

Solta mas presa


Já viram que está tudo por um fio? Tudo à nossa volta não passa de uma ilusão, na maioria das vezes, um sonho que pode ser transformado em pesadelo, se deixarmos de conhecer e viver nos rituais que conhecemos, dia após dia. Crescemos nesses rituais, vivemos neles com toda a energia que conhecemos e, de repente, puf..vão-se. E depois? Depois nada. Casa, família, amigos, sexo, romance, trabalho. Escapa-se-nos tudo por entre os dedos. E cá com uma pinta..É muito difícil conquistar alguma coisa na vida, ganhar alguma coisa depois de uma luta com sabor a suor, mas é muito fácil perder tudo numa milésima de segundo. E porquê? Por que é que esta fragilidade da vida nos persegue em cada esquina que viramos?
Vivemos as coisas com ligeireza, relativizamos as tragédias e as tristezas. Ya. E depois? Um dia achamos que temos tudo, que somos felizes, e depois tudo muda e regride-se, desce-se um patamar no percurso da vida, sem se saber realmente qual a direcção a atalhar. Alguém me compreende? Porque muda tanta coisa ao mesmo tempo? E porque é que só muda aquilo que não se quer mudar? Um sentimento, um amor, uma paixão, uma memória que permanece imutável no nosso inconsciente. Há coisas que não consigo mudar. Outras que posso querer mudar, mas não consigo. Mas o pior é mesmo querer que certas coisas não mudem. Nunca. Como as manter vivas dentro de nós?L.

julho 24, 2007


No outro dia fui ao Casino Lisboa. Já lá tinha ido um par de vezes, apesar de não ser (felizmente) viciada nas máquinas de sugar moedas e fichas. Dou meia dúzia de voltas ao local, atraída pelos neons, pelas luzes cintilantes e os uniformes dos croupiers. Deparo-me com a frieza das expressões, a agilidade do olhar, a destreza das maõs que manobram as cartas e os chips, como raramente vejo. Vislumbro a segurança do local.
Mais à frente aproximamo-nos da mesa com os apostadores no Black Jack, onde uma croupier alta e loira é visível à distância. Oriunda das terras da Europa de Leste, os olhos azuis e pintados, com uma massa escura, mantêm-se distantes e impávidos como gelo, mas nunca serenos. Estuda os movimentos, conta rápido o valor das cartas e desdobra os dedos elásticos como se pudesse apanhar todas as cartas num instante. Repete este movimento..over and over..Fico tão parva e fascinada a olhar, que me pergunto donde é que aquelas enigmáticas criaturas terão saído. De uma escola? De um curso? Após uma breve pesquisa, descobri este filme com o Clive Owen, de 1998, "Croupier". Talvez aí encontre as respostas às minhas questões que..desejo ver saciadas. L.

julho 19, 2007

Um momento num "click"

Bela esta fotografia, não? Ando há mais de uma semana a trabalhar nos faróis, ou seja, a investigar, a ler documentos em word com pesquisas já antigas. É um trabalho muito interessante este de mexer e remoer em janelas virtuais para o mundo, sempre à procura de mais informação. Especialmente para pessoas curiosas como eu. Deparei-me com esta imagem e não pude deixar de a colocar aqui. Já venho dissertar sobre as ideias do meu espírito inquieto. L.

julho 18, 2007

Porquê?

Não consigo entender. Ajudem-me por favor. Porque é que é tão socialmente incorrecto dizer-se, realmente, o que se pensa e, acima de tudo, o que se sente? Porque é toda a gente vê aqueles que se abrem e falam dos seus sentimentos, com tanta abertura, como os "vulneráveis" e os "fracos"? Não, expliquem-me! Sinceramente, não consigo entender a necessidade que temos de, diariamente, nos escondermos por detrás de máscaras e dizer que "sim, sim", "ya, ya", acenas com a cabeça, positivamente e veementemente, como se fôssemos carneiros e como se tivesse que ser tudo só assim. Por favor.
Sinto-me discriminada por dizer o que digo, às vezes uma idiota, mas acima de tudo incompreendida por teimar num sentimento e deitá-lo cá para fora. Não interessa quantas vezes o digo, se é importante, é importante. E se acho que o devo dizer ou expressar seja de que maneira fôr, digo. Para quê reprimir alguém que, já por si própria, se auto reprime tantas vezes por causa das chamadas pressões desta sociedade de merda? Desculpem lá, mas é assim que as coisas funcionam nesta vida. E todos nós sabemos disso. É a velocidade de manhã para ir trabalhar, é a falta de tempo e desânimo para apreciar a vida. A competição insistente e permanente. Não há pachorra, foda-se.
As pessoas escondem o que sentem, não assumem, têm receio e escondem-se numa máscara. Tento compreeender, mas hoje estou realmente com algumas dificuldades. Amor, ódio, indiferença, amizade, atracção..porque não deixar soltar tudo isto para fora?L.

julho 16, 2007

"Volareeeeee.Cantareee.."

Apeteceu-me.L.

"Às escuras e às avessas"

Ah que bom. Escrever, escrever, escrever. É mesmo disto que preciso. Sem convenções, sem regras, sem limites. Deixo-me levar pelas ondas tenebrosas do meu pensamento, como eu quiser. Sim.
Tenho muitas novidades, mas poucas que possa descrever aqui, minuciosamente. Finalmente acabei o meu curso de Canto. Quer dizer, fiz a disciplina. Ao longo de todos estes anos, já tenho a disciplina do instrumento do Curso Oficial de Música, com uma habilitação similar ao 12º ano (mas no plano musical), contudo isso não quer dizer que esteja preparada para cantar a sério. Pelo menos, em canto lírico. Tenho noção de que, ao longo destes anos todos, deveria ter estudado muito mais. É como um atleta que tem de correr todos os dias para treinar o corpo e disciplinar a mente a todos os sacrifícios físicos, pelos quais tem de passar. Mas não é simples fazer da música a nossa vida, quando tem de pingar ao fim de mês (e de algo lado terá de vir). Sei que podia ter feito muito melhor, mas agora tenho que ver o lado positivo das coisas e digo-vos: parabéns a mim por ter conseguido concluir esta etapa. Outras etapas estarão por vir, outros desafios estão à minha espera para ser ultrapassados. Posso até nem conseguir tudo o que desejo, mas nunca irei deixar de tentar. Nem que morra a fazê-lo. É importante ter consciência disto.
E já foi há três anos que fui ao Egipto. Aliás, faz amanhã três anos que voei para lá e não queria mais voltar. Err. Pois. Só que voei e, voilá, cá estou eu. Continua a ser a viagem da minha vida, apesar de há um ano atrás ter passeado pelo México como uma jovem solteirona, independente e irreverente, que lá no fundinho e inconscientemente, apenas quer-se afirmar e fugir da prisão da sua vida. Mas o Egipto será sempre o início da minha fase, realmente e verdadeiramente, emancipada.
Uma semana numa cultura "a modos que" anti-ocidental, no meio de temperaturas abrasadoras de 50 graus, no pleno forno do deserto, em companhias desconhecidas, fizeram de mim uma mente bemmmm mais aberta. Bem mais. Quer dizer, será que é assim que se escreve? Em sentido figurado sim, é possível escrever-se quase tudo.
Nem sei do que me apetece escrever exactamente. Mas apetece-me escrever. Acabei de ler um livro interessante. Não diria que é fantástico, mas interessante. Chama-se "O ano das Hienas". Passava-se no Antigo Egipto, na época de Ramsés III, um faraó forte e saudável que teve muita popularidade no seu reinado, cerca de 1500 anos antes de Cristo (ou secalhar estou a mentir..sei lá). E o interesse do livro é passar-se uma espécie de enredo CSI naquela época. Ya, só que aqui é um só homem a fazer tudo e ainda o tentam matar. Tadito. É bem mais interessante que a série televisiva, que passa continuamente há vários anos e a pachorra começa a faltar. Mesmo na Feira da Ladra não há grande coisa.
Semerket, um antigo investigador egípcio, encara uma grave crise existencial depois de ter sido abandonado pela mulher, Naia. Refugiado na bebida e em perdição, o jovem tem uma oportunidade única quando o Vizir do Faraó (uma espéce de Primeiro-Ministro do local..) o convida a desvendar o mistério causado pelo assassinato de uma sacerdotisa anciã, que vivia perto do Vale dos Reis, na aldeia dos artesãos de túmulos. Semerket é encorajado pelo seu irmão, Nakht, e em breve sucedem-se umas quantas páginas de suspense, mistério, intriga e discrição. Quem está por detrás do assassinato de Hetep-Heres, uma idosa cega, morta à machadada? (err..que imagem bonita para se imaginar depois do almoço, han?) Se são amantes de história e narrativas com reticências, então recomendo. Vivamente.
E, para rematar este long post que já se alonga - e eu não tenho a vossa vida pá, tenho casa, carro, marido e filhos para cuidar, xiça, raios e coriscos, ai cu'a breca - falo de uma coisa que em tem assaltado a cabeça de vez em quando..Er. Calma lá. O que era mesmo? L. (Fica pá próxima meus amigos..)

julho 11, 2007

"Cobras, cenas e sonhos.."

Pois é.
Ontem tive um sonho horrível. Acordei meio suada, meio azambuada com o realismo das imagens que, minutos antes, visionara através do obscuro da minha mente. Corri para o frio de um duche matinal, na esperança que me acordasse e me libertasse dessas memórias (com bastante significado, diga-se). A água escorria e lambia-me..eu fechei os olhos e vi-a. A serpente.
Estava com alguém, não sei quem é, não me perguntem. Um desconhecido - alto, moreno e qualquer coisa como bastante afável - acompanhava-me numa viagem algures. Íamos sorridentes e felizes como se pertencêssemos a uma película de Hollywood. Hum, era bom era. Mas a parte a seguir piorou..
Abri os olhos.."err..champô, champô..". Meti daquele líquido químico no cabelo, semi adormecida, e voltei ao meu sonho. S. Ela lá estava no sonho. Uma data de acontecimentos bizarros sucederam-se, encadeados, para me magoar e atingir. Eu corria, fugia, estripava-me e o "desconhecido" lá estava para me proteger. Estranha esta sensação de ter uma brasa, que não conheço de todo, num sonho, a dar-me o seu ombro amigo para consolo.
Depois de tamanha recilagem de planos zoom, de correrias em telhados e de música ambente, só me recordo de uma última cena - digo "cena" porque encaro os meus sonhos como filmes, autênticas aventuras em forma de curta-metragem que me possuem a mente -. Um corredor de um avião. Os compartimentos por cima dos assentos dos passageiros. Eu, sozinha e esfarrapada. Dirijo-me a um compartimento em busca de algo, não sabendo bem o quê, mas temendo a armadilha que se encontre no seu interior. E, passo a passo, decidi avançar, caminhar em direcção ao perigo, como se fosse inevitável e bom. Cada vez melhor. Abri o compartimento cautelosamente. Variada bagagem de mão, composta por malinhas de médias dimensões, compunha o espaço. Observei. "Ts, tssss...". Pânico. Uma serpente ali demabulava..aproximei-me. Sagaz e atenta vislumbrei uma cabeça ovulada e ondulante a surgir com os olhos a faiscar no ambiente soturno do espaço. Por fracções de segundos agitou a língua com languidez para, no momento a seguir, atacar, mas !pás! Reagi, num ápice de segundo, e fechei a tampa, batendo na cabeça da serpente que tinha atacado na minha direcção. Uma, duas, três vezes. Continuei num esforço árduo para não sentir a camada adiposa do réptil no meu braço.
Silêncio. A cabeça do animal estava esmagada, o sangue espesso escorria. Abri o compartimento, vasculhei o interior, repugnada pelo olhar da serpente me atingir fulminante, e deparei com a mala da S. Percebi, de imediato, tudo. Era no interior do objecto que estaria a cobra certamente. "Mais uma tentativa falhada...". Senti o corpo fraquejar naquele momento e o coração a latejar. Por muito que me esforçasse não conseguia entender a obstinação na minha morte. Encontrei documentos dela. Uma foto de passe com cabelo entrançado. Um livro de feitiços, bruxaria e maldições. Vasculhei e boquiaberta, congelei. Nem queria acreditar. Na 1ª página do pesado livro estava uma foto minha, para minha admiração e, por baixo, uma legenda: "A nossa vítima/ alvo". Inveja, azar no trabalho e no amor. Estava lá tudo. Larguei tudo e desatei a chorar, enquanto deslizava até ao chão alcatifado..O desconhecido surgiu. "Lara, estás bem?" Abraçou-me fortemente e beijou-me como se fosse o último instante antes do mundo acabar. Nesse momento ouvia-se como pano de fundo.."Porquê?..Te esqueceste de mim..assim?..Diz-me porquê..".L.