Avança o mais que puderes, nesta Arte da Vida, surpreende os teus adormecidos sentidos, descobre os aromas perdidos e ataca-os, como se um poço de emoções te cobrisse com grãozinhos de areia geniais, dos pés à cabeça. Abre a tua caixa... Abre-a e enfrenta-a.
março 28, 2007
Contos antigos mas não esquecidos
Andei a vasculhar pelas minhas coisas e vi dois contos que produzi para "Escrita Criativa", na altura da faculdade. Lembro-me que me deu muito prazer construir estas histórias, mas também me recordo dos erros fatais que dei..Quem quiser, dê uma vista de olhos. São duas narrativas muito descritivas. Portanto, se não gostas de pormenores..err..podes voltar para a banda desenhada do Tio Patinhas, ok? :) L.
O Roupão de Lena
Um novo dia alvorecera.
Envolta no quentinho dos lençóis de linho, cobertos pelo edredon francês, Lena desperta, suavemente, com um raio de luz a incidir-lhe no olho esquerdo. Os seus movimentos, ainda presos e ligados ao passivo estado adormecido, são curtos e incompletos, procurando esconder o seu corpo da luz para mergulhar, de novo, num sono profundo.
O chilrear dos pássaros e o relinchar de um cavalo irrompem pelo seu quarto, estimulando os seus sentidos, fazendo com que as suas pálpebras inchadas se soltem, querendo fugir da luz da aurora, que insiste em ferir os seus olhos. Resignada, Lena cede, expondo as pupilas castanhas à luz clara do seu espaçoso quarto. Perante si estava um roupão vermelho vivo, pendurado num bengaleiro de carvalho, de uma extravagância sem fim, feito de um veludo suave ao toque.
Lena levanta-se, aconchega-se por entre a teia da camisa creme bordada, de longas mangas rendilhadas, calça os chinelos de um “ fru-fru” balançante e veste o roupão vermelho. Pregiçosa, a mulher desloca-se, num passo arrastado, até à casa-de-banho, no outro lado da divisão. Diante do espelho oval, Lena observa-se. Do alto dos seus trinta e dois anos, aquela mulher possuía uma pele cor de leite, uns cabelos lisos e sedosos, escuros como o fim de um futuro perdido. O recente acordar conferia um carácter desalinhado ao cabelo, um conjunto de ondas dispersas na sua densa massa capilar. Contudo, a alvura dos olhos grandes e castanhos-avelã dava a Lena um toque de suavidade feminina, reforçada por uma noite bem dormida.
Olhou-se ao espelho, observou cada linha do seu rosto, perdeu-se num passado magoado que não queria recordar. Desde muito nova que mais nada via e conhecia que o seu pobre rosto, nú e despido, nas ruas perigosas da nova sociedade urbana. Órfã desde os cinco anos, Lena cresceu num dos orfanatos da capital, onde os maus tratos se sucediam, minuto a minuto, numa insegurança diária, afastando-a do mundo que, outrora, desejara conhecer. Numa adolescência amargurada, a bonita moça de olhos grandes não aguentou a infelicidade, ao invés, aprendeu a defender-se, a magoar em vez de ser magoada. Escapou aos dezasseis anos, acabando sozinha num beco incerto de Lisboa.
Envolta no quentinho dos lençóis de linho, cobertos pelo edredon francês, Lena desperta, suavemente, com um raio de luz a incidir-lhe no olho esquerdo. Os seus movimentos, ainda presos e ligados ao passivo estado adormecido, são curtos e incompletos, procurando esconder o seu corpo da luz para mergulhar, de novo, num sono profundo.
O chilrear dos pássaros e o relinchar de um cavalo irrompem pelo seu quarto, estimulando os seus sentidos, fazendo com que as suas pálpebras inchadas se soltem, querendo fugir da luz da aurora, que insiste em ferir os seus olhos. Resignada, Lena cede, expondo as pupilas castanhas à luz clara do seu espaçoso quarto. Perante si estava um roupão vermelho vivo, pendurado num bengaleiro de carvalho, de uma extravagância sem fim, feito de um veludo suave ao toque.
Lena levanta-se, aconchega-se por entre a teia da camisa creme bordada, de longas mangas rendilhadas, calça os chinelos de um “ fru-fru” balançante e veste o roupão vermelho. Pregiçosa, a mulher desloca-se, num passo arrastado, até à casa-de-banho, no outro lado da divisão. Diante do espelho oval, Lena observa-se. Do alto dos seus trinta e dois anos, aquela mulher possuía uma pele cor de leite, uns cabelos lisos e sedosos, escuros como o fim de um futuro perdido. O recente acordar conferia um carácter desalinhado ao cabelo, um conjunto de ondas dispersas na sua densa massa capilar. Contudo, a alvura dos olhos grandes e castanhos-avelã dava a Lena um toque de suavidade feminina, reforçada por uma noite bem dormida.
Olhou-se ao espelho, observou cada linha do seu rosto, perdeu-se num passado magoado que não queria recordar. Desde muito nova que mais nada via e conhecia que o seu pobre rosto, nú e despido, nas ruas perigosas da nova sociedade urbana. Órfã desde os cinco anos, Lena cresceu num dos orfanatos da capital, onde os maus tratos se sucediam, minuto a minuto, numa insegurança diária, afastando-a do mundo que, outrora, desejara conhecer. Numa adolescência amargurada, a bonita moça de olhos grandes não aguentou a infelicidade, ao invés, aprendeu a defender-se, a magoar em vez de ser magoada. Escapou aos dezasseis anos, acabando sozinha num beco incerto de Lisboa.
De média estatura, Lena ficou uma linda mulher, com olhares, gestos e cheiros que amaciavam o pesaroso estar dos homens. Viveu assim, anos após anos, escondendo em cada cigarro queimado e em cada olho, pintado e delineado, a personificação de uma dissimulação interessada, desprovida de sentimentos e de falares espontâneos. Ruas, bares, discotecas, balcões de cafés, restaurantes e casas do mais falso uso: Lena era uma protagonista, incontestável, nesta geografia pertencente a uma teia indigna de acção, onde a luxúria de um prazer instantâneo se deslizava entre corpos sem rostos, caras de cínicas risadas. A cada “tic tac” daquela versátil mulher, a agilidade tornou-se na sua ascensão, dando a Lena o gostinho ambicioso das aparências.
Despe o roupão vermelho, entra na banheira de mármore branca, apressada, procurando o escorrer da água fervente no couro cabeludo, o sentir de um vapor envolvente que a proteja desse pecaminoso passado. A morena, nos seus maduros trinta anos, aproximou-se, numa acção planeada e meticulosa, de Sebastião Policarpo, o maior empresário do país, detentor de dezenas de empresas, tendo como principal área de intervenção a criação de animais –cavalos, galinhas, porcos- nas várias propriedades rurais que possuía, de norte a sul do país. Após investigar todo o potencial financeiro e social que aquele homem tinha para lhe dar, Lena não hesita, mascara-se, cria uma identidade e personalidade adequadas ao perfil e, na sua fatal subtileza de menina-mulher ingénua, doce e desamparada por entre réstias de névoa, captura aquele estragado coração. Sebastião, já cinquentenário, vê em Lena a eterna juventude de um fugaz amor, uma presença discreta, devota e dedicada.
Despe o roupão vermelho, entra na banheira de mármore branca, apressada, procurando o escorrer da água fervente no couro cabeludo, o sentir de um vapor envolvente que a proteja desse pecaminoso passado. A morena, nos seus maduros trinta anos, aproximou-se, numa acção planeada e meticulosa, de Sebastião Policarpo, o maior empresário do país, detentor de dezenas de empresas, tendo como principal área de intervenção a criação de animais –cavalos, galinhas, porcos- nas várias propriedades rurais que possuía, de norte a sul do país. Após investigar todo o potencial financeiro e social que aquele homem tinha para lhe dar, Lena não hesita, mascara-se, cria uma identidade e personalidade adequadas ao perfil e, na sua fatal subtileza de menina-mulher ingénua, doce e desamparada por entre réstias de névoa, captura aquele estragado coração. Sebastião, já cinquentenário, vê em Lena a eterna juventude de um fugaz amor, uma presença discreta, devota e dedicada.
Desde o dia do casamento, há dois anos, Lena vive em Santarém na “Quinta Policarpo”, a quinta central do empresário e residência oficial daquela família. Ligada há décadas de tradições, a uma brisa fresca entre héctares de oliveiras e às festas mais conhecidas e requintadas do país, nela a morena, de delicadas aparências, se fez destacar através de uma falsa singularidade, entre um golo de champanhe, um “clik” de uma gargantilha elegante e um apanhar de um tecido Paco Rabanne.
Num escaldar desse duche, Lena fecha os olhos, numa descontração risonha, repartida entre um deslizar de água e uma nublina emergente, indicadores do seu conforto. Lena enrolada numa toalha com um bordado francês, no qual um “L” maiúsculo vermelho ganha ênfase, passa do mosaico geométrico da casa-de-banho para o soalho flutuante do quarto. E lá, o sol primaveril embatia, através da janela de guilhotina enmadeirada, com fulgor nos lençóis amachucados. Abre o guarda-roupa antigo de carvalho. Tira uma camisa branca, umas calças pretas, combinadas com um cinto de pele preta e umas sandálias de salto pretas. Rente ao seu espelho oval do balneário, Lena prendia, finalmente, a volumosa negritude da sua cabeça, acabando por colocar uma sombra discreta nas transparentes pálpebras e um leve rosa velho nos lábios. Observou-se, novamente. Os lábios finos, dois olhos grandes retocados por escuras e compridas pestanas faziam dela uma mulher de interessante descrição: Lena Policarpo, a fiel, frágil, sensível, tímida esposa do mais rico homem do país.
Esfomeada, Lena abre o frigorífico na enorme cozinha de janelas de madeira e azulejos beje, cuja linha central era feita de cachos de uvas e maçãs, frutos de várias côres, procurando algo para se deliciar. O silêncio da casa era esmagador e, para se unir à banda sonora do exterior, Lena pousa o pacote de leite na bancada de mármore e abre a janela do seu lado direito, numa das esquinas da sumptuosa cozinha. Recheada de tachos, de panelões e, petrificada, Lena observa a silhueta de um cavalo castanho e manchado em movimento, pequeno e veloz, descontrolado por entre aquelas planícies povoadas por árvores e flores. À medida que acompanha o seu relinchar, vislumbrou, no topo do animal que mirava, um jovem: Filipe Policarpo.
Os olhos castanhos daquela mulher tornaram-se duas chamas de velas, dois pontos longínquos entre altas montanhas, duas submissões de desejos perdidos. Junto àquela janela, Lena entrou noutro mundo, onde a visão de um anjo loiro não a deixava respirar, sentindo que jamais o tempo ou o espaço pudessem matar aquele rubor que a invadia, aquela paixão que a ardia, vindos daquele anjo. O olhar de Lena se lança num horizonte infinito e o anjo cavaleiro desaparecia, selvagem e rebelde, matando a máscara daquela fraca mulher, fazendo-a cair no chão da cozinha para cansar aquele amor impossível que teria de esconder.
Um calor ameno do meio-dia acabara de se espelhar no nariz mediano e arrebitado de Lena.
De pé, virada para a vastidão da quinta, Lena aguardava, encostada ao janelão da grande sala de antiguidades. Longe daquele instante, elaborava planos para iludir os olhos daqueles supremos seres, sendo grande apenas a estupidez que aquela gente podia ter. Riu-se! Eram todos uns idiotas. Levou o copo de cristal aos lábios, deixando entrar um golo de “Monte Velho”, saboreando a finura daquela delícia de vida.
“Lena, querida! Onde estás, minha pomba?”. Lena coloca a expressão que mascarara, vira-se num gesto pacífico e fita o seu marido, utilizando um sorriso rasgado e luminoso. Sebastião Policarpo colou seus lábios nos dela, num gesto terno e rápido, deixando as linhas dos seus escondidos olhos verdes decifrar os dois pontos castanhos, amando num silêncio devorador de dezenas de milhares de palavras. Sebastião pega na mão de Lena, beija-a delicadamente, e dirige-se para a mesa, guiando-a, num gesto de amante irremediável. Assim, os dois almoçam, de olhares e palavras trocados. Cada risada daquela mulher de inocência jovem, brilhava aos olhos verdes e pequenos de um já velho de cinquenta e cinco anos, vivido de supremacias sociais e financeiras.
Rodeada de fumo, na ausência do marido, Lena cerra os olhos enquanto milésimas de pensamentos de uma estranha deslumbrância, a afagam, ao mesmo tempo que, estendida num divã grená, com as suas linhas capilares espalhadas, fixa um retrato à sua frente, desse anjo.
Passos. Lena torna a cabeça, languidamente, para a sua rectaguarda. Mas, numa fracção de segundo, o seu olhar desperta, assinalando também o tremer nervosinho do seu corpo contraído e fininho. Subitamente, a imagem de um jovem alto de um metro e oitenta, de belos cabelos encaracolados loiros e olhos de um verde inalcançável, entra no velho salão, emanando à sua volta uma aura repleta de luminosidade branca. Lena engoliu em seco. Filipe Policarpo, filho do dono daquele pedaço de terra, tinha dezoito anos, uma timidez inteligente, um escudo protector e desconfiado em relação a possíveis elementos intrusivos. Perspicaz e ágil, é detentor de um corpo esbelto, fortalecido pela actividade física regular que, desde sempre exercia, tendo como paixão a equitação. Culto, o actual campeão de xadrez nacional ajuda nas horas livres o seu pai, reconhecendo-o como um homem de referência, um representante de tudo aquilo que ele gostaria de poder um dia ser.
“Não queres comer nada Filipe?”, interrogou Lena, afastando duas madeixas de cabelo das bochechas rosadas, no seu ar tímido.
“Não, obrigada. Se tiver fome, vou ao frigorífico e cozinho qualquer coisa.”, respondeu Filipe, num tom seco e indiferente, ao mesmo tempo que se deitava no longo sofá de pele castanha, em frente do divã grená. Ficou de olhos fechados e cabeça apoiada nos braços cruzados, numa postura de leve descontracção, onde o cabelo húmido e despenteado lhe dava uma sensualidade rara, acompanhada pelo suor que encharcava a camisa de xadrez azul e a sujidade entranhada daqueles acres.
“Porquê?”, pensava Lena, franzindo as simétricas sobrancelhas. Aquela atitude de desdém magoava-a. Ela sabia que o enteado nunca gostara dela, que a única pessoa que não tinha conseguido enganar até então, representava tudo o que naquele momento desejava e, no entanto, também sempre tentara repudiar. No silêncio daquela sala, apenas quebrado pelo camponês barulho e pela respiração adormecida de Filipe, Lena esticou-se até à mesinha ao lado do grande divã, agarrando um cigarro, nervosamente. Acendeu-o com um isqueiro dourado, ao mesmo tempo que os olhos se humedeciam, procurando apaziguar a forte dôr que atacava o seu peito. Naquela sensação de agonia, de perda, Lena fumou cada cigarro num prazer rápido, matando cada pedaço rejeitado de si mesma, na esperança de olhar para um anjo que amasse a janela vislumbradora do seu corpo.
Filipe abre os olhos. Tossindo, levanta-se, mal disposto.
“Já que queres estragar a vida do meu pai, ao menos, respeita as coisas dele.”, afirmou Filipe, encarando Lena numa réplica de confronto. Virou costas e andou, num passo tranquilo, até desaparecer naquelas curvas escuras.
O céu escurecera, lentamente, estando o horizonte habitado por uma névoa rosada que serve de tecto para as aves ribatejanas.
No seu quarto, Lena transforma-se. “Ninguém me escapou, não é um fedelho desmamado que o vai conseguir!”, exclamou frente ao espelho oval da casa-de-banho. Já não era a mesma Lena, não. Usando um vestido “Gucci” preto comprido e justo ao corpo, exibia um “decote em V” na frente e outro mais rasgado atrás. O vermelho vivo cobria os lábios finos, sensualizava a pele transparente, dando à cara desta fachada de ingénua rapariga um ar de quente e abrasadora mulher. Os cabelos, agora soltos, lisos na sua harmonia, reluziam a feminilidade de Lena, fazendo dela irresistível. Olhou-se ao espelho.
Confiante e bela, Lena, nas suas passadas certas, dirige-se para o jardim. Avista Filipe, uns metros à frente, numa espreguiçadeira de madeira, de camisola de lã vermelha, sentado a ler. A serenidade daquele dia começava a dar sinais do seu fim, levantando-se o vento e enublando-se o céu, como se de um abismo se tratasse. Lena coloca-se à frente de Filipe, num olhar de aço voraz e lábios ardentes, mas Filipe, apesar de dar conta da sua presença, repudia-a.
“É melhor o meu pai não te ver assim.”, afirma.
Lena, mesmo assim, avança, senta-se junto a ele e beija-o num impulso de paixão inflamada. Ele empurra-a.
“Metes-me nojo!”, exclama Filipe, sintonizando o seu discurso com um empurrão a Lena que, por força e resistência, rasga uma migalha do seu “Gucci”, assistindo à saída de Filipe do cenário que tanto planeara. A “Quinta Policarpo” está enfeitada com folhas, símbolos de uma noite regida pela imperial lua cheia, e pó nos olhos de Lena que, transtornada, vê o facilitismo da beleza maquilhada se esvanecer. O vento se revolta, transformando a sua cabeleira num cruzar de fios ásperos e secos, com a poeira na raíz e nos lábios agora invisíveis.
Pum. Lena ouve passos distantes.
“É o velho.”, pensa para si, com ódio de tudo. Por entre a perdição fantasmagórica da noite, Lena rasga o seu vestido. Ao mesmo tempo, ouve uma sinfonia de Berlioz ecoar naquela sala, feita das suas amarguras, feita dos olhares e dos desejos rejeitados.
Berlioz preenchia a sala vasta.
“Se continuarmos assim, podemos abrir uma nova sucursal em Guimarães!”, explicava Sebastião a Filipe, durante o jantar, deliciando-se com o bacalhau cozido, temperado com tirinhas de alho crú e muito azeite.
“Óptimo! O João Pedro ligou-me hoje por causa do campeonato europeu de xadrez..Parece que querem mesmo que participe.”, respondia Filipe, com o sorriso nos dentes de marfim, levando uma metade de batata à boca.
Naquela melodia forte e clássica, as notas difundiam-se, como se escapassem de uma longa estrada, pequenas e suaves, para depois, rebater umas contra as outras, pressagiando o desenlace dessa noite.
“Basta!”, grita Lena, olhando Filipe ferozmente, enquanto surge na sala, desarranjada.
“Querida, mas o que te aconteceu?”, interroga Sebastião, deixando cair um nico de bacalhau no prato.
“Diz-lhe, aposto que ele vai gostar de saber”, afirma Filipe enquanto se levanta, rapidamente, da mesa. Lena mira Sebastião e, num andar envergonhado, enrola o choro mimoso, encostando-se ao marido.
“Querido, o teu filho abusou de mim! Olha para mim! Olha para o meu estado..”, grita Lena na voz embargada, revelando os rasgões da roupa e as indefesas da alma perdida.
Sebastião encara Filipe, enquanto os sopros de Berlioz, no seu fortíssimo, se reflectiam na expressão do jovem, anunciando a retirada daquela sala. Impestuosamente, o anjo pega nas suas chaves e, sem hesitações, deixa a quinta na velocidade ruidosa do seu “cabriolet”. Lena larga Sebastião, subitamente.
“Não!”, exclama, confusa e deprimida, correndo para o seu quarto, consciente daquele erro incontornável. Sebastião chama-a, num bater de porta, mas em vão.
“Lena! Lena!” Aquele nome já nada significava. Lena tira a roupa rapidamente, lava-se no lavatório curvado e veste o seu roupão vermelho. Encosta-se aterrorizada, de olhos esbugalhados e espicaçados, à parede branca. Cai no chão, estatelada.
Ring ring. Passos. Uma voz. Lena escuta a rouca voz de Sebastião ao telefone. “O Filipe teve um acidente?..Não, não pode ser!”, falava Sebastião na solidão da vivenda abandonada, na aguda linha do seu choro.
Lena, enrolada no extravagante roupão vermelho, rompe a correr pelos corredores labirínticos, na loucura da voz riscada, nos gestos desenfreados de uma loucura, em direcção à quinta. Na tempestade da noite fria, húmida, onde fracções de segundos se estendem com os relâmpagos tenazes, Lena perde-se, morta pelo desgosto. Atormentada pelo remorso, está apenas coberta pelo vermelho trágico do veludo de roupão, imersa naquela densidade impenetrável, amparada pelo frio da chuva severa. Sente-se empurrada, seguindo o caminho para o limiar da sua vazia vida, colocando-a num abismo que jamais voltaria a conhecer, após o seu rosto, pálido e pequeno, deslizar nas águas turvas de um poço qualquer, num sítio qualquer.
Num escaldar desse duche, Lena fecha os olhos, numa descontração risonha, repartida entre um deslizar de água e uma nublina emergente, indicadores do seu conforto. Lena enrolada numa toalha com um bordado francês, no qual um “L” maiúsculo vermelho ganha ênfase, passa do mosaico geométrico da casa-de-banho para o soalho flutuante do quarto. E lá, o sol primaveril embatia, através da janela de guilhotina enmadeirada, com fulgor nos lençóis amachucados. Abre o guarda-roupa antigo de carvalho. Tira uma camisa branca, umas calças pretas, combinadas com um cinto de pele preta e umas sandálias de salto pretas. Rente ao seu espelho oval do balneário, Lena prendia, finalmente, a volumosa negritude da sua cabeça, acabando por colocar uma sombra discreta nas transparentes pálpebras e um leve rosa velho nos lábios. Observou-se, novamente. Os lábios finos, dois olhos grandes retocados por escuras e compridas pestanas faziam dela uma mulher de interessante descrição: Lena Policarpo, a fiel, frágil, sensível, tímida esposa do mais rico homem do país.
Esfomeada, Lena abre o frigorífico na enorme cozinha de janelas de madeira e azulejos beje, cuja linha central era feita de cachos de uvas e maçãs, frutos de várias côres, procurando algo para se deliciar. O silêncio da casa era esmagador e, para se unir à banda sonora do exterior, Lena pousa o pacote de leite na bancada de mármore e abre a janela do seu lado direito, numa das esquinas da sumptuosa cozinha. Recheada de tachos, de panelões e, petrificada, Lena observa a silhueta de um cavalo castanho e manchado em movimento, pequeno e veloz, descontrolado por entre aquelas planícies povoadas por árvores e flores. À medida que acompanha o seu relinchar, vislumbrou, no topo do animal que mirava, um jovem: Filipe Policarpo.
Os olhos castanhos daquela mulher tornaram-se duas chamas de velas, dois pontos longínquos entre altas montanhas, duas submissões de desejos perdidos. Junto àquela janela, Lena entrou noutro mundo, onde a visão de um anjo loiro não a deixava respirar, sentindo que jamais o tempo ou o espaço pudessem matar aquele rubor que a invadia, aquela paixão que a ardia, vindos daquele anjo. O olhar de Lena se lança num horizonte infinito e o anjo cavaleiro desaparecia, selvagem e rebelde, matando a máscara daquela fraca mulher, fazendo-a cair no chão da cozinha para cansar aquele amor impossível que teria de esconder.
Um calor ameno do meio-dia acabara de se espelhar no nariz mediano e arrebitado de Lena.
De pé, virada para a vastidão da quinta, Lena aguardava, encostada ao janelão da grande sala de antiguidades. Longe daquele instante, elaborava planos para iludir os olhos daqueles supremos seres, sendo grande apenas a estupidez que aquela gente podia ter. Riu-se! Eram todos uns idiotas. Levou o copo de cristal aos lábios, deixando entrar um golo de “Monte Velho”, saboreando a finura daquela delícia de vida.
“Lena, querida! Onde estás, minha pomba?”. Lena coloca a expressão que mascarara, vira-se num gesto pacífico e fita o seu marido, utilizando um sorriso rasgado e luminoso. Sebastião Policarpo colou seus lábios nos dela, num gesto terno e rápido, deixando as linhas dos seus escondidos olhos verdes decifrar os dois pontos castanhos, amando num silêncio devorador de dezenas de milhares de palavras. Sebastião pega na mão de Lena, beija-a delicadamente, e dirige-se para a mesa, guiando-a, num gesto de amante irremediável. Assim, os dois almoçam, de olhares e palavras trocados. Cada risada daquela mulher de inocência jovem, brilhava aos olhos verdes e pequenos de um já velho de cinquenta e cinco anos, vivido de supremacias sociais e financeiras.
Rodeada de fumo, na ausência do marido, Lena cerra os olhos enquanto milésimas de pensamentos de uma estranha deslumbrância, a afagam, ao mesmo tempo que, estendida num divã grená, com as suas linhas capilares espalhadas, fixa um retrato à sua frente, desse anjo.
Passos. Lena torna a cabeça, languidamente, para a sua rectaguarda. Mas, numa fracção de segundo, o seu olhar desperta, assinalando também o tremer nervosinho do seu corpo contraído e fininho. Subitamente, a imagem de um jovem alto de um metro e oitenta, de belos cabelos encaracolados loiros e olhos de um verde inalcançável, entra no velho salão, emanando à sua volta uma aura repleta de luminosidade branca. Lena engoliu em seco. Filipe Policarpo, filho do dono daquele pedaço de terra, tinha dezoito anos, uma timidez inteligente, um escudo protector e desconfiado em relação a possíveis elementos intrusivos. Perspicaz e ágil, é detentor de um corpo esbelto, fortalecido pela actividade física regular que, desde sempre exercia, tendo como paixão a equitação. Culto, o actual campeão de xadrez nacional ajuda nas horas livres o seu pai, reconhecendo-o como um homem de referência, um representante de tudo aquilo que ele gostaria de poder um dia ser.
“Não queres comer nada Filipe?”, interrogou Lena, afastando duas madeixas de cabelo das bochechas rosadas, no seu ar tímido.
“Não, obrigada. Se tiver fome, vou ao frigorífico e cozinho qualquer coisa.”, respondeu Filipe, num tom seco e indiferente, ao mesmo tempo que se deitava no longo sofá de pele castanha, em frente do divã grená. Ficou de olhos fechados e cabeça apoiada nos braços cruzados, numa postura de leve descontracção, onde o cabelo húmido e despenteado lhe dava uma sensualidade rara, acompanhada pelo suor que encharcava a camisa de xadrez azul e a sujidade entranhada daqueles acres.
“Porquê?”, pensava Lena, franzindo as simétricas sobrancelhas. Aquela atitude de desdém magoava-a. Ela sabia que o enteado nunca gostara dela, que a única pessoa que não tinha conseguido enganar até então, representava tudo o que naquele momento desejava e, no entanto, também sempre tentara repudiar. No silêncio daquela sala, apenas quebrado pelo camponês barulho e pela respiração adormecida de Filipe, Lena esticou-se até à mesinha ao lado do grande divã, agarrando um cigarro, nervosamente. Acendeu-o com um isqueiro dourado, ao mesmo tempo que os olhos se humedeciam, procurando apaziguar a forte dôr que atacava o seu peito. Naquela sensação de agonia, de perda, Lena fumou cada cigarro num prazer rápido, matando cada pedaço rejeitado de si mesma, na esperança de olhar para um anjo que amasse a janela vislumbradora do seu corpo.
Filipe abre os olhos. Tossindo, levanta-se, mal disposto.
“Já que queres estragar a vida do meu pai, ao menos, respeita as coisas dele.”, afirmou Filipe, encarando Lena numa réplica de confronto. Virou costas e andou, num passo tranquilo, até desaparecer naquelas curvas escuras.
O céu escurecera, lentamente, estando o horizonte habitado por uma névoa rosada que serve de tecto para as aves ribatejanas.
No seu quarto, Lena transforma-se. “Ninguém me escapou, não é um fedelho desmamado que o vai conseguir!”, exclamou frente ao espelho oval da casa-de-banho. Já não era a mesma Lena, não. Usando um vestido “Gucci” preto comprido e justo ao corpo, exibia um “decote em V” na frente e outro mais rasgado atrás. O vermelho vivo cobria os lábios finos, sensualizava a pele transparente, dando à cara desta fachada de ingénua rapariga um ar de quente e abrasadora mulher. Os cabelos, agora soltos, lisos na sua harmonia, reluziam a feminilidade de Lena, fazendo dela irresistível. Olhou-se ao espelho.
Confiante e bela, Lena, nas suas passadas certas, dirige-se para o jardim. Avista Filipe, uns metros à frente, numa espreguiçadeira de madeira, de camisola de lã vermelha, sentado a ler. A serenidade daquele dia começava a dar sinais do seu fim, levantando-se o vento e enublando-se o céu, como se de um abismo se tratasse. Lena coloca-se à frente de Filipe, num olhar de aço voraz e lábios ardentes, mas Filipe, apesar de dar conta da sua presença, repudia-a.
“É melhor o meu pai não te ver assim.”, afirma.
Lena, mesmo assim, avança, senta-se junto a ele e beija-o num impulso de paixão inflamada. Ele empurra-a.
“Metes-me nojo!”, exclama Filipe, sintonizando o seu discurso com um empurrão a Lena que, por força e resistência, rasga uma migalha do seu “Gucci”, assistindo à saída de Filipe do cenário que tanto planeara. A “Quinta Policarpo” está enfeitada com folhas, símbolos de uma noite regida pela imperial lua cheia, e pó nos olhos de Lena que, transtornada, vê o facilitismo da beleza maquilhada se esvanecer. O vento se revolta, transformando a sua cabeleira num cruzar de fios ásperos e secos, com a poeira na raíz e nos lábios agora invisíveis.
Pum. Lena ouve passos distantes.
“É o velho.”, pensa para si, com ódio de tudo. Por entre a perdição fantasmagórica da noite, Lena rasga o seu vestido. Ao mesmo tempo, ouve uma sinfonia de Berlioz ecoar naquela sala, feita das suas amarguras, feita dos olhares e dos desejos rejeitados.
Berlioz preenchia a sala vasta.
“Se continuarmos assim, podemos abrir uma nova sucursal em Guimarães!”, explicava Sebastião a Filipe, durante o jantar, deliciando-se com o bacalhau cozido, temperado com tirinhas de alho crú e muito azeite.
“Óptimo! O João Pedro ligou-me hoje por causa do campeonato europeu de xadrez..Parece que querem mesmo que participe.”, respondia Filipe, com o sorriso nos dentes de marfim, levando uma metade de batata à boca.
Naquela melodia forte e clássica, as notas difundiam-se, como se escapassem de uma longa estrada, pequenas e suaves, para depois, rebater umas contra as outras, pressagiando o desenlace dessa noite.
“Basta!”, grita Lena, olhando Filipe ferozmente, enquanto surge na sala, desarranjada.
“Querida, mas o que te aconteceu?”, interroga Sebastião, deixando cair um nico de bacalhau no prato.
“Diz-lhe, aposto que ele vai gostar de saber”, afirma Filipe enquanto se levanta, rapidamente, da mesa. Lena mira Sebastião e, num andar envergonhado, enrola o choro mimoso, encostando-se ao marido.
“Querido, o teu filho abusou de mim! Olha para mim! Olha para o meu estado..”, grita Lena na voz embargada, revelando os rasgões da roupa e as indefesas da alma perdida.
Sebastião encara Filipe, enquanto os sopros de Berlioz, no seu fortíssimo, se reflectiam na expressão do jovem, anunciando a retirada daquela sala. Impestuosamente, o anjo pega nas suas chaves e, sem hesitações, deixa a quinta na velocidade ruidosa do seu “cabriolet”. Lena larga Sebastião, subitamente.
“Não!”, exclama, confusa e deprimida, correndo para o seu quarto, consciente daquele erro incontornável. Sebastião chama-a, num bater de porta, mas em vão.
“Lena! Lena!” Aquele nome já nada significava. Lena tira a roupa rapidamente, lava-se no lavatório curvado e veste o seu roupão vermelho. Encosta-se aterrorizada, de olhos esbugalhados e espicaçados, à parede branca. Cai no chão, estatelada.
Ring ring. Passos. Uma voz. Lena escuta a rouca voz de Sebastião ao telefone. “O Filipe teve um acidente?..Não, não pode ser!”, falava Sebastião na solidão da vivenda abandonada, na aguda linha do seu choro.
Lena, enrolada no extravagante roupão vermelho, rompe a correr pelos corredores labirínticos, na loucura da voz riscada, nos gestos desenfreados de uma loucura, em direcção à quinta. Na tempestade da noite fria, húmida, onde fracções de segundos se estendem com os relâmpagos tenazes, Lena perde-se, morta pelo desgosto. Atormentada pelo remorso, está apenas coberta pelo vermelho trágico do veludo de roupão, imersa naquela densidade impenetrável, amparada pelo frio da chuva severa. Sente-se empurrada, seguindo o caminho para o limiar da sua vazia vida, colocando-a num abismo que jamais voltaria a conhecer, após o seu rosto, pálido e pequeno, deslizar nas águas turvas de um poço qualquer, num sítio qualquer.
Uma desconhecida sabedoria
Silêncio.
Algures entre um diabo de pedra e um vampiro, com a cara do Brad Pitt, estava a minha realidade onírica. Umas escadas apareciam e eu corria. Vi ao fundo um oásis – coisa maaaaais estranha, um oásis reluzente no meio de uma gruta de ossos – e tropecei enquanto tentava lá chegar, dando um pontapé no clone do Brad Pitt. Pois é, eu saí do Karaté por algum motivo. É que nem que fosse o Mestre Yoda da Guerra das Estrelas, conseguiria “feel the force”. Bem, se eu fosse mesmo o Mestre Yoda, tinha conseguido partir o queixo daquele sanguessuga magnífico e saído, na minha magnificência de metro e meio, para um paraíso semelhante ao dos catálogos das agências de viagens, que afinal não são paraísos nenhuns. É tudo um misto de pixeis controlados, cromaticamente, por uma maquineta da treta. Mas não. Em vez disso, fui apanhada pelo diabo de rochedos que me atacou em forma de cócegas, ao contrário do que seria esperado em qualquer pesadelo de acção, à boa maneira de Hollywood. E ria-me, parecendo lançar um dó no 2º espaço da clave de sol, ondulado e esguio – já parecia aqueles desenhos animados irritantes dos Pokémons e Não sei quê ons.
Algures entre um diabo de pedra e um vampiro, com a cara do Brad Pitt, estava a minha realidade onírica. Umas escadas apareciam e eu corria. Vi ao fundo um oásis – coisa maaaaais estranha, um oásis reluzente no meio de uma gruta de ossos – e tropecei enquanto tentava lá chegar, dando um pontapé no clone do Brad Pitt. Pois é, eu saí do Karaté por algum motivo. É que nem que fosse o Mestre Yoda da Guerra das Estrelas, conseguiria “feel the force”. Bem, se eu fosse mesmo o Mestre Yoda, tinha conseguido partir o queixo daquele sanguessuga magnífico e saído, na minha magnificência de metro e meio, para um paraíso semelhante ao dos catálogos das agências de viagens, que afinal não são paraísos nenhuns. É tudo um misto de pixeis controlados, cromaticamente, por uma maquineta da treta. Mas não. Em vez disso, fui apanhada pelo diabo de rochedos que me atacou em forma de cócegas, ao contrário do que seria esperado em qualquer pesadelo de acção, à boa maneira de Hollywood. E ria-me, parecendo lançar um dó no 2º espaço da clave de sol, ondulado e esguio – já parecia aqueles desenhos animados irritantes dos Pokémons e Não sei quê ons.
“Sofia!”. Era a minha mãe, de tez escura e figura redondinha, a buzinar-me aos ouvidos: estava a ser servido o prato do dia.
“Tá bem..Já vou.” Ainda não percebi qual é a eficiência produtiva de alguém se levantar às oito da manhã para tomar comprimidos, e depois ficar o dia todo, enchouriçada num robe ranhoso rosa, a ver as tristezas de fulano tal na televisão. Depois da operação ao joelho tive que gramar com isto, e acreditem que eu sei o que é sofrer. Sei, sei. Não tanto pelas dores no joelho, mas pela pobreza de “algo interessante” que me rodeava já há semanas – excepto pelos sonhos surreais que tinha, fiéis, apesar de tudo, à minha pequena grande pessoa.
“Tá bem..Já vou.” Ainda não percebi qual é a eficiência produtiva de alguém se levantar às oito da manhã para tomar comprimidos, e depois ficar o dia todo, enchouriçada num robe ranhoso rosa, a ver as tristezas de fulano tal na televisão. Depois da operação ao joelho tive que gramar com isto, e acreditem que eu sei o que é sofrer. Sei, sei. Não tanto pelas dores no joelho, mas pela pobreza de “algo interessante” que me rodeava já há semanas – excepto pelos sonhos surreais que tinha, fiéis, apesar de tudo, à minha pequena grande pessoa.
Levantei-me. Eventualmente, tinha de ser. Não é verdade? Tinha os meus cabelos, escuros e ondulados, todos irriçados e quebradiços. “Fructis..Não vales nuclis, pá!”, resmunguei. Tomei os comprimidos da praxe e comi uma torrada semi queimada – graças à minha mãe que ainda não aprendeu a mexer com a torradeira nova da Moulinex, tadita.
Silêncio. Agora estava só de novo, recheando aquela cozinha pequena e escura com o meu olhar esverdeado. Glup. Engolia a torrada numa ausência de acção aterradora, diluída apenas pelo tic tac do enorme relógio de plástico branco, pendurado numa parede qualquer ao lado. Assustei-me. Percebi que tinha outro dia pela frente, repetitivo e semi-côxo - e semi qualquer coisa..faltava meia perna para ter um dia completo. Levantar, comprimidos, comer qualquer coisita, tv, tv, tv, tv, wc, comer mais qualquer coisita, etecetera e tal, monotonia e sonhos super-hiper- megaaaaaaa...não sei...qualquer coisa de extesiante.
Assim, decidi continuar na minha vida fechada, dialogando com os meus pensamentos dignos de um filme de terror e suspense, - já agora com a participação especial da personagem do Bruce Willis na série “Modelo e Detective”, pois claro, que gosto muito e muito e muito – desta vez a assistir ao “Passeio dos Tristes” com o Tótó Gabriel.
Trim trim. O telefone a tocar a estas horas? Apoiei-me nas canadianas e, perfazendo o ritual complicado da minha deslocação de aleijadinha de trazer por casa, alcancei o telefone-varejeira.
- Tou? – silabei, com o tom monótono e indiferente do costume.
- Olá, Sofia.
Uma voz do outro lado, que eu não fazia puto de ideia quem fosse – ou pelo menos, não estava a reconhecer no momento – tinha proferido o nome mágico.
- Sim? Quem fala?.. Ah, és tu Luísinho pançudo? Podes parar de fazer essa voz de papão esfomeado, que isto aqui não é nenhum concurso para reproduzir vozes para o dia das bruxas.
- Tu não me conheces, Sofia – insistiu, naquela voz de rouquidão profunda, quase como se estivesse à beira da morte.
- Ai não? Tens a certeza?...Mas quem és tu, então? O Super Homem? Ah já sei..O Pai Natal! Olha, daqui a uns meses deixa-me ali na árvore artificial um carro vermelho descapotável para dar umas voltinhas quando estiver fina. Hãn?
Silêncio. O Luísinho era um amigo de infância e, passados tantos anos, não me recordava de ele estar mais de dois segundos calado. Falava pelos cotovelos o miúdo. Silêncio. Não. Decididamente, não era ele.
- Desculpe..Já percebi que não é o Luís. Mas como é que sabe o meu nome?
- Sofia, sou um desconhecido que segue a tua vida há semanas. Não sabes quem eu sou, possivelmente nunca irás saber. Mas tive de te ligar, temos de falar.
Àquela altura do campeonato, já tudo era possível e deixei-me levar pelo jogo.
- Temos de falar o quê?
- O meu nome..não interessa. Todos os dias, desde que ficaste em casa depois da operação, te tenho acompanhado e - não o deixei acabar.
- Tou a ser espiada? Que direito é que tem de fazer isso? – disse, enquanto enrolava os fios ondulados do meu cabelo.
- Desculpa, mas deixa-me acabar. Vi-te um dia à janela a ver a rua e percebi que tavas triste. Só que também entendi que nada fazias para poderes sair de casa.
Silêncio. Fiquei calada, esperando uma continuação. O Tótó Gabriel estava a dançar o rancho folclórico na televisão, em directo, e eu apoiada numa quase bengala, deixando a minha vida fugir.
- Pouco lutas, Sofia. Resignaste-te à tua condição e tornaste-te num vegetal. Tens esses olhos grandes, encharcados de fúria e revolta, mas páras à frente da televisão.
Aproximei-me da janela. Seria alguém que morava no prédio de 10 andares da frente? Como é que ele sabia quem eu era? Torci o narizinho empinado, intrigada.
- Nada sabe de mim para fazer esses comentários. E se estou aqui, todos os dias, é porque tem de ser. – remexia no buraco do bolso do meu robe, como se não encontrasse um fim.
- E os teus pensamentos, Sofia? Lutas para vencer as tuas dificuldades? Falas com outras pessoas? Fazes alguma coisa de útil para ti?
- Tou? – silabei, com o tom monótono e indiferente do costume.
- Olá, Sofia.
Uma voz do outro lado, que eu não fazia puto de ideia quem fosse – ou pelo menos, não estava a reconhecer no momento – tinha proferido o nome mágico.
- Sim? Quem fala?.. Ah, és tu Luísinho pançudo? Podes parar de fazer essa voz de papão esfomeado, que isto aqui não é nenhum concurso para reproduzir vozes para o dia das bruxas.
- Tu não me conheces, Sofia – insistiu, naquela voz de rouquidão profunda, quase como se estivesse à beira da morte.
- Ai não? Tens a certeza?...Mas quem és tu, então? O Super Homem? Ah já sei..O Pai Natal! Olha, daqui a uns meses deixa-me ali na árvore artificial um carro vermelho descapotável para dar umas voltinhas quando estiver fina. Hãn?
Silêncio. O Luísinho era um amigo de infância e, passados tantos anos, não me recordava de ele estar mais de dois segundos calado. Falava pelos cotovelos o miúdo. Silêncio. Não. Decididamente, não era ele.
- Desculpe..Já percebi que não é o Luís. Mas como é que sabe o meu nome?
- Sofia, sou um desconhecido que segue a tua vida há semanas. Não sabes quem eu sou, possivelmente nunca irás saber. Mas tive de te ligar, temos de falar.
Àquela altura do campeonato, já tudo era possível e deixei-me levar pelo jogo.
- Temos de falar o quê?
- O meu nome..não interessa. Todos os dias, desde que ficaste em casa depois da operação, te tenho acompanhado e - não o deixei acabar.
- Tou a ser espiada? Que direito é que tem de fazer isso? – disse, enquanto enrolava os fios ondulados do meu cabelo.
- Desculpa, mas deixa-me acabar. Vi-te um dia à janela a ver a rua e percebi que tavas triste. Só que também entendi que nada fazias para poderes sair de casa.
Silêncio. Fiquei calada, esperando uma continuação. O Tótó Gabriel estava a dançar o rancho folclórico na televisão, em directo, e eu apoiada numa quase bengala, deixando a minha vida fugir.
- Pouco lutas, Sofia. Resignaste-te à tua condição e tornaste-te num vegetal. Tens esses olhos grandes, encharcados de fúria e revolta, mas páras à frente da televisão.
Aproximei-me da janela. Seria alguém que morava no prédio de 10 andares da frente? Como é que ele sabia quem eu era? Torci o narizinho empinado, intrigada.
- Nada sabe de mim para fazer esses comentários. E se estou aqui, todos os dias, é porque tem de ser. – remexia no buraco do bolso do meu robe, como se não encontrasse um fim.
- E os teus pensamentos, Sofia? Lutas para vencer as tuas dificuldades? Falas com outras pessoas? Fazes alguma coisa de útil para ti?
Começou a chover. Estava junto da janela a mirar cada vidro habitacional da frente – havia dezenas de janelas, nunca iria vê-lo. A chuva, forte e pesada, enublou a minha visão e aí uma figura esguia surge, de cadeira de rodas, junto à vidraça da janela com o telefone vermelho ao ouvido. Juntos, naquele cenário distorcido pela tristeza da chuva, observávamos a silhueta do outro, tocando em pensamentos indizíveis e incontroláveis, num sorriso de cumplicidade mútua, remetendo para o silêncio a força das nossas semelhanças.
fevereiro 10, 2007
Inverno chato
Chuva, chuva, chuva. Posso estar com os bém na estrada de alcatrão molhada, à espera de poder ir para casa, mas a minha mente eleva-se e viaja até a uma praia. Bem quente, de areia fina e clara. Estou imersa até à cintura, com a água de 30 graus centígrados a roçar-me em cada micromilímetro de poros. E sabe tão bem.
Estou cansada da chuva, porra. E lembrei-me de ti. Daquele tremer de sentimento que trocámos debaixo daquela água morna, enquanto vislumbrava no azul do teu olhar, uma certeza visível da paixão que sentias por mim. "Me gustas."
Não sei por que motivo me lembrei destas recordações que mais não vivem, só sei que em momentos de frio, chuva e solidão me assolam os pensamentos e aquecem-me. Como se um enorme anel de fogo me rodeasse e cada caminho e estrada do meu corpo ligassem o aquecimento central..Um aconchego e um sentimento de bem estar percorrem os meus olhos. E, assim, por entre os beijos da chuva, ganho coragem e caminho para a entrada do autocarro.
janeiro 29, 2007
Babel, de cores diferentes mas iguais..
Como um pensamento que se entranha na nossa alma, mas sem deixar qualquer rasto, “Babel” é uma película cortante e penetrante, uma visão poderosa, mas realista, do mundo desigual e assimétrico do século XXI, o panorama complexo dos dias de hoje.
Alejandro González Iñárritu, realizador emblemático de "Amor Cão" e "21 Gramas" leva até à grande tela, durante mais de 140 minutos, uma rede de histórias que, apesar de se passarem em pontos do globo longínquos e distintos, estão profundamente interligadas. Quer seja no Japão, México ou Marrocos, as linguagens culturais daqueles povos podem ser únicas, porém a natureza do ser humano permanece inalterável. O Homem, como um bicho que se move pelos campos que semeia, age conforme a vida que tem e conhece: na terra onde nasce e cresce, torna-se distante do semelhante que vive a mais de 3000 kilómetros de distância, mas essa diferença não anula os laços de igualdade.
Inacreditavelmente, o alvejamento acidental de uma turista no deserto do Sahara é o ponto de partida deste filme que, num compasso lento e demorado, enebria o espectador, de forma discreta, com elevados níveis de suspense que nos fazem estar colados à cadeira, à espera que algo ainda mais inesperado aconteça. De um cenário saltamos para outro e, entramos também, na vida das personagens que se movem em esferas e círculos sociais com regras rígidas. Tal como no mito, o mundo apresenta-se como uma gigante Torre, cheia de pessoas que não se entendem, pelas visões e linguagens serem tão antagónicas.
Numa análise chocante e intimista da sociedade discriminatória do Mundo de hoje, “Babel” faz-nos entender que, momentos egoístas à parte, nem todo o mundo pode viver confortavelmente numa espreguiçadeira de piscina e comer fruta, ao mesmo tempo, enquanto desconhece a desgraça dos outros lá fora. Nem tudo são i-pods nos jeans caros de mais de cem euros ou sessões de capitalismo desenfreado, enquanto os saldos não acabam.
“Babel”, antes de mais, é uma lição de vida que nos remete para um árido deserto, sem fim, no qual o nosso papel não é mais que um grão de areia, arrastado pelo vento. Afinal de contas, porque é que uma surda-muda japonesa não pode ser tão feliz como um casal americano, que deixam os filhos em casa, e vão passar uma segunda (ou terceira) lua-de-mel a um mundo exótico? Pois é. E mesmo com o sentimento de insignificância que nos invade a alma, depois de assistirmos a esta obra da 7ª arte, de uma coisa temos a certeza: nem com a maior impotência em relação ao mundo externo, deixaremos, algum dia, com forçar de vontade de poder fazer alguma coisa.
Vencedor do Prémio de Melhor Realizador e o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cannes e somando já sete nomeações para os Globos de Ouro nas categorias principais, “Babel” segue até à cerimónia dos Óscares da Academia de Hollywood, com nomeação para melhor filme.
Alejandro González Iñárritu, realizador emblemático de "Amor Cão" e "21 Gramas" leva até à grande tela, durante mais de 140 minutos, uma rede de histórias que, apesar de se passarem em pontos do globo longínquos e distintos, estão profundamente interligadas. Quer seja no Japão, México ou Marrocos, as linguagens culturais daqueles povos podem ser únicas, porém a natureza do ser humano permanece inalterável. O Homem, como um bicho que se move pelos campos que semeia, age conforme a vida que tem e conhece: na terra onde nasce e cresce, torna-se distante do semelhante que vive a mais de 3000 kilómetros de distância, mas essa diferença não anula os laços de igualdade.
Inacreditavelmente, o alvejamento acidental de uma turista no deserto do Sahara é o ponto de partida deste filme que, num compasso lento e demorado, enebria o espectador, de forma discreta, com elevados níveis de suspense que nos fazem estar colados à cadeira, à espera que algo ainda mais inesperado aconteça. De um cenário saltamos para outro e, entramos também, na vida das personagens que se movem em esferas e círculos sociais com regras rígidas. Tal como no mito, o mundo apresenta-se como uma gigante Torre, cheia de pessoas que não se entendem, pelas visões e linguagens serem tão antagónicas.
Numa análise chocante e intimista da sociedade discriminatória do Mundo de hoje, “Babel” faz-nos entender que, momentos egoístas à parte, nem todo o mundo pode viver confortavelmente numa espreguiçadeira de piscina e comer fruta, ao mesmo tempo, enquanto desconhece a desgraça dos outros lá fora. Nem tudo são i-pods nos jeans caros de mais de cem euros ou sessões de capitalismo desenfreado, enquanto os saldos não acabam.
“Babel”, antes de mais, é uma lição de vida que nos remete para um árido deserto, sem fim, no qual o nosso papel não é mais que um grão de areia, arrastado pelo vento. Afinal de contas, porque é que uma surda-muda japonesa não pode ser tão feliz como um casal americano, que deixam os filhos em casa, e vão passar uma segunda (ou terceira) lua-de-mel a um mundo exótico? Pois é. E mesmo com o sentimento de insignificância que nos invade a alma, depois de assistirmos a esta obra da 7ª arte, de uma coisa temos a certeza: nem com a maior impotência em relação ao mundo externo, deixaremos, algum dia, com forçar de vontade de poder fazer alguma coisa.
Vencedor do Prémio de Melhor Realizador e o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cannes e somando já sete nomeações para os Globos de Ouro nas categorias principais, “Babel” segue até à cerimónia dos Óscares da Academia de Hollywood, com nomeação para melhor filme.
janeiro 15, 2007
"Fly like a butterfly.."
Já passou mais de uma semana que o meu estágio acabou. Saí da redacção..mas não da mesma forma que entrei. Há momentos na vida fulcrais para o desenvolvimento de uma pessoa. Estes últimos 5 meses foram um grande momento de transição..O primeiro contacto com o mundo do trabalho, o lidar com a impaciência, gerir emoções à flor da pele...Tive momentos muitos maus, posso dizê-lo. Mas estão numa gaveta apenas e somente. Guardados. Os bons momentos, as boas pessoas..esses não ficarão esquecidos. Muitas vezes saía de lá e pensava "Porquê?" Porque é que aquele mundo é tão complicado? É como se tivesse dezenas de chaves diferentes e uma porta..Experimento todas as chaves, não páro, estou atenta. Mas a fechadura permanece inalterável. Nada muda e eu limito-me a espreitar pelo buraco..tudo para encontrar novos desenvolvimentos, camuflados e isolados.
Mas, apesar de tudo, não saí vencida. Acabei da forma como queria. De cabeça erguida. E penso que isso é o mais importante de tudo. Errei muito, não usei os meus neurónios ao máximo como devia ter usado em muitas situações. Mas era só uma rapariga que queria experimentar jornalismo, saber como era. Agora que já sei, posso dizer que vou continuar o meu caminho mais sabedora e experiente, sem medo de futuras consequências profissionais. Afinal estes 5 meses foram uma ponte e fizeram-me ver muita coisa.
E depois deste tempo todo..Vim a conhecer algo que esteve diante do meu nariz o tempo todo mas que nunca tinha explorado..Um meigo homem que se revela no olhar escondido. Um sorriso que me faz vibrar e umas mãos suaves que percorrem as linhas do meu rosto, num estudo perfeccionista, como se não houvesse nada melhor e mais macio para ser tocado. Os nós dos dedos efervescentes percorrem os fios da minha massa capilar..E é como se nada mais existisse para além daquele momento. Senti-me tão acarinhada e desejada, que até esqueci os episódios negativos do passado..passadas entre 4 paredes, entre provocações e "plins"como barulho de fundo.
Mas, apesar de tudo, não saí vencida. Acabei da forma como queria. De cabeça erguida. E penso que isso é o mais importante de tudo. Errei muito, não usei os meus neurónios ao máximo como devia ter usado em muitas situações. Mas era só uma rapariga que queria experimentar jornalismo, saber como era. Agora que já sei, posso dizer que vou continuar o meu caminho mais sabedora e experiente, sem medo de futuras consequências profissionais. Afinal estes 5 meses foram uma ponte e fizeram-me ver muita coisa.
E depois deste tempo todo..Vim a conhecer algo que esteve diante do meu nariz o tempo todo mas que nunca tinha explorado..Um meigo homem que se revela no olhar escondido. Um sorriso que me faz vibrar e umas mãos suaves que percorrem as linhas do meu rosto, num estudo perfeccionista, como se não houvesse nada melhor e mais macio para ser tocado. Os nós dos dedos efervescentes percorrem os fios da minha massa capilar..E é como se nada mais existisse para além daquele momento. Senti-me tão acarinhada e desejada, que até esqueci os episódios negativos do passado..passadas entre 4 paredes, entre provocações e "plins"como barulho de fundo.
dezembro 18, 2006
Pensamentos paralelos
Todos nós temos medo. Em algum ponto da nossa vida, olhamos para trás e apercebemo-nos que não há pessoas imunes ao risco e ao perigo. Tal como não há cobardes a tempo inteiro. Isso é uma ilusão. Temos medo de quê? Eu acho que temos medo de falhar, medo de não mostrar o que somos, de ficar aquém das expectativas que criámos em relação a alguma coisa ou a alguém. Quanto temos um objectivo em vista e não o alcançamos, tudo se torna numa enorme desilusão e não sabemos para nos virar..Provavelmente esta é a minha forma de agir e lidar com as coisas. Tenho em mente o que quero e tento perseguir, às vezes, coisas que não podem ser perseguidas. Mas, mesmo assim, nada me impede de as perseguir à mesma. É assustador às vezes. E com esse "atirar de cabeça" vem também a desilusão. Nada é o que parece. A realidade, a concretização dos factos no dia-a-dia, a objectividade da vida..é muito diferente, na maior parte dos casos, daquilo que tanto imaginámos.
Dia-a-dia imagino coisas, sinto coisas que me fazem perceber que sou a pessoa mais exigente que se pode encontrar num raio de vários quilómetros quadrados. É presunção a mais, podem dizer. Secalhar. Mas não há ninguém, para além de mim, que possa avaliar bem o que penso e sinto. E foi por ter sentido medo nos últimos tempos que decidi desenvolver esta....instrospecção. Para manter os pés bem assentens e não cometer loucuras..sem ponderar as consequências.
Dia-a-dia imagino coisas, sinto coisas que me fazem perceber que sou a pessoa mais exigente que se pode encontrar num raio de vários quilómetros quadrados. É presunção a mais, podem dizer. Secalhar. Mas não há ninguém, para além de mim, que possa avaliar bem o que penso e sinto. E foi por ter sentido medo nos últimos tempos que decidi desenvolver esta....instrospecção. Para manter os pés bem assentens e não cometer loucuras..sem ponderar as consequências.
novembro 19, 2006
Sozinha na Caixinha Mágica
Que sono. Não imaginam a "porrada" de sono que tenho, ainda, para mais, porque estou no local de trabalho sem fazer nada.
Desde que cheguei à Redacção que cresci bastante. Comecei a olhar para as pessoas e para a vida de uma forma diferente, apesar de não mudar as minhas mais profundas convicções em relação às coisas que me rodeiam, de forma geral. Não percebo, apesar deste crescimento positivo, como é que o mundo pode ser tão cruel e tão cão. Secalhar sou eu que sou demasiado nova e não sei porra nenhuma da vida. Ou secalhar sou apenas esquisofrénica e não consiga mostrar, realmente, a plenitude do meu ser por ser deveras complexo. E talvez seja por isso que me sinto tão incompreendida. Ou talvez esteja rodeada, no momento, de um bando de abutres, que só pensa no seu bel prazer e passa o dia em sites porno. Sinceramente, não sei dizer ou explicar..
Como qualquer ave de rapina, procuram alimentar-se da vida dos outros. São carnívoros, vorazes e não deixam escapar qualquer oportunidade de mostrar a sua infinita indisponibilidade para assuntos que não lhe interessem abordar. Ou seja, tudo o que sair deles mesmos. A verdade, para mim, é esta. Mas é a verdade com a qual tenho de lidar diariamente, mesmo que seja desagradável. O homem do século XXI é egoísta, por natureza. Pensa nele próprio, acima de tudo e não se importa de espezinhar os sentimentos alheios, se fôr necessário. Admito. Às vezes é necessário. Ou seja, é um mal necessário, com o qual não concordo e não gosto, mas que tem de prevalecer, em algumas vezes. Noutras - a maioria - é apenas teimosia e afirmação. Nada mais.
No estado sonâmbulo em que me encontro, todas as sensações estão à flôr da pele. Tento manter a calma e um sorriso - sincero - no rosto mas distancio-me de tudo e todos. Como é que posso não o fazer se passo horas, tempos mortos e mais que mortos, estática, à frente de um ecrân de computador que insiste em me fritar os olhos? Todos estão no seu pc, no seu mundo, mesmo que comuniquem de forma não verbal. Aliás, a comunicação verbal pouca força tem, e expressão efectiva, em comparação com a comunicação não verbal. Parece estranho mas é verdade. Já tiveram aquela sensação que alguém diz alguma coisa, mas sem qualquer convicção? Como se estivesse a mentir a si próprio e ao mundo..As nossas crenças acabam por nos entalar. Por muito que se diga uma coisa, se não se acredita nela..isso traduz-se nos gestos, na postura, no olhar, no tom de voz. E é quase impossível de disfarçarmos essas lacunas aos olhos dos outros que são observadores natos. Sim, os seres humanos estudam os outros, passam a vida a fazê-lo. E por isso aprendem e crescem..Mas o que mais fazem é juízos de valor dos outros. Porque estudam um olhar e numa fracção de segundo apercebem-se do que aquela certa e determinada pessoa pode estar a pensar. E por mais absurdo que pareça, as probabilidades de acertar são mais que muitas, porque avaliamos alguém que é nosso semelhante, alguém que, como nós, é ser humano, um ser vivo inteligente, com ideias e atitudes. Mesmo que pouco vigentes ou reais. Nem aqueles que são apelidados de fracos, escapam a esta ideologia. Todos têm personalidade e modo de estar. Se não são ninguém, acabam por sê-lo por não serem ninguém. Confuso?
Há dias em que dou por mim a pensar nos "ses". É a chamada tortura existencial. Pensar no que a nossa vida seria, ou teria sido, se optassemos por "x" ou por "y", não nos traz mais felicidade ou melhora as coisas. Mas ganhamos imaginação. Construímos enredos e voamos pelo mundo. Se, em vez de voltar para Portugal, tivesse ficado a dormir na minha cama king size do JW Marriott, no Cairo, quem é que eu seria agora? Tornar-me-ia numa mulher infeliz, de cara tapada a viver debaixo da ponte? Talvez. Casaria com um árabe de raízes ocidentais, num bairro abstado da zona de heliópolis? Seria possível. As pessoas passam a vida a dizer-me "Fdx, só fazes filmes, não faças filmes". Imaginar e sonhar talvez seja um crime neste mundo tão rápido e exigente, no qual pensar é uma barreira à prosperidade do homem na sociedade moderna e vertiginosa. Ou seja, hoje já não há espaço ou tempo para pensar, para reflectir. É acordar, trabalhar o máximo, viver ao máximo, foder ao máximo, procriar e não refilar muito no final de tudo, porquie já tivemos o nosso papel na terra. Mas pensar é essencial e faz falta. Se penso em tudo o que não seria, imaginem só e vejam. Talvez se penso no que não sou, é porque realmente sei quem sou. Agora. Amanhã posso tornar-me numa mulher casada e ter gémeos. Nunca sei o amanhã. E se, por um lado, gosto de dominar a minha vida, ser independente, indomável, teimosa e orgulhosa. Por outro, sigo os meus instintos com lealdade e procuro o imprevisível, o arriscado. Mas apenas e sempre só. E, talvez por isso, faça os filmes da minha vida, procurando um papel principal. Algo perto disso, pelo menos. L.
novembro 13, 2006
Vidas atribuladas
Toda a gente que me conhece minimanente, sabe que eu não páro quieta um segundo. Nem que seja por dentro, na minha mente. E aborreço-me facilmente. Por isso tenho sempre que engendrar esquemas para me distrair e divertir que é, acima de tudo, o mais importante nesta fugaz vida. Sem diversão e prazer, sem um belo esforço recompensado, as coisas tornam-se muito mais difíceis de viver e ser ultrapassadas, talvez porque perdem a graça ou o sabor. De que me vale passar a vida aborrecida, de cara de vela apagada e corpo de goma? Sei que era mais fácil ser simples e resignada. "Ah e tal..isto é muito mau e tal, mas é a vida". Mas como não sou uma portuguesa típica nesse sentido, portantoss, paciência.
Vim do México, do calor, da praia, das bebidas, das conversas com os empregados de hotel, da absorção da cultura e só me consegui chatear. Cheguei a Portugal e voltou tudo ao mesmo. E desde que comecei o estágio, muita coisa mudou. Do dia para a noite fiquei sem namorado, sem vida social, sem tempo. Digo-vos, foi melhor assim. Não me sentia feliz, era como correr atrás de algo que desejasse muito e estivesse sempre a cair e a tropeçar. De seguida levantava-me de novo, mas por muito que quisesse, já não conseguia correr tanto e da mesma forma..destemida. Os meus sentidos já estavam desconfiados e mantinham-se alerta para qualquer possível acidente de percurso. Corri e caí que me fartei. Não aguentei mais manter uma relação que não existia. E libertei-me. E o trabalho distraíu-me.
Abri os horizontes do olhar, da mente e corri em direcção aos objectivos que comecei a conhecer no dia-a-dia. Cresci, morri, renasci. É tão mais fácil procurar a aventura e os desafios do que ficar à espera que ela nos caía, que a obra do destino nos seja favorável e nos dê novas oportunidades. Infelizmente - ou não - as coisas não funcionam assim. Não sei bem o que acabei de dizer, mas apeteceu-me e fez-me bem..O stress faz mal, meus amigos. Não se deixem levar por ele e arrisquem-se sempre a questionar as coisas. Parece de doidos..Parecendo que não, ajuda (Brunito, tamos contigo pá..). Hasta la victoria siempre. L.
Vim do México, do calor, da praia, das bebidas, das conversas com os empregados de hotel, da absorção da cultura e só me consegui chatear. Cheguei a Portugal e voltou tudo ao mesmo. E desde que comecei o estágio, muita coisa mudou. Do dia para a noite fiquei sem namorado, sem vida social, sem tempo. Digo-vos, foi melhor assim. Não me sentia feliz, era como correr atrás de algo que desejasse muito e estivesse sempre a cair e a tropeçar. De seguida levantava-me de novo, mas por muito que quisesse, já não conseguia correr tanto e da mesma forma..destemida. Os meus sentidos já estavam desconfiados e mantinham-se alerta para qualquer possível acidente de percurso. Corri e caí que me fartei. Não aguentei mais manter uma relação que não existia. E libertei-me. E o trabalho distraíu-me.
Abri os horizontes do olhar, da mente e corri em direcção aos objectivos que comecei a conhecer no dia-a-dia. Cresci, morri, renasci. É tão mais fácil procurar a aventura e os desafios do que ficar à espera que ela nos caía, que a obra do destino nos seja favorável e nos dê novas oportunidades. Infelizmente - ou não - as coisas não funcionam assim. Não sei bem o que acabei de dizer, mas apeteceu-me e fez-me bem..O stress faz mal, meus amigos. Não se deixem levar por ele e arrisquem-se sempre a questionar as coisas. Parece de doidos..Parecendo que não, ajuda (Brunito, tamos contigo pá..). Hasta la victoria siempre. L.
outubro 06, 2006
A vida num segundo (II)
O comboio estava a chegar. Não sabia quanto, mas estava realmente atrasada. Furou as pessoas inertes que miravam as janelas fumadas do trem e procurou uma escapatória possível daquela realidade, realmente, desagradável. Escapando daquela cárcere quotidiana, enfiou-se naquela ilha que a levaria à sua vida académica. "É outra prisão". Raquel observava aqueles seres, escondida nos seus fios de cabelo, espalhados pelos ombros firmes. Protegida, debaixo dos cabelos lisos castanhos, os olhos rasgados de tez de avelã perscrutavam os pensamentos daqueles desconhecidos que a assombravam. "É uma prisão mas uma boa prisão, que nos esconde, nos protege da vida lá fora", pensou, quando conseguiu ver um pedaço do mar através da janela de vidro baça.
De pé, os livros pesavam nos braços e o casaco no corpo. Raquel olhava a luz, a vida, enquanto os decibéis lhe entravam pelos ouvidos a dentro, proporcionando-lhe sentimentos ricos e confusos. De phones pretos, nos ouvidos, a rapariga dos "Puma" azuis levava nos olhos vivos, a tenacidade de quem procura uma descoberta após descoberta. Naquele pré-momento de canetas, papéis e atenção redobrada atrás de uma secretária, Raquel vivia na terra, com pensamentos dispersos nas emoções que sentia.
De pé, os livros pesavam nos braços e o casaco no corpo. Raquel olhava a luz, a vida, enquanto os decibéis lhe entravam pelos ouvidos a dentro, proporcionando-lhe sentimentos ricos e confusos. De phones pretos, nos ouvidos, a rapariga dos "Puma" azuis levava nos olhos vivos, a tenacidade de quem procura uma descoberta após descoberta. Naquele pré-momento de canetas, papéis e atenção redobrada atrás de uma secretária, Raquel vivia na terra, com pensamentos dispersos nas emoções que sentia.
setembro 02, 2006
Miss, Tequila e Gajos..
Entrei. Filas e filas de cadeiras vazias. Um palco ao fundo e muitas luzes que ofuscam a vista. Não percebi o que se passava mas vi 3 rapazes aos pulos no palco, com energia para dar e vender, sempre dispostos para a acção. Avancei pronta para alguma emoção. Sentei-me na 2ª fila, cruzei as pernas e ouvi "Vamos elejer la Miss Palladium!!"..
Percebi, num ápice, do que se tratava, sem qualquer sombra de dúvidas e pensei "Só espero que não me chamem para ali.."..Muitas das pessoas que me conhecem, acham que sou só extroversão..mas é a mentira completa. Apesar das minhas loucuras, em certas situações o meu lado mais tímido domina a situação e impede-me de realizar nas perfeição todas as coisas que sei que poderia realizar..
"Tuuu!".. Um rapaz moreno, de cabelo espetado, magro e de estilo desportivo, puxou-me para o palco como se não houvesse mais hipóteses. Disse que não e não. Mas fui puxada e como tava ali sozinha e para me divertir, pensei: "Que se lixe..".
Segundo a segundo, o público aumentava, mais pessoas chegavam e em cima do placo, com as luzes a ofuscar-me a vista, não me apercebia de nada do que se passava diante de mim mesma. Éramos 5 concorrentes, com provas a fazer. Desde passar um elástico o maior número de vezes num minuto, representar comédia, fazer animais com balões e até beijar todo os homens que nos aparecessem à frente (na cara claro, não quero cá confusões..). O público elegeria a vencedora. Raúl, o "chico" que me buscou da plateira, piscava-me o olho e dizia "Eres ja la vencedora, vas a ganar.." Eu limitava-me a rir..Na prova do elástico fui um desastre, na do balão nem se fala, na do teatro (diverti toda a gente) e no dos homens..well. beijei 22 homens num minuto. Record. O público, perante cada candidata, ia tomar "a" decisão e eleger a vencedora. Como? É simples. Basta aplaudir cada uma delas. A vencedora é a que receber mais aplausos. Meninos, não faço ideia se recebi mesmo mais aplausos. Só sei que ganhei o concurso, diverti-ma à brava e trouxe para o quarto, no final da noite, uma garrafa de tequila..
"Ya lo sabia..sabes porque? Porque tienes chispa.." Regressei ao meu lugar da 2ª fila e não tarda nada, Raúl chegava e perguntava-me tudo de mim. Tinha uma sensualidade inata no corpo, uma vida no olhar e um interesse..Em saber o que estava uma portuguesa, comprometida, a fazer ali, sozinha, no meio do México. Falámos e mais tarde, na aula de Merengue, dada por ele, que fazia parte da animação, lá fui eu. Puxada por um assistente. Raúl estabeleceu quem seria par de quem. Formou os pares e fiquei para o fim. Disse "Y claro..yo me quedo con portugal..". Lá fui eu, mais uma vez, para a frente do palco, atirada para uma prova forte de tentação e de descoberta.. A mim foi incumbida a tarefa de executar os passos que Raúl, tinha a atenção das pessoas todas e isso punha-me nervosa. Depois executávamos a dança ao som de um ritmo bem caliente e os nossos corpos colavam-se. Um olhar penetrante e eu ficava a pensar que diabo se estaria a passar entre mim e ele, nuns míseros dois minutos. Nada de mais, apenas um latino, com toda a perícia e arte, que me tentava seduzir..
No fim da noite fui convidada para ir à maior discoteca da Playa del Carmen..Ao ar livre, com várias pistas de dança..Os vários animadores insistiram..mas para não cair em tentação e em imoralidades, deixei-me associar ao cansanço que sentia e marchei directamente para o meu quarto, com a consciência limpa, feliz..e uma garrafa de bebida na mão..
Percebi, num ápice, do que se tratava, sem qualquer sombra de dúvidas e pensei "Só espero que não me chamem para ali.."..Muitas das pessoas que me conhecem, acham que sou só extroversão..mas é a mentira completa. Apesar das minhas loucuras, em certas situações o meu lado mais tímido domina a situação e impede-me de realizar nas perfeição todas as coisas que sei que poderia realizar..
"Tuuu!".. Um rapaz moreno, de cabelo espetado, magro e de estilo desportivo, puxou-me para o palco como se não houvesse mais hipóteses. Disse que não e não. Mas fui puxada e como tava ali sozinha e para me divertir, pensei: "Que se lixe..".
Segundo a segundo, o público aumentava, mais pessoas chegavam e em cima do placo, com as luzes a ofuscar-me a vista, não me apercebia de nada do que se passava diante de mim mesma. Éramos 5 concorrentes, com provas a fazer. Desde passar um elástico o maior número de vezes num minuto, representar comédia, fazer animais com balões e até beijar todo os homens que nos aparecessem à frente (na cara claro, não quero cá confusões..). O público elegeria a vencedora. Raúl, o "chico" que me buscou da plateira, piscava-me o olho e dizia "Eres ja la vencedora, vas a ganar.." Eu limitava-me a rir..Na prova do elástico fui um desastre, na do balão nem se fala, na do teatro (diverti toda a gente) e no dos homens..well. beijei 22 homens num minuto. Record. O público, perante cada candidata, ia tomar "a" decisão e eleger a vencedora. Como? É simples. Basta aplaudir cada uma delas. A vencedora é a que receber mais aplausos. Meninos, não faço ideia se recebi mesmo mais aplausos. Só sei que ganhei o concurso, diverti-ma à brava e trouxe para o quarto, no final da noite, uma garrafa de tequila..
"Ya lo sabia..sabes porque? Porque tienes chispa.." Regressei ao meu lugar da 2ª fila e não tarda nada, Raúl chegava e perguntava-me tudo de mim. Tinha uma sensualidade inata no corpo, uma vida no olhar e um interesse..Em saber o que estava uma portuguesa, comprometida, a fazer ali, sozinha, no meio do México. Falámos e mais tarde, na aula de Merengue, dada por ele, que fazia parte da animação, lá fui eu. Puxada por um assistente. Raúl estabeleceu quem seria par de quem. Formou os pares e fiquei para o fim. Disse "Y claro..yo me quedo con portugal..". Lá fui eu, mais uma vez, para a frente do palco, atirada para uma prova forte de tentação e de descoberta.. A mim foi incumbida a tarefa de executar os passos que Raúl, tinha a atenção das pessoas todas e isso punha-me nervosa. Depois executávamos a dança ao som de um ritmo bem caliente e os nossos corpos colavam-se. Um olhar penetrante e eu ficava a pensar que diabo se estaria a passar entre mim e ele, nuns míseros dois minutos. Nada de mais, apenas um latino, com toda a perícia e arte, que me tentava seduzir..
No fim da noite fui convidada para ir à maior discoteca da Playa del Carmen..Ao ar livre, com várias pistas de dança..Os vários animadores insistiram..mas para não cair em tentação e em imoralidades, deixei-me associar ao cansanço que sentia e marchei directamente para o meu quarto, com a consciência limpa, feliz..e uma garrafa de bebida na mão..
agosto 28, 2006
Sentada no paraíso
Em Valladolid pouco vi. Acabei por estacionar numa loja, super mega grande. Havia de tudo, desde uma mercearia em que um pacote de Cheetos custava 3 pesos (note-se que não é o mesmo que 3 euros), até um espaço gigante, cheio de esculturas e coisas artesanais. Perdi-me no meio de tanta coisa e sabia que já não ia ter muitas mais oportunidades para gastar uns cobres, por isso aventurei-me e larguei os cordões à bolsa. O vendedor tinha muita sabedoria, sabia o que dizer para me fazer comprar, mas acabei por comprar várias coisas aos poucos, regateando sempre. Dasse, vocês sabem lá a confusão que é, converter as moedas e perceber se devo pedir um preço mais baixo ou não.
Enquanto os meus camaradas se passearam, encafuei-me ali, só tendo tempo para tirar uma foto na praça central (tal como havia em Mérida e noutras cidades coloniais). "Chula", disse David, o motorista. Interroguei-o e ele disse "guapa". Sorri e corri para a carrinha de vidros fumados, procurando um refúgio.
Riviera Maya. Era esse o próximo destino e o destino final do circuito. Agora era altura de curtir a praia, beber uns copos e disfrutar calmamente do paraíso magnânime que me era oferecido. Cada casal ia para um hotel diferente. No meu caso, o Kantenah não era escolha exclusiva. Para lá iam também mais dois casais. Adivinhem quem..Provavelmente não. A espanhola com ar de miúda. Bingo. Ah e outro casal..
Despedi-me dos demais e lá fui eu..Mal sabia o que me ia acontecer..4734. Era este o meu quarto, a minha gruta durante os dois dias seguintes, até voltar à dura realidade.
Mal cheguei reparei no exotismo que rodeava o cenário. A selva pura, as aves, o calor húmido. O verde predominava, a flora era riquíssima e o hall de entrada do hotel parecia muito magnífico. Talvez não tenha escrito como queria, mas n sei como descrever melhor o que se passava. Era de uma beleza sem fim, cheia de requintes e extravagância. Um chão brilhante que reluzia, uma panóplia de empregados de chapéu de côco, sempre prestáveis. O bar era do lado esquerdo, feito do seu balcão comprido e copos brilhantes. A recepção, do outro lado, acolhia os recém-chegados. Ao centro um combinado de mesas, sofás fofos e um mini lago com repuxo e peixes. O espaço era semi aberto, sem paredes, dando abertura para a paisagem selvagem.
Cheguei ao quarto e maravilhei-me com tanta..com tanta..err..grandeza. Cama King Size, ar condicionado, mini bar cheio, pinturas da Frida Kahlo na parede..Ya, coisas dessas. Aperaltei-me e, já fresquinha, fui explorar o hotel. O Complexo tinha 4 hotéis ao todo: Kantenah, Colonial, Riviera e White Sands. Todos faziam parte do Palladium (o hotel geral, digamos..). Passeei e percebi que o hotel era mesmo..grande..demasiado grande e que não haveria tempo para conhecer todas as iguarias.
Decidi ir jantar. Se tivesse mais tempo e memória, descrevia tudo ao pormenor. Mas como são coisas que não tenho neste momento - para além da paciência - só vos posso dizer que o buffet era rodeado de um lago cheio de peixes laranjas, todo envidraçado. Enchíamos o estômago e regalávamos a vista. Passei o espírito por aquele espaço, mesmo sem encher o estômago, tentando captar a essência humana daquele espaço. Muitos americanos - gordos, na grande maioria - e alguns japoneses. Portugueses, nem vê-los. Uma variedade de comida infindável decorava cada esquina e cada pormenor: peixe, carne, fritos, grelhados, fruta, entre outros e tal.
21:30. Sabia que ia haver um espectáculo e fui para o teatro. Só não sabia que ia ser para eleger a Miss Palladium....
Enquanto os meus camaradas se passearam, encafuei-me ali, só tendo tempo para tirar uma foto na praça central (tal como havia em Mérida e noutras cidades coloniais). "Chula", disse David, o motorista. Interroguei-o e ele disse "guapa". Sorri e corri para a carrinha de vidros fumados, procurando um refúgio.
Riviera Maya. Era esse o próximo destino e o destino final do circuito. Agora era altura de curtir a praia, beber uns copos e disfrutar calmamente do paraíso magnânime que me era oferecido. Cada casal ia para um hotel diferente. No meu caso, o Kantenah não era escolha exclusiva. Para lá iam também mais dois casais. Adivinhem quem..Provavelmente não. A espanhola com ar de miúda. Bingo. Ah e outro casal..
Despedi-me dos demais e lá fui eu..Mal sabia o que me ia acontecer..4734. Era este o meu quarto, a minha gruta durante os dois dias seguintes, até voltar à dura realidade.
Mal cheguei reparei no exotismo que rodeava o cenário. A selva pura, as aves, o calor húmido. O verde predominava, a flora era riquíssima e o hall de entrada do hotel parecia muito magnífico. Talvez não tenha escrito como queria, mas n sei como descrever melhor o que se passava. Era de uma beleza sem fim, cheia de requintes e extravagância. Um chão brilhante que reluzia, uma panóplia de empregados de chapéu de côco, sempre prestáveis. O bar era do lado esquerdo, feito do seu balcão comprido e copos brilhantes. A recepção, do outro lado, acolhia os recém-chegados. Ao centro um combinado de mesas, sofás fofos e um mini lago com repuxo e peixes. O espaço era semi aberto, sem paredes, dando abertura para a paisagem selvagem.
Cheguei ao quarto e maravilhei-me com tanta..com tanta..err..grandeza. Cama King Size, ar condicionado, mini bar cheio, pinturas da Frida Kahlo na parede..Ya, coisas dessas. Aperaltei-me e, já fresquinha, fui explorar o hotel. O Complexo tinha 4 hotéis ao todo: Kantenah, Colonial, Riviera e White Sands. Todos faziam parte do Palladium (o hotel geral, digamos..). Passeei e percebi que o hotel era mesmo..grande..demasiado grande e que não haveria tempo para conhecer todas as iguarias.
Decidi ir jantar. Se tivesse mais tempo e memória, descrevia tudo ao pormenor. Mas como são coisas que não tenho neste momento - para além da paciência - só vos posso dizer que o buffet era rodeado de um lago cheio de peixes laranjas, todo envidraçado. Enchíamos o estômago e regalávamos a vista. Passei o espírito por aquele espaço, mesmo sem encher o estômago, tentando captar a essência humana daquele espaço. Muitos americanos - gordos, na grande maioria - e alguns japoneses. Portugueses, nem vê-los. Uma variedade de comida infindável decorava cada esquina e cada pormenor: peixe, carne, fritos, grelhados, fruta, entre outros e tal.
21:30. Sabia que ia haver um espectáculo e fui para o teatro. Só não sabia que ia ser para eleger a Miss Palladium....
agosto 26, 2006
Dos Maias aos Espanhóis
Depois de vistas as ruínas em Uxmal, o calor apertava e a vontade de uma fresquinha coca-cola e um pratinho de frango aromático bem que crescia e fazia crescer água na boca. Almoçámos ali perto, apesar de já nem me lembrar onde - vejam só como anda a minha memória - e seguimos para Mérida, uma bonita cidade colonial, símbolo da vinda dos espanhóis à Nova América e ao México, um misto de raças e indígenas. (Ah, já me lembrei..almoçámos na Hacienda Uxmal, o sítio onde tinha ficado a dormir, debaixo do tecto de palha..como é que eu não me lembrava..)
Mérida. Abri os olhos, ensonada, quando chegámos à parte industrial da cidade, com fábricas e armazéns. A cidade foi fundada pelos espanhóis, esses malditos cabrões que fizeram questão de invadir toda e qualquer terra da América Latina (tou a brincar obviamente..eu até gosto de espanhóis..). No século XVI, dotados de armas, espadas e uma ambição de meter medo ao susto, os espanhóis expulsaram os Maias e construíram uma cidade com a típica praça central que há em tantas outras cidades coloniais. Por lhes lembrar a famosa cidade de Mérida em Espanha, baptizaram a nova povoação com esse nome e assim ficou.
Carros, pessoas, movimento. Parecia que estava finalmente a sair da selva, com os seus ramos destroçados pelos furiosos furacões e os gigantescos arvoredos que nos pareciam proteger do céu instável. Depois de passarmos a zona industrial, entrámos no centro da cidade, em ruas que estavam organizadas numericamente. O nosso destino era o Holiday Inn. Depois estávamos livres para fazer o que quiséssemos. Já eram quase quatro horas e o calor tornava o nosso corpo peganhento. As altas temperaturas no interior da Península de Yucatán mexiam connosco, excitavam as mentes e davam-nos uma fúria de viver inabalável. Deve ter sido por isso que uma semana no México não me chegou..
Passámos por ruas estreitas, sinais de trânsito amarelas e carripanas velhas de caixa aberta. Ninguém nos podia ver realmente, por causa dos vidros fumados, o que nos dava o poder de observar tudo ao pormenor sem sermos minimamente descobertos. Sempre gostei de ser uma observadora compulsiva. Olhar obsessivamente para as coisas à minha volta para perceber melhor o que se passava, como tudo funcionava. E ali, numa situação particular, em que estou num mundo completamente novo, com uma cultura inteira para ser descoberta, mais intensa era essa vontade em mim, que me despertava muita adrenalina. A pobreza era notável, mas nada que me causasse uma séria repugna. Pelo contrário, tinha respeito por aquelas pessoas que, apesar de serem exploradas, tinham que sobreviver e tentar ir mais longe para ter tudo o que necessitavam ter. Não é uma questão de ambição, mas pouco mais do que sobrevivência. Viver condignamente, como toda a gente. As casas tinham cores berrantes e os cães, ossudos e desnutridos, passeavam-se sem rumo.
Chegámos ao hotel. Combinei com os espanhóis irmos ao centro da cidade, à famosa Calle 60 para as lojas que vendiam as coisas castiças da região. Optei por apreciar a cama fofa de lençois brancos e ver alguma televisão. Seinfeld. Fechei um pouco os olhos, tirei fotos e, mais tarde, desci. Fartámo-nos de andar, durante horas. Fizemos compras e fiquei a saber que os Mexicanos eram todos simpáticos porque eu era muito "guapa". Vejam lá ahaha..Discurso de um vendedor..Devia ver se me convencia a comprar mais coisas da loja dele..Bebi uma piña colada na esplanada, no meio de uma conversa que não consegui descodificar sobre tapas e tal..Entrei muda e saí calada..
Noite. Chuva. Acabei por jantar sem companhia no buffet do hotel, vendo a chuva cair, esperando adormecer para que um novo dia pudesse surgir.
Mérida. Abri os olhos, ensonada, quando chegámos à parte industrial da cidade, com fábricas e armazéns. A cidade foi fundada pelos espanhóis, esses malditos cabrões que fizeram questão de invadir toda e qualquer terra da América Latina (tou a brincar obviamente..eu até gosto de espanhóis..). No século XVI, dotados de armas, espadas e uma ambição de meter medo ao susto, os espanhóis expulsaram os Maias e construíram uma cidade com a típica praça central que há em tantas outras cidades coloniais. Por lhes lembrar a famosa cidade de Mérida em Espanha, baptizaram a nova povoação com esse nome e assim ficou.
Carros, pessoas, movimento. Parecia que estava finalmente a sair da selva, com os seus ramos destroçados pelos furiosos furacões e os gigantescos arvoredos que nos pareciam proteger do céu instável. Depois de passarmos a zona industrial, entrámos no centro da cidade, em ruas que estavam organizadas numericamente. O nosso destino era o Holiday Inn. Depois estávamos livres para fazer o que quiséssemos. Já eram quase quatro horas e o calor tornava o nosso corpo peganhento. As altas temperaturas no interior da Península de Yucatán mexiam connosco, excitavam as mentes e davam-nos uma fúria de viver inabalável. Deve ter sido por isso que uma semana no México não me chegou..
Passámos por ruas estreitas, sinais de trânsito amarelas e carripanas velhas de caixa aberta. Ninguém nos podia ver realmente, por causa dos vidros fumados, o que nos dava o poder de observar tudo ao pormenor sem sermos minimamente descobertos. Sempre gostei de ser uma observadora compulsiva. Olhar obsessivamente para as coisas à minha volta para perceber melhor o que se passava, como tudo funcionava. E ali, numa situação particular, em que estou num mundo completamente novo, com uma cultura inteira para ser descoberta, mais intensa era essa vontade em mim, que me despertava muita adrenalina. A pobreza era notável, mas nada que me causasse uma séria repugna. Pelo contrário, tinha respeito por aquelas pessoas que, apesar de serem exploradas, tinham que sobreviver e tentar ir mais longe para ter tudo o que necessitavam ter. Não é uma questão de ambição, mas pouco mais do que sobrevivência. Viver condignamente, como toda a gente. As casas tinham cores berrantes e os cães, ossudos e desnutridos, passeavam-se sem rumo.
Chegámos ao hotel. Combinei com os espanhóis irmos ao centro da cidade, à famosa Calle 60 para as lojas que vendiam as coisas castiças da região. Optei por apreciar a cama fofa de lençois brancos e ver alguma televisão. Seinfeld. Fechei um pouco os olhos, tirei fotos e, mais tarde, desci. Fartámo-nos de andar, durante horas. Fizemos compras e fiquei a saber que os Mexicanos eram todos simpáticos porque eu era muito "guapa". Vejam lá ahaha..Discurso de um vendedor..Devia ver se me convencia a comprar mais coisas da loja dele..Bebi uma piña colada na esplanada, no meio de uma conversa que não consegui descodificar sobre tapas e tal..Entrei muda e saí calada..
Noite. Chuva. Acabei por jantar sem companhia no buffet do hotel, vendo a chuva cair, esperando adormecer para que um novo dia pudesse surgir.
08/07/06
Abalámos e não tive a oportunidade de me despedir dos três espanhóis que iam a Palenque. Recordei a última vez que os tinha visto. Foi na esplanda ao pé da praça central. Nunca mais os vi e tive pena.
Era o último dia do circuito. Íamos a um cenote tomar banho, neste caso o cenote Ikkil, perto de Chichen Itzá. Os cenotes eram os poços de água, fenómenos naturais de entre a natureza que permitia aos Maias fazer um sem número de coisas como tomar banho, retirar água para satisfazer necessidades naturais..O lugar era idílico com uma água azul escura e profunda, onde peixes grandes e pretos se destacavam. Como se fosse um poço, tinha uma forma circular com vegetação a toda a volta, com pequenas borboletas que dançavam por ali e umas ligeiras quedas de água refrescavam os olhos.
Tirar fotos, ficar de bikini e ala atirar-se para a água, que se faz tarde..Atirei-me para a água passado um bocado a tentar habituar-me à temperatura da água..Americanos, japoneses e outros tantos andavam por ali, de sorrisinho rasgado e máquinas à prova de água. "Es flia?"..Er, um pouco..Depois daquele paraíso tropical, onde nadei até não poder mais, sequei-me e comprei uns souvenirs. De seguida fomos almoçar todos a um restaurante, onde já mais liberta, dei a conhecer aquela faceta tão espontânea que acaba por assustar tanta gente...Procurei iguanas mas fugiam..Tirámos uma foto de família e fomos para Valladolid. Infelizmente, não pude ver muito..Meia hora dentro de uma loja..Isto diz-vos muito? Pois, a mim também não.
Era o último dia do circuito. Íamos a um cenote tomar banho, neste caso o cenote Ikkil, perto de Chichen Itzá. Os cenotes eram os poços de água, fenómenos naturais de entre a natureza que permitia aos Maias fazer um sem número de coisas como tomar banho, retirar água para satisfazer necessidades naturais..O lugar era idílico com uma água azul escura e profunda, onde peixes grandes e pretos se destacavam. Como se fosse um poço, tinha uma forma circular com vegetação a toda a volta, com pequenas borboletas que dançavam por ali e umas ligeiras quedas de água refrescavam os olhos.
Tirar fotos, ficar de bikini e ala atirar-se para a água, que se faz tarde..Atirei-me para a água passado um bocado a tentar habituar-me à temperatura da água..Americanos, japoneses e outros tantos andavam por ali, de sorrisinho rasgado e máquinas à prova de água. "Es flia?"..Er, um pouco..Depois daquele paraíso tropical, onde nadei até não poder mais, sequei-me e comprei uns souvenirs. De seguida fomos almoçar todos a um restaurante, onde já mais liberta, dei a conhecer aquela faceta tão espontânea que acaba por assustar tanta gente...Procurei iguanas mas fugiam..Tirámos uma foto de família e fomos para Valladolid. Infelizmente, não pude ver muito..Meia hora dentro de uma loja..Isto diz-vos muito? Pois, a mim também não.
agosto 08, 2006
Uxmal e luzes nostálgicas
Saímos de Chichen Itzá e percorremos mais um belo pedaço do caloroso México, sempre com aquela ânsia de conhecer algo de novo. O almoço tinha sido bastante satisfatório, com muita massa, arroz e uns frijoles de chorar e querer mais (não que eu goste de chorar mas pronto. Na verdade, não gosto mesmo..mas às vezes é inevitável..e porque carga de água é que estou a falar disto?).
Um afável papagaio cruzou-se no meu caminho, aliás eu é que me cruzei com ele, e senti aquelas penas coloridas, de um verde vivo a trespassar as camadas adiposas da minha pele - hum, um misto de poesia com discrição anatómica - com uma suavidade que me fazia esquecer, por instantese, a correria atarefada que teria de fazer até chegar à carrinha branca número treze, de vidros fumados e ar condicionado intenso. "Heyyyy". Ups, já me esqueci que tinha de ir. Lá fomos, com o César, de careca brilhante e intensos bravos peludos, de um branco lixívia, juntamente com David, o cheínho motorista de aparência anafadita e indígena, com os meus mega hits musicais, que colocava no leitor de cd's enquanto não chegássemos ao destino seguinte. Entrámos na carrinha e, sentinho um chumbo de razoáveis dimensões a pesar-me nos gémeos, semicerrei os olhos, deixando de ver as sombras coloridas das borboletas que pintavam os céus, ao som de um monte de anedotas sobre "el matrimonio" e os piris-piris de uma vida convencional. Uff..Siesta time.
Provavelmente demorámos pouco mais de uma hora e meia até chegar a Uxmal, outra unidade de ruínas arqueológicas, das mais antigas e conhecidas do México, com o seu quadrado Templos das Monjas e as iguanas gigantes que habitavam perto de galhos gigantes de árvores amazónicas. Ficámos alojados numa espécie de cabanas, pequenas casas de alpendre e cadeirão de madeira à porta, - como, aliás, pude constatar existir em grande número na sociedade cubana - no meio de um espaço verde quase selvático, ladeado de uma piscina pouco tratada de água coberta de ervas e restos naturais - que, sinceramente, nem me esforcei muito em tentar saber o quê -. Cada casa, mini vivenda, tinha dois quartos e no seu interior, uma enorme casa de banho - a maior que já tinha encontrado desde que tinha chegado a México, dotada, inclusivé, de uma fabulosa hidromassagem.
Lembro-me de chegar a quarto por volta das cinco da tarde, pousar as coisas, ligar a tv e deitar-me na cama fofa, especada a observar as actrizes louras da "Heridas de Amor". Observava as tragédias de um mulher que, apesar de querer ser missionária, se debatia com um sentimento de amor que a invadia. E como se não bastasse, o dito cujo parecia ser um sem escrúpulos da pior espécie, envolvido em actividades ilícitas que afastavam a bela senhora do seu caminho. Amores e desamores, tragédias, traições, ahhh..O dramaaaa. Bem, mas isto agora não interessa nada. Passemos ao essencial e que acabei por não contar no meio dos meus relatos imensos e confusos que não facilitam nada a comunicação. Olhava para a televisão mas já não a via, já não sabia ver o que estava por detrás daquelas imagens ou daquelas falas, e mesmo ouvindo o que eles diziam, apenas ouvia algo de muito difuso. Já tinha descolado do México e aterrado na minha casa, sentia-me lá, movia-me no meio da minha vida indefinida, sem saber o rumo. A bússola estava avariada e os instintos são enganadores. Não estava bem. Fechei os olhos e decidi esquecer o que me afligia, quis esquecer-te, descansar o corpo e escapar de mim mesma enquanto podia, antes de sair para as grandes luzes ofuscas e difusas.
Tomei banho, arrumei-me e perdi-me. Cheguei 5 minutos atrasada à entrada das ruínas e isso fez-me ter que perguntar pelo guia e pelo grupo de espanhóis que acompanhava. Lá os encontrei e sentei-me, meio fechada e isolada, à espera do espectáculo que em breve nos assombraria os olhos e a mente. Uma longa descrição narrada num espanhol fechado, onde o deus Chac, o deus da chuva, adorado pelo povo Maia, era imensamente referido, acompanhava a chuva de luzes que nos era apresentado, mesmo diante dos nossos olhos. Durante uma hora, acompanhei esse movimento, de máquina fotográfica na mão e pensamento longínquo, tentava não persistir com estas ideias que me feriam e colocavam numa ilha, roeada por um mar gelado, sem qualquer possibilidade de salvação possível.
Jantar. Ao ar livre, apenas com um telhado de palha, um som dado por três mariachis e caras sérias e insdispostas. A sério, podem não acreditar mas dei por mim a pensar "Dasse, que treta de espanhóis que não sabem apreciar uma bela refeição de boémia e esboçar um mero sorriso encantador." Saí do jantar directamete para o me quarto, já que no meio do nada, não poderia haver nada para fazer. Pensei, pensei e pensei. Adormeci, vencida pelo cansaço (antes disso tinha tirado umas fotos, memórias visuais é que coisa nunca me vai faltar..e um vídeo, mas não o consegui enviar e tal..blá, blá, blá..lá estou eu..).
07/08/06
Levantei-me cedo, arrumei as tralhas e dirigi-me ao tecto de palho ara comer o pequeno almoço. Desta vez fiquei com o casalinho do sul de Espanha, a tal rapariga de sorriso infantil e cabelo pintado, que me chamou nos seu oculinhos fragéis. Conversei, falei do meu estágio na televisão e, no meio de um sono perdido, seguimos para Kabal, umas mdestas ruínas, com grandes incrustações do deus da chuva, o já referido Chac. Fotos, passeios e preocupações. A beleza não tinha fim mas assim continuei no meio de nenhures e segui para Uxmal, o lugar já visto na noite anterior, com luzes e efeitos sonoros. Perdi-me naquele calor, observei tudo com menos atenção, dolorida com a picada do chili na minha mão (ainda passámos por uma casa maia e, ao provar uma tortilha mexicana com chili, deixei escorrer picante para a minha mão. Lavei-a mas, curiosamente, isso não bastou. Pelos vistos, o chili não pica só na boca mas em tudo o que toca..). Felizmente, os primeiros socorros eram eficientes e uma pomadinha resolveu o problema...
agosto 01, 2006
More..
Chichen Itzá. Chegámos a um hotel no meio do arvoredo e da selva, muito próximo da zona arqueológica que data do século IX D.C. Caraças..tou-me a tentar lembrar do nome do hotel..humm... Ah ya, Maya Village..Penso que era isso. O calor era húmido e forte, abrasador, que nos punha logo a carne a arder. Queria-me distrair da derrota portuguesa, por isso, deixei as coisas no quarto e fui à loja do hotel ver os "souvenirs". O hotel parecia uma antiga mansão, com uma escadaria enorme, quadros na parede e bancos de madeira. Era imponente e espaçoso, com uma bela esplanada entre os riscos verdes da natureza, entre arvoredos que nos abraçavam.
Saí do hotel à procura da ouriversaria que me tinha sido indicada pela empregada gordinha da loja. No caminho passei por um bar com tv e vi relances do jogo de Portugal, que estava a passar em modo diferido num qualquer canal mexicano. Virei a cara e segui até à loja. Cá fora, tava um rapaz sentado, moreno, de cabelo liso e óculos graduados, que protegiam uns enormes olhos castanhos. Era o empregado. Entrei para a loja, mas acabei por ficar a falar muito com ele. Economia, cultural, política. Tudo e mais alguma coisa. Horas. Ups, é tarde. Tomar banho é obrigatório..
Jantar. Fresca e leve, não tinha vontade de comer. O calor matava-me. Apesar de ter saído do duche à pouco, - duche esse que tinha sido bastante desagradável, já que a água não escoava pelo cano, formando-se uma piscina de água castanha encardida - já transpirava de novo. Dirigi-me de novo à loja e debatemos a situação do México. Ele não tinha clientes para atender e eu não tinha os espanhóis para chatear. A vontade de falar e conhecer era enorme e decidir por os radares a "funceminar". Passado uma hora, despedimo-nos e fui-me. Acabei por ser convidada para juntar-me à mesa dos Bascos e, após um grupo de mariachis me dedicar umas músicas naquele ambiente lúgubre, discutimos Cuba e a política de Fidel.
Segui para a cama, desejosa de descanso..Não antes sem ver um pouco de televisão mexicana e constatar num programa desportivo, que nós nunca tínhamos sido os favoritos dos especialistas futebolísticos daquele país..
06/07/06
Despertar cedo. Desta vez comi com a família que tinha a filha. Melancia, papaia, café com leite e uns croissants miniaturas tiraram a minha barriga de misérios. Apesar de alguma dificuldade, ainda, em comunicar, já se notava mais fluídez nas conversas, mais sorrisos e uma espontaneidade que advinha da convivência de já algumas longas horas, contínuas e sem escape imaginário.
Saímos para visitar as ruínas, durante mais de três horas, com muito calor, sol e suor. Apesar de o guia procurar sempre sombrar para expôr as suas explicações, os espanholitos lá iam pondo um protector, bebendo água ou procurando um calhau algures, para se confortarem. Às vezes tinha que se fazer sacrifício humano e ficar ao sol, como lagartos. Compras, regatear, mais ruínas. O cansaço tomava conta de mim e eu precisava seriamente de me sentar..
Almoço. Saímos de Chichen Itzá e fomos almoçar à povoação. Era um hotel, com um buffet razoável para nós. Comi um pouco de tudo, bebi uma bela cola e diverti-me com o papagaio que se encontrava na gaiola (ou seria uma arara?). Aproximava-se de mim e inclinava a cabeça. Dava-lhe festinhas e e as suas penas se eriçavam..Calor, calor e mais calor.
Próximo destino: Uxmal..Querem saber onde?
julho 26, 2006
Continuação..
(Venho por este meio informar o meu infeliz lapso de redacção do último post. Não era dia 3 que queria dizer, mas dia 4, já que o dia 3 tinha sido o dia da minha partida de Lisboa, tal e qual como tinha publicado. Puf, não há motivo para complicar as coisas.)
Vim de Cancún já era tarde. Tinha passado um bom bocado a passear pelo Mercado 28 - uma espécie de medina de rua mexicana que tinha pechinchas de todos os tamanhos e feitios -, a falar com "la gente". Para além de pôr umas belas tranças tipo bandlete, ainda falei com alguns vendedores, perguntei-lhes sobre a sua visão em relação aos americanos (e, de forma não surpreedente, constatei que estes não eram lá muito bem amados), troquei dinheiro e, claro, mostrei uns "pantallones" únicos nas suas vidas caribenhas.
O sol estava-se a pôr, o céu estava a ser invadido por raios rosa e apressei-me, entre um plano de uma novela qualquer e o ar gélido do ar condicionado, escolhendo a roupa para o jantar, sentindo já um ardor no corpo, do sol escaldante daquela manhã. Talvez por estar com um ar fresco, limpo e de olhinho pintado, tenha suscitado mais atenções do que devia. Frustrada por não conseguir mandar um simples sms à minha cara-metade em Portugal, passava todo o tempo de caminhada a mexer com o lélé, parando apenas quando os limites da minha paciência eram ultrapassados pelas inúmeras "barras" que levei do centro de mensagens em pleno México. Um fulano, metido à bessa, em simples tanga começou a falar comigo. Sabia que eu era portuguesa, não faço ideia como e já estava a querer o braço em cima de mim. Era um idiota chapado, dos maiores que vocês podem imaginar, como nas novelas, em que há sempre aquele gajo que tem muito palavreado, enrola a língua de uma maneira e fala de tal forma teatralizada, de olho esbugalhado e mão solta, que não dá para enganar. Qualquer mulher, burra ou inteligente, percebe o que é que ele quer e o que não quer. Quer sexo e não quer levar uma tampa. Livrei-me dele e fui ter com a Azucena, que já estava a trabalhar. Falei com ela, durante uns minutos bons e fui comer. Depois, um belo sexo na praia (ahahah, era só a bebida) e fiquei sempre com a minha amiga mexicana. Falámos durante horas, o restaurante fechou e depois tirámos umas foto. Para mais tarde recordar (que cliché, yah).
Quis ir à disco mas não aguentei, o longo parlapié que tive nessa noite fez-me querer dormir, até porque no dia a seguir iria sair para o circuito às 7 da manhã. Já não me lembro muito bem, mas acho que simplesmente me enfiei na cama e fechei os olhos, esperando não me cair nenhuma iguana nos pensamentos.
04/07/06
Rise and Shine. Depois de desarrumar uma mala que foi feita quase à pancada, como voltar a meter tudo lá dentro e fechá-la? Com paciência, calma e alguma organização. Comi, voltei, despedi-me e lá levei a mala para junto da recepção. Daí a pouco iria ver a espanhola do dia anterior que me mostrou esse sorriso infantil e esperei até que o guia, um homem semi calvo, de cabelos brancos, com mais de 60, de sorriso afável e divertido, chamado César.
Éramos um grupo de 12 pessoas, vários casais e uma família com uma filha, de cerca de 16 anos. Dois dos casais estavam em lua de mel, eu era a única portuguesa e todos os outros espanhóis. Foi mais um curso intensivo de espanhol que me fez enriquecer, linguisticamente. Fomos a Tulum, Coba, almoçámos e depois partimos para Chichen Itzé. Foi o dia do jogo de Portugal com a França, por isso não há muito mais a dizer. Interrogava toda a gente sobre o jog enquanto me encontrava no meio da selva. Na realidade, o meu coração naquele dia deu uma breve escapela a Portugal, pensando nos nossos craques a brincar com a bola na relva. Infelizmente, as belas fintas não chegaram. Sem golos, não há vitórias. Esteve um calor insuportável, escorria por todos os lados. Ao almoço caíu uma carga de água, proporcional à tristeza que sentia por Portugal estar já a perder por uma bola a zero. "Até parece que D. Pedro adivinhou.."..
Naquele dia, só queria esquecer o mundial e entregar-me a um belo prato de comida e uma fresca coca-cola. Algo que até veio a acontecer..
julho 25, 2006
Viagem mexida e Mexicana II
Perdi-me na imensidão do Oasis Cancún, sozinha, no meio de um bando de americanos à beira da piscina que ignoravam, por certo, a minha nacionalidade. Aliás, muitos deles nem deviam ter ouvido falar de Portugal. Deambulei pela área, depois de ter deixado as coisas no quarto e acabei por jantar no "Tatish", acabando por falar com Azucena, a flor mexicana. "Hola. Estas sola? Pasa." Ela recebia as pessoas que iam jantar, na sua roupa informal: uma camisa branco com um grande colarinho, uma saia preta que dava pelo joelho com uma ligeira racha atrás e as sandálias meio envernizadas, pretas, de ponta fina e bicuda, podendo-se ver a curva do pé atrás e os collants finos, pretos, onde a cor da pele não dava grandes sinais. Fiquei ali com ela, falei, cheguei mesmo a ajudá-la a traduzir coisas em inglês que ela não entendia e surpreendi-me com o trabalho de campo que estava a elaborar, perseguindo aquele trabalho hoteleiro que, infelizmente, muitos dos mexicanos se viam obrigados a fazer devido aos miseráveis salários que, no caso de serem o mínimo nacional, não ultrapassam os 3 euros e meio por dia. Era notável a leveza no rosto dela cada vez que uma família de americanos passava, dizendo sempre um "Hola" sorridente, encaminhando toda a gente, de pé, à porta do edifício, simplesmente esperando o que tinha, mas que não queria ter de, esperar.
Jantei e voltei. Os empregados eram de uma simpatia extrema e era fácil iniciar qualquer assunto com eles. Geralmente brincava com o facto de Portugal ter ganho ao México no mundial..Eles, na maior parte das vezes, riam-se mas não sei se achavam lá muita graça..
Continuando (que hoje estou sem muita apciência para isto), bebi umas bebidas e depois fui dormir. Aleluia. Tinha vista para a lagoa, do outro lado. O mar pareceu-me agitado mas a água era de um azul turquesa, muito forte que quase fere a vista e isso é mais digno que muita coisa que nos pode até agradar, eventualmente. Talvez por ser tão belo e tão agitado, ao mesmo tempo, nos capte ainda mais os sentidos. É como se o mar ganhasse vida por si mesmo e transmitisse uma força que, mesmo perdida, encontra-se algures na alma humana.
Dormi ao som da televisão que transmitia novelas como "Heridas de Amor" e "Verdade Oculta". Regojizei o espírito e enterrei-me na minha cama King Size, até o cansaço me vencer e partir para a escuridão.
03/07/06
6:30. Acordei cedo, fui comer uns ovos mexidos com bacon ao "Tatish" e reparei nos pratos dos meus vizinhos, cheios, cheios. "Impressionante", pensei. Como é que aquela gente consegue comer tanto de manhã? Doces, crepes, ovos mexidos, panquecas, bacon, carne frita, chocolate derretido..mais o café da manhã, mais a fruta, mais uns bocados de tarte e sobremesa. Limitei-me a comer o que me apetecia e abalei.
Dei um mergulho na piscina porque apesar de ser muito cedo, a pele estalava quase quando o sol lhe embatia directamente. Refresquei-me e fui falar com o gorducho, o representante da "TravelPlan" que me tinha pedido para ter com ele nesse dia. Estavam lá mais uns casais e percebi que iam ser algumas das pessoas que iriam fazer o circuito comigo, que começaria no dia a seguir. Uma moça de óculos de aro fino, cabelo meio palha de aço com madeixas louras e um sorriso infantil, virou para mim os seus olhos, sempre numa espécie de simpatia constrangedora. "Simpática". Depois desse episódio, segui para ir buscar a minha toalha e fui para a praia, deitando-me debaixo de um chapéu de palha, a ver a imensidão marítima caribenha que surgia diante de mim, lendo, refastelando e escutando as peripécias de uma família mexicano que, ao meu lado, discutiam por causa de um bébé de 5 meses que não paráva de berrar e, aparentemente, afugentar os turistas mais mesquinhos. Ainda bem. Não queremos cá esquisitinhos. Ide para as vossas casas, ter a vossa vida perfeita, com os bibelots limpinhos e depois logo se vê. Decidi ir à água, desafiar as leias da natureza, quando na verdade elas acabaram quase por me afogar. Desprevenida, a dada altura, levei com uma onda muito forte na cabeça que me fez cair e estar debaixo de água uns segundos. Não que isso faça mal, não senhora, é nestas alturas que nos apercebemos que as ondas realmente só têm mesmo grande utilidade para os surfistas e tal. Mas assustei-me e saí do mar, aflita e com tosse. Sentei-me na areia, à espera, então, que a água me lambesse os pés, refrescando-me. E aí passei a minha manhã. Almoçando posteriormente, com as minhas calças brasileiras que fizeram um sucesso desgraçado por todo o hotel e, mais tarde, até na povoação de Cancún. Sabem o que é ter todas as mulheres a olhar para as vossas pernas? Pois..é que por mais estranho que parece, o único interesse delas era as calças e enquanto andava sozinha no centro de Cancún, depois de ter apanhado a carrera R-2, que corria toda a zona hoteleira e turística, ouvia comentários como "Oh, I like her pants!" e "Que pantalones bonitos!" e "Hey, guapa, adonde compraste tus pantalones?" que me fizeram questionar a minha vida profissional, pensando seriamente em fazer a comercialização daquelas calças esburacadas pelo centro de Cancún. Ao menos sei que ficava rica - ou talvez riquíssima - em três tempos. Ah pois é.
julho 14, 2006
Viagem mexida e Mexicana
" Tás com medo?.."
Não. Respondia eu, com voz meio sumida, com um tremer interior que não podia dar a conhecer qualquer sinal de fraqueza.
Uma viagem de aventura é sempre sinal de coragem mas também de risco e aqueles que não tem noção do que podem passar ou desconhecem o conceito de risco, são os chamados inconscientes. É preciso ter medo para o poder enfrentar, senão é escusado e inútil. Claro que tinha algum medo. Ir para o México não era o mesmo que ir à mercearia em baixo e, dado isso, tentei gerir esse receio com a minha grande vontade de explorar aquele território. Por esse motivo, mesmo que tivesse alguma insegurança, ela seria suplantada pela energia que uma viagem de rumo incerto me dá e sempre deu. É verdade. É aquela adrenalina a correr pelo corpo. Ir assim para longe, sozinha, incerta, numa película sem guião estabelecido, para conhecer, viver, experienciar, provar sabores que aqui estão longe de ser avaliados. Esse risco, apesar de bastante medido, existia e contribuía para a minha empolgante vontade de passar mais de 9 horas num avião, atravessando todo o atlântico.
Passei um dia à volta da mala azul, enchendo-a com tops, com merdinhas de mulher que ocupam sempre demasiado espaço. Desta vez não levei pensos higiénicos, não foi preciso ahaha..E mesmo imersa na excitação do desconhecido, o meu coração murchava, se quedava assim triste e choroso, espelhando no meu olhar essa dúvida interior. Queria ir e não queria. Como te adoro...Como poderia deixar o meu amor aqui uma semana, sozinho e partir para o outro lado do mundo? Da mesma forma que a euforia vinha, era logo substituída por algo mais macabro e eu parava, frente à mala, a olhar para o vazio, para as letras geométricas de um top qualquer. A vida é curta. Carpem Diem. Toca a embalar o material e não se pensa mais nisso.
Despedi-me da minha vida, da minha casa, das minhas recordações que nunca me deixarão, do que sou e do que não quero ser e, fechando os olhos na direcção de um repouso temporário, parti para uma nova e curta etapa, uma espécie de entrada na Alice do País das Maravilhas, só que com uma grande e imponente iguana de pele descaída, em vez de um coelho fofinho e brilhante. Wow, que imagem..
03/07/06
12:00. O check In tinha sido rápido, a despedida familiar também. Para sorte dos meus pecados encontrei uma senhora muito faladora perto da porta de embarque e uma companhia certa para aquela que seria a mais longa viagem que alguma vez teria feito num avião. "A nossa viagem até Cancún durará 9 horas e 15 minutos." Ah Great. Olhei à minha volta e só vi casalinhos de aliança brilhante, mas com umas caras muito sérias, demasiado sérias para quem iria gozar uma bela lua de mel nas Caraíbas (pelo menos a maioria deles ia). Havia demasiados lugares livres e perguntei-me porque diabo tinha sido tão complicado marcar a merda da viagem. Com os lugares que sobravam ainda podiam ir umas dezenas de pessoas e eu, com mais dois lugares varios, podia fazer uma caminha e dormir alegremente a qualquer altura da minha viagem. Felizmente, a M. F. predispôs-se a fazer de mãe adoptiva e estive toda a viagem em amena cavaqueira com ela, com o devido espaço dedicado aos comes, bebes e liquefezes (belo neologismo este), tendo como banda sonora os filmes "Os Três Duques" e "O Quarteto Fantástico". Ainda vi um pouco do primeiro, mas depois cansei-me de estar ali parada. Convenhamos que 9 horas dentro de um avião é muito tempo, demasiado tempo para estarmos sentadas e a refeição servida não ajuda. É uma bela trampa. O mais engraçado é que passado uma hora de viagem, servem o tal almoço e depois so voltam a dar uma refeição ligeira com um pão cheio de um chouriço ranhoso que cheirava mal, quase quando chegamos ao destino. Ai White, coloured by you..Ya ya..Se ao menos me tivessem dado os lápis de cor ou de cera..Mas assim, continua tuudoooo muito cinzento. Ups. Sorry. Não quero fazer publicidade negativa à White. Aliás, tirando o problema da comida (que é um problema e uma realidade em todas as companhias aéreas) a White presta um bom serviço ao cliente.
Depois de umas turbulências e de uns desabafos pessoais, chegámos. Aí mais gente meteu a mão à cabeça quando percebeu que ia sozinha e já dizia uma moça de Guimarães: "É de baloor." Sorri, tirei a tralha e avancei. Ao cruzar-me com o ar vindo lá fora, senti um queimar espalhar-se por todo o corpo. Era quase como se estivesse a caminhar para a entrada de um grande forno, não com uma temperatura muito elevada. Estariam cerca de 33ª graus centígrados, que teriam, na realidade, como efeito real, mais de 40 graus no nosso corpo. A humidade era muita e senti as primeiras gotas a deslizar nas minhas costas enquanto caminhava, stressada, para o controlo alfandegário. Perdi-me dos meus amigos e fiquei ali, junto de portugueses e americanos, esperando que a fila avançasse. Felizmente, a minha vez chegou e um mexicano de fato acastanhado e pele escura inspecciona o meu passaporte, olhando de seguida para mim. "Vienes sola?"..A resposta é óbvia. "Pobrecita..Te van a robar!" Txéé..Ó man, começas bem, começas!! Limitei-me a sorrir e a dizer descontraidamente "Nooooo". O jovem lá trocou uns risitos e deixou-me ir. Abalei para a zona dos tapetes, esperando a minha mala pequena azul. Não havia sinais da M.F. apesar de eu olhar, procurando um mínimo sinal de protecção antes de me lançar por completo às feras. Completo esse processo, cada um foi p seu lado e descobri que daquele avião era a única a ir para o hotel Oasis Cancun, a única portuguesa ali, a única que ali estava. Explorei o hotel, tirei fotos, perdi-me na sua imensidade e à noite, depois de jantar criei laços com os emrpegados do buffet "Tatish", lugar onde ia tomar as minhas refeições, nomeadamente com uma morena de 21 anos chamada Azucena. Como ela dizia, é uma flor.
junho 24, 2006
A vida num segundo
Corria, num frenesim espaçado, à procura do destino a poucos palmos de si mesma. Arfava, transpirava, sentia os lábios ressequidos e a frescura do perfume a evaporar-se pelo ar pesado e urbano. Um tremor nas pernas compridas dificultava a rapidez do compasso que queria imprimir na sua corrida: um fuga de si mesmo e em direcção a um tempo que não parava, apenas lhe escapava. Subiu as escadas, respirou fundo, soltou a farfalhuda cabeleira aromática e, em passo seguro, avançou para a sombra.
Cinzento. Insalúbre. Tinha sido aquele dia veraneante em Lisboa, feito de decisões que afectariam muita coisa para Raquel. Tinha chegado, finalmente, o dia do exame final de música, o dia decisivo que ditaria o final daquele longo percurso. Não saberia o que ia acontecer, sabia que não podia com o ar abafado que lhe afagava a nuca, a humidade que escorria do cabelo preso era contínua e as faces rosadas assinalavam algum compromisso que não poderia esconder. Afinal, o problema não era só saber como ia sair dali, dos espaços que guardavam séculos de música e os fazia perpetuar; era também, e sobretudo, saber se iria passar a um exame pior que esse.
Sentada numa cadeira rija e desconfortável, de uma estrutura básica, Raquel perdeu-se em pensamentos. Perdeu-se e às notas rítmicas também.
"Oh filha, pam pammm, pam pam, pan-pan-pan, pam! Vá lá, repete de novo desde este compasso até ao final. Tempo por tempo! Força!"
"Ok..Respirar fundo..Ai ai ai.."
Não via as notas, não via tempos, não sentia música naquele pedaço de folha amarelado. Só viu um rosto, duas faíscas na sua direcção e um tremor indescretível que não a abandonou desde esse dia, o dia em que trocara conhecimento com ele, através de um simples olhar, no comboio. A medo, mas com aparente segurança, ergueu a cabeça e marcando o compasso, leu em voz firme e elevada, o ritmo que faltava. Silêncio. Glup. Não conseguia encarar o júri, aquele olhos já não a viam mas indiciavam a saída, a saída para os despojos da ansiedade.
"Ok. Espera lá fora, certo?"
"Err..Claro, claro."
Saíu da sala de paredes caiadas e poeiras dançantes. Sentava-se, levantava-se, roía as unhas, procurava coisas para observar e distrair-se, falava com todos os que passavam, esfregava as mãos pelo cabelo árido, mas nada disso a entretia realmente. Aquele momento era o pior, sempre o tinha sido e se chumbasse de novo, não iria insistir em voltar a trepar aquela parede. "Kaput. Desisto disto." Decidida, sentou-se, absorta em pensamentos leves e deixou-se transportar, deixando de ver as estantes antigas, a mesa de madeira maciça ou as partituras amarelas e velhas. Semicerrou as pálpebras num sinal de distante nostalgia e aterrou naqueles olhos, naqueles pilares que a chamaram, infinitamente, durante pouco mais de dez minutos. Queria desviar, soltar-se, mas não conseguia, os seus olhos colaram-se aos dele e saltaram para a sua alma, ele fazia amor com os olhos, num olhar aveludado, numa fixação que ela nunca sentira. Perdeu-o nesse dia, porém, reencontrou-o.
"Raquel, filha, dá para o 10.."
Acordou. Não ouviu nada e mirou a Professora materna com ar interrogativo.
"Passaste!"
Uff..Um alívio sobre forma de expiração ouviu-se na sala. Raquel sorriu e partiu, numa desenfreada procura para sair dali para fora. Sair dali para fora e colmatar com as dúvidas dissonantes que ecoavam na sua cabeça.
Nas suas calças de ganga cinzentas e top branco, voou dali para fora e procurou o sítio onde ele trabalhava. Não conseguiu resistir ao mais forte, àquela sensação mista de loucura e desejo que a consumia e procurou, procurou sinais do passado que a pudessem alimentar até à noite. Apesar da ausência dele, observou todos os cantos, todos os acontecimentos e detalhes que se seguiram ao primeiro contacto no comboio, um forte embate frontal, a pouco mais de um metro de distância. Ali tinha sido o ponto do reencontro, do reconhecimento, o sítio em que se viram e chocaram inúmeras vezes, sempre na procura do outro, de um sorriso, de uma palavra. E nesse limite espacial e temporal, Raquel perdeu-se, rendida a um sentimento que se via impedida de dominar, enclausurada numa divisão entre quatro paredes, sem porta e com uma única janela para o mar. Dali não conseguia sair, apenas vislumbrar algo de infinito e belo, uma linha sem fim que queria puxar para si e seguir, seguir, seguir..
Os olhos brilhavam, a troca de palavras na caixa elevou Raquel às nuvens e a persistência dos pensamentos pecaminosos levou-a a dar ao rapaz do comboio o que de mais útil um homem poderia querer ter: o seu número de telefone.
.......To be continued......... (lol)
junho 02, 2006
Definições Abstractas e Aleatórias..
" Seguramente, certamente que a noite da passada 6ª feira foi inesquecível.."
"..Tens a certeza?"
"Sim.."
"Humm.."
Insegurança.
É deste conceito que resolvi falar hoje, dar a minha opinião ou introspecção - aliás, é complicado eu ter uma opinião realmente formada sobre um conceito tão vago como a insegurança..-, tendo em conta vários factores.
Primeiro passo: dicionário de português da Porto Editora, o grande ícone do materal escolar, especialmente nas ofuscas memórias do ensino primário, leccionado por uma velhota qualquer com miopía. Vendo a definição de "Insegurança", lê-se:
1. falta de segurança;
2. situação em que alguém se sente ameaçado ou se encontra exposto a um perigo;
3.atitude de quem sente falta de confiança em si próprio;
4.inquietação.
Afinal de contas..porque é que as pessoas têm insegurança? Em que circunstâncias? Há causas? É legítimo? Plausível? Sim e não. Todos somos tão diferentes, temos formas tão distintas de ver as coisas, que é impossível dar certezas, explicá-las, fundamentá-las como se fossem verdades universais..até porque elas não existem. O que damos como certo e adquirido hoje, amanhã já pode não o ser e, num instante, perdemos as nossas bases, as nossas raízes, sinto-me tentada até a dizer que perdemos as nossas forças, porque a origem dos nossos valores e das nossas crenças vai por terra. (Quase) Completamente. Como é que isso acontece? Não sei mesmo. Mas acontece, sem justificação aparente. Em segundos, muita coisa pode mudar no nosso interior. Perdoem-me as almas mais cépticas e incrédulas mas é um facto. Deus é minha testemunha..ou Alá. O que lhe quiserem chamar..
A insegurança surge quando não sabemos no que nos metemos, quando o terreno é perigoso e movediço, quando as nossas acções, mesmo pensadas, planeadas e feitas com margem de manobra para quaisquer imprevistos, não são suficientes para dominarmos o contexto pessoal e social. Perante os outros, deixamos de dominar, de ter certezas, de agir como se a nossa palavra fosse a última a ser cumprida e as palavras as cobaias dos nossos próximos passos. Não, nada disso, meus caros. Quando estamos de papo cheio, somos os maióres, ya, pois somos. Muita bons e tal, sabemos sempre o que queremos, onde, como e com quem..Ya. Mas quando as coisas não correm assim tão bem, ou quando nos relacionamos com algo relativamente imprevisível, é melhor ponderarmos todas as situações possíveis de se concretizar, senão a coisa é capaz de não correr lá muito bem para o nosso lado.
Geralmente, acaba até por ser completamente diferente do que se tinha imaginado. Ya, uma pessoa sonha e sonha, tem planos, ideias, imaginação, faz tudo para conseguir algo. Pior: iludimo-nos, formamos uma impressão de algo ou alguma coisa que não corresponde à realidade e de repente..zás. Badapum. Perante uma repetição sucessiva deste fenómeno, é mais que normal e natural recuarmos perante certas sombras que surgem nas nossas vidas, sem sabermos muito bem o porquê. Eu diria mais, muito mais. Não sei ao certo porque é que sinto tanta coisa diferente num espaço de tempo tão curto. Vou ser sincera. É uma merda. MERDA. MERDA. MERDA. Sejam sempre coerentes, não recuem perante o que têm como objectivo na vossa mente. Se têm uma única ideia, seguim-na. Fixe, ainda bem para vocês. Se têm muitas..Ups. Como se escolhe apenas uma ideia a seguir de entre tantas? Profissão ou amor? Independência ou família? Loucura ou depressão? Todas as ideias são legítimas. Às vezes, é mais fácil percorrer um caminho único, sem ter que se escolher algo, porque, já dizia Sartres (ou talvez não), escolher é o que é realmente de difícil de se fazer na liberdade humana. O homem livre, por ser livre, tem de fazer as suas escolhas e responsabilizar-se por elas, assumir uma posição, liderar o caminho. A figura e criatura escravas não têm quaisquer liberdades, regalias, possibilidades de saber que podem fazer o que querem no dia a seguir, e, talvez por isso, é mais fácil percorrer esse caminho, porque nunca permanecem na dúvida irredutível de ter que fazer uma escolha. Não são livres, não têm qualquer tipo de acesso para esse caminho. Ser livre é único, intransponível, inagualável, porque ao fim e ao cabo, sou dona do meu nariz, sempre serei e sempre quererei ser mesmo quando não tenho qualquer possibilidade para o ser. Odeio pôr as coisas nestes termos. Mas tem de ser.
" Para tudo na vida, correr, é necessário haver um equilíbrio: uma coesão, a junção dos dois lados, o que nos define. "
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