Caros amigos, venho por este meio fazer uma correcção. Há uns posts atrás falei de alguém que se referia a si mesmo como "uma bota de elástico". A mesma pessoa já me corrigiu, pois a expressão usada em português correcto é "um bota de elástico" e não no feminino, "uma bota de elástico", como eu tinha colocado. Obrigada, Z.!! ( O "arrumador" de uma fábrica cheia de sonhos..)
Quem detectar mais erros ou gralhas, por favor, queira contactar e avisar! Devia ter um prontuário sempre ao pé de mim..L.
Avança o mais que puderes, nesta Arte da Vida, surpreende os teus adormecidos sentidos, descobre os aromas perdidos e ataca-os, como se um poço de emoções te cobrisse com grãozinhos de areia geniais, dos pés à cabeça. Abre a tua caixa... Abre-a e enfrenta-a.
maio 07, 2007
maio 06, 2007
Tivoli, sono e emoções (III)
"..Tonight make me unstopable.."
Imparável. Dia após dia, hora após hora. Era assim que eu e a equipa da SPC Tv estávamos, à medida que a missão se aproximava do seu fim. O canal funcionava sempre, de manhã à noite, na maioria do tempo, com transmissões em directo das tais salas com designação mitológica. Conferências ou mesas-redondas para discutir pseudo-temas (e sub-temas) da Cardiologia, estava tudo em efervescência intelectual. Nós, por outro lado, já andávamos um quanto ou nada fatigados. Ah pois é, bébé. A dormir 2 ou 3 horas por noite, epá, não há crânio ou mente genial alguma que resista.
"..5 estrelas.."
E o que há mais a dizer sobre o XXVIII Congresso Português de Cardiologia e a SPC Tv? Isso agora..Havia muito mais a dizer, mas pouco que se possa concretizar aqui, neste momento. Existiram momentos muito especiais que neste momento nem sei como descrever. Acho que estou bloqueada..Não, estou bloqueada mesmo, confesso. Já se passou semana e meia ou mais, desde que deixei Vilamoura. Eu e as minhas colegas jornalistas abalámos, já que o evento já tinha acabado e não estávamos ali a fazer mais nada. O resto da equipa teve de ficar mais um dia por questões técnicas (desmontar e fazer desaparecer tudo, como por magia, daquela sala que outrora foi a SPC Tv).
Quando deixei aquela sala, deixei-a a pensar que era mais um fim de dia de trabalho. A seguir ia para o hotel ou passear pela marina com alguém, ou ia comer. Não sei. Mas não foi nada disso. Era um "adeus", quiçá um "até já", todavia pesado e sentido. Latejou. O meu coração tremeu perante aquela saída da minha vida, durante a última semana. Uma vida completamente diferente e pela qual já estava totalmente - e irremediavelmente - apaixonada. As personagens do filme da minha vida já não eram as mesmas..ou seria aquela semana apenas um capítulo que tinha chegado ao fim? Sim, era uma mini história, uma curta metragem. Uma vivência com as características dos eternos e melhores prazeres da vida. Curta mas intensíssima. Como se cada segundo valesse por horas. No final de contas aquela semana era quase um mês, tantas eram as experiências que tinham sido acumuladas. De cheiros, sabores, sons, fragâncias que ondulavam no ar como borboletas. Chamavam-me a atenção. Montes delas. Ao mesmo tempo. E eu não conseguia absorver tudo. Aquela água da marina, esverdeada e suja, o ar húmido reforçado pelos chuviscos que me beijavam a cara, o "cheiro" a bifes e turismo por todo o lado.
Reti essas imagens e escapei, escapei daquela sala com o olhar contaminado de pena, de tristeza. Escondi-me o mais que pude. De mim mesma, dos outros. Coloquei os óculos escuros e camuflei a vergonha que sentia. Não queria que me vissem assim e, ao mesmo tempo, não conseguia mostrar outra coisa. Não podia. "Foi um autêntico Big Brother..", dizia-me a C. Sim, pois foi. Deixei Vilamoura para trás. Não sei se também deixei todos os que conheci. Talvez mais cedo do que julgue, os volte a observar. Talvez não e faça já parte do passado. Mas uma coisa é certa. Nunca esquecerei as memórias. Essas..já ninguém mas tira. L.
maio 01, 2007
Tivoli, sono e emoções (II)
"Nunca vi um caso tããã gravee.."
No meio de bastantes homens, de idades variadas, as meninas jornalistas encaixaram-se bem e logo, logo, começaram a entrar nas conversas que se passavam à mesa. Pormenores não serão discutidos aqui (epá, tenham dó que eu ainda respeito a minha privacidade e a dos outros igualmente ), mas poderão, eventualmente, ser revelados certos dados passíveis de muita coisa (que eu agora não vou explicar, escusam de tentar encontrar alguma história para levar ao "24 Horas"..).
Nos primeiros dois dias, eu e as minhas compinchas do jornalismo, não fizemos (quase) nada. Andámos a passear pela Marina de Vilamoura, com os seus iates ingleses à tona de água esverdeada turva. A ansiedade era muita. Eu estava contente por ali estar, acima de tudo por ter a oportunidade de aprender e de trabalhar numa área que francamente gosto. O facto de poder vir a fazer directos era um grande factor de estímulo. O factor "comunicação em bruto", no local, na hora, sem filtragens ou tratamentos antes, constituía o maior desafio para mim. O ter que se transmitir a informação certa, na altura certa, de forma precisa e objectiva, juntamente com o maior número de dados possível. É a chamada síntese jornalística que dá a volta à cabeça de muita boa gente..Mas enquanto o trabalho e o stress não chegavam (deviam ir pela estrada nacional, cheia de curvas e sobressaltos) aproveitou-se para apreciar as vistas, ir às lojas, apanhar ar fresco e até experimentar a borbulhagem do jacuzzi. Experiência essa deveras divertida para todos, especialmente para os bifes presentes no momento eu que escorreguei, ao tentar sair do dito jacuzzi, torci o pé e caí para trás, aterrando na espuma fofinha da água gaseada. Foi uma risada geral e já não sei quem riu mais. Se fui eu ou os ingleses, com uma tosga, ali mesmo ao meu lado.
"Ai se eu fosse uma bota de elástico.."
Não me teria, jamais, contratado. Pois claro que não. Era o que o Z. me dizia muitas vezes quando eu me punha com ar de malandra. É que nem eu me contratava a mim própria.
(Ir para uma entrevista muito descontraída, com a linguagem mais coloquial possível (hey, não confundam é descontracção com falta de educação e brejeirice, que isso eu não fiz nesse dia lol..), rir às toneladas e pedir para ficar com um homem no quarto em vez de uma mulher (é óbvio que não estava a falar a sério..), são factores fortíssimos para..levar um chuto e ir para o olho da rua. De facto, acabei por ir ir embora para a rua, mas sem a parte do chuto. senti-me envergonhada e apetecia-me enfiar num buraco, mas naquele dia disse não às convenções sociais, ao "politicamente correcto" e fui eu própria. Espontânea e natural. Não estudei o discurso, limitei-me a dizer o que tinha a dizer, jogando, de forma humorística, com as palavras. E lá foi. Foi tão bem que, no próprio dia, me ligaram e requisitaram. Fiquei feliz. Muito mesmo. Como não me sentia há algum tempo. )
Mas, lá começou o trabalho, a distribuição de tarefas. Finalmente tínhamos redacção. Pequena mas bonita. Toda a equipa trabalhava num único espaço, bastante amplo. Seria certamente uma das várias salas de reuniões existintes no hotel, emprestada à SPC Tv. Era uma Gemini. Havia a sala Neptuno, Pégaso, Fénix, da I até à III..Não me perguntem a razão para estes nomes. Talvez por motivos mitológicos e astronómicos. Mas eram salas com denominações muito sui generis. Eu gostava. Parecia que estava numa dimensão superior à da realidade. Talvez lá pudesse encontrar deuses gregos e seres mitológicos que me fizessem companhia nas horas mortas. Contudo, não havia tempo para vaguear e havia que ser muito objectiva, assimilar a realidade daquele Congresso e limitar-me a viver nela. Nada mais. Na nossa Régie, havia um cantinho para a Redacção, Direcção de Programas, Mini bar..Vejam lá que até tínhamos uma máquina de café. Eu, que quase nunca bebo café, dei por mim a beber 4 e 5 cafés ao dia. Como dormia muito pouco, era a única forma de conseguir render alguma coisa. Foram oito dias esgotantes fisicamente. Cada uma de nós estava vocacionada para certas coisas, trabalhava em coisas diferentes. Só que, por muito estranho que pareça, apenas havia um editor e um digitalizador. As cassetes acumulavam-se e antes que pudéssemos trabalhar as nossas peças jornalísticas, quase que caía o Carmo e a Trindade. Felizmente, o nosso editor valia por vários. Trabalhava bem, dava sugestões e mais. Era giro e fofo. Adorava brincar com ele e, talvez por isso, ele tenha sido uma chave importante nesta aventura algarvia. Tornou-se um amigo, talvez mesmo "o" amigo.
"..More than words.."
Em certas alturas as palavras não chegam para expressar as emoções que surgem e, inexplicavelmente, ficamos presos a nós próprios. Para quê forçar uma coisa? Porque hei-de tentar transmitir a alguém um sentimento tão meu e tão individual, que sei, à partida, que ninguém vai entender? Um dia à noite, senti-me assim por segundos. Fechada, abafada. Não sei dizer o porquê. Era desconfortável e não conseguia responder. Sem demoras, levantei-me do nada e fui deambular pela marina. Muito se especulou sobre este meu escape repentino e posso garantir, desde já, que se especulou demasiado em coisas que nada tinham a ver. Quis sair, apanhar ar fresco, sentir-me viva. Tinha emoções contidas, fechadas e isso fez-me sentir angustiada. O turbilhão de emoções, cá dentro, que cresce, desenvolve e morre, naturalmente. Mas para que isso aconteça, tem de ser canalizado para algum lado. Através de mim. Dei por mim, totalmente desnorteada, à deriva, entre as luzes de néon, a brisa cortante e o olhar turvo. "Tens lume?" Era ele, o meu guardião. Veio atrás de mim e não ficou nunca totalmente satisfeito, com nenhuma das minhas respostas. A verdade é que não tinha nada de concreto para lhe dizer. M. Uma das personagens mais misteriosas daquele grupo, sempre conseguiu ver-me por detrás da minha aparência. Especialmente por detrás "dos olhos castanhos, misteriosos e profundos, sem fim". Realmente, não sei qual é o fim deles.
"..vou tentar falar com um senhor que se aproxima de óculos.."
Finalmente consegui. Fiz o meu primeiro directo. Foi antes da hora de almoço, no corredor do hotel, perto da recepção e do espaço SPC. Foi uma emoção e acho que me saí bem, mas preciso de ver as imagens..claro. A ideia era apanhar médicos congressistas e captar a sua opinião em relação ao evento. O engraçado era perceber a dificuldade que se tinha de se conseguir falar com alguém..pois, toda a gente fugia..mas, com jeitinho e sorte, lá apanhei uns passarocos de ar importante e tal..Estava a tremer de nervosismo, de excitação, felicidade. Foi uma experiência..a quadriplicar. Sim, porque foram quatro directos. Nem sei como saí de lá viva. L.
abril 29, 2007
Tivoli, sono e emoções (I)
É inacreditável as pessoas que entram na nossa vida e saiem dela, no momento a seguir. Eu já perdi a conta. É como se andasse sem destino certo, sem rumo definido, parando na estação A, depois vou para a B e por aí fora. Dá-me gozo andar de sítio em sítio, a descobrir novas vistas, mas depois sou obrigada a voltar para o comboio e parar noutra paisagem. Familiar ou não. É assim que me sinto. É certo que a estabilidade é algo difícil de alcançar nos dias que correm (e no meu caso, ainda mais complicado é), mas não deixa de ser um estado de espírito necessário para uma vida mental, minimamente, saudável. Quando falo de estabilidade, não me refiro necessariamente à estabilidade física. Esta poderá ser, porém, também um factor que contribui para nos estabelecermos no quotidiano e termos, bem presente na nossa mente, quem somos..ou quem queremos ser um dia.
"Desculpa..Será que alguma vez me poderás perdoar?"
Pois é. As pessoas entram e saiem da nossa vida..mas eu não disse que era algo que me agradasse realmente, pois não? Especialmente pessoas que conhecemos e parecem droga, viciam-nos, atingem o nosso coração com um veneno que embriaga. Digo veneno porque apesar de nos saber bem, só nos afecta e magoa. Cega-nos e impede-nos de ver a realidade. É uma espécie de obsessão que vai crescendo, que não nos deixa respirar para fora daquele universo que temos com aquela pessoa. É novo, diferente, ficamos bem. Então porque é que tudo corre mal? Gostava de ter a resposta para esse enigma, infelizmente não passo de uma menina-mulher em fase de crescimento constante. Apenas posso tentar dar algumas respostas para questões "mais ou menos" familiares.. Mas, mesmo assim, não acredito que a racionalidade seja a base para desvendar todos os mistérios. Porque não. O mundo é feito de pessoas, de cálculos, mas de emoções também. É totalmente inútil ficar a remoer o dia inteiro numa questão que pode ter mil explicações. Nunca vou poder descobrir a resposta, sozinha com o meu poder cognitivo e racional. Esqueçam isso, meus amigos.
E, por muito que racionalize os actos ou reacções de outra pessoa, é tempo perdido quando ela dá provas de não ser digna de mim mesma. É uma desilusão. Sabem quando vocês têm tudo na vossa cabeça organizado, tinha corrido tudo tão bem, era simplesmente aquela pessoa que vos ia salvar de uma situação qualquer - meramente existente e possível no cinema, mas que vocês fazem questão de transportar para a vossa vida, porque faz parte do ser humano fantasiar -, que vos ia dar dicas, apoiar para fazer algo de útil. Mas não. Tinha que acontecer a desilusão e sair tudo furado..Pronto, já sabem o que me aconteceu. Depois de várias tentativas, decidi desistir e esquecer. Queria estar contigo e tu comigo, mas nesses teus olhos só vejo é furor desenfreado, pela caça e pelo prazer. Tiro-te de mim mesma. Esquece-me.
"..Meninas, não liguem à minha condução, porque nunca guiei este carro.."
Depois de receber a esplêndida notícias que iria para o Algarve fazer um trabalho como jornalista, tudo se tornou mais simples. Conheço-me. Quando viajo fora de casa, saio da minha vida. Tiro férias e, geralmente, quando volto já não sou a mesma. Há sempre alguma coisa que muda. Nem que seja o que se espelha no olhar. Neste caso, iria para Vilamoura cobrir o XXVIII Congresso Português de Cardiologia, organizada pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia..Sociedade essa, resta dizer, que nos contratou. Uma equipa inteira de televisão, constituída por técnicos audiovisuais e jornalistas, para formar a SPC Tv, o canal interno da Sociedade Portuguesa de cardiologia e, neste caso, com o objectivo primordial de focar por completo o Congresso. Foi uma semana muito interessante e positiva, devo ressalvar. A régie da SPC Tv foi construída pelos técnicos que, com o seu trabalho árduo, fizeram um canal de teelvisão físico, em dois dias. Os meus parabéns a todos eles, porque sem eles nada do que fizemos seria possível. Fui uma jornalista, mas não passei disso mesmo, porque sem a ajuda deles, nada do que pudesse fazer, iria ser visível nos diversos plasmas espalhados no hotel Tivoli Marinotel, onde decorreu o evento.
Éramos três miúdas, três jornalistas que partiram num punto metalizado (realmente é irónico..) em direcção ao sol e ao calor..Só que..hey..não távamos de férias, remember? Também não foi complicado perceber isso..Para além do tempo não ter estado propriamente fabuloso, senti-me uma estrangeira no meu próprio país, o que não deixa de ser desagradável.. Tudo isto porque não havia mais portugueses no hotel onde estávamos hospedados, para além da equipa. Parrece estranho, mas é verdade. E mesmo com as minúsculas gotas de chuva que caíam, muitas "bifas" continuavam a pedir toalhas para a piscina. Pois. Secalhar era mesmo para se protegerem, coitadas. De calções e fato de banho, ali na recepção, logo pela manhã e com o frio que estava. Agora sim, tudo faz muito mais sentido..(ahah). Vila Galé era o nome da nossa estalagem pós-laboral. Durante uma semana seria o nosso poiso, a nossa cama de palhas, o que vocês quiserem lhe chamar. Realmente era um hotel. Só lá ia para dormir basicamente..e não foi grande coisa. L.
abril 09, 2007
!26! (III)
"Um Baileys..de menta..pode ser."
00:30. Deixámos o "vega power" para trás e arrastámo-nos por essas ruas da cidade das sete colinas. Destino: Bairro Alto. O T. ficou contente com a minha prenda e eu, ainda mais, por ter contribuído para a sua satisfação naquele momento. Estava um frio de fazer rachar as pedras da calçada e o meu nariz, que já tinha voltado ao seu estado normal, antes de eu ter ido jantar. Completamente e totalmente dormente. Talvez por esse motivo apenas me recordo de seguir as pernas. Aliás, as pernas seguiam o grupo que, de forma mais ou menos harmoniosa, se iam juntando aos pares, por aquelas ruelas abaixo. Mas o frio era tanto, que quase chorava e limitava-me a seguir o rebanho.
Paragens, arranques, paragens. Alguém parava porque a amiga aparecia (lembro-me dessa situação com a A.) e o grupo parava. "E vamos lá malta..". Yo, espera lá mais um pouco que afinal não é desta." Pára, arranca. É quase igual ao trânsito na hora de ponta em Lisboa, acessos e arredores. Finalmente poisámos num barzito no pleno coração do bairro.
"Páginas tantas". Entrámos. Todo o universo do Jazz decorava o espaço ligeiramente sombrio e misterioso. As cores dominantes, ao invés do que se tinha verificado no "Terra", eram tendencialmente mais escuras, apesar de haver mais contrastes, mais extravagância. A neblina dava a entender a quantidade de jovens fumadores que lá se encontravam, desejosos de socializar pacificamente, entre um copo de puro álcool e uma gargalhada semi embriagada. A música Jazz inundava os nossos ouvidos e contagiava os membros corporais. Por pouco tempo, claro.
Sentámo-nos de roda de um poço que, curiosamente e eu não fazia a mínima ideia, é património arqueológico. Não tirei as dúvidas, mas penso que seja da época romana. Seja como fôr é um poço antigo que está conservado (nem por isso) e tapado, dento do bar. Como não havia mesa, juntamos cadeiras ali perto. O grupinho aumentou. Apareceram umas moças de nenhures que iniciaram uma linha de conversação ininterrupta com o D. e namorada. Eu por ali estava, a observar e a mandar postas de pescada. Se me apetecesse, claro.
"O que vão beber?". Ela era gordinha, aloirada e estava vestida de um vermelho vivo que a fazia distinguir das restantes silhuetas nocturnas do bar. Aparentava ser simpática. "Para mim..pode ser também um baileys..de menta sim", pedi. Só que na volta a rapariga descontrolou-se. Ia entregar uma garrafa de água que uma moça do grupo tinha pedido, moça essa que lhe fez sinal do género de insinuação "ó filha, a água é para aqui", mas a empregada de nariz empertigado não viu nada e deixou a garrafa ali em cima do poço. Ai, ai. Estragar o património é que não, sua besta..
O tempo passou, as conversas seguiram a sua devida orientação (que eu não vou revelar aqui, era o que faltava falar na conversa que tive sobre jornalismo com o B. e que a irmã da namorada do D. estuda em Coimbra..bah). E o tempo não voltou atrás. Hora de bazar. Segui com o T. e a A. para fora dali. Tínhamos que apanhar os transportes e eram os últimos da noite. Eu tinha a ligeira suspeita que não tinha comboio, coisa nenhuma, mas não consegui confirmar através da linha da CP. No meio da multidão borracha, lá nos íamos empurrando, tentando não perder o próximo de vista. Na realidade, dezenas de jovens espalhavam-se nas ruas, com copos de plástico, garrajas de vinho ou um cigarro queimado por entre os dedos. Os olhares concentravam-se à medida que galgávamos aquelas ruelas, em velocidade turbo - e se não era mais é porque, de facto, não era de todo possível -.
2:15. Faltava um quarto de hora para o comboio arrancar. Um grupo de amigos bêbados entovam cânticos e deidicavam-nos "qualquer cena um pouco fatela" à medida que furávamos as filas desordenadas. Na altura da bifurcação disse "e se não houver comboio?". "Ligas-me que eu te ajudo.", disse o T. Dito e feito. Ignorei os olhares salivados dos homens que por ali se quedavam e marchei para a estação..que já estava fechada. Bingo. Não havia mais comboios. Liguei para o T., que por correr em pressas para apanhar o último barco - esse sim existia, não era fruto da imaginação ou fantasia dele -, mal conseguia falar. Enviou-me os contactos dos amigos que tinham carro e que tinham estado connosco nessa noite e, após uns telefonemas junto à praça de táxis do Cais do Sodré, o problema estava resolvido. Bastava aguardar.
Frio, frio, frio. Grupos de jovens passavam. Dois bêbados sentaram-se nas escadas, ao meu lado a falar de ganzas e tal. Comecei a achar que ainda me iam vender produto e afastei-me mais um pouco. Andava de um lado para o outro, esperando não gelar mas tornava-se complicado, com tanto táxi confortável à minha frente, aguentar a espera, numa altura em que já deviam ser perto das 3 da manhã. Dois indivíduos aproximaram-me para tomar um táxi.
"Não quer vir connosco?", interrogou-me o fulano loiro de cabelo farfalhudo e escaracolado, depois de ir-se preparar para abrir a porta do fogareiro à minha frente. "Err..para onde vão?". "Lux, vamos para a noite agora", respondeu-me. Continuei na minha, mas aprochegaram-se e encheram-me de perguntas que não tive problemas em responder, pois não eram segredo de estado. Mantive a serenidade e disse para irem lá para a night, curtir o que quisessem, que eu queria era ir para casa. "Ah esse teu amigo que vai boleia deve ser uma brasa, não o conheces e já vais com ele? Mas tu acreditas em histórias da carochinha?", palavras que me enchiam os ouvidos. Blá, blá, blá. Atitude típica do homem para dissuadir uma mulher de ir com outro. Tudo para que ela possa ir, isso sim, com ele. "Ah miúda, és gira. Com esse cabelo cajú e essa carinha linda deves ter quem queres..". Comentários ridículos ou escusados à parte, só me senti melhor com a chegada do B., depois das tentativas de assédio e propostas irrecusáveis para travar conhecimentos no mundo do jornalismo. Quer dizer, eu recusei.
"Ah o meu amigo já chegou, já pode avaliar à vontade", disse para o loiro com ar de choné. Ei-lo. B., no seu Citröen C2, prestes a salvar-me das garras do inimigos, com vários kilos de parafusos a menos. Na viatura vermelha e redondia, lá estava ele com um ar apático, interrogativo e meio pálido, mesmo com a barba arruivada a dar alguma côr. Fixou-me à espera de um sinal e de compreender que diabo se passava, mas não foi preciso muito tempo para entender. "Dá-me o teu número, miúda.", insistiam os destrambalhados. Devia ser a hora do circo. Disse simpaticamente não e deixei aqueles senhores, com ar de homossexuais - não que eu tenha alguma coisa contra, óbvio que não, mas juro que pareciam - seguir a sua vida. O B. lá estava dentro do carro, com um ar meio que duvidoso. "Já tavas a levar com eles não foi? Percebi logo." Sacou de um cigarro e acendeu-o enquanto nos dirigíamos ao semáforo. Com a janela semi aberta e a música alta, lá fui contanto a peripécia. Na sua camisola de algodão alaranjada, sereno, de olho escuro e afável, o B. deixou escapar "Ya, há malucos para tudo".
A noite podia ainda ser uma criança, mas só se fossem para os outros. O B. tinha sede e queria estacionar o carro para ir buscar uma água. Não coloquei objecções e o rapaz com ar de "puto rebelde" de brinco discreto na orelha e cabelo com jeitos, lambido com gel, lá parou o carro.
"Pam, pam, pam!"..."Tu mentiste-me! Tu mentiste-me!!". Era o loiro a bater no vidro da minha janela. Atrás de nós estava um táxi..o táxi deles, dos malucos que aturei durante 10 minutos! O B. estava perplexo. "Mas que merda é esta?! Foda-se!". Arrancou a fundo, com vontade de desaparecer da vista daqueles maluquinhos, e parámos. Tudo para descomprimir da crazy race, uma autêntica perseguição que, sem dúvida, foi o ponto alto e baixo da noite. Alto em estupidez, baixo em utlidade. Mas sempre dá um bom episódio para descrever. L.
abril 07, 2007
!26! (II)
"Com essa carinha e esse cabelo cajú.."
Aproximo-me, liberto um sorriso como cumprimento e sento-me ao lado do T. Apesar do seu aniversário ser apenas no dia a seguir, a ocasião reunia amigos íntimos e próximos, com a vontade, sempre normal e desejada, de lhe dar a merecida e devida atenção. Aos poucos a mesa foi-se recompondo, mais vozes enchiam a acústica da sala e a fome apertava. Caras conhecidas, outras menos, mas com características únicas.
"Ponche de maçã, faz favor..Traga dois jarros". A empregada era uma moça negra, de cabelos compridos, enfeitados com fininhas e perfeitas tranças. "Cláudia". Estava na chapa de identificação do uniforme vermelho escuro. Um vermelho que lembrava o calor, uma atmosfera quente, exótica que nos atirava para fora deste frio da tímida primavera em que vivemos. Lembrava a terra do continente africano, tal como tinha constatado no filme "Diamante de Sangue", e entendi que o nome do estabelecimento de restauração era realmente coerente. "Terra". A essência do conceito estava presente.
Fomos todos em conjunto para o buffett vegetariano que aguardava por nós, não conseguindo já controlar a ansiedade. Arroz com tofú, inúmeras saladas mistas, empadão..tudo com um ar muito apetitoso e que despertava as minhas glândulas salivares. O meu corpo, inclusivé a mão direita, - que se encontra na maioria das vezes gelada, não sei explicar porquê - estava agora em perfeita sintonia com a minha mente. Aquele sítio cheirava a vida, a gente, a pessoas, limpou-me o friozinho da ponta do nariz (sem limpar o rubor) e aqueceu todas as extremidades do meu corpo. Naquele momento a imagem que me vinha à cabeça era de uma enorme lareira, com chamas acesas que cuspiam calor, quilos de calor, "pallettes" de calor.
Segui, em amena cavaqueira, para a mesa e o meu lugar. Os "tlins" dos talhares impuseram-me num ambiente que, por si só, já era ensurdecedor, com dezenas de vozes distintas que compunham o tecto da sala. Risos, gargalhadas, sussurrares. Eram dezenas de registos, de acções diferentes que se sobrepunham à música clássica que saía, e se esfumava a posteriori, das colunas fixas nas paredes. Como se não bastasse, as pessoas comiam avidamente, riscavam os pratos com uma picada de um garfo e um deslizar arranhado de uma faca, gulosas pelo amontoado de comida no prato. Os copos roçavam os pratos, os talheres ou acidentalmente um cotovelo mais voador. E a poluição sonora, com tudo isto, não paráva de crescer.
Comi um prato muito cheio, ainda repeti e delicei-me com uma sobremesa fantástica: mousse de maracujá. E apesar da refeição ter chegado ao fim, do restaurante ficar menos povoado, o jantar não tinha acabado. Durante horas lá ficámos, em permanente comunicação. Ou com comentários sobre gémeos, touros ou carneiros; ou com discrições dos apanhados da famosa séria "Gente Gira"; ou com picanços que, como sempre, fazem parte de convívios e as delícias de cada um (embora não pareça).
Senti-me estranha. Distante. Viajava para fora daquelas quatro paredes e voltava, em muitas alturas distantes. Perdia-me nas piadas sórdidas e nos episódios pornográficos que eram contados mesmo ao meu lado. Estava presa aos meus pensamentos, mas um mimo do meu vizinho do lado fez-me voltar à minha realidade, aquela na qual me devia concentrar, a única que eu estava a viver. E a possível. Viver os passados ou os futuros, nunca nos deixam viver o presente. "Estás mesmo muito bonita, L.". Os meus olhos fixaram-no e deixei escapar um sorriso aberto e envergonhado, entre as minhas faces rosadas.
(To be.. ainda.. continued)
abril 05, 2007
!26! (I)
"Os homens pequeninos não chegam a todo o lado.."
"Rua da Palmeira? Ok, vou já aí ter! Beijo!". Subi disparada a Rua Garrett a todo o gás. As calças de ganga rasgadas, apelidadas de calças "à sem-abrigo" com inúmeros buracos, apertavam-me as pernas arredondadas que aqueciam à medida de cada passada. A respiração ofegante já se fazia sentir, as bochechas rosadinhas transformavam-me numa espécie de papoila desvairada, que saltava de esquina em esquina, de rua em rua, à procura de uma placa.
Ao contrário do que seria de esperar, o frio apertava. Vislumbrei de relance o Miradouro de São Pedro de Alcântara. Ao longe estava um jogo de luzes espalhadas pela panóplia de monumentos e edifícios que faziam de Lisboa uma cidade tão assimétrica como interessante. Saquei da mala o telemóvel e reparei que a mão estava inebriadamente gelada. "Não sinto nada".
Continuei, passando pelo Pavilhão Chinês. Absorvi os estranhos que me rodeavam, palavras estrangeiras que se isoladas poderiam possuir um significado qualquer, em conjunto não poderiam ter qualquer espécie de significado. "Vite, vite". Sigo até à Praça do Príncipe Real, com o ar a cortar-me as coxas arroxeadas e a respiração a moldar aglomerados-miniatura de algodão ao meu redor.
"Ora..Rua da Palmeira..ah!" Enveredo pela rua íngreme e escura, à procura do número alvo. Avisto umas pessoas e sigo-as até uma porta que daria lugar a uma sala acolhedora e calorosa. Por essa altura estava completamente enregelada, mas com a média luminosidade da sala e a decoração castiça do espaço, senti-me magnetizada e avancei, após receber um sorriso como um sinal da minha presença ter sido reconhecida naquela sala.
(To be continued)
março 30, 2007
Becos sem saída
Há dias neutros. Nunca vos aconteceu? Ter um daqueles dias em que as coisas más anulam as boas, sempre na expectativa que o recheio positivo desse dia aumente e os sinais negativos que desçam, desçam em flecha.. Mas a sucessão de acontecimentos não pára e as coisas estranhas também não.
É como se estivéssemos alheados da realidade e não pudéssemos controlar as coisas. Aliás, nesta brincadeira pequenina chamada vida, muita coisa nos escapa e não há soluções. Só Deus tem a fórmula mágica - e é se tem..porque cá para mim, Deus não existe..se existisse, não havia fome, miséria e coisas surreais como o sacrifício de animais para testar produtos de beleza e cosméticos -.
E perante essa panóplia de escorregadelas em que nos vemos, sentimo-nos impotentes e pensamos "Mas tou com menos neurónios (ou eurónios) ou quê?". Disparate segue outro disparate e não sabemos, pura e simplesmente, que diabo se passa cá dentro.
Tenho-me sentido assim. Depois de deixar a tvSintra.com senti um alívio. Mas sair do buraco em que estava metida, não me deu garantias de encontrar um buraco melhor. Tou desempregada e tenho uma luta para travar. Os dias passam e, apesar de não encontrar nada, não ter respostas, continuo.
Não tem sido fácil. Olho-me ao espelho e tento perceber o que está por detrás dos olhos côr de avelã que os meus paizinhos me deram. Como alguém me disse hoje, a vida é o provar constante de vários pratos, um de cada vez, mas isso não signifique que não possa olhar para os outros pratos do menú, mesmo depois de ter escolhido a minha refeição.
E agora desafio-vos. Será a vida um equilíbrio, tal como é uma refeição feita de vários ingredientes? Eu acredito que sim, mas para isso preciso de encontrar os ingredientes primeiro e cozinhá-los, confeccioná-los, para que saía um delicioso manjar no final. L.
É como se estivéssemos alheados da realidade e não pudéssemos controlar as coisas. Aliás, nesta brincadeira pequenina chamada vida, muita coisa nos escapa e não há soluções. Só Deus tem a fórmula mágica - e é se tem..porque cá para mim, Deus não existe..se existisse, não havia fome, miséria e coisas surreais como o sacrifício de animais para testar produtos de beleza e cosméticos -.
E perante essa panóplia de escorregadelas em que nos vemos, sentimo-nos impotentes e pensamos "Mas tou com menos neurónios (ou eurónios) ou quê?". Disparate segue outro disparate e não sabemos, pura e simplesmente, que diabo se passa cá dentro.
Tenho-me sentido assim. Depois de deixar a tvSintra.com senti um alívio. Mas sair do buraco em que estava metida, não me deu garantias de encontrar um buraco melhor. Tou desempregada e tenho uma luta para travar. Os dias passam e, apesar de não encontrar nada, não ter respostas, continuo.
Não tem sido fácil. Olho-me ao espelho e tento perceber o que está por detrás dos olhos côr de avelã que os meus paizinhos me deram. Como alguém me disse hoje, a vida é o provar constante de vários pratos, um de cada vez, mas isso não signifique que não possa olhar para os outros pratos do menú, mesmo depois de ter escolhido a minha refeição.
E agora desafio-vos. Será a vida um equilíbrio, tal como é uma refeição feita de vários ingredientes? Eu acredito que sim, mas para isso preciso de encontrar os ingredientes primeiro e cozinhá-los, confeccioná-los, para que saía um delicioso manjar no final. L.
março 28, 2007
Contos antigos mas não esquecidos
Andei a vasculhar pelas minhas coisas e vi dois contos que produzi para "Escrita Criativa", na altura da faculdade. Lembro-me que me deu muito prazer construir estas histórias, mas também me recordo dos erros fatais que dei..Quem quiser, dê uma vista de olhos. São duas narrativas muito descritivas. Portanto, se não gostas de pormenores..err..podes voltar para a banda desenhada do Tio Patinhas, ok? :) L.
O Roupão de Lena
Um novo dia alvorecera.
Envolta no quentinho dos lençóis de linho, cobertos pelo edredon francês, Lena desperta, suavemente, com um raio de luz a incidir-lhe no olho esquerdo. Os seus movimentos, ainda presos e ligados ao passivo estado adormecido, são curtos e incompletos, procurando esconder o seu corpo da luz para mergulhar, de novo, num sono profundo.
O chilrear dos pássaros e o relinchar de um cavalo irrompem pelo seu quarto, estimulando os seus sentidos, fazendo com que as suas pálpebras inchadas se soltem, querendo fugir da luz da aurora, que insiste em ferir os seus olhos. Resignada, Lena cede, expondo as pupilas castanhas à luz clara do seu espaçoso quarto. Perante si estava um roupão vermelho vivo, pendurado num bengaleiro de carvalho, de uma extravagância sem fim, feito de um veludo suave ao toque.
Lena levanta-se, aconchega-se por entre a teia da camisa creme bordada, de longas mangas rendilhadas, calça os chinelos de um “ fru-fru” balançante e veste o roupão vermelho. Pregiçosa, a mulher desloca-se, num passo arrastado, até à casa-de-banho, no outro lado da divisão. Diante do espelho oval, Lena observa-se. Do alto dos seus trinta e dois anos, aquela mulher possuía uma pele cor de leite, uns cabelos lisos e sedosos, escuros como o fim de um futuro perdido. O recente acordar conferia um carácter desalinhado ao cabelo, um conjunto de ondas dispersas na sua densa massa capilar. Contudo, a alvura dos olhos grandes e castanhos-avelã dava a Lena um toque de suavidade feminina, reforçada por uma noite bem dormida.
Olhou-se ao espelho, observou cada linha do seu rosto, perdeu-se num passado magoado que não queria recordar. Desde muito nova que mais nada via e conhecia que o seu pobre rosto, nú e despido, nas ruas perigosas da nova sociedade urbana. Órfã desde os cinco anos, Lena cresceu num dos orfanatos da capital, onde os maus tratos se sucediam, minuto a minuto, numa insegurança diária, afastando-a do mundo que, outrora, desejara conhecer. Numa adolescência amargurada, a bonita moça de olhos grandes não aguentou a infelicidade, ao invés, aprendeu a defender-se, a magoar em vez de ser magoada. Escapou aos dezasseis anos, acabando sozinha num beco incerto de Lisboa.
Envolta no quentinho dos lençóis de linho, cobertos pelo edredon francês, Lena desperta, suavemente, com um raio de luz a incidir-lhe no olho esquerdo. Os seus movimentos, ainda presos e ligados ao passivo estado adormecido, são curtos e incompletos, procurando esconder o seu corpo da luz para mergulhar, de novo, num sono profundo.
O chilrear dos pássaros e o relinchar de um cavalo irrompem pelo seu quarto, estimulando os seus sentidos, fazendo com que as suas pálpebras inchadas se soltem, querendo fugir da luz da aurora, que insiste em ferir os seus olhos. Resignada, Lena cede, expondo as pupilas castanhas à luz clara do seu espaçoso quarto. Perante si estava um roupão vermelho vivo, pendurado num bengaleiro de carvalho, de uma extravagância sem fim, feito de um veludo suave ao toque.
Lena levanta-se, aconchega-se por entre a teia da camisa creme bordada, de longas mangas rendilhadas, calça os chinelos de um “ fru-fru” balançante e veste o roupão vermelho. Pregiçosa, a mulher desloca-se, num passo arrastado, até à casa-de-banho, no outro lado da divisão. Diante do espelho oval, Lena observa-se. Do alto dos seus trinta e dois anos, aquela mulher possuía uma pele cor de leite, uns cabelos lisos e sedosos, escuros como o fim de um futuro perdido. O recente acordar conferia um carácter desalinhado ao cabelo, um conjunto de ondas dispersas na sua densa massa capilar. Contudo, a alvura dos olhos grandes e castanhos-avelã dava a Lena um toque de suavidade feminina, reforçada por uma noite bem dormida.
Olhou-se ao espelho, observou cada linha do seu rosto, perdeu-se num passado magoado que não queria recordar. Desde muito nova que mais nada via e conhecia que o seu pobre rosto, nú e despido, nas ruas perigosas da nova sociedade urbana. Órfã desde os cinco anos, Lena cresceu num dos orfanatos da capital, onde os maus tratos se sucediam, minuto a minuto, numa insegurança diária, afastando-a do mundo que, outrora, desejara conhecer. Numa adolescência amargurada, a bonita moça de olhos grandes não aguentou a infelicidade, ao invés, aprendeu a defender-se, a magoar em vez de ser magoada. Escapou aos dezasseis anos, acabando sozinha num beco incerto de Lisboa.
De média estatura, Lena ficou uma linda mulher, com olhares, gestos e cheiros que amaciavam o pesaroso estar dos homens. Viveu assim, anos após anos, escondendo em cada cigarro queimado e em cada olho, pintado e delineado, a personificação de uma dissimulação interessada, desprovida de sentimentos e de falares espontâneos. Ruas, bares, discotecas, balcões de cafés, restaurantes e casas do mais falso uso: Lena era uma protagonista, incontestável, nesta geografia pertencente a uma teia indigna de acção, onde a luxúria de um prazer instantâneo se deslizava entre corpos sem rostos, caras de cínicas risadas. A cada “tic tac” daquela versátil mulher, a agilidade tornou-se na sua ascensão, dando a Lena o gostinho ambicioso das aparências.
Despe o roupão vermelho, entra na banheira de mármore branca, apressada, procurando o escorrer da água fervente no couro cabeludo, o sentir de um vapor envolvente que a proteja desse pecaminoso passado. A morena, nos seus maduros trinta anos, aproximou-se, numa acção planeada e meticulosa, de Sebastião Policarpo, o maior empresário do país, detentor de dezenas de empresas, tendo como principal área de intervenção a criação de animais –cavalos, galinhas, porcos- nas várias propriedades rurais que possuía, de norte a sul do país. Após investigar todo o potencial financeiro e social que aquele homem tinha para lhe dar, Lena não hesita, mascara-se, cria uma identidade e personalidade adequadas ao perfil e, na sua fatal subtileza de menina-mulher ingénua, doce e desamparada por entre réstias de névoa, captura aquele estragado coração. Sebastião, já cinquentenário, vê em Lena a eterna juventude de um fugaz amor, uma presença discreta, devota e dedicada.
Despe o roupão vermelho, entra na banheira de mármore branca, apressada, procurando o escorrer da água fervente no couro cabeludo, o sentir de um vapor envolvente que a proteja desse pecaminoso passado. A morena, nos seus maduros trinta anos, aproximou-se, numa acção planeada e meticulosa, de Sebastião Policarpo, o maior empresário do país, detentor de dezenas de empresas, tendo como principal área de intervenção a criação de animais –cavalos, galinhas, porcos- nas várias propriedades rurais que possuía, de norte a sul do país. Após investigar todo o potencial financeiro e social que aquele homem tinha para lhe dar, Lena não hesita, mascara-se, cria uma identidade e personalidade adequadas ao perfil e, na sua fatal subtileza de menina-mulher ingénua, doce e desamparada por entre réstias de névoa, captura aquele estragado coração. Sebastião, já cinquentenário, vê em Lena a eterna juventude de um fugaz amor, uma presença discreta, devota e dedicada.
Desde o dia do casamento, há dois anos, Lena vive em Santarém na “Quinta Policarpo”, a quinta central do empresário e residência oficial daquela família. Ligada há décadas de tradições, a uma brisa fresca entre héctares de oliveiras e às festas mais conhecidas e requintadas do país, nela a morena, de delicadas aparências, se fez destacar através de uma falsa singularidade, entre um golo de champanhe, um “clik” de uma gargantilha elegante e um apanhar de um tecido Paco Rabanne.
Num escaldar desse duche, Lena fecha os olhos, numa descontração risonha, repartida entre um deslizar de água e uma nublina emergente, indicadores do seu conforto. Lena enrolada numa toalha com um bordado francês, no qual um “L” maiúsculo vermelho ganha ênfase, passa do mosaico geométrico da casa-de-banho para o soalho flutuante do quarto. E lá, o sol primaveril embatia, através da janela de guilhotina enmadeirada, com fulgor nos lençóis amachucados. Abre o guarda-roupa antigo de carvalho. Tira uma camisa branca, umas calças pretas, combinadas com um cinto de pele preta e umas sandálias de salto pretas. Rente ao seu espelho oval do balneário, Lena prendia, finalmente, a volumosa negritude da sua cabeça, acabando por colocar uma sombra discreta nas transparentes pálpebras e um leve rosa velho nos lábios. Observou-se, novamente. Os lábios finos, dois olhos grandes retocados por escuras e compridas pestanas faziam dela uma mulher de interessante descrição: Lena Policarpo, a fiel, frágil, sensível, tímida esposa do mais rico homem do país.
Esfomeada, Lena abre o frigorífico na enorme cozinha de janelas de madeira e azulejos beje, cuja linha central era feita de cachos de uvas e maçãs, frutos de várias côres, procurando algo para se deliciar. O silêncio da casa era esmagador e, para se unir à banda sonora do exterior, Lena pousa o pacote de leite na bancada de mármore e abre a janela do seu lado direito, numa das esquinas da sumptuosa cozinha. Recheada de tachos, de panelões e, petrificada, Lena observa a silhueta de um cavalo castanho e manchado em movimento, pequeno e veloz, descontrolado por entre aquelas planícies povoadas por árvores e flores. À medida que acompanha o seu relinchar, vislumbrou, no topo do animal que mirava, um jovem: Filipe Policarpo.
Os olhos castanhos daquela mulher tornaram-se duas chamas de velas, dois pontos longínquos entre altas montanhas, duas submissões de desejos perdidos. Junto àquela janela, Lena entrou noutro mundo, onde a visão de um anjo loiro não a deixava respirar, sentindo que jamais o tempo ou o espaço pudessem matar aquele rubor que a invadia, aquela paixão que a ardia, vindos daquele anjo. O olhar de Lena se lança num horizonte infinito e o anjo cavaleiro desaparecia, selvagem e rebelde, matando a máscara daquela fraca mulher, fazendo-a cair no chão da cozinha para cansar aquele amor impossível que teria de esconder.
Um calor ameno do meio-dia acabara de se espelhar no nariz mediano e arrebitado de Lena.
De pé, virada para a vastidão da quinta, Lena aguardava, encostada ao janelão da grande sala de antiguidades. Longe daquele instante, elaborava planos para iludir os olhos daqueles supremos seres, sendo grande apenas a estupidez que aquela gente podia ter. Riu-se! Eram todos uns idiotas. Levou o copo de cristal aos lábios, deixando entrar um golo de “Monte Velho”, saboreando a finura daquela delícia de vida.
“Lena, querida! Onde estás, minha pomba?”. Lena coloca a expressão que mascarara, vira-se num gesto pacífico e fita o seu marido, utilizando um sorriso rasgado e luminoso. Sebastião Policarpo colou seus lábios nos dela, num gesto terno e rápido, deixando as linhas dos seus escondidos olhos verdes decifrar os dois pontos castanhos, amando num silêncio devorador de dezenas de milhares de palavras. Sebastião pega na mão de Lena, beija-a delicadamente, e dirige-se para a mesa, guiando-a, num gesto de amante irremediável. Assim, os dois almoçam, de olhares e palavras trocados. Cada risada daquela mulher de inocência jovem, brilhava aos olhos verdes e pequenos de um já velho de cinquenta e cinco anos, vivido de supremacias sociais e financeiras.
Rodeada de fumo, na ausência do marido, Lena cerra os olhos enquanto milésimas de pensamentos de uma estranha deslumbrância, a afagam, ao mesmo tempo que, estendida num divã grená, com as suas linhas capilares espalhadas, fixa um retrato à sua frente, desse anjo.
Passos. Lena torna a cabeça, languidamente, para a sua rectaguarda. Mas, numa fracção de segundo, o seu olhar desperta, assinalando também o tremer nervosinho do seu corpo contraído e fininho. Subitamente, a imagem de um jovem alto de um metro e oitenta, de belos cabelos encaracolados loiros e olhos de um verde inalcançável, entra no velho salão, emanando à sua volta uma aura repleta de luminosidade branca. Lena engoliu em seco. Filipe Policarpo, filho do dono daquele pedaço de terra, tinha dezoito anos, uma timidez inteligente, um escudo protector e desconfiado em relação a possíveis elementos intrusivos. Perspicaz e ágil, é detentor de um corpo esbelto, fortalecido pela actividade física regular que, desde sempre exercia, tendo como paixão a equitação. Culto, o actual campeão de xadrez nacional ajuda nas horas livres o seu pai, reconhecendo-o como um homem de referência, um representante de tudo aquilo que ele gostaria de poder um dia ser.
“Não queres comer nada Filipe?”, interrogou Lena, afastando duas madeixas de cabelo das bochechas rosadas, no seu ar tímido.
“Não, obrigada. Se tiver fome, vou ao frigorífico e cozinho qualquer coisa.”, respondeu Filipe, num tom seco e indiferente, ao mesmo tempo que se deitava no longo sofá de pele castanha, em frente do divã grená. Ficou de olhos fechados e cabeça apoiada nos braços cruzados, numa postura de leve descontracção, onde o cabelo húmido e despenteado lhe dava uma sensualidade rara, acompanhada pelo suor que encharcava a camisa de xadrez azul e a sujidade entranhada daqueles acres.
“Porquê?”, pensava Lena, franzindo as simétricas sobrancelhas. Aquela atitude de desdém magoava-a. Ela sabia que o enteado nunca gostara dela, que a única pessoa que não tinha conseguido enganar até então, representava tudo o que naquele momento desejava e, no entanto, também sempre tentara repudiar. No silêncio daquela sala, apenas quebrado pelo camponês barulho e pela respiração adormecida de Filipe, Lena esticou-se até à mesinha ao lado do grande divã, agarrando um cigarro, nervosamente. Acendeu-o com um isqueiro dourado, ao mesmo tempo que os olhos se humedeciam, procurando apaziguar a forte dôr que atacava o seu peito. Naquela sensação de agonia, de perda, Lena fumou cada cigarro num prazer rápido, matando cada pedaço rejeitado de si mesma, na esperança de olhar para um anjo que amasse a janela vislumbradora do seu corpo.
Filipe abre os olhos. Tossindo, levanta-se, mal disposto.
“Já que queres estragar a vida do meu pai, ao menos, respeita as coisas dele.”, afirmou Filipe, encarando Lena numa réplica de confronto. Virou costas e andou, num passo tranquilo, até desaparecer naquelas curvas escuras.
O céu escurecera, lentamente, estando o horizonte habitado por uma névoa rosada que serve de tecto para as aves ribatejanas.
No seu quarto, Lena transforma-se. “Ninguém me escapou, não é um fedelho desmamado que o vai conseguir!”, exclamou frente ao espelho oval da casa-de-banho. Já não era a mesma Lena, não. Usando um vestido “Gucci” preto comprido e justo ao corpo, exibia um “decote em V” na frente e outro mais rasgado atrás. O vermelho vivo cobria os lábios finos, sensualizava a pele transparente, dando à cara desta fachada de ingénua rapariga um ar de quente e abrasadora mulher. Os cabelos, agora soltos, lisos na sua harmonia, reluziam a feminilidade de Lena, fazendo dela irresistível. Olhou-se ao espelho.
Confiante e bela, Lena, nas suas passadas certas, dirige-se para o jardim. Avista Filipe, uns metros à frente, numa espreguiçadeira de madeira, de camisola de lã vermelha, sentado a ler. A serenidade daquele dia começava a dar sinais do seu fim, levantando-se o vento e enublando-se o céu, como se de um abismo se tratasse. Lena coloca-se à frente de Filipe, num olhar de aço voraz e lábios ardentes, mas Filipe, apesar de dar conta da sua presença, repudia-a.
“É melhor o meu pai não te ver assim.”, afirma.
Lena, mesmo assim, avança, senta-se junto a ele e beija-o num impulso de paixão inflamada. Ele empurra-a.
“Metes-me nojo!”, exclama Filipe, sintonizando o seu discurso com um empurrão a Lena que, por força e resistência, rasga uma migalha do seu “Gucci”, assistindo à saída de Filipe do cenário que tanto planeara. A “Quinta Policarpo” está enfeitada com folhas, símbolos de uma noite regida pela imperial lua cheia, e pó nos olhos de Lena que, transtornada, vê o facilitismo da beleza maquilhada se esvanecer. O vento se revolta, transformando a sua cabeleira num cruzar de fios ásperos e secos, com a poeira na raíz e nos lábios agora invisíveis.
Pum. Lena ouve passos distantes.
“É o velho.”, pensa para si, com ódio de tudo. Por entre a perdição fantasmagórica da noite, Lena rasga o seu vestido. Ao mesmo tempo, ouve uma sinfonia de Berlioz ecoar naquela sala, feita das suas amarguras, feita dos olhares e dos desejos rejeitados.
Berlioz preenchia a sala vasta.
“Se continuarmos assim, podemos abrir uma nova sucursal em Guimarães!”, explicava Sebastião a Filipe, durante o jantar, deliciando-se com o bacalhau cozido, temperado com tirinhas de alho crú e muito azeite.
“Óptimo! O João Pedro ligou-me hoje por causa do campeonato europeu de xadrez..Parece que querem mesmo que participe.”, respondia Filipe, com o sorriso nos dentes de marfim, levando uma metade de batata à boca.
Naquela melodia forte e clássica, as notas difundiam-se, como se escapassem de uma longa estrada, pequenas e suaves, para depois, rebater umas contra as outras, pressagiando o desenlace dessa noite.
“Basta!”, grita Lena, olhando Filipe ferozmente, enquanto surge na sala, desarranjada.
“Querida, mas o que te aconteceu?”, interroga Sebastião, deixando cair um nico de bacalhau no prato.
“Diz-lhe, aposto que ele vai gostar de saber”, afirma Filipe enquanto se levanta, rapidamente, da mesa. Lena mira Sebastião e, num andar envergonhado, enrola o choro mimoso, encostando-se ao marido.
“Querido, o teu filho abusou de mim! Olha para mim! Olha para o meu estado..”, grita Lena na voz embargada, revelando os rasgões da roupa e as indefesas da alma perdida.
Sebastião encara Filipe, enquanto os sopros de Berlioz, no seu fortíssimo, se reflectiam na expressão do jovem, anunciando a retirada daquela sala. Impestuosamente, o anjo pega nas suas chaves e, sem hesitações, deixa a quinta na velocidade ruidosa do seu “cabriolet”. Lena larga Sebastião, subitamente.
“Não!”, exclama, confusa e deprimida, correndo para o seu quarto, consciente daquele erro incontornável. Sebastião chama-a, num bater de porta, mas em vão.
“Lena! Lena!” Aquele nome já nada significava. Lena tira a roupa rapidamente, lava-se no lavatório curvado e veste o seu roupão vermelho. Encosta-se aterrorizada, de olhos esbugalhados e espicaçados, à parede branca. Cai no chão, estatelada.
Ring ring. Passos. Uma voz. Lena escuta a rouca voz de Sebastião ao telefone. “O Filipe teve um acidente?..Não, não pode ser!”, falava Sebastião na solidão da vivenda abandonada, na aguda linha do seu choro.
Lena, enrolada no extravagante roupão vermelho, rompe a correr pelos corredores labirínticos, na loucura da voz riscada, nos gestos desenfreados de uma loucura, em direcção à quinta. Na tempestade da noite fria, húmida, onde fracções de segundos se estendem com os relâmpagos tenazes, Lena perde-se, morta pelo desgosto. Atormentada pelo remorso, está apenas coberta pelo vermelho trágico do veludo de roupão, imersa naquela densidade impenetrável, amparada pelo frio da chuva severa. Sente-se empurrada, seguindo o caminho para o limiar da sua vazia vida, colocando-a num abismo que jamais voltaria a conhecer, após o seu rosto, pálido e pequeno, deslizar nas águas turvas de um poço qualquer, num sítio qualquer.
Num escaldar desse duche, Lena fecha os olhos, numa descontração risonha, repartida entre um deslizar de água e uma nublina emergente, indicadores do seu conforto. Lena enrolada numa toalha com um bordado francês, no qual um “L” maiúsculo vermelho ganha ênfase, passa do mosaico geométrico da casa-de-banho para o soalho flutuante do quarto. E lá, o sol primaveril embatia, através da janela de guilhotina enmadeirada, com fulgor nos lençóis amachucados. Abre o guarda-roupa antigo de carvalho. Tira uma camisa branca, umas calças pretas, combinadas com um cinto de pele preta e umas sandálias de salto pretas. Rente ao seu espelho oval do balneário, Lena prendia, finalmente, a volumosa negritude da sua cabeça, acabando por colocar uma sombra discreta nas transparentes pálpebras e um leve rosa velho nos lábios. Observou-se, novamente. Os lábios finos, dois olhos grandes retocados por escuras e compridas pestanas faziam dela uma mulher de interessante descrição: Lena Policarpo, a fiel, frágil, sensível, tímida esposa do mais rico homem do país.
Esfomeada, Lena abre o frigorífico na enorme cozinha de janelas de madeira e azulejos beje, cuja linha central era feita de cachos de uvas e maçãs, frutos de várias côres, procurando algo para se deliciar. O silêncio da casa era esmagador e, para se unir à banda sonora do exterior, Lena pousa o pacote de leite na bancada de mármore e abre a janela do seu lado direito, numa das esquinas da sumptuosa cozinha. Recheada de tachos, de panelões e, petrificada, Lena observa a silhueta de um cavalo castanho e manchado em movimento, pequeno e veloz, descontrolado por entre aquelas planícies povoadas por árvores e flores. À medida que acompanha o seu relinchar, vislumbrou, no topo do animal que mirava, um jovem: Filipe Policarpo.
Os olhos castanhos daquela mulher tornaram-se duas chamas de velas, dois pontos longínquos entre altas montanhas, duas submissões de desejos perdidos. Junto àquela janela, Lena entrou noutro mundo, onde a visão de um anjo loiro não a deixava respirar, sentindo que jamais o tempo ou o espaço pudessem matar aquele rubor que a invadia, aquela paixão que a ardia, vindos daquele anjo. O olhar de Lena se lança num horizonte infinito e o anjo cavaleiro desaparecia, selvagem e rebelde, matando a máscara daquela fraca mulher, fazendo-a cair no chão da cozinha para cansar aquele amor impossível que teria de esconder.
Um calor ameno do meio-dia acabara de se espelhar no nariz mediano e arrebitado de Lena.
De pé, virada para a vastidão da quinta, Lena aguardava, encostada ao janelão da grande sala de antiguidades. Longe daquele instante, elaborava planos para iludir os olhos daqueles supremos seres, sendo grande apenas a estupidez que aquela gente podia ter. Riu-se! Eram todos uns idiotas. Levou o copo de cristal aos lábios, deixando entrar um golo de “Monte Velho”, saboreando a finura daquela delícia de vida.
“Lena, querida! Onde estás, minha pomba?”. Lena coloca a expressão que mascarara, vira-se num gesto pacífico e fita o seu marido, utilizando um sorriso rasgado e luminoso. Sebastião Policarpo colou seus lábios nos dela, num gesto terno e rápido, deixando as linhas dos seus escondidos olhos verdes decifrar os dois pontos castanhos, amando num silêncio devorador de dezenas de milhares de palavras. Sebastião pega na mão de Lena, beija-a delicadamente, e dirige-se para a mesa, guiando-a, num gesto de amante irremediável. Assim, os dois almoçam, de olhares e palavras trocados. Cada risada daquela mulher de inocência jovem, brilhava aos olhos verdes e pequenos de um já velho de cinquenta e cinco anos, vivido de supremacias sociais e financeiras.
Rodeada de fumo, na ausência do marido, Lena cerra os olhos enquanto milésimas de pensamentos de uma estranha deslumbrância, a afagam, ao mesmo tempo que, estendida num divã grená, com as suas linhas capilares espalhadas, fixa um retrato à sua frente, desse anjo.
Passos. Lena torna a cabeça, languidamente, para a sua rectaguarda. Mas, numa fracção de segundo, o seu olhar desperta, assinalando também o tremer nervosinho do seu corpo contraído e fininho. Subitamente, a imagem de um jovem alto de um metro e oitenta, de belos cabelos encaracolados loiros e olhos de um verde inalcançável, entra no velho salão, emanando à sua volta uma aura repleta de luminosidade branca. Lena engoliu em seco. Filipe Policarpo, filho do dono daquele pedaço de terra, tinha dezoito anos, uma timidez inteligente, um escudo protector e desconfiado em relação a possíveis elementos intrusivos. Perspicaz e ágil, é detentor de um corpo esbelto, fortalecido pela actividade física regular que, desde sempre exercia, tendo como paixão a equitação. Culto, o actual campeão de xadrez nacional ajuda nas horas livres o seu pai, reconhecendo-o como um homem de referência, um representante de tudo aquilo que ele gostaria de poder um dia ser.
“Não queres comer nada Filipe?”, interrogou Lena, afastando duas madeixas de cabelo das bochechas rosadas, no seu ar tímido.
“Não, obrigada. Se tiver fome, vou ao frigorífico e cozinho qualquer coisa.”, respondeu Filipe, num tom seco e indiferente, ao mesmo tempo que se deitava no longo sofá de pele castanha, em frente do divã grená. Ficou de olhos fechados e cabeça apoiada nos braços cruzados, numa postura de leve descontracção, onde o cabelo húmido e despenteado lhe dava uma sensualidade rara, acompanhada pelo suor que encharcava a camisa de xadrez azul e a sujidade entranhada daqueles acres.
“Porquê?”, pensava Lena, franzindo as simétricas sobrancelhas. Aquela atitude de desdém magoava-a. Ela sabia que o enteado nunca gostara dela, que a única pessoa que não tinha conseguido enganar até então, representava tudo o que naquele momento desejava e, no entanto, também sempre tentara repudiar. No silêncio daquela sala, apenas quebrado pelo camponês barulho e pela respiração adormecida de Filipe, Lena esticou-se até à mesinha ao lado do grande divã, agarrando um cigarro, nervosamente. Acendeu-o com um isqueiro dourado, ao mesmo tempo que os olhos se humedeciam, procurando apaziguar a forte dôr que atacava o seu peito. Naquela sensação de agonia, de perda, Lena fumou cada cigarro num prazer rápido, matando cada pedaço rejeitado de si mesma, na esperança de olhar para um anjo que amasse a janela vislumbradora do seu corpo.
Filipe abre os olhos. Tossindo, levanta-se, mal disposto.
“Já que queres estragar a vida do meu pai, ao menos, respeita as coisas dele.”, afirmou Filipe, encarando Lena numa réplica de confronto. Virou costas e andou, num passo tranquilo, até desaparecer naquelas curvas escuras.
O céu escurecera, lentamente, estando o horizonte habitado por uma névoa rosada que serve de tecto para as aves ribatejanas.
No seu quarto, Lena transforma-se. “Ninguém me escapou, não é um fedelho desmamado que o vai conseguir!”, exclamou frente ao espelho oval da casa-de-banho. Já não era a mesma Lena, não. Usando um vestido “Gucci” preto comprido e justo ao corpo, exibia um “decote em V” na frente e outro mais rasgado atrás. O vermelho vivo cobria os lábios finos, sensualizava a pele transparente, dando à cara desta fachada de ingénua rapariga um ar de quente e abrasadora mulher. Os cabelos, agora soltos, lisos na sua harmonia, reluziam a feminilidade de Lena, fazendo dela irresistível. Olhou-se ao espelho.
Confiante e bela, Lena, nas suas passadas certas, dirige-se para o jardim. Avista Filipe, uns metros à frente, numa espreguiçadeira de madeira, de camisola de lã vermelha, sentado a ler. A serenidade daquele dia começava a dar sinais do seu fim, levantando-se o vento e enublando-se o céu, como se de um abismo se tratasse. Lena coloca-se à frente de Filipe, num olhar de aço voraz e lábios ardentes, mas Filipe, apesar de dar conta da sua presença, repudia-a.
“É melhor o meu pai não te ver assim.”, afirma.
Lena, mesmo assim, avança, senta-se junto a ele e beija-o num impulso de paixão inflamada. Ele empurra-a.
“Metes-me nojo!”, exclama Filipe, sintonizando o seu discurso com um empurrão a Lena que, por força e resistência, rasga uma migalha do seu “Gucci”, assistindo à saída de Filipe do cenário que tanto planeara. A “Quinta Policarpo” está enfeitada com folhas, símbolos de uma noite regida pela imperial lua cheia, e pó nos olhos de Lena que, transtornada, vê o facilitismo da beleza maquilhada se esvanecer. O vento se revolta, transformando a sua cabeleira num cruzar de fios ásperos e secos, com a poeira na raíz e nos lábios agora invisíveis.
Pum. Lena ouve passos distantes.
“É o velho.”, pensa para si, com ódio de tudo. Por entre a perdição fantasmagórica da noite, Lena rasga o seu vestido. Ao mesmo tempo, ouve uma sinfonia de Berlioz ecoar naquela sala, feita das suas amarguras, feita dos olhares e dos desejos rejeitados.
Berlioz preenchia a sala vasta.
“Se continuarmos assim, podemos abrir uma nova sucursal em Guimarães!”, explicava Sebastião a Filipe, durante o jantar, deliciando-se com o bacalhau cozido, temperado com tirinhas de alho crú e muito azeite.
“Óptimo! O João Pedro ligou-me hoje por causa do campeonato europeu de xadrez..Parece que querem mesmo que participe.”, respondia Filipe, com o sorriso nos dentes de marfim, levando uma metade de batata à boca.
Naquela melodia forte e clássica, as notas difundiam-se, como se escapassem de uma longa estrada, pequenas e suaves, para depois, rebater umas contra as outras, pressagiando o desenlace dessa noite.
“Basta!”, grita Lena, olhando Filipe ferozmente, enquanto surge na sala, desarranjada.
“Querida, mas o que te aconteceu?”, interroga Sebastião, deixando cair um nico de bacalhau no prato.
“Diz-lhe, aposto que ele vai gostar de saber”, afirma Filipe enquanto se levanta, rapidamente, da mesa. Lena mira Sebastião e, num andar envergonhado, enrola o choro mimoso, encostando-se ao marido.
“Querido, o teu filho abusou de mim! Olha para mim! Olha para o meu estado..”, grita Lena na voz embargada, revelando os rasgões da roupa e as indefesas da alma perdida.
Sebastião encara Filipe, enquanto os sopros de Berlioz, no seu fortíssimo, se reflectiam na expressão do jovem, anunciando a retirada daquela sala. Impestuosamente, o anjo pega nas suas chaves e, sem hesitações, deixa a quinta na velocidade ruidosa do seu “cabriolet”. Lena larga Sebastião, subitamente.
“Não!”, exclama, confusa e deprimida, correndo para o seu quarto, consciente daquele erro incontornável. Sebastião chama-a, num bater de porta, mas em vão.
“Lena! Lena!” Aquele nome já nada significava. Lena tira a roupa rapidamente, lava-se no lavatório curvado e veste o seu roupão vermelho. Encosta-se aterrorizada, de olhos esbugalhados e espicaçados, à parede branca. Cai no chão, estatelada.
Ring ring. Passos. Uma voz. Lena escuta a rouca voz de Sebastião ao telefone. “O Filipe teve um acidente?..Não, não pode ser!”, falava Sebastião na solidão da vivenda abandonada, na aguda linha do seu choro.
Lena, enrolada no extravagante roupão vermelho, rompe a correr pelos corredores labirínticos, na loucura da voz riscada, nos gestos desenfreados de uma loucura, em direcção à quinta. Na tempestade da noite fria, húmida, onde fracções de segundos se estendem com os relâmpagos tenazes, Lena perde-se, morta pelo desgosto. Atormentada pelo remorso, está apenas coberta pelo vermelho trágico do veludo de roupão, imersa naquela densidade impenetrável, amparada pelo frio da chuva severa. Sente-se empurrada, seguindo o caminho para o limiar da sua vazia vida, colocando-a num abismo que jamais voltaria a conhecer, após o seu rosto, pálido e pequeno, deslizar nas águas turvas de um poço qualquer, num sítio qualquer.
Uma desconhecida sabedoria
Silêncio.
Algures entre um diabo de pedra e um vampiro, com a cara do Brad Pitt, estava a minha realidade onírica. Umas escadas apareciam e eu corria. Vi ao fundo um oásis – coisa maaaaais estranha, um oásis reluzente no meio de uma gruta de ossos – e tropecei enquanto tentava lá chegar, dando um pontapé no clone do Brad Pitt. Pois é, eu saí do Karaté por algum motivo. É que nem que fosse o Mestre Yoda da Guerra das Estrelas, conseguiria “feel the force”. Bem, se eu fosse mesmo o Mestre Yoda, tinha conseguido partir o queixo daquele sanguessuga magnífico e saído, na minha magnificência de metro e meio, para um paraíso semelhante ao dos catálogos das agências de viagens, que afinal não são paraísos nenhuns. É tudo um misto de pixeis controlados, cromaticamente, por uma maquineta da treta. Mas não. Em vez disso, fui apanhada pelo diabo de rochedos que me atacou em forma de cócegas, ao contrário do que seria esperado em qualquer pesadelo de acção, à boa maneira de Hollywood. E ria-me, parecendo lançar um dó no 2º espaço da clave de sol, ondulado e esguio – já parecia aqueles desenhos animados irritantes dos Pokémons e Não sei quê ons.
Algures entre um diabo de pedra e um vampiro, com a cara do Brad Pitt, estava a minha realidade onírica. Umas escadas apareciam e eu corria. Vi ao fundo um oásis – coisa maaaaais estranha, um oásis reluzente no meio de uma gruta de ossos – e tropecei enquanto tentava lá chegar, dando um pontapé no clone do Brad Pitt. Pois é, eu saí do Karaté por algum motivo. É que nem que fosse o Mestre Yoda da Guerra das Estrelas, conseguiria “feel the force”. Bem, se eu fosse mesmo o Mestre Yoda, tinha conseguido partir o queixo daquele sanguessuga magnífico e saído, na minha magnificência de metro e meio, para um paraíso semelhante ao dos catálogos das agências de viagens, que afinal não são paraísos nenhuns. É tudo um misto de pixeis controlados, cromaticamente, por uma maquineta da treta. Mas não. Em vez disso, fui apanhada pelo diabo de rochedos que me atacou em forma de cócegas, ao contrário do que seria esperado em qualquer pesadelo de acção, à boa maneira de Hollywood. E ria-me, parecendo lançar um dó no 2º espaço da clave de sol, ondulado e esguio – já parecia aqueles desenhos animados irritantes dos Pokémons e Não sei quê ons.
“Sofia!”. Era a minha mãe, de tez escura e figura redondinha, a buzinar-me aos ouvidos: estava a ser servido o prato do dia.
“Tá bem..Já vou.” Ainda não percebi qual é a eficiência produtiva de alguém se levantar às oito da manhã para tomar comprimidos, e depois ficar o dia todo, enchouriçada num robe ranhoso rosa, a ver as tristezas de fulano tal na televisão. Depois da operação ao joelho tive que gramar com isto, e acreditem que eu sei o que é sofrer. Sei, sei. Não tanto pelas dores no joelho, mas pela pobreza de “algo interessante” que me rodeava já há semanas – excepto pelos sonhos surreais que tinha, fiéis, apesar de tudo, à minha pequena grande pessoa.
“Tá bem..Já vou.” Ainda não percebi qual é a eficiência produtiva de alguém se levantar às oito da manhã para tomar comprimidos, e depois ficar o dia todo, enchouriçada num robe ranhoso rosa, a ver as tristezas de fulano tal na televisão. Depois da operação ao joelho tive que gramar com isto, e acreditem que eu sei o que é sofrer. Sei, sei. Não tanto pelas dores no joelho, mas pela pobreza de “algo interessante” que me rodeava já há semanas – excepto pelos sonhos surreais que tinha, fiéis, apesar de tudo, à minha pequena grande pessoa.
Levantei-me. Eventualmente, tinha de ser. Não é verdade? Tinha os meus cabelos, escuros e ondulados, todos irriçados e quebradiços. “Fructis..Não vales nuclis, pá!”, resmunguei. Tomei os comprimidos da praxe e comi uma torrada semi queimada – graças à minha mãe que ainda não aprendeu a mexer com a torradeira nova da Moulinex, tadita.
Silêncio. Agora estava só de novo, recheando aquela cozinha pequena e escura com o meu olhar esverdeado. Glup. Engolia a torrada numa ausência de acção aterradora, diluída apenas pelo tic tac do enorme relógio de plástico branco, pendurado numa parede qualquer ao lado. Assustei-me. Percebi que tinha outro dia pela frente, repetitivo e semi-côxo - e semi qualquer coisa..faltava meia perna para ter um dia completo. Levantar, comprimidos, comer qualquer coisita, tv, tv, tv, tv, wc, comer mais qualquer coisita, etecetera e tal, monotonia e sonhos super-hiper- megaaaaaaa...não sei...qualquer coisa de extesiante.
Assim, decidi continuar na minha vida fechada, dialogando com os meus pensamentos dignos de um filme de terror e suspense, - já agora com a participação especial da personagem do Bruce Willis na série “Modelo e Detective”, pois claro, que gosto muito e muito e muito – desta vez a assistir ao “Passeio dos Tristes” com o Tótó Gabriel.
Trim trim. O telefone a tocar a estas horas? Apoiei-me nas canadianas e, perfazendo o ritual complicado da minha deslocação de aleijadinha de trazer por casa, alcancei o telefone-varejeira.
- Tou? – silabei, com o tom monótono e indiferente do costume.
- Olá, Sofia.
Uma voz do outro lado, que eu não fazia puto de ideia quem fosse – ou pelo menos, não estava a reconhecer no momento – tinha proferido o nome mágico.
- Sim? Quem fala?.. Ah, és tu Luísinho pançudo? Podes parar de fazer essa voz de papão esfomeado, que isto aqui não é nenhum concurso para reproduzir vozes para o dia das bruxas.
- Tu não me conheces, Sofia – insistiu, naquela voz de rouquidão profunda, quase como se estivesse à beira da morte.
- Ai não? Tens a certeza?...Mas quem és tu, então? O Super Homem? Ah já sei..O Pai Natal! Olha, daqui a uns meses deixa-me ali na árvore artificial um carro vermelho descapotável para dar umas voltinhas quando estiver fina. Hãn?
Silêncio. O Luísinho era um amigo de infância e, passados tantos anos, não me recordava de ele estar mais de dois segundos calado. Falava pelos cotovelos o miúdo. Silêncio. Não. Decididamente, não era ele.
- Desculpe..Já percebi que não é o Luís. Mas como é que sabe o meu nome?
- Sofia, sou um desconhecido que segue a tua vida há semanas. Não sabes quem eu sou, possivelmente nunca irás saber. Mas tive de te ligar, temos de falar.
Àquela altura do campeonato, já tudo era possível e deixei-me levar pelo jogo.
- Temos de falar o quê?
- O meu nome..não interessa. Todos os dias, desde que ficaste em casa depois da operação, te tenho acompanhado e - não o deixei acabar.
- Tou a ser espiada? Que direito é que tem de fazer isso? – disse, enquanto enrolava os fios ondulados do meu cabelo.
- Desculpa, mas deixa-me acabar. Vi-te um dia à janela a ver a rua e percebi que tavas triste. Só que também entendi que nada fazias para poderes sair de casa.
Silêncio. Fiquei calada, esperando uma continuação. O Tótó Gabriel estava a dançar o rancho folclórico na televisão, em directo, e eu apoiada numa quase bengala, deixando a minha vida fugir.
- Pouco lutas, Sofia. Resignaste-te à tua condição e tornaste-te num vegetal. Tens esses olhos grandes, encharcados de fúria e revolta, mas páras à frente da televisão.
Aproximei-me da janela. Seria alguém que morava no prédio de 10 andares da frente? Como é que ele sabia quem eu era? Torci o narizinho empinado, intrigada.
- Nada sabe de mim para fazer esses comentários. E se estou aqui, todos os dias, é porque tem de ser. – remexia no buraco do bolso do meu robe, como se não encontrasse um fim.
- E os teus pensamentos, Sofia? Lutas para vencer as tuas dificuldades? Falas com outras pessoas? Fazes alguma coisa de útil para ti?
- Tou? – silabei, com o tom monótono e indiferente do costume.
- Olá, Sofia.
Uma voz do outro lado, que eu não fazia puto de ideia quem fosse – ou pelo menos, não estava a reconhecer no momento – tinha proferido o nome mágico.
- Sim? Quem fala?.. Ah, és tu Luísinho pançudo? Podes parar de fazer essa voz de papão esfomeado, que isto aqui não é nenhum concurso para reproduzir vozes para o dia das bruxas.
- Tu não me conheces, Sofia – insistiu, naquela voz de rouquidão profunda, quase como se estivesse à beira da morte.
- Ai não? Tens a certeza?...Mas quem és tu, então? O Super Homem? Ah já sei..O Pai Natal! Olha, daqui a uns meses deixa-me ali na árvore artificial um carro vermelho descapotável para dar umas voltinhas quando estiver fina. Hãn?
Silêncio. O Luísinho era um amigo de infância e, passados tantos anos, não me recordava de ele estar mais de dois segundos calado. Falava pelos cotovelos o miúdo. Silêncio. Não. Decididamente, não era ele.
- Desculpe..Já percebi que não é o Luís. Mas como é que sabe o meu nome?
- Sofia, sou um desconhecido que segue a tua vida há semanas. Não sabes quem eu sou, possivelmente nunca irás saber. Mas tive de te ligar, temos de falar.
Àquela altura do campeonato, já tudo era possível e deixei-me levar pelo jogo.
- Temos de falar o quê?
- O meu nome..não interessa. Todos os dias, desde que ficaste em casa depois da operação, te tenho acompanhado e - não o deixei acabar.
- Tou a ser espiada? Que direito é que tem de fazer isso? – disse, enquanto enrolava os fios ondulados do meu cabelo.
- Desculpa, mas deixa-me acabar. Vi-te um dia à janela a ver a rua e percebi que tavas triste. Só que também entendi que nada fazias para poderes sair de casa.
Silêncio. Fiquei calada, esperando uma continuação. O Tótó Gabriel estava a dançar o rancho folclórico na televisão, em directo, e eu apoiada numa quase bengala, deixando a minha vida fugir.
- Pouco lutas, Sofia. Resignaste-te à tua condição e tornaste-te num vegetal. Tens esses olhos grandes, encharcados de fúria e revolta, mas páras à frente da televisão.
Aproximei-me da janela. Seria alguém que morava no prédio de 10 andares da frente? Como é que ele sabia quem eu era? Torci o narizinho empinado, intrigada.
- Nada sabe de mim para fazer esses comentários. E se estou aqui, todos os dias, é porque tem de ser. – remexia no buraco do bolso do meu robe, como se não encontrasse um fim.
- E os teus pensamentos, Sofia? Lutas para vencer as tuas dificuldades? Falas com outras pessoas? Fazes alguma coisa de útil para ti?
Começou a chover. Estava junto da janela a mirar cada vidro habitacional da frente – havia dezenas de janelas, nunca iria vê-lo. A chuva, forte e pesada, enublou a minha visão e aí uma figura esguia surge, de cadeira de rodas, junto à vidraça da janela com o telefone vermelho ao ouvido. Juntos, naquele cenário distorcido pela tristeza da chuva, observávamos a silhueta do outro, tocando em pensamentos indizíveis e incontroláveis, num sorriso de cumplicidade mútua, remetendo para o silêncio a força das nossas semelhanças.
fevereiro 10, 2007
Inverno chato
Chuva, chuva, chuva. Posso estar com os bém na estrada de alcatrão molhada, à espera de poder ir para casa, mas a minha mente eleva-se e viaja até a uma praia. Bem quente, de areia fina e clara. Estou imersa até à cintura, com a água de 30 graus centígrados a roçar-me em cada micromilímetro de poros. E sabe tão bem.
Estou cansada da chuva, porra. E lembrei-me de ti. Daquele tremer de sentimento que trocámos debaixo daquela água morna, enquanto vislumbrava no azul do teu olhar, uma certeza visível da paixão que sentias por mim. "Me gustas."
Não sei por que motivo me lembrei destas recordações que mais não vivem, só sei que em momentos de frio, chuva e solidão me assolam os pensamentos e aquecem-me. Como se um enorme anel de fogo me rodeasse e cada caminho e estrada do meu corpo ligassem o aquecimento central..Um aconchego e um sentimento de bem estar percorrem os meus olhos. E, assim, por entre os beijos da chuva, ganho coragem e caminho para a entrada do autocarro.
janeiro 29, 2007
Babel, de cores diferentes mas iguais..
Como um pensamento que se entranha na nossa alma, mas sem deixar qualquer rasto, “Babel” é uma película cortante e penetrante, uma visão poderosa, mas realista, do mundo desigual e assimétrico do século XXI, o panorama complexo dos dias de hoje.
Alejandro González Iñárritu, realizador emblemático de "Amor Cão" e "21 Gramas" leva até à grande tela, durante mais de 140 minutos, uma rede de histórias que, apesar de se passarem em pontos do globo longínquos e distintos, estão profundamente interligadas. Quer seja no Japão, México ou Marrocos, as linguagens culturais daqueles povos podem ser únicas, porém a natureza do ser humano permanece inalterável. O Homem, como um bicho que se move pelos campos que semeia, age conforme a vida que tem e conhece: na terra onde nasce e cresce, torna-se distante do semelhante que vive a mais de 3000 kilómetros de distância, mas essa diferença não anula os laços de igualdade.
Inacreditavelmente, o alvejamento acidental de uma turista no deserto do Sahara é o ponto de partida deste filme que, num compasso lento e demorado, enebria o espectador, de forma discreta, com elevados níveis de suspense que nos fazem estar colados à cadeira, à espera que algo ainda mais inesperado aconteça. De um cenário saltamos para outro e, entramos também, na vida das personagens que se movem em esferas e círculos sociais com regras rígidas. Tal como no mito, o mundo apresenta-se como uma gigante Torre, cheia de pessoas que não se entendem, pelas visões e linguagens serem tão antagónicas.
Numa análise chocante e intimista da sociedade discriminatória do Mundo de hoje, “Babel” faz-nos entender que, momentos egoístas à parte, nem todo o mundo pode viver confortavelmente numa espreguiçadeira de piscina e comer fruta, ao mesmo tempo, enquanto desconhece a desgraça dos outros lá fora. Nem tudo são i-pods nos jeans caros de mais de cem euros ou sessões de capitalismo desenfreado, enquanto os saldos não acabam.
“Babel”, antes de mais, é uma lição de vida que nos remete para um árido deserto, sem fim, no qual o nosso papel não é mais que um grão de areia, arrastado pelo vento. Afinal de contas, porque é que uma surda-muda japonesa não pode ser tão feliz como um casal americano, que deixam os filhos em casa, e vão passar uma segunda (ou terceira) lua-de-mel a um mundo exótico? Pois é. E mesmo com o sentimento de insignificância que nos invade a alma, depois de assistirmos a esta obra da 7ª arte, de uma coisa temos a certeza: nem com a maior impotência em relação ao mundo externo, deixaremos, algum dia, com forçar de vontade de poder fazer alguma coisa.
Vencedor do Prémio de Melhor Realizador e o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cannes e somando já sete nomeações para os Globos de Ouro nas categorias principais, “Babel” segue até à cerimónia dos Óscares da Academia de Hollywood, com nomeação para melhor filme.
Alejandro González Iñárritu, realizador emblemático de "Amor Cão" e "21 Gramas" leva até à grande tela, durante mais de 140 minutos, uma rede de histórias que, apesar de se passarem em pontos do globo longínquos e distintos, estão profundamente interligadas. Quer seja no Japão, México ou Marrocos, as linguagens culturais daqueles povos podem ser únicas, porém a natureza do ser humano permanece inalterável. O Homem, como um bicho que se move pelos campos que semeia, age conforme a vida que tem e conhece: na terra onde nasce e cresce, torna-se distante do semelhante que vive a mais de 3000 kilómetros de distância, mas essa diferença não anula os laços de igualdade.
Inacreditavelmente, o alvejamento acidental de uma turista no deserto do Sahara é o ponto de partida deste filme que, num compasso lento e demorado, enebria o espectador, de forma discreta, com elevados níveis de suspense que nos fazem estar colados à cadeira, à espera que algo ainda mais inesperado aconteça. De um cenário saltamos para outro e, entramos também, na vida das personagens que se movem em esferas e círculos sociais com regras rígidas. Tal como no mito, o mundo apresenta-se como uma gigante Torre, cheia de pessoas que não se entendem, pelas visões e linguagens serem tão antagónicas.
Numa análise chocante e intimista da sociedade discriminatória do Mundo de hoje, “Babel” faz-nos entender que, momentos egoístas à parte, nem todo o mundo pode viver confortavelmente numa espreguiçadeira de piscina e comer fruta, ao mesmo tempo, enquanto desconhece a desgraça dos outros lá fora. Nem tudo são i-pods nos jeans caros de mais de cem euros ou sessões de capitalismo desenfreado, enquanto os saldos não acabam.
“Babel”, antes de mais, é uma lição de vida que nos remete para um árido deserto, sem fim, no qual o nosso papel não é mais que um grão de areia, arrastado pelo vento. Afinal de contas, porque é que uma surda-muda japonesa não pode ser tão feliz como um casal americano, que deixam os filhos em casa, e vão passar uma segunda (ou terceira) lua-de-mel a um mundo exótico? Pois é. E mesmo com o sentimento de insignificância que nos invade a alma, depois de assistirmos a esta obra da 7ª arte, de uma coisa temos a certeza: nem com a maior impotência em relação ao mundo externo, deixaremos, algum dia, com forçar de vontade de poder fazer alguma coisa.
Vencedor do Prémio de Melhor Realizador e o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cannes e somando já sete nomeações para os Globos de Ouro nas categorias principais, “Babel” segue até à cerimónia dos Óscares da Academia de Hollywood, com nomeação para melhor filme.
janeiro 15, 2007
"Fly like a butterfly.."
Já passou mais de uma semana que o meu estágio acabou. Saí da redacção..mas não da mesma forma que entrei. Há momentos na vida fulcrais para o desenvolvimento de uma pessoa. Estes últimos 5 meses foram um grande momento de transição..O primeiro contacto com o mundo do trabalho, o lidar com a impaciência, gerir emoções à flor da pele...Tive momentos muitos maus, posso dizê-lo. Mas estão numa gaveta apenas e somente. Guardados. Os bons momentos, as boas pessoas..esses não ficarão esquecidos. Muitas vezes saía de lá e pensava "Porquê?" Porque é que aquele mundo é tão complicado? É como se tivesse dezenas de chaves diferentes e uma porta..Experimento todas as chaves, não páro, estou atenta. Mas a fechadura permanece inalterável. Nada muda e eu limito-me a espreitar pelo buraco..tudo para encontrar novos desenvolvimentos, camuflados e isolados.
Mas, apesar de tudo, não saí vencida. Acabei da forma como queria. De cabeça erguida. E penso que isso é o mais importante de tudo. Errei muito, não usei os meus neurónios ao máximo como devia ter usado em muitas situações. Mas era só uma rapariga que queria experimentar jornalismo, saber como era. Agora que já sei, posso dizer que vou continuar o meu caminho mais sabedora e experiente, sem medo de futuras consequências profissionais. Afinal estes 5 meses foram uma ponte e fizeram-me ver muita coisa.
E depois deste tempo todo..Vim a conhecer algo que esteve diante do meu nariz o tempo todo mas que nunca tinha explorado..Um meigo homem que se revela no olhar escondido. Um sorriso que me faz vibrar e umas mãos suaves que percorrem as linhas do meu rosto, num estudo perfeccionista, como se não houvesse nada melhor e mais macio para ser tocado. Os nós dos dedos efervescentes percorrem os fios da minha massa capilar..E é como se nada mais existisse para além daquele momento. Senti-me tão acarinhada e desejada, que até esqueci os episódios negativos do passado..passadas entre 4 paredes, entre provocações e "plins"como barulho de fundo.
Mas, apesar de tudo, não saí vencida. Acabei da forma como queria. De cabeça erguida. E penso que isso é o mais importante de tudo. Errei muito, não usei os meus neurónios ao máximo como devia ter usado em muitas situações. Mas era só uma rapariga que queria experimentar jornalismo, saber como era. Agora que já sei, posso dizer que vou continuar o meu caminho mais sabedora e experiente, sem medo de futuras consequências profissionais. Afinal estes 5 meses foram uma ponte e fizeram-me ver muita coisa.
E depois deste tempo todo..Vim a conhecer algo que esteve diante do meu nariz o tempo todo mas que nunca tinha explorado..Um meigo homem que se revela no olhar escondido. Um sorriso que me faz vibrar e umas mãos suaves que percorrem as linhas do meu rosto, num estudo perfeccionista, como se não houvesse nada melhor e mais macio para ser tocado. Os nós dos dedos efervescentes percorrem os fios da minha massa capilar..E é como se nada mais existisse para além daquele momento. Senti-me tão acarinhada e desejada, que até esqueci os episódios negativos do passado..passadas entre 4 paredes, entre provocações e "plins"como barulho de fundo.
dezembro 18, 2006
Pensamentos paralelos
Todos nós temos medo. Em algum ponto da nossa vida, olhamos para trás e apercebemo-nos que não há pessoas imunes ao risco e ao perigo. Tal como não há cobardes a tempo inteiro. Isso é uma ilusão. Temos medo de quê? Eu acho que temos medo de falhar, medo de não mostrar o que somos, de ficar aquém das expectativas que criámos em relação a alguma coisa ou a alguém. Quanto temos um objectivo em vista e não o alcançamos, tudo se torna numa enorme desilusão e não sabemos para nos virar..Provavelmente esta é a minha forma de agir e lidar com as coisas. Tenho em mente o que quero e tento perseguir, às vezes, coisas que não podem ser perseguidas. Mas, mesmo assim, nada me impede de as perseguir à mesma. É assustador às vezes. E com esse "atirar de cabeça" vem também a desilusão. Nada é o que parece. A realidade, a concretização dos factos no dia-a-dia, a objectividade da vida..é muito diferente, na maior parte dos casos, daquilo que tanto imaginámos.
Dia-a-dia imagino coisas, sinto coisas que me fazem perceber que sou a pessoa mais exigente que se pode encontrar num raio de vários quilómetros quadrados. É presunção a mais, podem dizer. Secalhar. Mas não há ninguém, para além de mim, que possa avaliar bem o que penso e sinto. E foi por ter sentido medo nos últimos tempos que decidi desenvolver esta....instrospecção. Para manter os pés bem assentens e não cometer loucuras..sem ponderar as consequências.
Dia-a-dia imagino coisas, sinto coisas que me fazem perceber que sou a pessoa mais exigente que se pode encontrar num raio de vários quilómetros quadrados. É presunção a mais, podem dizer. Secalhar. Mas não há ninguém, para além de mim, que possa avaliar bem o que penso e sinto. E foi por ter sentido medo nos últimos tempos que decidi desenvolver esta....instrospecção. Para manter os pés bem assentens e não cometer loucuras..sem ponderar as consequências.
novembro 19, 2006
Sozinha na Caixinha Mágica
Que sono. Não imaginam a "porrada" de sono que tenho, ainda, para mais, porque estou no local de trabalho sem fazer nada.
Desde que cheguei à Redacção que cresci bastante. Comecei a olhar para as pessoas e para a vida de uma forma diferente, apesar de não mudar as minhas mais profundas convicções em relação às coisas que me rodeiam, de forma geral. Não percebo, apesar deste crescimento positivo, como é que o mundo pode ser tão cruel e tão cão. Secalhar sou eu que sou demasiado nova e não sei porra nenhuma da vida. Ou secalhar sou apenas esquisofrénica e não consiga mostrar, realmente, a plenitude do meu ser por ser deveras complexo. E talvez seja por isso que me sinto tão incompreendida. Ou talvez esteja rodeada, no momento, de um bando de abutres, que só pensa no seu bel prazer e passa o dia em sites porno. Sinceramente, não sei dizer ou explicar..
Como qualquer ave de rapina, procuram alimentar-se da vida dos outros. São carnívoros, vorazes e não deixam escapar qualquer oportunidade de mostrar a sua infinita indisponibilidade para assuntos que não lhe interessem abordar. Ou seja, tudo o que sair deles mesmos. A verdade, para mim, é esta. Mas é a verdade com a qual tenho de lidar diariamente, mesmo que seja desagradável. O homem do século XXI é egoísta, por natureza. Pensa nele próprio, acima de tudo e não se importa de espezinhar os sentimentos alheios, se fôr necessário. Admito. Às vezes é necessário. Ou seja, é um mal necessário, com o qual não concordo e não gosto, mas que tem de prevalecer, em algumas vezes. Noutras - a maioria - é apenas teimosia e afirmação. Nada mais.
No estado sonâmbulo em que me encontro, todas as sensações estão à flôr da pele. Tento manter a calma e um sorriso - sincero - no rosto mas distancio-me de tudo e todos. Como é que posso não o fazer se passo horas, tempos mortos e mais que mortos, estática, à frente de um ecrân de computador que insiste em me fritar os olhos? Todos estão no seu pc, no seu mundo, mesmo que comuniquem de forma não verbal. Aliás, a comunicação verbal pouca força tem, e expressão efectiva, em comparação com a comunicação não verbal. Parece estranho mas é verdade. Já tiveram aquela sensação que alguém diz alguma coisa, mas sem qualquer convicção? Como se estivesse a mentir a si próprio e ao mundo..As nossas crenças acabam por nos entalar. Por muito que se diga uma coisa, se não se acredita nela..isso traduz-se nos gestos, na postura, no olhar, no tom de voz. E é quase impossível de disfarçarmos essas lacunas aos olhos dos outros que são observadores natos. Sim, os seres humanos estudam os outros, passam a vida a fazê-lo. E por isso aprendem e crescem..Mas o que mais fazem é juízos de valor dos outros. Porque estudam um olhar e numa fracção de segundo apercebem-se do que aquela certa e determinada pessoa pode estar a pensar. E por mais absurdo que pareça, as probabilidades de acertar são mais que muitas, porque avaliamos alguém que é nosso semelhante, alguém que, como nós, é ser humano, um ser vivo inteligente, com ideias e atitudes. Mesmo que pouco vigentes ou reais. Nem aqueles que são apelidados de fracos, escapam a esta ideologia. Todos têm personalidade e modo de estar. Se não são ninguém, acabam por sê-lo por não serem ninguém. Confuso?
Há dias em que dou por mim a pensar nos "ses". É a chamada tortura existencial. Pensar no que a nossa vida seria, ou teria sido, se optassemos por "x" ou por "y", não nos traz mais felicidade ou melhora as coisas. Mas ganhamos imaginação. Construímos enredos e voamos pelo mundo. Se, em vez de voltar para Portugal, tivesse ficado a dormir na minha cama king size do JW Marriott, no Cairo, quem é que eu seria agora? Tornar-me-ia numa mulher infeliz, de cara tapada a viver debaixo da ponte? Talvez. Casaria com um árabe de raízes ocidentais, num bairro abstado da zona de heliópolis? Seria possível. As pessoas passam a vida a dizer-me "Fdx, só fazes filmes, não faças filmes". Imaginar e sonhar talvez seja um crime neste mundo tão rápido e exigente, no qual pensar é uma barreira à prosperidade do homem na sociedade moderna e vertiginosa. Ou seja, hoje já não há espaço ou tempo para pensar, para reflectir. É acordar, trabalhar o máximo, viver ao máximo, foder ao máximo, procriar e não refilar muito no final de tudo, porquie já tivemos o nosso papel na terra. Mas pensar é essencial e faz falta. Se penso em tudo o que não seria, imaginem só e vejam. Talvez se penso no que não sou, é porque realmente sei quem sou. Agora. Amanhã posso tornar-me numa mulher casada e ter gémeos. Nunca sei o amanhã. E se, por um lado, gosto de dominar a minha vida, ser independente, indomável, teimosa e orgulhosa. Por outro, sigo os meus instintos com lealdade e procuro o imprevisível, o arriscado. Mas apenas e sempre só. E, talvez por isso, faça os filmes da minha vida, procurando um papel principal. Algo perto disso, pelo menos. L.
novembro 13, 2006
Vidas atribuladas
Toda a gente que me conhece minimanente, sabe que eu não páro quieta um segundo. Nem que seja por dentro, na minha mente. E aborreço-me facilmente. Por isso tenho sempre que engendrar esquemas para me distrair e divertir que é, acima de tudo, o mais importante nesta fugaz vida. Sem diversão e prazer, sem um belo esforço recompensado, as coisas tornam-se muito mais difíceis de viver e ser ultrapassadas, talvez porque perdem a graça ou o sabor. De que me vale passar a vida aborrecida, de cara de vela apagada e corpo de goma? Sei que era mais fácil ser simples e resignada. "Ah e tal..isto é muito mau e tal, mas é a vida". Mas como não sou uma portuguesa típica nesse sentido, portantoss, paciência.
Vim do México, do calor, da praia, das bebidas, das conversas com os empregados de hotel, da absorção da cultura e só me consegui chatear. Cheguei a Portugal e voltou tudo ao mesmo. E desde que comecei o estágio, muita coisa mudou. Do dia para a noite fiquei sem namorado, sem vida social, sem tempo. Digo-vos, foi melhor assim. Não me sentia feliz, era como correr atrás de algo que desejasse muito e estivesse sempre a cair e a tropeçar. De seguida levantava-me de novo, mas por muito que quisesse, já não conseguia correr tanto e da mesma forma..destemida. Os meus sentidos já estavam desconfiados e mantinham-se alerta para qualquer possível acidente de percurso. Corri e caí que me fartei. Não aguentei mais manter uma relação que não existia. E libertei-me. E o trabalho distraíu-me.
Abri os horizontes do olhar, da mente e corri em direcção aos objectivos que comecei a conhecer no dia-a-dia. Cresci, morri, renasci. É tão mais fácil procurar a aventura e os desafios do que ficar à espera que ela nos caía, que a obra do destino nos seja favorável e nos dê novas oportunidades. Infelizmente - ou não - as coisas não funcionam assim. Não sei bem o que acabei de dizer, mas apeteceu-me e fez-me bem..O stress faz mal, meus amigos. Não se deixem levar por ele e arrisquem-se sempre a questionar as coisas. Parece de doidos..Parecendo que não, ajuda (Brunito, tamos contigo pá..). Hasta la victoria siempre. L.
Vim do México, do calor, da praia, das bebidas, das conversas com os empregados de hotel, da absorção da cultura e só me consegui chatear. Cheguei a Portugal e voltou tudo ao mesmo. E desde que comecei o estágio, muita coisa mudou. Do dia para a noite fiquei sem namorado, sem vida social, sem tempo. Digo-vos, foi melhor assim. Não me sentia feliz, era como correr atrás de algo que desejasse muito e estivesse sempre a cair e a tropeçar. De seguida levantava-me de novo, mas por muito que quisesse, já não conseguia correr tanto e da mesma forma..destemida. Os meus sentidos já estavam desconfiados e mantinham-se alerta para qualquer possível acidente de percurso. Corri e caí que me fartei. Não aguentei mais manter uma relação que não existia. E libertei-me. E o trabalho distraíu-me.
Abri os horizontes do olhar, da mente e corri em direcção aos objectivos que comecei a conhecer no dia-a-dia. Cresci, morri, renasci. É tão mais fácil procurar a aventura e os desafios do que ficar à espera que ela nos caía, que a obra do destino nos seja favorável e nos dê novas oportunidades. Infelizmente - ou não - as coisas não funcionam assim. Não sei bem o que acabei de dizer, mas apeteceu-me e fez-me bem..O stress faz mal, meus amigos. Não se deixem levar por ele e arrisquem-se sempre a questionar as coisas. Parece de doidos..Parecendo que não, ajuda (Brunito, tamos contigo pá..). Hasta la victoria siempre. L.
outubro 06, 2006
A vida num segundo (II)
O comboio estava a chegar. Não sabia quanto, mas estava realmente atrasada. Furou as pessoas inertes que miravam as janelas fumadas do trem e procurou uma escapatória possível daquela realidade, realmente, desagradável. Escapando daquela cárcere quotidiana, enfiou-se naquela ilha que a levaria à sua vida académica. "É outra prisão". Raquel observava aqueles seres, escondida nos seus fios de cabelo, espalhados pelos ombros firmes. Protegida, debaixo dos cabelos lisos castanhos, os olhos rasgados de tez de avelã perscrutavam os pensamentos daqueles desconhecidos que a assombravam. "É uma prisão mas uma boa prisão, que nos esconde, nos protege da vida lá fora", pensou, quando conseguiu ver um pedaço do mar através da janela de vidro baça.
De pé, os livros pesavam nos braços e o casaco no corpo. Raquel olhava a luz, a vida, enquanto os decibéis lhe entravam pelos ouvidos a dentro, proporcionando-lhe sentimentos ricos e confusos. De phones pretos, nos ouvidos, a rapariga dos "Puma" azuis levava nos olhos vivos, a tenacidade de quem procura uma descoberta após descoberta. Naquele pré-momento de canetas, papéis e atenção redobrada atrás de uma secretária, Raquel vivia na terra, com pensamentos dispersos nas emoções que sentia.
De pé, os livros pesavam nos braços e o casaco no corpo. Raquel olhava a luz, a vida, enquanto os decibéis lhe entravam pelos ouvidos a dentro, proporcionando-lhe sentimentos ricos e confusos. De phones pretos, nos ouvidos, a rapariga dos "Puma" azuis levava nos olhos vivos, a tenacidade de quem procura uma descoberta após descoberta. Naquele pré-momento de canetas, papéis e atenção redobrada atrás de uma secretária, Raquel vivia na terra, com pensamentos dispersos nas emoções que sentia.
setembro 02, 2006
Miss, Tequila e Gajos..
Entrei. Filas e filas de cadeiras vazias. Um palco ao fundo e muitas luzes que ofuscam a vista. Não percebi o que se passava mas vi 3 rapazes aos pulos no palco, com energia para dar e vender, sempre dispostos para a acção. Avancei pronta para alguma emoção. Sentei-me na 2ª fila, cruzei as pernas e ouvi "Vamos elejer la Miss Palladium!!"..
Percebi, num ápice, do que se tratava, sem qualquer sombra de dúvidas e pensei "Só espero que não me chamem para ali.."..Muitas das pessoas que me conhecem, acham que sou só extroversão..mas é a mentira completa. Apesar das minhas loucuras, em certas situações o meu lado mais tímido domina a situação e impede-me de realizar nas perfeição todas as coisas que sei que poderia realizar..
"Tuuu!".. Um rapaz moreno, de cabelo espetado, magro e de estilo desportivo, puxou-me para o palco como se não houvesse mais hipóteses. Disse que não e não. Mas fui puxada e como tava ali sozinha e para me divertir, pensei: "Que se lixe..".
Segundo a segundo, o público aumentava, mais pessoas chegavam e em cima do placo, com as luzes a ofuscar-me a vista, não me apercebia de nada do que se passava diante de mim mesma. Éramos 5 concorrentes, com provas a fazer. Desde passar um elástico o maior número de vezes num minuto, representar comédia, fazer animais com balões e até beijar todo os homens que nos aparecessem à frente (na cara claro, não quero cá confusões..). O público elegeria a vencedora. Raúl, o "chico" que me buscou da plateira, piscava-me o olho e dizia "Eres ja la vencedora, vas a ganar.." Eu limitava-me a rir..Na prova do elástico fui um desastre, na do balão nem se fala, na do teatro (diverti toda a gente) e no dos homens..well. beijei 22 homens num minuto. Record. O público, perante cada candidata, ia tomar "a" decisão e eleger a vencedora. Como? É simples. Basta aplaudir cada uma delas. A vencedora é a que receber mais aplausos. Meninos, não faço ideia se recebi mesmo mais aplausos. Só sei que ganhei o concurso, diverti-ma à brava e trouxe para o quarto, no final da noite, uma garrafa de tequila..
"Ya lo sabia..sabes porque? Porque tienes chispa.." Regressei ao meu lugar da 2ª fila e não tarda nada, Raúl chegava e perguntava-me tudo de mim. Tinha uma sensualidade inata no corpo, uma vida no olhar e um interesse..Em saber o que estava uma portuguesa, comprometida, a fazer ali, sozinha, no meio do México. Falámos e mais tarde, na aula de Merengue, dada por ele, que fazia parte da animação, lá fui eu. Puxada por um assistente. Raúl estabeleceu quem seria par de quem. Formou os pares e fiquei para o fim. Disse "Y claro..yo me quedo con portugal..". Lá fui eu, mais uma vez, para a frente do palco, atirada para uma prova forte de tentação e de descoberta.. A mim foi incumbida a tarefa de executar os passos que Raúl, tinha a atenção das pessoas todas e isso punha-me nervosa. Depois executávamos a dança ao som de um ritmo bem caliente e os nossos corpos colavam-se. Um olhar penetrante e eu ficava a pensar que diabo se estaria a passar entre mim e ele, nuns míseros dois minutos. Nada de mais, apenas um latino, com toda a perícia e arte, que me tentava seduzir..
No fim da noite fui convidada para ir à maior discoteca da Playa del Carmen..Ao ar livre, com várias pistas de dança..Os vários animadores insistiram..mas para não cair em tentação e em imoralidades, deixei-me associar ao cansanço que sentia e marchei directamente para o meu quarto, com a consciência limpa, feliz..e uma garrafa de bebida na mão..
Percebi, num ápice, do que se tratava, sem qualquer sombra de dúvidas e pensei "Só espero que não me chamem para ali.."..Muitas das pessoas que me conhecem, acham que sou só extroversão..mas é a mentira completa. Apesar das minhas loucuras, em certas situações o meu lado mais tímido domina a situação e impede-me de realizar nas perfeição todas as coisas que sei que poderia realizar..
"Tuuu!".. Um rapaz moreno, de cabelo espetado, magro e de estilo desportivo, puxou-me para o palco como se não houvesse mais hipóteses. Disse que não e não. Mas fui puxada e como tava ali sozinha e para me divertir, pensei: "Que se lixe..".
Segundo a segundo, o público aumentava, mais pessoas chegavam e em cima do placo, com as luzes a ofuscar-me a vista, não me apercebia de nada do que se passava diante de mim mesma. Éramos 5 concorrentes, com provas a fazer. Desde passar um elástico o maior número de vezes num minuto, representar comédia, fazer animais com balões e até beijar todo os homens que nos aparecessem à frente (na cara claro, não quero cá confusões..). O público elegeria a vencedora. Raúl, o "chico" que me buscou da plateira, piscava-me o olho e dizia "Eres ja la vencedora, vas a ganar.." Eu limitava-me a rir..Na prova do elástico fui um desastre, na do balão nem se fala, na do teatro (diverti toda a gente) e no dos homens..well. beijei 22 homens num minuto. Record. O público, perante cada candidata, ia tomar "a" decisão e eleger a vencedora. Como? É simples. Basta aplaudir cada uma delas. A vencedora é a que receber mais aplausos. Meninos, não faço ideia se recebi mesmo mais aplausos. Só sei que ganhei o concurso, diverti-ma à brava e trouxe para o quarto, no final da noite, uma garrafa de tequila..
"Ya lo sabia..sabes porque? Porque tienes chispa.." Regressei ao meu lugar da 2ª fila e não tarda nada, Raúl chegava e perguntava-me tudo de mim. Tinha uma sensualidade inata no corpo, uma vida no olhar e um interesse..Em saber o que estava uma portuguesa, comprometida, a fazer ali, sozinha, no meio do México. Falámos e mais tarde, na aula de Merengue, dada por ele, que fazia parte da animação, lá fui eu. Puxada por um assistente. Raúl estabeleceu quem seria par de quem. Formou os pares e fiquei para o fim. Disse "Y claro..yo me quedo con portugal..". Lá fui eu, mais uma vez, para a frente do palco, atirada para uma prova forte de tentação e de descoberta.. A mim foi incumbida a tarefa de executar os passos que Raúl, tinha a atenção das pessoas todas e isso punha-me nervosa. Depois executávamos a dança ao som de um ritmo bem caliente e os nossos corpos colavam-se. Um olhar penetrante e eu ficava a pensar que diabo se estaria a passar entre mim e ele, nuns míseros dois minutos. Nada de mais, apenas um latino, com toda a perícia e arte, que me tentava seduzir..
No fim da noite fui convidada para ir à maior discoteca da Playa del Carmen..Ao ar livre, com várias pistas de dança..Os vários animadores insistiram..mas para não cair em tentação e em imoralidades, deixei-me associar ao cansanço que sentia e marchei directamente para o meu quarto, com a consciência limpa, feliz..e uma garrafa de bebida na mão..
agosto 28, 2006
Sentada no paraíso
Em Valladolid pouco vi. Acabei por estacionar numa loja, super mega grande. Havia de tudo, desde uma mercearia em que um pacote de Cheetos custava 3 pesos (note-se que não é o mesmo que 3 euros), até um espaço gigante, cheio de esculturas e coisas artesanais. Perdi-me no meio de tanta coisa e sabia que já não ia ter muitas mais oportunidades para gastar uns cobres, por isso aventurei-me e larguei os cordões à bolsa. O vendedor tinha muita sabedoria, sabia o que dizer para me fazer comprar, mas acabei por comprar várias coisas aos poucos, regateando sempre. Dasse, vocês sabem lá a confusão que é, converter as moedas e perceber se devo pedir um preço mais baixo ou não.
Enquanto os meus camaradas se passearam, encafuei-me ali, só tendo tempo para tirar uma foto na praça central (tal como havia em Mérida e noutras cidades coloniais). "Chula", disse David, o motorista. Interroguei-o e ele disse "guapa". Sorri e corri para a carrinha de vidros fumados, procurando um refúgio.
Riviera Maya. Era esse o próximo destino e o destino final do circuito. Agora era altura de curtir a praia, beber uns copos e disfrutar calmamente do paraíso magnânime que me era oferecido. Cada casal ia para um hotel diferente. No meu caso, o Kantenah não era escolha exclusiva. Para lá iam também mais dois casais. Adivinhem quem..Provavelmente não. A espanhola com ar de miúda. Bingo. Ah e outro casal..
Despedi-me dos demais e lá fui eu..Mal sabia o que me ia acontecer..4734. Era este o meu quarto, a minha gruta durante os dois dias seguintes, até voltar à dura realidade.
Mal cheguei reparei no exotismo que rodeava o cenário. A selva pura, as aves, o calor húmido. O verde predominava, a flora era riquíssima e o hall de entrada do hotel parecia muito magnífico. Talvez não tenha escrito como queria, mas n sei como descrever melhor o que se passava. Era de uma beleza sem fim, cheia de requintes e extravagância. Um chão brilhante que reluzia, uma panóplia de empregados de chapéu de côco, sempre prestáveis. O bar era do lado esquerdo, feito do seu balcão comprido e copos brilhantes. A recepção, do outro lado, acolhia os recém-chegados. Ao centro um combinado de mesas, sofás fofos e um mini lago com repuxo e peixes. O espaço era semi aberto, sem paredes, dando abertura para a paisagem selvagem.
Cheguei ao quarto e maravilhei-me com tanta..com tanta..err..grandeza. Cama King Size, ar condicionado, mini bar cheio, pinturas da Frida Kahlo na parede..Ya, coisas dessas. Aperaltei-me e, já fresquinha, fui explorar o hotel. O Complexo tinha 4 hotéis ao todo: Kantenah, Colonial, Riviera e White Sands. Todos faziam parte do Palladium (o hotel geral, digamos..). Passeei e percebi que o hotel era mesmo..grande..demasiado grande e que não haveria tempo para conhecer todas as iguarias.
Decidi ir jantar. Se tivesse mais tempo e memória, descrevia tudo ao pormenor. Mas como são coisas que não tenho neste momento - para além da paciência - só vos posso dizer que o buffet era rodeado de um lago cheio de peixes laranjas, todo envidraçado. Enchíamos o estômago e regalávamos a vista. Passei o espírito por aquele espaço, mesmo sem encher o estômago, tentando captar a essência humana daquele espaço. Muitos americanos - gordos, na grande maioria - e alguns japoneses. Portugueses, nem vê-los. Uma variedade de comida infindável decorava cada esquina e cada pormenor: peixe, carne, fritos, grelhados, fruta, entre outros e tal.
21:30. Sabia que ia haver um espectáculo e fui para o teatro. Só não sabia que ia ser para eleger a Miss Palladium....
Enquanto os meus camaradas se passearam, encafuei-me ali, só tendo tempo para tirar uma foto na praça central (tal como havia em Mérida e noutras cidades coloniais). "Chula", disse David, o motorista. Interroguei-o e ele disse "guapa". Sorri e corri para a carrinha de vidros fumados, procurando um refúgio.
Riviera Maya. Era esse o próximo destino e o destino final do circuito. Agora era altura de curtir a praia, beber uns copos e disfrutar calmamente do paraíso magnânime que me era oferecido. Cada casal ia para um hotel diferente. No meu caso, o Kantenah não era escolha exclusiva. Para lá iam também mais dois casais. Adivinhem quem..Provavelmente não. A espanhola com ar de miúda. Bingo. Ah e outro casal..
Despedi-me dos demais e lá fui eu..Mal sabia o que me ia acontecer..4734. Era este o meu quarto, a minha gruta durante os dois dias seguintes, até voltar à dura realidade.
Mal cheguei reparei no exotismo que rodeava o cenário. A selva pura, as aves, o calor húmido. O verde predominava, a flora era riquíssima e o hall de entrada do hotel parecia muito magnífico. Talvez não tenha escrito como queria, mas n sei como descrever melhor o que se passava. Era de uma beleza sem fim, cheia de requintes e extravagância. Um chão brilhante que reluzia, uma panóplia de empregados de chapéu de côco, sempre prestáveis. O bar era do lado esquerdo, feito do seu balcão comprido e copos brilhantes. A recepção, do outro lado, acolhia os recém-chegados. Ao centro um combinado de mesas, sofás fofos e um mini lago com repuxo e peixes. O espaço era semi aberto, sem paredes, dando abertura para a paisagem selvagem.
Cheguei ao quarto e maravilhei-me com tanta..com tanta..err..grandeza. Cama King Size, ar condicionado, mini bar cheio, pinturas da Frida Kahlo na parede..Ya, coisas dessas. Aperaltei-me e, já fresquinha, fui explorar o hotel. O Complexo tinha 4 hotéis ao todo: Kantenah, Colonial, Riviera e White Sands. Todos faziam parte do Palladium (o hotel geral, digamos..). Passeei e percebi que o hotel era mesmo..grande..demasiado grande e que não haveria tempo para conhecer todas as iguarias.
Decidi ir jantar. Se tivesse mais tempo e memória, descrevia tudo ao pormenor. Mas como são coisas que não tenho neste momento - para além da paciência - só vos posso dizer que o buffet era rodeado de um lago cheio de peixes laranjas, todo envidraçado. Enchíamos o estômago e regalávamos a vista. Passei o espírito por aquele espaço, mesmo sem encher o estômago, tentando captar a essência humana daquele espaço. Muitos americanos - gordos, na grande maioria - e alguns japoneses. Portugueses, nem vê-los. Uma variedade de comida infindável decorava cada esquina e cada pormenor: peixe, carne, fritos, grelhados, fruta, entre outros e tal.
21:30. Sabia que ia haver um espectáculo e fui para o teatro. Só não sabia que ia ser para eleger a Miss Palladium....
Subscrever:
Mensagens (Atom)