Verão. Alentejo. Brisa fresca.
A conversa ia quente, em cima de um banco de pedra. A contrastar com o gelo que sentia na ponta dos dedos dos pés, falávamos vivamente sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares. Sobre a inspiração de um homem que amou alguém na aridez do deserto, de certo modo semelhante à essência daquela relaçao. Ilusória, passageira e inerte.
"Posso?". Algo dera um ponto final às filosofias sobre a obra do escritor. Pelo menos, umas reticências, cuja continuação era indefinida e estava posta em causa. Era uma rapariga loura, de cabelos encaracolados, de figura esguia e bronzeado cor de caramelo. Segurava uma garrafa de vinho tinto, numa mão, e vários copos de plásticos, na outra. Os tiques demonstravam bem o efeito que a pinga estava a ter: um pestanejar constante e veloz, movimentos hiperbólicos e uma finura ténue de desiquilíbrio. Mas, no fundinho, a rapariga, de olhos verdes, parecia só querer um pequeno espaço do nosso banco. Olhei para a "Lúcia" perplexa, mas não havia sinais de qualquer reprovação.
"Sim, claro, sente-se", assenti. "Olhem, querem um pouco?". Silêncio estranho e constrangedor. "Vá lá! Está bom!". Não que tivesse o hábito de aceitar bebidas de desconhecidos, em noites de Verão, nas quais o nosso lado mais selvagem predomina. Mas aceitei. "Vá lá, enquanto o Bruno não chega". Olhámos para a rapariga com ar interrogativo. "Namorado?". Ela abanou a cabeça, num sinal bem explícito de negação. "Qual quê! É alguém..olha, conhecemo-nos agora". Mal percebia o que se passava ali, nem entendia que estava eu a fazer, ao cheirar o aroma de um vinho tinto vindo de uma desconhecida. Mas a despreconceituosa interacção agradou-me e, por isso, fomos mais longe. Percorridos quilómetros de conversa e blá blá blá sobre as nossas confissões - porque no fundo não passávamos de três mulheres desconhecidas, contudo com idades semelhantes e, por conseguinte, com preocupações idênticas -, ele aparece.
A "Sónia" e o "Bruno" eram um daqueles casais relâmpago. cuja duração média de vida são dias ou, na melhor das hipóteses, escassas semanas. O protótipo de relação mais comum, quando já toda a gente já bateu com a cabeça nas paredes, para cima de mil vezes e está imune. O mínimo de compromisso com o máximo de luxúria e descomplicação. A fórmula que, à partida, acaba por ser mais viável e cómoda. É o típico "Enquanto há tempo, paciência e alguma sexualidade, suporta-se. Depois disto não me venham com merdas, que tenho mais que fazer, sim?" Ele, bem parecido, atraente e simpático, ofereceu-nos mais vinho e juntou-se a nós no banco - o nosso cenário para a nossa pequena história.
Brindes, brincadeiras, relatos. Um pequeno relâmpago de maluquice atingia o nosso mini quarteirão, de cinco em cinco segundos. Risos, danças, pequenos mistérios revelados. Como se fôssemos amigos há meia dúzia de anos. E, pelo menos, com várias festas e karaokes em cima. Não esqueçamos as inconfidências, que metiam um namoro mal terminado, com casamento à mistura e um passado confuso. Cada vez que a palavra "Ana" saía daquela boca, um brilho nos olhos dele cortava tudo que estivesse à sua volta. Escutei, ouvi, senti. Imaginei mágoas, tão comuns em pleno século XXI, e pensei em fuzilá-las naquela cabeça. Não, pensei mesmo numa tortura à Idade Média. "Segue em frente. Esquece. Esquece". Por detrás daquela máscara de mel trintão pré Mourinho style, os olhos escondiam um passado tenebroso. Ela, sensual e exótica, falava alto e brindava aos fortúnios e infortúnios da vida. E as pilhas deviam ser duracell.
Verão. Alentejo. Brisa mais fresca. Uma hora depois.
A música misturava-se com as nossas vozes e as ondas do seu cabelo, cruzavam-se com o meu ruivo liso. Desdobrávamo-nos em mil pessoas, todas presentes naquela pista feita de fuguras solitárias, que exibiam, principescamente, um copo de cerveja na mão. Eu e ela tínhamos parado ali, aquele era o nosso momento de libertação, o nosso prazer, a nossa declaração de amor à vida. Numa espiral sufocante, não parávamos. Não desistíamos de sermos mulheres e, mais importante. Não queríamos parar de ser animais, seres selvagens, frenéticos, alucinantes. Stop.
Play. Era tarde. Reparei que a sala se tinha enchido de casais, com cheiro a sexo e sede de desejo. O tempo retomou o seu lugar, o ponteiro dos segundos não paráva de ditar a sua inflexibilidade e eu senti que o meu lugar já não era ali. Olhei à volta uma vez mais, despedi-me, sacudi o fumo dos pulmões e regressei à normalidade de um dia de férias. E nunca mais bebi vinho de estranhos.
Avança o mais que puderes, nesta Arte da Vida, surpreende os teus adormecidos sentidos, descobre os aromas perdidos e ataca-os, como se um poço de emoções te cobrisse com grãozinhos de areia geniais, dos pés à cabeça. Abre a tua caixa... Abre-a e enfrenta-a.
setembro 14, 2009
julho 30, 2009
Rewind & Fast Forward
O tempo é implacável. Passa, convicto, sem dar-nos as oportunidades suficientes para fazer perdurar certos momentos ou para agarrar, como é devido, outros. Nos últimos anos do meu percurso, muitos caminhos desembocaram em ruas de um único sentido: becos sem saída e sem alternativas.
Agora há que virar o jogo, mudar as placas de sítio e contornar a minha direcção, com deterinação e assertividade. Talvez com a ajuda de um mapa, inicialmente. Regularmente, virei aqui expressar algumas das minhas inócuas ideias, sem grandes manobras de diversão no português. Acho.
Agora há que virar o jogo, mudar as placas de sítio e contornar a minha direcção, com deterinação e assertividade. Talvez com a ajuda de um mapa, inicialmente. Regularmente, virei aqui expressar algumas das minhas inócuas ideias, sem grandes manobras de diversão no português. Acho.
março 12, 2008
"Lacrimae Rerum" - continua...
O momento.
Ding dong. Ouvem-se passos distantes que afunilam num crescendo sonoro até que uma voz, distintamente masculina, interroga o alegado intruso. “Quem é?”, inquere com firmeza.
A moça baixa, que estava do lado da rua, de fisionomia rebaixada e corcunda, todavia detentora de um cabelo muito louro e ondulado, envergonhou o olhar azul, acanhando-se por debaixo do boné vermelho. ”Boa tarde senhorrr, cômô ixtá?”, soletrou a medo a ucraniana ou russa, ou uma menina daquelas bandas, que segurava uma resma de papéis publicitários a uma grande superfície.
Clik. Ele já tinha visto tudo por detrás do óculo, mas decidiu dar o benefício da dúvida, já que raparigas de tez clara, cabelo fio de ouro e mau português são mais raras e ele sentia-se tremendamente aborrecido. “Estou bem obrigada e a menina?”, rematou com um sorriso arrasador.
Pum! Lá se foi a papelada para o chão, um rasgo forte de vento arrastou o boné e a boca da miúda descaiu, tal era a expressão de surpresa e fascínio naqueles olhos, que se outrora já foram misteriosos, agora não faziam quaisquer tenções de esconder um brilho de luxúria e desejo. “Senhorrr...você está a deixar-me louca..”, sussurra, à medida que se aproxima dele, em passos sensuais, com os canudos a roçarem a pele pálida. “É o homem da minha vida e vamos ser felizes..”, continua a “Nikita”, espetando lentamente os lábios finos.
Ele retribui. “Amo-te e agora que te encontrei, não te vou perder”. O céu azul profundo protege os dois amantes, que naturalmente selam o sentimento inesperado do momento com um beijo longo, suavemente, como se a ampulheta do tempo deixasse de funcionar e a constante dos segundos parasse. Perdidos naquele trocar de carícias, ele levou-a para a sua vida, pegou-a ao colo, sorriu, à medida que uns violinos acompanhavam os sorrisos pepsodent em slow motion..
“Miguelll!”. Susto. Lá se foi a ucraniana e, nem em sonhos, conseguiu o seu número de telefone. Bem, a semana passada foram brasileiras e cubanas, desta vez, a mulher da sua vida tinha hálito a “bife tártaro” mas era diferente, sem dúvida alguma, pensou, à medida que se aprumava para a reunião. E, claro, para um encontro com um dos intermináveis contactos da lista telefónica.
Ding dong. Ouvem-se passos distantes que afunilam num crescendo sonoro até que uma voz, distintamente masculina, interroga o alegado intruso. “Quem é?”, inquere com firmeza.
A moça baixa, que estava do lado da rua, de fisionomia rebaixada e corcunda, todavia detentora de um cabelo muito louro e ondulado, envergonhou o olhar azul, acanhando-se por debaixo do boné vermelho. ”Boa tarde senhorrr, cômô ixtá?”, soletrou a medo a ucraniana ou russa, ou uma menina daquelas bandas, que segurava uma resma de papéis publicitários a uma grande superfície.
Clik. Ele já tinha visto tudo por detrás do óculo, mas decidiu dar o benefício da dúvida, já que raparigas de tez clara, cabelo fio de ouro e mau português são mais raras e ele sentia-se tremendamente aborrecido. “Estou bem obrigada e a menina?”, rematou com um sorriso arrasador.
Pum! Lá se foi a papelada para o chão, um rasgo forte de vento arrastou o boné e a boca da miúda descaiu, tal era a expressão de surpresa e fascínio naqueles olhos, que se outrora já foram misteriosos, agora não faziam quaisquer tenções de esconder um brilho de luxúria e desejo. “Senhorrr...você está a deixar-me louca..”, sussurra, à medida que se aproxima dele, em passos sensuais, com os canudos a roçarem a pele pálida. “É o homem da minha vida e vamos ser felizes..”, continua a “Nikita”, espetando lentamente os lábios finos.
Ele retribui. “Amo-te e agora que te encontrei, não te vou perder”. O céu azul profundo protege os dois amantes, que naturalmente selam o sentimento inesperado do momento com um beijo longo, suavemente, como se a ampulheta do tempo deixasse de funcionar e a constante dos segundos parasse. Perdidos naquele trocar de carícias, ele levou-a para a sua vida, pegou-a ao colo, sorriu, à medida que uns violinos acompanhavam os sorrisos pepsodent em slow motion..
“Miguelll!”. Susto. Lá se foi a ucraniana e, nem em sonhos, conseguiu o seu número de telefone. Bem, a semana passada foram brasileiras e cubanas, desta vez, a mulher da sua vida tinha hálito a “bife tártaro” mas era diferente, sem dúvida alguma, pensou, à medida que se aprumava para a reunião. E, claro, para um encontro com um dos intermináveis contactos da lista telefónica.
fevereiro 09, 2008
"Lacrimae Rerum"
Ela.
"Ana, és linda". Já tinham passado mais de cinco anos e ainda hoje aquelas palavras pareciam as primeiras e, ao mesmo tempo, as derradeiras, as mais importantes da sua vida, como se fossem dádivas da linguagem humana. O som saboroso, sussurrado e silibante proveniente daqueles lábios bem delineados e carnudos, desencadeava um entorpecimento dos sentidos que, até então, jamais havia conhecido.
De pálpebras cerradas, ela permanecia, impávida e serena, no mesmo local, mas tão determinada, que seria, para quem deambulasse ao seu lado, uma forte presença, um sinónimo de força inabalável. Indomável. Saboreava a brisa cortante, que empurrava grãos de areia para o canto dos olhos, e que rasgava a face lisa de pele aveludada. Apesar das mãos compridas e finas nunca aquecerem, o coração estava numa constante ginástica, feita de avanços e recuos, jogos de flexibilidade, em dose exagerada, que a transformam no expoente máximo da inflexibilidade. Os lábios finos já se queixavam, estavam secos, o calor apertava e réstias de suor colavam o top laranja às costas.
Ana. Abriu os rasgados olhos de avelã e presenciou a revolta da natureza. E tentou sair de dentro de si, mas o mar mostrava-lhe aqueles lábios. E tudo voltou, numa agonia indescritível: a perda, a solidão, a saudade, o amor que jamais voltou a renascer. Era um formigueiro, uma comichão que crescia a cada centímetro, ardia, doía, matava, moía. Uma lágrima desceu por aquela cara linda e, dez segundos depois, a figura incontornável da indomável mulher numa praia semi-deserta desvaneceu-se, dando lugar a uma criança frágil que fugia da vida.
Ele.
"Não sei donde vens, mas sei que o teu destino é aqui". A velocidade a que corria era frenética, mas ele sonhava, com os olhos a brilhar depois de a ter conhecido, com a lembrança daquelas palavras que proferiu, gravadas no seu pensamento.
"Olha, 200 mg de adrenalina, rápido, que está a entrar em taquicardia! Mexe-te!". O cabelo raspava no H2O circundante, ele lá corria no corredor, enfiado na bata semi-branca e os dedos das mãos robustas e possantes, delineados pela circulação sanguínea palpitante, saltavam à vista como peças de dominó em escada, numa agilidade mecanizada. "Já está!", proferiu, num som saboroso, silibante, sussurrado, proveniente de uns lábios delineados e carnudos.
Miguel. Os olhos verdes, cerrados e numa expressão grave, deixavam escapar muito mais do que parecia. Virado para o jardim do hospital, o espelho da alma perscrutava as sombras das árvores, à procura de um sinal dela. Da força indomável no olhar cor-de-avelã rasgado, nos lábios finos e rosados, daquela luz de presença naquele hospital.
"Ana, és linda". Já tinham passado mais de cinco anos e ainda hoje aquelas palavras pareciam as primeiras e, ao mesmo tempo, as derradeiras, as mais importantes da sua vida, como se fossem dádivas da linguagem humana. O som saboroso, sussurrado e silibante proveniente daqueles lábios bem delineados e carnudos, desencadeava um entorpecimento dos sentidos que, até então, jamais havia conhecido.
De pálpebras cerradas, ela permanecia, impávida e serena, no mesmo local, mas tão determinada, que seria, para quem deambulasse ao seu lado, uma forte presença, um sinónimo de força inabalável. Indomável. Saboreava a brisa cortante, que empurrava grãos de areia para o canto dos olhos, e que rasgava a face lisa de pele aveludada. Apesar das mãos compridas e finas nunca aquecerem, o coração estava numa constante ginástica, feita de avanços e recuos, jogos de flexibilidade, em dose exagerada, que a transformam no expoente máximo da inflexibilidade. Os lábios finos já se queixavam, estavam secos, o calor apertava e réstias de suor colavam o top laranja às costas.
Ana. Abriu os rasgados olhos de avelã e presenciou a revolta da natureza. E tentou sair de dentro de si, mas o mar mostrava-lhe aqueles lábios. E tudo voltou, numa agonia indescritível: a perda, a solidão, a saudade, o amor que jamais voltou a renascer. Era um formigueiro, uma comichão que crescia a cada centímetro, ardia, doía, matava, moía. Uma lágrima desceu por aquela cara linda e, dez segundos depois, a figura incontornável da indomável mulher numa praia semi-deserta desvaneceu-se, dando lugar a uma criança frágil que fugia da vida.
Ele.
"Não sei donde vens, mas sei que o teu destino é aqui". A velocidade a que corria era frenética, mas ele sonhava, com os olhos a brilhar depois de a ter conhecido, com a lembrança daquelas palavras que proferiu, gravadas no seu pensamento.
"Olha, 200 mg de adrenalina, rápido, que está a entrar em taquicardia! Mexe-te!". O cabelo raspava no H2O circundante, ele lá corria no corredor, enfiado na bata semi-branca e os dedos das mãos robustas e possantes, delineados pela circulação sanguínea palpitante, saltavam à vista como peças de dominó em escada, numa agilidade mecanizada. "Já está!", proferiu, num som saboroso, silibante, sussurrado, proveniente de uns lábios delineados e carnudos.
Miguel. Os olhos verdes, cerrados e numa expressão grave, deixavam escapar muito mais do que parecia. Virado para o jardim do hospital, o espelho da alma perscrutava as sombras das árvores, à procura de um sinal dela. Da força indomável no olhar cor-de-avelã rasgado, nos lábios finos e rosados, daquela luz de presença naquele hospital.
setembro 19, 2007
Desabafo
Epá que há grandes bestas e filhos da puta lá isso há. Daqueles com maiúsculas por todos os lados, como se nos berrassem ao nosso ouvido, constantemente, a magnitude deles versus a nossa pequenez. E como se isso fosse a coisa mais importante, a notícia do dia e do topo da agenda noticiosa, em qualquer telejornal (ou mero jornal feito de papel escuro, daquele que suja as pontas dos dedos e etcetera e tal). Caso para reunir o Conselho de Segurança da ONU, organizar um debate para a Assembleia da República decidir se decreta um dia religioso para os portugueses venerarem ilustre personalidade.
Não suporto gajos (e gajas, claro, não sou machista) que se armem em merdas, isto é, que fazem questão de tratar os outros como animais, abaixo de cão, não tendo em conta os seus sentimentos, com os sucessivos atestados de estupidez que gostam de passar aos outros nos tempos livres. Em vez de verem TV ou irem praticar ginástica na horizontal, não. Têm que ir melgar os outros. “Ah e tal, qual é o vosso hobbie favorito?”. “Ah então, óvio que é passar atestados de estupidez a toda a gente para além de mim, que não é ninguém”. (E sim, o “óvio” é mesmo para ser escrito assim, não há ali qualquer erro ortográfico). Já não digo para lerem grandes obras da literatura clássica, ver museus paleolíticos ou ouvirem música clássica em dias de chuva, bolas. Podiam fazer algo realmente divertido e lúdico: ver um filme que “não aquece nem arrefece” num dia qualquer, dar de comer aos pombos no Rossio ou simplesmente não fazer nada. Não, prontos. Não querem. Têm de torturar os outros, fazê-los acreditar que a pequenez das suas cabeças é literal e psicológica, e regozijar-se disso para que o encolhido ego aumente em vão.
Meus amigos, digo-vos uma coisa. Filhos da puta (que não têm outro nome, desculpem lá, mas há coisas que têm e devem ser ditas) dispenso-os bem. Aliás, posso até arranjar meia dúzia e vender na nfeira de Carcavelos. Assim têm alguma utilidade. Mas deles quero é distância e limitar-me ao mínimo dos relacionamentos, para não haver situações digamos constrangedoras e…desagradáveis. Por isso, se forem desta “raça”, não me apareçam à frente. Só conseguem pena e pfft. Uma escarreta psicológica.
Não suporto gajos (e gajas, claro, não sou machista) que se armem em merdas, isto é, que fazem questão de tratar os outros como animais, abaixo de cão, não tendo em conta os seus sentimentos, com os sucessivos atestados de estupidez que gostam de passar aos outros nos tempos livres. Em vez de verem TV ou irem praticar ginástica na horizontal, não. Têm que ir melgar os outros. “Ah e tal, qual é o vosso hobbie favorito?”. “Ah então, óvio que é passar atestados de estupidez a toda a gente para além de mim, que não é ninguém”. (E sim, o “óvio” é mesmo para ser escrito assim, não há ali qualquer erro ortográfico). Já não digo para lerem grandes obras da literatura clássica, ver museus paleolíticos ou ouvirem música clássica em dias de chuva, bolas. Podiam fazer algo realmente divertido e lúdico: ver um filme que “não aquece nem arrefece” num dia qualquer, dar de comer aos pombos no Rossio ou simplesmente não fazer nada. Não, prontos. Não querem. Têm de torturar os outros, fazê-los acreditar que a pequenez das suas cabeças é literal e psicológica, e regozijar-se disso para que o encolhido ego aumente em vão.
Meus amigos, digo-vos uma coisa. Filhos da puta (que não têm outro nome, desculpem lá, mas há coisas que têm e devem ser ditas) dispenso-os bem. Aliás, posso até arranjar meia dúzia e vender na nfeira de Carcavelos. Assim têm alguma utilidade. Mas deles quero é distância e limitar-me ao mínimo dos relacionamentos, para não haver situações digamos constrangedoras e…desagradáveis. Por isso, se forem desta “raça”, não me apareçam à frente. Só conseguem pena e pfft. Uma escarreta psicológica.
julho 26, 2007
Solta mas presa
Já viram que está tudo por um fio? Tudo à nossa volta não passa de uma ilusão, na maioria das vezes, um sonho que pode ser transformado em pesadelo, se deixarmos de conhecer e viver nos rituais que conhecemos, dia após dia. Crescemos nesses rituais, vivemos neles com toda a energia que conhecemos e, de repente, puf..vão-se. E depois? Depois nada. Casa, família, amigos, sexo, romance, trabalho. Escapa-se-nos tudo por entre os dedos. E cá com uma pinta..É muito difícil conquistar alguma coisa na vida, ganhar alguma coisa depois de uma luta com sabor a suor, mas é muito fácil perder tudo numa milésima de segundo. E porquê? Por que é que esta fragilidade da vida nos persegue em cada esquina que viramos?
Vivemos as coisas com ligeireza, relativizamos as tragédias e as tristezas. Ya. E depois? Um dia achamos que temos tudo, que somos felizes, e depois tudo muda e regride-se, desce-se um patamar no percurso da vida, sem se saber realmente qual a direcção a atalhar. Alguém me compreende? Porque muda tanta coisa ao mesmo tempo? E porque é que só muda aquilo que não se quer mudar? Um sentimento, um amor, uma paixão, uma memória que permanece imutável no nosso inconsciente. Há coisas que não consigo mudar. Outras que posso querer mudar, mas não consigo. Mas o pior é mesmo querer que certas coisas não mudem. Nunca. Como as manter vivas dentro de nós?L.
Vivemos as coisas com ligeireza, relativizamos as tragédias e as tristezas. Ya. E depois? Um dia achamos que temos tudo, que somos felizes, e depois tudo muda e regride-se, desce-se um patamar no percurso da vida, sem se saber realmente qual a direcção a atalhar. Alguém me compreende? Porque muda tanta coisa ao mesmo tempo? E porque é que só muda aquilo que não se quer mudar? Um sentimento, um amor, uma paixão, uma memória que permanece imutável no nosso inconsciente. Há coisas que não consigo mudar. Outras que posso querer mudar, mas não consigo. Mas o pior é mesmo querer que certas coisas não mudem. Nunca. Como as manter vivas dentro de nós?L.
julho 24, 2007
No outro dia fui ao Casino Lisboa. Já lá tinha ido um par de vezes, apesar de não ser (felizmente) viciada nas máquinas de sugar moedas e fichas. Dou meia dúzia de voltas ao local, atraída pelos neons, pelas luzes cintilantes e os uniformes dos croupiers. Deparo-me com a frieza das expressões, a agilidade do olhar, a destreza das maõs que manobram as cartas e os chips, como raramente vejo. Vislumbro a segurança do local.
Mais à frente aproximamo-nos da mesa com os apostadores no Black Jack, onde uma croupier alta e loira é visível à distância. Oriunda das terras da Europa de Leste, os olhos azuis e pintados, com uma massa escura, mantêm-se distantes e impávidos como gelo, mas nunca serenos. Estuda os movimentos, conta rápido o valor das cartas e desdobra os dedos elásticos como se pudesse apanhar todas as cartas num instante. Repete este movimento..over and over..Fico tão parva e fascinada a olhar, que me pergunto donde é que aquelas enigmáticas criaturas terão saído. De uma escola? De um curso? Após uma breve pesquisa, descobri este filme com o Clive Owen, de 1998, "Croupier". Talvez aí encontre as respostas às minhas questões que..desejo ver saciadas. L.
julho 19, 2007
Um momento num "click"
julho 18, 2007
Porquê?
Não consigo entender. Ajudem-me por favor. Porque é que é tão socialmente incorrecto dizer-se, realmente, o que se pensa e, acima de tudo, o que se sente? Porque é toda a gente vê aqueles que se abrem e falam dos seus sentimentos, com tanta abertura, como os "vulneráveis" e os "fracos"? Não, expliquem-me! Sinceramente, não consigo entender a necessidade que temos de, diariamente, nos escondermos por detrás de máscaras e dizer que "sim, sim", "ya, ya", acenas com a cabeça, positivamente e veementemente, como se fôssemos carneiros e como se tivesse que ser tudo só assim. Por favor.
Sinto-me discriminada por dizer o que digo, às vezes uma idiota, mas acima de tudo incompreendida por teimar num sentimento e deitá-lo cá para fora. Não interessa quantas vezes o digo, se é importante, é importante. E se acho que o devo dizer ou expressar seja de que maneira fôr, digo. Para quê reprimir alguém que, já por si própria, se auto reprime tantas vezes por causa das chamadas pressões desta sociedade de merda? Desculpem lá, mas é assim que as coisas funcionam nesta vida. E todos nós sabemos disso. É a velocidade de manhã para ir trabalhar, é a falta de tempo e desânimo para apreciar a vida. A competição insistente e permanente. Não há pachorra, foda-se.
As pessoas escondem o que sentem, não assumem, têm receio e escondem-se numa máscara. Tento compreeender, mas hoje estou realmente com algumas dificuldades. Amor, ódio, indiferença, amizade, atracção..porque não deixar soltar tudo isto para fora?L.
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Somos peões disfarçados na sociedade..
julho 17, 2007
julho 16, 2007
"Às escuras e às avessas"
Ah que bom. Escrever, escrever, escrever. É mesmo disto que preciso. Sem convenções, sem regras, sem limites. Deixo-me levar pelas ondas tenebrosas do meu pensamento, como eu quiser. Sim.
Tenho muitas novidades, mas poucas que possa descrever aqui, minuciosamente. Finalmente acabei o meu curso de Canto. Quer dizer, fiz a disciplina. Ao longo de todos estes anos, já tenho a disciplina do instrumento do Curso Oficial de Música, com uma habilitação similar ao 12º ano (mas no plano musical), contudo isso não quer dizer que esteja preparada para cantar a sério. Pelo menos, em canto lírico. Tenho noção de que, ao longo destes anos todos, deveria ter estudado muito mais. É como um atleta que tem de correr todos os dias para treinar o corpo e disciplinar a mente a todos os sacrifícios físicos, pelos quais tem de passar. Mas não é simples fazer da música a nossa vida, quando tem de pingar ao fim de mês (e de algo lado terá de vir). Sei que podia ter feito muito melhor, mas agora tenho que ver o lado positivo das coisas e digo-vos: parabéns a mim por ter conseguido concluir esta etapa. Outras etapas estarão por vir, outros desafios estão à minha espera para ser ultrapassados. Posso até nem conseguir tudo o que desejo, mas nunca irei deixar de tentar. Nem que morra a fazê-lo. É importante ter consciência disto.
E já foi há três anos que fui ao Egipto. Aliás, faz amanhã três anos que voei para lá e não queria mais voltar. Err. Pois. Só que voei e, voilá, cá estou eu. Continua a ser a viagem da minha vida, apesar de há um ano atrás ter passeado pelo México como uma jovem solteirona, independente e irreverente, que lá no fundinho e inconscientemente, apenas quer-se afirmar e fugir da prisão da sua vida. Mas o Egipto será sempre o início da minha fase, realmente e verdadeiramente, emancipada.
Uma semana numa cultura "a modos que" anti-ocidental, no meio de temperaturas abrasadoras de 50 graus, no pleno forno do deserto, em companhias desconhecidas, fizeram de mim uma mente bemmmm mais aberta. Bem mais. Quer dizer, será que é assim que se escreve? Em sentido figurado sim, é possível escrever-se quase tudo.
Nem sei do que me apetece escrever exactamente. Mas apetece-me escrever. Acabei de ler um livro interessante. Não diria que é fantástico, mas interessante. Chama-se "O ano das Hienas". Passava-se no Antigo Egipto, na época de Ramsés III, um faraó forte e saudável que teve muita popularidade no seu reinado, cerca de 1500 anos antes de Cristo (ou secalhar estou a mentir..sei lá). E o interesse do livro é passar-se uma espécie de enredo CSI naquela época. Ya, só que aqui é um só homem a fazer tudo e ainda o tentam matar. Tadito. É bem mais interessante que a série televisiva, que passa continuamente há vários anos e a pachorra começa a faltar. Mesmo na Feira da Ladra não há grande coisa.
Semerket, um antigo investigador egípcio, encara uma grave crise existencial depois de ter sido abandonado pela mulher, Naia. Refugiado na bebida e em perdição, o jovem tem uma oportunidade única quando o Vizir do Faraó (uma espéce de Primeiro-Ministro do local..) o convida a desvendar o mistério causado pelo assassinato de uma sacerdotisa anciã, que vivia perto do Vale dos Reis, na aldeia dos artesãos de túmulos. Semerket é encorajado pelo seu irmão, Nakht, e em breve sucedem-se umas quantas páginas de suspense, mistério, intriga e discrição. Quem está por detrás do assassinato de Hetep-Heres, uma idosa cega, morta à machadada? (err..que imagem bonita para se imaginar depois do almoço, han?) Se são amantes de história e narrativas com reticências, então recomendo. Vivamente.
E, para rematar este long post que já se alonga - e eu não tenho a vossa vida pá, tenho casa, carro, marido e filhos para cuidar, xiça, raios e coriscos, ai cu'a breca - falo de uma coisa que em tem assaltado a cabeça de vez em quando..Er. Calma lá. O que era mesmo? L. (Fica pá próxima meus amigos..)
Tenho muitas novidades, mas poucas que possa descrever aqui, minuciosamente. Finalmente acabei o meu curso de Canto. Quer dizer, fiz a disciplina. Ao longo de todos estes anos, já tenho a disciplina do instrumento do Curso Oficial de Música, com uma habilitação similar ao 12º ano (mas no plano musical), contudo isso não quer dizer que esteja preparada para cantar a sério. Pelo menos, em canto lírico. Tenho noção de que, ao longo destes anos todos, deveria ter estudado muito mais. É como um atleta que tem de correr todos os dias para treinar o corpo e disciplinar a mente a todos os sacrifícios físicos, pelos quais tem de passar. Mas não é simples fazer da música a nossa vida, quando tem de pingar ao fim de mês (e de algo lado terá de vir). Sei que podia ter feito muito melhor, mas agora tenho que ver o lado positivo das coisas e digo-vos: parabéns a mim por ter conseguido concluir esta etapa. Outras etapas estarão por vir, outros desafios estão à minha espera para ser ultrapassados. Posso até nem conseguir tudo o que desejo, mas nunca irei deixar de tentar. Nem que morra a fazê-lo. É importante ter consciência disto.
E já foi há três anos que fui ao Egipto. Aliás, faz amanhã três anos que voei para lá e não queria mais voltar. Err. Pois. Só que voei e, voilá, cá estou eu. Continua a ser a viagem da minha vida, apesar de há um ano atrás ter passeado pelo México como uma jovem solteirona, independente e irreverente, que lá no fundinho e inconscientemente, apenas quer-se afirmar e fugir da prisão da sua vida. Mas o Egipto será sempre o início da minha fase, realmente e verdadeiramente, emancipada.
Uma semana numa cultura "a modos que" anti-ocidental, no meio de temperaturas abrasadoras de 50 graus, no pleno forno do deserto, em companhias desconhecidas, fizeram de mim uma mente bemmmm mais aberta. Bem mais. Quer dizer, será que é assim que se escreve? Em sentido figurado sim, é possível escrever-se quase tudo.
Nem sei do que me apetece escrever exactamente. Mas apetece-me escrever. Acabei de ler um livro interessante. Não diria que é fantástico, mas interessante. Chama-se "O ano das Hienas". Passava-se no Antigo Egipto, na época de Ramsés III, um faraó forte e saudável que teve muita popularidade no seu reinado, cerca de 1500 anos antes de Cristo (ou secalhar estou a mentir..sei lá). E o interesse do livro é passar-se uma espécie de enredo CSI naquela época. Ya, só que aqui é um só homem a fazer tudo e ainda o tentam matar. Tadito. É bem mais interessante que a série televisiva, que passa continuamente há vários anos e a pachorra começa a faltar. Mesmo na Feira da Ladra não há grande coisa.
Semerket, um antigo investigador egípcio, encara uma grave crise existencial depois de ter sido abandonado pela mulher, Naia. Refugiado na bebida e em perdição, o jovem tem uma oportunidade única quando o Vizir do Faraó (uma espéce de Primeiro-Ministro do local..) o convida a desvendar o mistério causado pelo assassinato de uma sacerdotisa anciã, que vivia perto do Vale dos Reis, na aldeia dos artesãos de túmulos. Semerket é encorajado pelo seu irmão, Nakht, e em breve sucedem-se umas quantas páginas de suspense, mistério, intriga e discrição. Quem está por detrás do assassinato de Hetep-Heres, uma idosa cega, morta à machadada? (err..que imagem bonita para se imaginar depois do almoço, han?) Se são amantes de história e narrativas com reticências, então recomendo. Vivamente.
E, para rematar este long post que já se alonga - e eu não tenho a vossa vida pá, tenho casa, carro, marido e filhos para cuidar, xiça, raios e coriscos, ai cu'a breca - falo de uma coisa que em tem assaltado a cabeça de vez em quando..Er. Calma lá. O que era mesmo? L. (Fica pá próxima meus amigos..)
julho 11, 2007
"Cobras, cenas e sonhos.."
Pois é.
Ontem tive um sonho horrível. Acordei meio suada, meio azambuada com o realismo das imagens que, minutos antes, visionara através do obscuro da minha mente. Corri para o frio de um duche matinal, na esperança que me acordasse e me libertasse dessas memórias (com bastante significado, diga-se). A água escorria e lambia-me..eu fechei os olhos e vi-a. A serpente.
Estava com alguém, não sei quem é, não me perguntem. Um desconhecido - alto, moreno e qualquer coisa como bastante afável - acompanhava-me numa viagem algures. Íamos sorridentes e felizes como se pertencêssemos a uma película de Hollywood. Hum, era bom era. Mas a parte a seguir piorou..
Abri os olhos.."err..champô, champô..". Meti daquele líquido químico no cabelo, semi adormecida, e voltei ao meu sonho. S. Ela lá estava no sonho. Uma data de acontecimentos bizarros sucederam-se, encadeados, para me magoar e atingir. Eu corria, fugia, estripava-me e o "desconhecido" lá estava para me proteger. Estranha esta sensação de ter uma brasa, que não conheço de todo, num sonho, a dar-me o seu ombro amigo para consolo.
Depois de tamanha recilagem de planos zoom, de correrias em telhados e de música ambente, só me recordo de uma última cena - digo "cena" porque encaro os meus sonhos como filmes, autênticas aventuras em forma de curta-metragem que me possuem a mente -. Um corredor de um avião. Os compartimentos por cima dos assentos dos passageiros. Eu, sozinha e esfarrapada. Dirijo-me a um compartimento em busca de algo, não sabendo bem o quê, mas temendo a armadilha que se encontre no seu interior. E, passo a passo, decidi avançar, caminhar em direcção ao perigo, como se fosse inevitável e bom. Cada vez melhor. Abri o compartimento cautelosamente. Variada bagagem de mão, composta por malinhas de médias dimensões, compunha o espaço. Observei. "Ts, tssss...". Pânico. Uma serpente ali demabulava..aproximei-me. Sagaz e atenta vislumbrei uma cabeça ovulada e ondulante a surgir com os olhos a faiscar no ambiente soturno do espaço. Por fracções de segundos agitou a língua com languidez para, no momento a seguir, atacar, mas !pás! Reagi, num ápice de segundo, e fechei a tampa, batendo na cabeça da serpente que tinha atacado na minha direcção. Uma, duas, três vezes. Continuei num esforço árduo para não sentir a camada adiposa do réptil no meu braço.
Silêncio. A cabeça do animal estava esmagada, o sangue espesso escorria. Abri o compartimento, vasculhei o interior, repugnada pelo olhar da serpente me atingir fulminante, e deparei com a mala da S. Percebi, de imediato, tudo. Era no interior do objecto que estaria a cobra certamente. "Mais uma tentativa falhada...". Senti o corpo fraquejar naquele momento e o coração a latejar. Por muito que me esforçasse não conseguia entender a obstinação na minha morte. Encontrei documentos dela. Uma foto de passe com cabelo entrançado. Um livro de feitiços, bruxaria e maldições. Vasculhei e boquiaberta, congelei. Nem queria acreditar. Na 1ª página do pesado livro estava uma foto minha, para minha admiração e, por baixo, uma legenda: "A nossa vítima/ alvo". Inveja, azar no trabalho e no amor. Estava lá tudo. Larguei tudo e desatei a chorar, enquanto deslizava até ao chão alcatifado..O desconhecido surgiu. "Lara, estás bem?" Abraçou-me fortemente e beijou-me como se fosse o último instante antes do mundo acabar. Nesse momento ouvia-se como pano de fundo.."Porquê?..Te esqueceste de mim..assim?..Diz-me porquê..".L.
Ontem tive um sonho horrível. Acordei meio suada, meio azambuada com o realismo das imagens que, minutos antes, visionara através do obscuro da minha mente. Corri para o frio de um duche matinal, na esperança que me acordasse e me libertasse dessas memórias (com bastante significado, diga-se). A água escorria e lambia-me..eu fechei os olhos e vi-a. A serpente.
Estava com alguém, não sei quem é, não me perguntem. Um desconhecido - alto, moreno e qualquer coisa como bastante afável - acompanhava-me numa viagem algures. Íamos sorridentes e felizes como se pertencêssemos a uma película de Hollywood. Hum, era bom era. Mas a parte a seguir piorou..
Abri os olhos.."err..champô, champô..". Meti daquele líquido químico no cabelo, semi adormecida, e voltei ao meu sonho. S. Ela lá estava no sonho. Uma data de acontecimentos bizarros sucederam-se, encadeados, para me magoar e atingir. Eu corria, fugia, estripava-me e o "desconhecido" lá estava para me proteger. Estranha esta sensação de ter uma brasa, que não conheço de todo, num sonho, a dar-me o seu ombro amigo para consolo.
Depois de tamanha recilagem de planos zoom, de correrias em telhados e de música ambente, só me recordo de uma última cena - digo "cena" porque encaro os meus sonhos como filmes, autênticas aventuras em forma de curta-metragem que me possuem a mente -. Um corredor de um avião. Os compartimentos por cima dos assentos dos passageiros. Eu, sozinha e esfarrapada. Dirijo-me a um compartimento em busca de algo, não sabendo bem o quê, mas temendo a armadilha que se encontre no seu interior. E, passo a passo, decidi avançar, caminhar em direcção ao perigo, como se fosse inevitável e bom. Cada vez melhor. Abri o compartimento cautelosamente. Variada bagagem de mão, composta por malinhas de médias dimensões, compunha o espaço. Observei. "Ts, tssss...". Pânico. Uma serpente ali demabulava..aproximei-me. Sagaz e atenta vislumbrei uma cabeça ovulada e ondulante a surgir com os olhos a faiscar no ambiente soturno do espaço. Por fracções de segundos agitou a língua com languidez para, no momento a seguir, atacar, mas !pás! Reagi, num ápice de segundo, e fechei a tampa, batendo na cabeça da serpente que tinha atacado na minha direcção. Uma, duas, três vezes. Continuei num esforço árduo para não sentir a camada adiposa do réptil no meu braço.
Silêncio. A cabeça do animal estava esmagada, o sangue espesso escorria. Abri o compartimento, vasculhei o interior, repugnada pelo olhar da serpente me atingir fulminante, e deparei com a mala da S. Percebi, de imediato, tudo. Era no interior do objecto que estaria a cobra certamente. "Mais uma tentativa falhada...". Senti o corpo fraquejar naquele momento e o coração a latejar. Por muito que me esforçasse não conseguia entender a obstinação na minha morte. Encontrei documentos dela. Uma foto de passe com cabelo entrançado. Um livro de feitiços, bruxaria e maldições. Vasculhei e boquiaberta, congelei. Nem queria acreditar. Na 1ª página do pesado livro estava uma foto minha, para minha admiração e, por baixo, uma legenda: "A nossa vítima/ alvo". Inveja, azar no trabalho e no amor. Estava lá tudo. Larguei tudo e desatei a chorar, enquanto deslizava até ao chão alcatifado..O desconhecido surgiu. "Lara, estás bem?" Abraçou-me fortemente e beijou-me como se fosse o último instante antes do mundo acabar. Nesse momento ouvia-se como pano de fundo.."Porquê?..Te esqueceste de mim..assim?..Diz-me porquê..".L.
junho 21, 2007
"Do sul para o norte e vice-versa.." (VO - XSA)
Long time no see.
Há tanto tempo que não visito, expressamente e verdadeiramente, o meu blog, que me perco, a mim mesma, quando incorro na tentativa de compilar mentalmente este último mês e meio. Mas amigos..Voltei com mais histórias pessoais de vida..(isto é, se é que há alguém realmente interessado em ouvi-las e eventualmente partilhar comigo outras tantas suas..cof cof..foi só uma pequena dica para dizer..FDX! Enviem comentários! É a mesma coisa que pedir a opinião a um amigo e dizer "Sei lá"..Bah!)..Alegria, alegria..A vida são dois dias e o Carnaval três - já dizia a outra fulana, insistentemente aos meus ouvidos numa tentativa de fazer renascer o meu lado mais enérgico.
Depois daquela semana que já descrevi lá pelos algarves, voltei ao meu estado prévio, ou seja, voltei ao desemprego. Dei o meu melhor, mais uma vez, e enviei dezenas e dezenas de currículos, na tentativa de encontrar algo à minha medida, digamos. Apesar de querer seguir jornalismo e de desejar aprender (já que é inegável a minha ainda grande inexperiência na matéria), tinha - e tenho - consciência que essa não é uma área fácil e enviei CV's para tudo que mexesse, tivesse perninhas e implicasse ganhar umas belas massas ao fim do mês. Foi o que eu fiz e não muito tempo depois, tive respostas. Depois da chegada do desespero após três semanas de sedentarismo caseiro (ou algo mesmo muito perto disso), fui a uma entrevista para um emprego, aparentemente interessante, e acabei por ficar. (Paralelamente a isto, deparo-me com outro tipo de mudanças, mais confusas, contudo inevitáveis. Essas já não posso revelar, ou não quero. Talvez um dia.)
Mas, quer acreditem ou não, ainda não foi desta que arranjei "o" trabalho. Para mal dos meus pecados de geminiana irrequieta, fui parar a um sítio com um objectivo digno..O pormenor era que não havia dinheiro para fazer vingar causa tão sobejamente nobre..Aqui a vossa puma estava numa Associação Cultural a trabalhar no Gabinete de Comunicação. Fazia contactos, enviava e-mails, na tentativa de promover as ideias e o trabalho da empresa..Só que..epá..só via pessoas a ligar para pedir dinheiro que a empresa deve, falta de motivação dos meus colegas que já lá estavam e uma desorganização brutal por parte do manda-chuva. Modos que, uma vez mais, percebi que aquele não era o caminho. Já volto. L.
maio 07, 2007
"...UM bota de elástico.."
Caros amigos, venho por este meio fazer uma correcção. Há uns posts atrás falei de alguém que se referia a si mesmo como "uma bota de elástico". A mesma pessoa já me corrigiu, pois a expressão usada em português correcto é "um bota de elástico" e não no feminino, "uma bota de elástico", como eu tinha colocado. Obrigada, Z.!! ( O "arrumador" de uma fábrica cheia de sonhos..)
Quem detectar mais erros ou gralhas, por favor, queira contactar e avisar! Devia ter um prontuário sempre ao pé de mim..L.
Quem detectar mais erros ou gralhas, por favor, queira contactar e avisar! Devia ter um prontuário sempre ao pé de mim..L.
maio 06, 2007
Tivoli, sono e emoções (III)
"..Tonight make me unstopable.."
Imparável. Dia após dia, hora após hora. Era assim que eu e a equipa da SPC Tv estávamos, à medida que a missão se aproximava do seu fim. O canal funcionava sempre, de manhã à noite, na maioria do tempo, com transmissões em directo das tais salas com designação mitológica. Conferências ou mesas-redondas para discutir pseudo-temas (e sub-temas) da Cardiologia, estava tudo em efervescência intelectual. Nós, por outro lado, já andávamos um quanto ou nada fatigados. Ah pois é, bébé. A dormir 2 ou 3 horas por noite, epá, não há crânio ou mente genial alguma que resista.
"..5 estrelas.."
E o que há mais a dizer sobre o XXVIII Congresso Português de Cardiologia e a SPC Tv? Isso agora..Havia muito mais a dizer, mas pouco que se possa concretizar aqui, neste momento. Existiram momentos muito especiais que neste momento nem sei como descrever. Acho que estou bloqueada..Não, estou bloqueada mesmo, confesso. Já se passou semana e meia ou mais, desde que deixei Vilamoura. Eu e as minhas colegas jornalistas abalámos, já que o evento já tinha acabado e não estávamos ali a fazer mais nada. O resto da equipa teve de ficar mais um dia por questões técnicas (desmontar e fazer desaparecer tudo, como por magia, daquela sala que outrora foi a SPC Tv).
Quando deixei aquela sala, deixei-a a pensar que era mais um fim de dia de trabalho. A seguir ia para o hotel ou passear pela marina com alguém, ou ia comer. Não sei. Mas não foi nada disso. Era um "adeus", quiçá um "até já", todavia pesado e sentido. Latejou. O meu coração tremeu perante aquela saída da minha vida, durante a última semana. Uma vida completamente diferente e pela qual já estava totalmente - e irremediavelmente - apaixonada. As personagens do filme da minha vida já não eram as mesmas..ou seria aquela semana apenas um capítulo que tinha chegado ao fim? Sim, era uma mini história, uma curta metragem. Uma vivência com as características dos eternos e melhores prazeres da vida. Curta mas intensíssima. Como se cada segundo valesse por horas. No final de contas aquela semana era quase um mês, tantas eram as experiências que tinham sido acumuladas. De cheiros, sabores, sons, fragâncias que ondulavam no ar como borboletas. Chamavam-me a atenção. Montes delas. Ao mesmo tempo. E eu não conseguia absorver tudo. Aquela água da marina, esverdeada e suja, o ar húmido reforçado pelos chuviscos que me beijavam a cara, o "cheiro" a bifes e turismo por todo o lado.
Reti essas imagens e escapei, escapei daquela sala com o olhar contaminado de pena, de tristeza. Escondi-me o mais que pude. De mim mesma, dos outros. Coloquei os óculos escuros e camuflei a vergonha que sentia. Não queria que me vissem assim e, ao mesmo tempo, não conseguia mostrar outra coisa. Não podia. "Foi um autêntico Big Brother..", dizia-me a C. Sim, pois foi. Deixei Vilamoura para trás. Não sei se também deixei todos os que conheci. Talvez mais cedo do que julgue, os volte a observar. Talvez não e faça já parte do passado. Mas uma coisa é certa. Nunca esquecerei as memórias. Essas..já ninguém mas tira. L.
maio 01, 2007
Tivoli, sono e emoções (II)
"Nunca vi um caso tããã gravee.."
No meio de bastantes homens, de idades variadas, as meninas jornalistas encaixaram-se bem e logo, logo, começaram a entrar nas conversas que se passavam à mesa. Pormenores não serão discutidos aqui (epá, tenham dó que eu ainda respeito a minha privacidade e a dos outros igualmente ), mas poderão, eventualmente, ser revelados certos dados passíveis de muita coisa (que eu agora não vou explicar, escusam de tentar encontrar alguma história para levar ao "24 Horas"..).
Nos primeiros dois dias, eu e as minhas compinchas do jornalismo, não fizemos (quase) nada. Andámos a passear pela Marina de Vilamoura, com os seus iates ingleses à tona de água esverdeada turva. A ansiedade era muita. Eu estava contente por ali estar, acima de tudo por ter a oportunidade de aprender e de trabalhar numa área que francamente gosto. O facto de poder vir a fazer directos era um grande factor de estímulo. O factor "comunicação em bruto", no local, na hora, sem filtragens ou tratamentos antes, constituía o maior desafio para mim. O ter que se transmitir a informação certa, na altura certa, de forma precisa e objectiva, juntamente com o maior número de dados possível. É a chamada síntese jornalística que dá a volta à cabeça de muita boa gente..Mas enquanto o trabalho e o stress não chegavam (deviam ir pela estrada nacional, cheia de curvas e sobressaltos) aproveitou-se para apreciar as vistas, ir às lojas, apanhar ar fresco e até experimentar a borbulhagem do jacuzzi. Experiência essa deveras divertida para todos, especialmente para os bifes presentes no momento eu que escorreguei, ao tentar sair do dito jacuzzi, torci o pé e caí para trás, aterrando na espuma fofinha da água gaseada. Foi uma risada geral e já não sei quem riu mais. Se fui eu ou os ingleses, com uma tosga, ali mesmo ao meu lado.
"Ai se eu fosse uma bota de elástico.."
Não me teria, jamais, contratado. Pois claro que não. Era o que o Z. me dizia muitas vezes quando eu me punha com ar de malandra. É que nem eu me contratava a mim própria.
(Ir para uma entrevista muito descontraída, com a linguagem mais coloquial possível (hey, não confundam é descontracção com falta de educação e brejeirice, que isso eu não fiz nesse dia lol..), rir às toneladas e pedir para ficar com um homem no quarto em vez de uma mulher (é óbvio que não estava a falar a sério..), são factores fortíssimos para..levar um chuto e ir para o olho da rua. De facto, acabei por ir ir embora para a rua, mas sem a parte do chuto. senti-me envergonhada e apetecia-me enfiar num buraco, mas naquele dia disse não às convenções sociais, ao "politicamente correcto" e fui eu própria. Espontânea e natural. Não estudei o discurso, limitei-me a dizer o que tinha a dizer, jogando, de forma humorística, com as palavras. E lá foi. Foi tão bem que, no próprio dia, me ligaram e requisitaram. Fiquei feliz. Muito mesmo. Como não me sentia há algum tempo. )
Mas, lá começou o trabalho, a distribuição de tarefas. Finalmente tínhamos redacção. Pequena mas bonita. Toda a equipa trabalhava num único espaço, bastante amplo. Seria certamente uma das várias salas de reuniões existintes no hotel, emprestada à SPC Tv. Era uma Gemini. Havia a sala Neptuno, Pégaso, Fénix, da I até à III..Não me perguntem a razão para estes nomes. Talvez por motivos mitológicos e astronómicos. Mas eram salas com denominações muito sui generis. Eu gostava. Parecia que estava numa dimensão superior à da realidade. Talvez lá pudesse encontrar deuses gregos e seres mitológicos que me fizessem companhia nas horas mortas. Contudo, não havia tempo para vaguear e havia que ser muito objectiva, assimilar a realidade daquele Congresso e limitar-me a viver nela. Nada mais. Na nossa Régie, havia um cantinho para a Redacção, Direcção de Programas, Mini bar..Vejam lá que até tínhamos uma máquina de café. Eu, que quase nunca bebo café, dei por mim a beber 4 e 5 cafés ao dia. Como dormia muito pouco, era a única forma de conseguir render alguma coisa. Foram oito dias esgotantes fisicamente. Cada uma de nós estava vocacionada para certas coisas, trabalhava em coisas diferentes. Só que, por muito estranho que pareça, apenas havia um editor e um digitalizador. As cassetes acumulavam-se e antes que pudéssemos trabalhar as nossas peças jornalísticas, quase que caía o Carmo e a Trindade. Felizmente, o nosso editor valia por vários. Trabalhava bem, dava sugestões e mais. Era giro e fofo. Adorava brincar com ele e, talvez por isso, ele tenha sido uma chave importante nesta aventura algarvia. Tornou-se um amigo, talvez mesmo "o" amigo.
"..More than words.."
Em certas alturas as palavras não chegam para expressar as emoções que surgem e, inexplicavelmente, ficamos presos a nós próprios. Para quê forçar uma coisa? Porque hei-de tentar transmitir a alguém um sentimento tão meu e tão individual, que sei, à partida, que ninguém vai entender? Um dia à noite, senti-me assim por segundos. Fechada, abafada. Não sei dizer o porquê. Era desconfortável e não conseguia responder. Sem demoras, levantei-me do nada e fui deambular pela marina. Muito se especulou sobre este meu escape repentino e posso garantir, desde já, que se especulou demasiado em coisas que nada tinham a ver. Quis sair, apanhar ar fresco, sentir-me viva. Tinha emoções contidas, fechadas e isso fez-me sentir angustiada. O turbilhão de emoções, cá dentro, que cresce, desenvolve e morre, naturalmente. Mas para que isso aconteça, tem de ser canalizado para algum lado. Através de mim. Dei por mim, totalmente desnorteada, à deriva, entre as luzes de néon, a brisa cortante e o olhar turvo. "Tens lume?" Era ele, o meu guardião. Veio atrás de mim e não ficou nunca totalmente satisfeito, com nenhuma das minhas respostas. A verdade é que não tinha nada de concreto para lhe dizer. M. Uma das personagens mais misteriosas daquele grupo, sempre conseguiu ver-me por detrás da minha aparência. Especialmente por detrás "dos olhos castanhos, misteriosos e profundos, sem fim". Realmente, não sei qual é o fim deles.
"..vou tentar falar com um senhor que se aproxima de óculos.."
Finalmente consegui. Fiz o meu primeiro directo. Foi antes da hora de almoço, no corredor do hotel, perto da recepção e do espaço SPC. Foi uma emoção e acho que me saí bem, mas preciso de ver as imagens..claro. A ideia era apanhar médicos congressistas e captar a sua opinião em relação ao evento. O engraçado era perceber a dificuldade que se tinha de se conseguir falar com alguém..pois, toda a gente fugia..mas, com jeitinho e sorte, lá apanhei uns passarocos de ar importante e tal..Estava a tremer de nervosismo, de excitação, felicidade. Foi uma experiência..a quadriplicar. Sim, porque foram quatro directos. Nem sei como saí de lá viva. L.
abril 29, 2007
Tivoli, sono e emoções (I)
É inacreditável as pessoas que entram na nossa vida e saiem dela, no momento a seguir. Eu já perdi a conta. É como se andasse sem destino certo, sem rumo definido, parando na estação A, depois vou para a B e por aí fora. Dá-me gozo andar de sítio em sítio, a descobrir novas vistas, mas depois sou obrigada a voltar para o comboio e parar noutra paisagem. Familiar ou não. É assim que me sinto. É certo que a estabilidade é algo difícil de alcançar nos dias que correm (e no meu caso, ainda mais complicado é), mas não deixa de ser um estado de espírito necessário para uma vida mental, minimamente, saudável. Quando falo de estabilidade, não me refiro necessariamente à estabilidade física. Esta poderá ser, porém, também um factor que contribui para nos estabelecermos no quotidiano e termos, bem presente na nossa mente, quem somos..ou quem queremos ser um dia.
"Desculpa..Será que alguma vez me poderás perdoar?"
Pois é. As pessoas entram e saiem da nossa vida..mas eu não disse que era algo que me agradasse realmente, pois não? Especialmente pessoas que conhecemos e parecem droga, viciam-nos, atingem o nosso coração com um veneno que embriaga. Digo veneno porque apesar de nos saber bem, só nos afecta e magoa. Cega-nos e impede-nos de ver a realidade. É uma espécie de obsessão que vai crescendo, que não nos deixa respirar para fora daquele universo que temos com aquela pessoa. É novo, diferente, ficamos bem. Então porque é que tudo corre mal? Gostava de ter a resposta para esse enigma, infelizmente não passo de uma menina-mulher em fase de crescimento constante. Apenas posso tentar dar algumas respostas para questões "mais ou menos" familiares.. Mas, mesmo assim, não acredito que a racionalidade seja a base para desvendar todos os mistérios. Porque não. O mundo é feito de pessoas, de cálculos, mas de emoções também. É totalmente inútil ficar a remoer o dia inteiro numa questão que pode ter mil explicações. Nunca vou poder descobrir a resposta, sozinha com o meu poder cognitivo e racional. Esqueçam isso, meus amigos.
E, por muito que racionalize os actos ou reacções de outra pessoa, é tempo perdido quando ela dá provas de não ser digna de mim mesma. É uma desilusão. Sabem quando vocês têm tudo na vossa cabeça organizado, tinha corrido tudo tão bem, era simplesmente aquela pessoa que vos ia salvar de uma situação qualquer - meramente existente e possível no cinema, mas que vocês fazem questão de transportar para a vossa vida, porque faz parte do ser humano fantasiar -, que vos ia dar dicas, apoiar para fazer algo de útil. Mas não. Tinha que acontecer a desilusão e sair tudo furado..Pronto, já sabem o que me aconteceu. Depois de várias tentativas, decidi desistir e esquecer. Queria estar contigo e tu comigo, mas nesses teus olhos só vejo é furor desenfreado, pela caça e pelo prazer. Tiro-te de mim mesma. Esquece-me.
"..Meninas, não liguem à minha condução, porque nunca guiei este carro.."
Depois de receber a esplêndida notícias que iria para o Algarve fazer um trabalho como jornalista, tudo se tornou mais simples. Conheço-me. Quando viajo fora de casa, saio da minha vida. Tiro férias e, geralmente, quando volto já não sou a mesma. Há sempre alguma coisa que muda. Nem que seja o que se espelha no olhar. Neste caso, iria para Vilamoura cobrir o XXVIII Congresso Português de Cardiologia, organizada pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia..Sociedade essa, resta dizer, que nos contratou. Uma equipa inteira de televisão, constituída por técnicos audiovisuais e jornalistas, para formar a SPC Tv, o canal interno da Sociedade Portuguesa de cardiologia e, neste caso, com o objectivo primordial de focar por completo o Congresso. Foi uma semana muito interessante e positiva, devo ressalvar. A régie da SPC Tv foi construída pelos técnicos que, com o seu trabalho árduo, fizeram um canal de teelvisão físico, em dois dias. Os meus parabéns a todos eles, porque sem eles nada do que fizemos seria possível. Fui uma jornalista, mas não passei disso mesmo, porque sem a ajuda deles, nada do que pudesse fazer, iria ser visível nos diversos plasmas espalhados no hotel Tivoli Marinotel, onde decorreu o evento.
Éramos três miúdas, três jornalistas que partiram num punto metalizado (realmente é irónico..) em direcção ao sol e ao calor..Só que..hey..não távamos de férias, remember? Também não foi complicado perceber isso..Para além do tempo não ter estado propriamente fabuloso, senti-me uma estrangeira no meu próprio país, o que não deixa de ser desagradável.. Tudo isto porque não havia mais portugueses no hotel onde estávamos hospedados, para além da equipa. Parrece estranho, mas é verdade. E mesmo com as minúsculas gotas de chuva que caíam, muitas "bifas" continuavam a pedir toalhas para a piscina. Pois. Secalhar era mesmo para se protegerem, coitadas. De calções e fato de banho, ali na recepção, logo pela manhã e com o frio que estava. Agora sim, tudo faz muito mais sentido..(ahah). Vila Galé era o nome da nossa estalagem pós-laboral. Durante uma semana seria o nosso poiso, a nossa cama de palhas, o que vocês quiserem lhe chamar. Realmente era um hotel. Só lá ia para dormir basicamente..e não foi grande coisa. L.
abril 09, 2007
!26! (III)
"Um Baileys..de menta..pode ser."
00:30. Deixámos o "vega power" para trás e arrastámo-nos por essas ruas da cidade das sete colinas. Destino: Bairro Alto. O T. ficou contente com a minha prenda e eu, ainda mais, por ter contribuído para a sua satisfação naquele momento. Estava um frio de fazer rachar as pedras da calçada e o meu nariz, que já tinha voltado ao seu estado normal, antes de eu ter ido jantar. Completamente e totalmente dormente. Talvez por esse motivo apenas me recordo de seguir as pernas. Aliás, as pernas seguiam o grupo que, de forma mais ou menos harmoniosa, se iam juntando aos pares, por aquelas ruelas abaixo. Mas o frio era tanto, que quase chorava e limitava-me a seguir o rebanho.
Paragens, arranques, paragens. Alguém parava porque a amiga aparecia (lembro-me dessa situação com a A.) e o grupo parava. "E vamos lá malta..". Yo, espera lá mais um pouco que afinal não é desta." Pára, arranca. É quase igual ao trânsito na hora de ponta em Lisboa, acessos e arredores. Finalmente poisámos num barzito no pleno coração do bairro.
"Páginas tantas". Entrámos. Todo o universo do Jazz decorava o espaço ligeiramente sombrio e misterioso. As cores dominantes, ao invés do que se tinha verificado no "Terra", eram tendencialmente mais escuras, apesar de haver mais contrastes, mais extravagância. A neblina dava a entender a quantidade de jovens fumadores que lá se encontravam, desejosos de socializar pacificamente, entre um copo de puro álcool e uma gargalhada semi embriagada. A música Jazz inundava os nossos ouvidos e contagiava os membros corporais. Por pouco tempo, claro.
Sentámo-nos de roda de um poço que, curiosamente e eu não fazia a mínima ideia, é património arqueológico. Não tirei as dúvidas, mas penso que seja da época romana. Seja como fôr é um poço antigo que está conservado (nem por isso) e tapado, dento do bar. Como não havia mesa, juntamos cadeiras ali perto. O grupinho aumentou. Apareceram umas moças de nenhures que iniciaram uma linha de conversação ininterrupta com o D. e namorada. Eu por ali estava, a observar e a mandar postas de pescada. Se me apetecesse, claro.
"O que vão beber?". Ela era gordinha, aloirada e estava vestida de um vermelho vivo que a fazia distinguir das restantes silhuetas nocturnas do bar. Aparentava ser simpática. "Para mim..pode ser também um baileys..de menta sim", pedi. Só que na volta a rapariga descontrolou-se. Ia entregar uma garrafa de água que uma moça do grupo tinha pedido, moça essa que lhe fez sinal do género de insinuação "ó filha, a água é para aqui", mas a empregada de nariz empertigado não viu nada e deixou a garrafa ali em cima do poço. Ai, ai. Estragar o património é que não, sua besta..
O tempo passou, as conversas seguiram a sua devida orientação (que eu não vou revelar aqui, era o que faltava falar na conversa que tive sobre jornalismo com o B. e que a irmã da namorada do D. estuda em Coimbra..bah). E o tempo não voltou atrás. Hora de bazar. Segui com o T. e a A. para fora dali. Tínhamos que apanhar os transportes e eram os últimos da noite. Eu tinha a ligeira suspeita que não tinha comboio, coisa nenhuma, mas não consegui confirmar através da linha da CP. No meio da multidão borracha, lá nos íamos empurrando, tentando não perder o próximo de vista. Na realidade, dezenas de jovens espalhavam-se nas ruas, com copos de plástico, garrajas de vinho ou um cigarro queimado por entre os dedos. Os olhares concentravam-se à medida que galgávamos aquelas ruelas, em velocidade turbo - e se não era mais é porque, de facto, não era de todo possível -.
2:15. Faltava um quarto de hora para o comboio arrancar. Um grupo de amigos bêbados entovam cânticos e deidicavam-nos "qualquer cena um pouco fatela" à medida que furávamos as filas desordenadas. Na altura da bifurcação disse "e se não houver comboio?". "Ligas-me que eu te ajudo.", disse o T. Dito e feito. Ignorei os olhares salivados dos homens que por ali se quedavam e marchei para a estação..que já estava fechada. Bingo. Não havia mais comboios. Liguei para o T., que por correr em pressas para apanhar o último barco - esse sim existia, não era fruto da imaginação ou fantasia dele -, mal conseguia falar. Enviou-me os contactos dos amigos que tinham carro e que tinham estado connosco nessa noite e, após uns telefonemas junto à praça de táxis do Cais do Sodré, o problema estava resolvido. Bastava aguardar.
Frio, frio, frio. Grupos de jovens passavam. Dois bêbados sentaram-se nas escadas, ao meu lado a falar de ganzas e tal. Comecei a achar que ainda me iam vender produto e afastei-me mais um pouco. Andava de um lado para o outro, esperando não gelar mas tornava-se complicado, com tanto táxi confortável à minha frente, aguentar a espera, numa altura em que já deviam ser perto das 3 da manhã. Dois indivíduos aproximaram-me para tomar um táxi.
"Não quer vir connosco?", interrogou-me o fulano loiro de cabelo farfalhudo e escaracolado, depois de ir-se preparar para abrir a porta do fogareiro à minha frente. "Err..para onde vão?". "Lux, vamos para a noite agora", respondeu-me. Continuei na minha, mas aprochegaram-se e encheram-me de perguntas que não tive problemas em responder, pois não eram segredo de estado. Mantive a serenidade e disse para irem lá para a night, curtir o que quisessem, que eu queria era ir para casa. "Ah esse teu amigo que vai boleia deve ser uma brasa, não o conheces e já vais com ele? Mas tu acreditas em histórias da carochinha?", palavras que me enchiam os ouvidos. Blá, blá, blá. Atitude típica do homem para dissuadir uma mulher de ir com outro. Tudo para que ela possa ir, isso sim, com ele. "Ah miúda, és gira. Com esse cabelo cajú e essa carinha linda deves ter quem queres..". Comentários ridículos ou escusados à parte, só me senti melhor com a chegada do B., depois das tentativas de assédio e propostas irrecusáveis para travar conhecimentos no mundo do jornalismo. Quer dizer, eu recusei.
"Ah o meu amigo já chegou, já pode avaliar à vontade", disse para o loiro com ar de choné. Ei-lo. B., no seu Citröen C2, prestes a salvar-me das garras do inimigos, com vários kilos de parafusos a menos. Na viatura vermelha e redondia, lá estava ele com um ar apático, interrogativo e meio pálido, mesmo com a barba arruivada a dar alguma côr. Fixou-me à espera de um sinal e de compreender que diabo se passava, mas não foi preciso muito tempo para entender. "Dá-me o teu número, miúda.", insistiam os destrambalhados. Devia ser a hora do circo. Disse simpaticamente não e deixei aqueles senhores, com ar de homossexuais - não que eu tenha alguma coisa contra, óbvio que não, mas juro que pareciam - seguir a sua vida. O B. lá estava dentro do carro, com um ar meio que duvidoso. "Já tavas a levar com eles não foi? Percebi logo." Sacou de um cigarro e acendeu-o enquanto nos dirigíamos ao semáforo. Com a janela semi aberta e a música alta, lá fui contanto a peripécia. Na sua camisola de algodão alaranjada, sereno, de olho escuro e afável, o B. deixou escapar "Ya, há malucos para tudo".
A noite podia ainda ser uma criança, mas só se fossem para os outros. O B. tinha sede e queria estacionar o carro para ir buscar uma água. Não coloquei objecções e o rapaz com ar de "puto rebelde" de brinco discreto na orelha e cabelo com jeitos, lambido com gel, lá parou o carro.
"Pam, pam, pam!"..."Tu mentiste-me! Tu mentiste-me!!". Era o loiro a bater no vidro da minha janela. Atrás de nós estava um táxi..o táxi deles, dos malucos que aturei durante 10 minutos! O B. estava perplexo. "Mas que merda é esta?! Foda-se!". Arrancou a fundo, com vontade de desaparecer da vista daqueles maluquinhos, e parámos. Tudo para descomprimir da crazy race, uma autêntica perseguição que, sem dúvida, foi o ponto alto e baixo da noite. Alto em estupidez, baixo em utlidade. Mas sempre dá um bom episódio para descrever. L.
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