setembro 08, 2015

Colisão Frontal, eucaliptos e a dor da independência (VII)


Perdi-me no raciocínio. Assim numa impercetível rajada, fiquei atordoada e nada me conseguia elevar os sentidos, ainda que estivessem rodeados de berloques dignos de um alto nível de entretenimento. Nada. Nem luzes, nem vozes sussurradas, nem sequer o ligeiro ronco que de mim emanava, à medida que os segundos, minutos e horas passavam, e começava a ganhar volume, um som misto e sincopado, fora de tempo, em forte crescendo, suplicando por comida. Fiquei ali. Especada a olhar para o pequeno ecrã do telemóvel cor-de-rosa. Não percebia. "Estás-te a meter comigo?", atirei em silêncio.

Seria aborrecimento, uma agenda inadvertidamente vazia no último minuto ou, pura e simplesmente, um ronco semelhante ao meu, mas num piano crescendo, apelando ao fim da saudade? O palco brilhava. Centenas de cabeças, de texturas, cores e geometrias delirantes regavam o entusiasmo entre quatro paredes. Preenchidas de interesses privados, o mais publicamente possível. Dançávamos como se fosse o fim do mundo, decretado para daí a meia hora ou, quiçá, a uns meros 15 minutos. Rodas e rodas de sombrinhas humanas abrigavam o chão, roçavam nos braços das cadeiras, vermelhas e almofadadas. E eu movia-me ao som da batida mais comum, entregue às profecias vociferadas de um homem a dançar como um saco de batatas no palco e com um ténis diferente do outro. Naquela altura não fazia ideia de nada, mas o melhor é mesmo nem pensar muito. Para não criar ilusões. Parei, com a sensação de peso na mão direita e lembrei-me. Da mensagem.

Olhei para o lado. A Ana Carolina já parecia estar "despachada" da purgação dos seus pecados, ao som de uma bateria tricotada, entre buzinas, sirenes de ambulâncias e uma voz sensualmente vaga. Disfarcei o minha fixação com um sorriso e guardei o telemóvel no bolso dos calções. Levantei a cabeça, indecisa. Até que... retirei o telemóvel, para dedilhar a seguinte mensagem:

 "Olá! Tudo bem? Sim, eu pensei que o carro andasse, mas ainda não é desta... Teve de voltar para a oficina. E com a mota, tudo fino?". Enviada.

Sim, era verdade, o M. tinha acertado na muche. O Twingo já estaria arranjado, mas foi falso alarme. Mal peguei nele, descobri que o motor não estaria bem. "Bop bop bop bop...". Com tantas cuspidelas de peças desencaixadas, entre bifurcações e pontos de embraiagem, ter chegado ao destino desse dia foi uma sorte. Já o destino do carro foi outro.

"Malta, já passaram cinco minutos! Agora vão partilhar o que escreveram!", interrompeu Dinis, atabalhoando os meus pensamentos. "Ah pois é, deixa cá ver", atirei para o lado. Com um ar tímido, a minha parceira de jogo deixou um riso sufocado fugir. De olhar mudo, sorrimos as duas e, sem demoras ofereci-me para dar a conhecer, em primeira instância, a minha (longa) lista.

Aquele tinha sido um ano difícil. Assim de cabeça contava duas relações destrutivas, menos cinco quilos, uma caixa de cipralex e um acidente de viação. Ah e, já agora, o desgaste emocional no seio familiar. Mas se não fosse isso, talvez não tivesse tido a coragem de dar o passo que estava prestes a dar: partilhar um apartamento com uma recente amiga em Lisboa. (In)felizmente, o único mal no mundo não é só o nosso. Diante de Ana Carolina, entendi claramente o porquê daquela tristeza nos olhos velados conseguir ser maior que as dúvidas daquele verão arrastado. "Sou farmacêutica, mas fiquei desempregada. Estou assim há ano e meio. Tenho 35 anos e não tenho um namorado há anos. A minha mãe está doente e tenho de tomar conta dela. E tu?" Engoli em seco, à espera que as palavras me saíssem certinhas e certeiras. "Tenho um trabalho estável há quase dois anos, não tive nenhum problema grave de saúde, a não ser uma pequena depressão." O outro lado parecia imóvel e é nestes momentos que um segundo pode-se arrastar pela linha do tempo, esfomeado e sedento de algo que o preencha, multiplicando-se por mil e cem prisioneiros desprovidos de vida. Não sabia mais o que dizer.

"Bora lá, malta! Partilhem as coisas, confiem." O Dinis saltava no palco, feito fantoche num festival de marionetas sob um foco de luz alérgico à retina ocular. Pi, pi. Pi, pi. O telefone toca. Uma música mix de elevador ecoa pela sala, abafada pelo conjunto das vozes.

março 28, 2015

Desesperadamente Procurando Nova Iorque (VI)

O avião da US Airways era como uma micro peça de Lego, construída aos poucos durante um longo período de tempo, mas com um aspeto estranhamente volátil. Ao ponto de parecer sucumbir facilmente com a primeira rajada de vento. Uma massa gelada de ar fugiu para dentro do enlatado aéreo e bafejou-me o corpo. Automaticamente encolhi-me, tornando-me um autêntico retrato de uma velhinha de 80 anos. Colada ao interior do casaco, de semblante carregado, ansiosa por uma manta, cobertor ou algo volumoso, semelhante a um gato gordo, a ronronar-me ao colo. De tal forma que, quando entrei no interior, nada podia ter sabido melhor que o quente, composto por fru frus de camisolas, cachecóis e aquele ar misterioso - ali não conseguia averiguar de onde é que vinha, perante a pequenez do espaço - que põe os cabelos de pé, qual eletricidade estática.

O meu lugar era junto à janela, do lado direito, mesmo na segunda fila do avião doméstico. Uma assistente de bordo, afro-americana, de cabelo curto e movimentos desembaraçado mantinha-se apoiada junto à porta, com um indumentária formal. Saia preta pelos joelhos, a combinar com um blazer e uma camisa branca, com um rosto oval pincelado por um batom vermelho em andamento. "Yes, alright then", deambulava, entre pontos finais, vírgulas e e pontos de interrogação, enquanto a perna esquerda fletida, deixava a direita em tensão. A visão arrepiou-me, ainda mais.

Desviei o olhar para a janela, à procura de sinais. Quanto tempo iríamos demorar a sair dali? Já tinham passado muitas horas desde que abandonara Portugal, perdera o contacto com a famosa A., e inclusivamente que tinha falado na minha língua. Aos poucos, o sotaque do inglês além atlântico instalava-se na minha cabeça. Os diálogo sonantes e musicados das inúmeras séries televisivas, que arrombavam o nosso sistema cognitivo, ganhavam uma nova dimensão. De mono passavam a ser uma sinfonia musical em estéreo, com direito à (in)satisfação dos outros sentidos. A música de elevador, transposta para a década de 50, começou a cruzar-se com suspiros, cofs cofs, e bips bips de máquinas fotográficas anteriores ao flash. Distraí-me com esta informação, dispersa pelo avião. Vaguei entre os vizinhos franceses, que me lembraram a vontade que tinha de saborear um croissant, a postura profissional da hospedeira, que provavelmente estava ansiosa para chegar a casa, e a paisagem longínqua da janela riscada, que eu queria ver. Saltar apenas com o poder da mente ou encarnar numa versão feminina do flash gordon, até aterrar na estátua da liberdade. Apertei bem o cinto, tapei-me discretamente com o casaco e enterrei-me naquela melodia.

"Oui... Eh... Yes, thank you". Uma moça negra, de óculos inteligentes e indumentária simples, em tons de azul, sentou-se ao meu lado. Sorri e disse olá, ansiosa para poder conversar. "Ladies and gentleman...", ouvi. Finalmente. Íamos levantar voo. E eu ia conversar com alguém antes de comer a maçã.

outubro 27, 2014

Desesperadamente Procurando Nova Iorque (V)

"Don't be afraid ma'am. It won't bite you". Uma máquina giratória, de proporções gigantes e sons semelhantes a 20 despertadores juntos, estava a devorar-me os olhos. O ambiente, agitado, era um somatório de uma mixórdia de sons, cruzamentos entre vozes, passos e objetos metálicos em andamento, e de uma borrada colorida, na qual as cabeças dos viajantes pareciam mirrar a cada zig zag dado.

Descalcei-me, com alguma dificuldade. Todos os espaços e bancos, passíveis de me auxiliar nessa tarefa, pareciam ocupados com sacos, malas e máquinas fotográficas. "Just move it!", atirava a réplica nº 578 da Queen Latifah, ao fundo do corredor. Subitamente, a minha mente viajou para uma prisão norte-americana, na altura da refeição, onde a fila de espera teria sempre de ser orgânica e contínua. Sem tempos mortos. A diferença é que, no presente imediato, existiam detetores de metais em vez de cassetetes pretos, autênticas metamorfoses de uma cordilheira além da linha da terra. Uma menina, com o cabelo cor de gengibre, de tez sardanisca e olhos pestanudos mirou-me com um azul celeste. Sorri timidamente, surpreendida pela doce fixação nos meus movimentos descontinuados, à procura de um local para esperar. "Ah a eterna curiosidade das crianças". Nunca imaginei que poderia ser um dos momentos mais bonitos de sempre, o aceno de uma criança a uma desconhecida ou um gracejo redondo quando uma das minhas botas desencaixou, aflitivamente, do meu pé. E com o esvoaçar do cachecol, da boina, o deslace da alça, frouxa, nos meus cotovelos enguiçados, com os quilos de massa densa de roupa por baixo. Sem me conseguir mexer, a bebé, refastelada no seu carrinho aconchegado, sorria de lado, num esgar torcido de gozo. Duas cópias imperfeitas da bebé corriam à volta do banco, num frenesim louco, com berros, puxares de roupa e mini-maratonas infantis de Filadélfia à mistura. Os pais, disformes com os rosas e os ruivos de linhas em voo, sacudiam, arrumavam e despiam. A fila começou a avançar.

Agarrei nos pertences e meti-me em espera. O ar abafado sufocava a respiração e, por cima da tapete rolante, as caixas da plástico, desfilavam perante a plateia assustada com as possibilidade de novas tendências de pronto-a-vestir para a próxima estação. Tablets, portáteis, casacos tigresse, botas cortadas e retalhadas. De tudo um pouco se via a descoberto antes da pose, muitas vezes em mise-en-scène. Lá continuava de meias ao relento até à passagem na grande máquina. O aparelho, um detetor de metais avançado, parecia saído de um filme de sci fi realizado por James Cameron. E a minha apreensão em entrar lá dentro não passou despercebida. Depois da reprimenda, deixe-me de molenguices. Entrei e passei. Nada de metais, armas, nem lâminas se encontravam nos confins do meu vestuário casual. Desci o degrau, fugi para as minhas coisas, coloquei o cinto, calcei-me e segui para a viagem.

Porta 63. Andei às voltas pelo aeroporto, como se de um tour para dummies se tratasse. Na realidade, comparado com a Portela este espaço era gigante, com uns dez terminais, mas organizados através do alfabeto ocidental. Depois de ter encontrado o caminho certo - o oposto ao que fiz originalmente - lá apanhei um carrito e percorri os corredores como pistas de autoestrada. Estava apenas a 45 minutos da meta. Até lá... respirava fundo para não perder a calma.

outubro 13, 2014

Desesperadamente Procurando Nova Iorque (IV)

O último corredor para dezenas de quarteirões embutidos em repetição vertical parecia mais assustador e longo do que, realmente, era. Povoado seria o adjetivo, na verdade, mais adequado. Centenas de viajantes andavam, como que agrilhoados nos tornozelos, com o andar miudinho de escravos negros no deserto à procura da chave perdida. Todos em filas ziguezagueadas, à espera que o seu destino chegasse em forma de um carimbo ou quiçá meia volta. O que não era possível contestar - bem pelo contrário, tendo em conta a densidade populacional de uma sala que não devia chegar aos 100 m2 - era a falta de calor humano. Ou simplesmente de calor. Talvez fosse do ar condicionado que tinha avariado ou do congestionado trânsito, mais voraz que a IC19 sentido Lisboa-Sintra em hora de ponta, certo é que um desconforto irrespirável começou a chatear-me. Tirando o facto de conseguir ter ligado para casa - era proibido ter os telemóveis ligados naquela altura do campeonato, mas as regras foram feitas para serem quebradas - cada movimento demorava. A minha sorte é que a companhia tinha chegado. Em formas subtilmente curvas e numa língua longínqua, mas a única conhecida.

"É para aqui a fila da alfândega?". Virei-me ligeiramente para trás e foi o fim do meu aborrecimento. Devia ter um 1, 60 m, um casaco de malha cinzento e uma cascata de canudos compunham a cabeça, caindo em catadupa para os ombros. Os olhos, redondos e castanhos, eram de uma afabilidade familiar, com o sabor de um bacalhau assado e batata a murro destilado. No braço esquerdo apoiava um dossier, enquanto manuseava um smart phone branco com a mãe direita. "Sim, seja qual for o destino, tens de passar por aqui", atirei, com um misto de enfadamento e alegria. Instante passado e volvido, chegou outro, no qual a minha atenção se centrou. A A. A poucos metros de nós, precisamente na mesma fila, ei-la, com o seu grande carrapito no topo da cabeça, a mala do tamanho de um porta bagagens de um Buick e um sorriso camuflado. Alguns fãs mini miniatura aproximavam-se,  tímidos, com pedidos de fotos e autógrafos. Ela, mesmo cansada, lá acedia. "É mais bonita na televisão", dizia-me a minha companhia, cujo destino final era Seattle, no norte da costa oeste, junto à linha fronteiriça com o Canadá. Eu virei a cara e ri-me, à espera de passar despercebida. Mesmo que já fosse uma tarefa impossível. "Acho que ela já te viu", falava a voz de timbre grave, entre os caracóis húmidos.

Nunca fui boa a matemática, os números sempre me assustaram, mesmo com a calculadora como eterna auxiliar. A minha vontade, sempre que tenho uma conta astronómica à minha frente, composta por vírgulas e rabos de nove, é simplesmente de apagar e dizer 'olha, vai de férias, que eu não preciso de ti'. Ou então 'não posso simplesmente arredondar? Sou adepta da simplificação!'. Porém, aqui, nesta situação em concreto, até um ceguinho vislumbrava o óbvio: as probabilidades de me cruzar, no mesmo avião, com aquela figura pública, eram reduzidas. E simplesmente não quis saber, mesmo que todos pudessem andar atrás dela a milhares de quilómetros de distância. Cruzámo-nos incontáveis vezes, ao compasso daquele andamento, que ditava o ritmo da fila, em modo staccato ou legato. Devagarinho ou mais rápido. E nenhuma de nós trocou um olhar marcado, um gesto de cumprimento ou um olá sumido. Porque ali éramos invisíveis para quem nos conhecia, subtis sombras humanas numa mancha de cor disforme e vaga, num limbo de tempo, em terra de ninguém, chefiada pelas Queen Latifahs e reconhecida pelos tapetes que nos faziam viajar para um cubo mágico. Ali éramos duas mulheres em férias, longe das escravidões da vida. 

Um senhor de bigode e formas redondas analisou-me na passagem da Alfândega, sem uma réstia de sorriso ou informalidade. Hirto e seco, perguntou-me o que fazia eu ali. "I'm on vacation", respondi. "What do you do for a living?", atirou com os olhos cerrados na foto do meu passaporte. "I'm a journalist", esclareci, de imediato, com um sorriso ignorado. A placa de identificação dizia "Ben". E quando o carimbo roçou, com força, no papel do passaporte, o nervoso miudinho voou daquele ponto invisível e um sorriso iluminou-me. O bigode do Ben, farfalhudo com pelos castanhos, atravessou-se na linha do meu olhar, acompanhando o movimento ascendente da cabeça e eu pensei: "Ben... Ou antes, bem, vou-me embora!". E desapareci com um agradecimento mudo e umas Merrell voadoras.

setembro 30, 2014

Desesperadamente Procurando Nova Iorque (III)

Filadélfia é o caos. Quer dizer, o aeroporto. Com dificuldades em entrar na rede norte-americana de telecomunicações, estava ansiosa para comunicar com as pessoas que pensavam em mim, lá em casa. Um mar de gente dirigia-se à Alfândega, composto por misturas vindas de várias origens, de várias direções e de múltiplos aviões, à espera de aprovação para entrar em terras do tio Sam. Olhei em redor e apressei o passo.

Avistei, ao longo de metros e metros acelerados, dezenas de Queen Latifah em versão low budget, com argolas a imitar os poleiros dos papagaios mais destrambelhados e unhas de gel com desenhos de mapas. "Já me tinha esquecido do fervor afro-americano", pensei, com uma imagem do passado a bater-me, com minúcia, no lóbulo frontal. Para reforçar a eficácia da sinalética, as funcionárias estacionavam e nem a reboque arredavam pé dos centímetros laterais dos indicações. Eram maioritariamente negras e anafadas. E com uma voz potente. "You have to go this way, come on', move it!", atiravam a dezenas de cabeças, quais pontas de alfinetes, à espera da sorte grande. A saída.

Largos e eternos corredores, preconizados por abstratas alcatifas heterogéneas, numa mescla de linhas, traços e variações cromáticas, prometiam ser uma ilusão. A experiência de um, desembocava na sensação de percorrer o outro. Da primeira vez que visitei os Estados Unidos, em 2011, a energia era a mesma. Elétrica, frenética e até de alguma inflexibilidade para quem tinha acabado de aterrar. Literalmente. Desta vez, como estava sozinha, conseguia perceber certos pormenores com mais precisão.

"Nova Iorque, Nova Iorque. Para onde?", pensava à medida que fazia um esforço para não perder nada pelo caminho. Espera: casaco, mochila pequena eastpak - com cartões, passaporte, guias e bolachas XPTO -, saco da máquina fotográfica à tiracolo, o cachecol aninhado no pescoço torcido e a boina a acusar o adormecimento no chão salpicado de meias pegadas. Cada vez que focava o olhar num ponto diferente, sentia que algo deslizava do meu corpo, podendo permanecer abandonado naquela terra de ninguém. Entre uma cidade que nunca visitaria e o alvo do meu desejo de viajante, era uma espécie de limbo geográfico, do qual apenas queria escapar.

E depois de apanhar um elevador e travar uma conversa, mais gestual do que linguística, com duas portuguesas, lá encontrei. "Customs". A placa do derradeiro beco com saída, na direção da entrada. O exame final antes da licenciatura, a inversão de sentido no exame de condução, a última fase de recrutamento com entrada para a multinacional da moda. Ou como todos os geeks diriam, a última aventura, entre fogo, montanhas e gigantes, antes de conseguir destruir o anel do poder em Mordor.

maio 17, 2014

Desesperadamente Procurando Nova Iorque (II)

"Desculpe? Ah". Olhei dormente para a figura brilhante do assistente de bordo, com as suas sobrancelhas bem delineadas e um bâton do cieiro a esconder as possíveis lascas, tão perto. Senti uma fragrância forte e, talvez por isso ou por ter acabado de despertar de um sono agitado, apurei o foco para o carrinho das bebidas. "Coca-cola, por favor". um esmalte branco e polido brilhou na minha direção, o que foi mais do que suficiente para me endireitar e deixar cair o tampo nas costas da cadeira à minha frente.

À minha volta parecia que a noite tinha aterrado no avião. A A. continuava a três filas de mim, com um enorme tufo preto no topo da cabeça pendurado no lado do topo de um lugar acinzentado. As janelas alternavam, entre a negritude e a clarividência, e os ponteiros pareciam que teimavam em não avançar, embora eu estivesse perdida. Apenas era uma mancha, algures a sobrevoar o Atlântico. Uma mancha no limbo, entre dois pontos marcados no espaço, presa na linha do tempo, quase como se estivesse a atravessar um portal, onde tudo significaria mudança instantânea, adquirida e... desconhecida.

Olhei para a janela, para o conjunto de nuvens que se assemelhavam a tufos de algodão. Saltei para cima deles, como se fossem um gigante trampolim, como passaporte para as mais belas paisagens. Dei piruetas e re-voltas como se pudesse voar e cada descida era um beijo com o material, era um aparar de um golpe, tão possível e real nos dias mais comuns, um sorriso estampado nas costas ou com qualquer outra parte do corpo que chegasse ao ponto mais baixo da queda. Descansei o olhar e sorri. Agora as nuvens surgiam como baguetes e recordei as dentadas estalidas de muitas, com um "crunch" que aquecia o meu palato com novas sensações. Mesmo a tempo. "Sandes de presunto ou queijo?" Fixei o dentinhos brancos. "Presunto". E um estaladiço cremoso, variante pão de plástico, instalou-se.



abril 05, 2014

Desesperadamente procurando Nova Iorque (I)

No dia em que decidi marcar a viagem a Nova Iorque, sabia que o grau de risco era considerável. Apesar da cidade ser considerada bastante segura, não conhecia propriamente casos de mulheres que tivessem decidido viajar sozinhas para uma cidade tão grande, em busca de um não sei quê. Acalentava este sonho há alguns anos, especialmente nos últimos meses, desde que comecei a estudar representação. Tornava-se quase imperativo, na minha cabeça, ir a um local que fora (e era) uma inspiração tão duradoira para tantos artistas, realizadores e, claro, atores. Mas afinal que diabo tem Nova Iorque de tão especial para tanto dos eventos e happenings do Mundo se passarem lá?

A minha curiosidade traíu-me - pelo menos, às minhas poupançazecas - e ao bater das 12 badaladas, na passagem de ano, com 12 gomas em forma de ursinho na palma das mãos, repeti para mim mesma: "Este ano é que vou visitar Nova Iorque". Analisei, pesquisei, consultei alguns sites que relatavam o testemunho de outras mulheres que visitaram a cidade e cheguei ao veredito final. Fiz contas à vida, perdi horas entre soluções mais económicas e o acelerar de burocracias impostas pela sociedade norte-americana e voilá.

"Bling ringa. Na na na na naaaaa, na na na na na na naaaaaa, para pa para pa pa pa....". Eram seis e meia da manhã e o despertador fez questão de me brindar com a sua intransigência agridoce. O momento era aquele, o que tinha despertado bandos de borboletas em catapulta na mente, nos últimos dias, mas a noite agitada não me tinha brindado com as horas suficientes de descanso. 

O ritual da mala quase pronta, esperava por mim, depois do dia começar a nascer tristonho, sob a forma de um cinzento baixo e redondo. Depois de um duche revigorante e generoso, envolto num nevoeiro crescente, acelerei o passo, reforcei o meu corpo com uns cereais e fechei a mala, com ajuda e algumas mudanças geográficas estratégicas. As borboletas, por magia, tinham voado ou talvez morrido. Não é verdade que a duração média de vida desta adorável criatura ronda as 24 horas?

Precisamente o oposto do que se passava na minha cabeça. Uma excitação e adrenalina crescentes, mesmo com o cenário mais pobre para a recém chegada primavera portuguesa. Estava a milhares de quilómetros, mas a humidade das ruas geométricas, compostas por prédios intermináveis, cobridores do céu que nos faz sonhar, ilimitado, já pareciam uma certeza à frente dos meus olhos. 

Cheguei ao aeroporto sem sobressaltos, embora com o coração nas mãos. Uma viagem é sempre uma novidade, uma lufada de ar fresco, uma quebra na rotina que perdura, muitas vezes, há meses e anos. Das melhores dádivas da sociedade humana. Mas há sempre pessoas que deixamos, que amamos e com quem nós preocupamos. Não acredito e nunca acreditei no conceito do " desprendimento total e fundamentalista". Podemos levar a casa connosco, as imagens mais marcantes circunscritas com um arco-íris e um raiar de sol dentro de nós, mas deixamos sempre algo no sítio de onde partimos. E isso custa e magoa sempre. No mínimo, ficam memórias de pessoas com quem nos relacionamos. Se formos anti-sociais, os rostos das pessoas tão familiares que nos habituámos a ver no supermercado, as músicas e excertos de faixas que assumem papéis diferentes, por estarem associadas a específicas épocas, fases e sentimentos dos nossos fragmentos diários, o animal de estimação, que até pode ser o nosso único amigo, que aguarda sempre a nossa chegada ao lar com um olhar à bambi e uma lealdade inesgotável. Todos nós, mesmo os mais solitários, mesmo os mais frios e separados do pragmatismo da realidade, deixam algo. Parte de uma tela gigante, do tamanho do percurso da nossa vida. Mesmo que seja a preto e branco. Eu tenho pessoas que deixei e de quem vou sentir muito a falta, mas o que me magoa mais é a mágoa do outro lado. Proveniente da preocupação.

Caminhei para a fila do check-in com um sorriso e passada firme em direção ao voo 739 da United States Airways. "Senhora, é favor responder a umas questões por razões de segurança." Ah pois, já me esquecia da morosidade que é viajar para os Estados Unidos. Trezentas e milhentas perguntas depois, quando finalmente perceberam que não transportava droga, armas brancas ou de outra índole qualquer, la deixei a gigante Samsonite azul fugir na passadeira. E, passada meia hora, deixei fugir duas das pessoas mais importantes na minha vida. Sempre com um sorriso no rosto, um brilho de emoção nos olhos e um "até já" sussurrado. Agora estava por minha conta. E seja com que idade for, com 10, 20, 30 (e imagino que também aconteça aos 40), o desconhecido provoca sempre um medo, um receio, vá, que pode ser perigoso se for negligenciado. Se ignorarmos esta moínha, ela irá consumir-nos e apoderar-se de tudo o que controlamos (ou pensamos nós que assim é). Ao invés, permitir-nos sentir medo faz com que, mais cedo ou mais tarde - é uma questão de tempo - ele comece a deslizar. Perde força. 

Foi ao que fiz ao passar o controlo no aeroporto. Mesmo depois de ter sido revista e apalpada por uma jovem segurança de tez morena e sorriso desfalecido, um colega da mesma não optou pela calada. "Foi o relógio, sabe? Para a próxima... Quando tiver um relógio em aço retire. Já não apita". Ripostei com um tímido sorriso no olhar. "Pois, não fazia ideia. Obrigada." Compus a tralha e avancei para a porta de embarque em direção a Filadélfia: a escala inevitável que não tinha conseguido apagar do meu itinerário. Era isso ou uns quantos euros sugados a mais, que não me permitiriam investir noutras atividades de caráter lúdico-cultural.

E nesta caminhada interminável, em busca da Porta 42, em tudo se assimilava ao green mile, o corredor da morte. O destino parecia ser inatingível. Andava, andava, andava, em marcha rápida e parecia que já tinha dado a volta ao Mundo. Os olhares de viajantes espalhados pelo espaço remexiam-se curiosamente, num gesto minucioso de perscrução, à medida que um ligeiro sopro lhes incomodava a face no segundo em que o meu passo voava, mesmo ao lado. Para compor o cenário, algumas das lojas faziam querer abrandar-me, para regozijo da minha faceta mais materialista: fnac, Desigual, Victoria's Secret... Consultei os ponteiros do relógio. "Está na hora do embarque. Mexe-te rapariga." Deixei as lojas, com generosidade, para os viajantes desocupados e, no mínimo, com generosidade na carteira. E voei para um último interrogatório, no qual passei com nota 20. Acho que posso dizê-lo, visto que respondi negativamente a todas as questões de ameaça de segurança e tive tempo para repousar as órbitas num banco. Embora a minha vista fugisse para o avião, do outro lado da vidraça, e para alguns passageiros a metros de mim. 

"Don't treat on me." Li inscrito numa mala verde, como a dos militares nos filmes americanos, às costas de um rapaz de ar aquilino e olhar vago. Tinha cabelo curto loiro, olhos azuis, daquele tom felino-siamês, e a mente bem longe dali. Embora o porte atlético e a indumentária sugerisse um possível militar ou um aspirante a tal, também pelo emblema da bandeira norte-americana cosida à mochila. Patriótico, sem dúvida. Outro senhor, sentado a três cadeiras de mim, de semblante largo e pasta preta à executivo - no interior da qual podemos imaginar resmas e maços de dólares ou dezenas de sacos de droga de qualidade duvidosa - olhava em frente, composto pelo blazer preto que se tinha pendurado no braço e a caneta brilhante encaixada, tão desvincadamente, no bolso da camisa.

"First class passengers...". Começou a corrida, mas era fraca. Pareceu-me que pouca gente ia estar no avião e, de facto, não falhei. O meu lugar era à janela, mas os outros dois também. Ia viajar realmente sozinha durante sete horas e quarenta minutos. E, quando analisei a composição geral, percebi que esta seria mesmo a pintura. O que eu não esperava, de facto, é que nas minhas férias além fronteiras e atlânticas, desse de caras com uma figura pública no avião. A A. entrou com a sua figura, alta e sensual, suscitando logo uns suspiros e zunzuns. Até o assistente de bordo, que não deve ser o maior fã, distribuiu um baralho de sorrisos, tal como a diplomacia do trabalho exige. "Quer vir aqui para a frente? Fica melhor." A morena não fez questão, mas acabou por aceitar a proposta. E lá estava ela, a três filas de mim, com companhia e descansada da vida. Mal sabia que eu estava ali, de semblante sério, com a minha boina e cachecol roxo. Mas também era indiferente, não fazia questão de mudar o meu comportamento, por muitas estrelinhas que caíssem no avião. A ironia era gigante, mas não se comparava à minha vontade de usufruir cada segundo fora do mundinho tuga. Respirei fundo, olhei para a luz que entrava pela retangular janela e pensei, quase deixando sair som: "É uma passageira como outra qualquer. Férias. Nova Iorque." E sorri.

Ainda não eram onze e meia e já estavam a servir paparoca, a bem dizer um frango barbecue com feijão verde e puré de batata doce (uma perdição gastronómica que me tem perseguido em cada refeição). Um dos assistentes de bordo, com uma careca muito brilhante, e uns olhos azuis metálicos lembrava-me o líder da Companhia da série Prison Break. A voz era pouco límpida e, aparentemente, a simpatia também estava perra. Perguntou-me o que queria e eu contra-respondi com "Que opções é que tem?". Silêncio. Acabei por pedir frango e deliciar-me, também calada, todavia com motivos diferentes: uma lata de coca-cola zero num copo com uma pedrinha de gelo, uma fatia de bolo de chocolate, uma vista para o atlântico que me lembrava a maresia gélida de Porto Côvo e o filme de animação Frozen, a confortar os revirares de olhares mais desconfiados. Apercebi-me de que já era oficial: ainda agora tinha partido e já me sentia em casa.

abril 03, 2014

Desesperadamente procurando Nova Iorque (prefácio)

Toda a gente sabe que uma mulher normal dos dias de hoje - pelo menos aquela que é considerada como tal, sempre com muitas aspas, aspas - gosta de prezar e cuidar da sua imagem. Um ritual que, nos casos mais extremos, morosos e dolorosos, pode chegar a algumas horas diárias. Eu tomei várias resoluções e defini algumas regras antes de embarcar nesta viagem a Nova Iorque. Entre elas, não cair no ridículo de carregar todos os acessórios femininos tão desnecessários ( já para não falar pesados). Contas feitas, as minhas decisões foram:

1. Não levar secadores, alisadores, escovas XXL para efeitos de remover células capilares mortas e enterradas, levantar raízes ou fixar ondas XPTO, nem qualquer aparelho eletrónico relacionado com o visual e a estética. Todo o ano somos "escravas" da beleza. São as olheiras, as rugas, as imperfeições, as borbulhas e acne pós-30, o cabelo que não está esticado, nem com o volume perfeito. As unhas que estão ao natural e, pronto, não pode ser. Não fica bem, certo? Oi? Errado. Vou de viagem para conhecer, absorver, respirar novas sensações, emoções. Não para uma competição de moda. Quando me quiser pavonear com o kit completo vou para o Chiado ou para a Avenida da Liberdade. Agora é tempo de ser o mais natural possível. Limpinha, mas sem grandes arranjos. Observar e não ser observada.
2. Não demorar mais do que cinco minutos para tratar da imagem: maquilhagem, penteados, cremes para o rosto e ramificações afins. Para quê perder tempo com mais, do que com os mínimos olímpicos, se o objetivo é passar despercebida entre a multidão? Sentir-me confortável, bem preparada para horas de caminhada e passeio, não se coaduna com quinquelharias e adereços froux froux. Se não gostarem, olhem para o lado. Melhor será, é mais tempo que passo a observar a natureza de quem passa por mim e de tudo o que acontece no momento. Menos distrações.
3. Não me levantar nunca depois das sete e meia da manhã. Se vou para a cidade que nunca dorme não posso ficar na cama ou sentada à janela de casa a ver os táxis amarelos a passar. Para conhecer o ritmo biológico da cidade, tenho de o acompanhar, desde a sua génese. E quanto mais cedo, melhor. Mais experiencio.
4. As deambulações na rua não podem ser tardias, mas não há hora de recolher obrigatória. Se me apetecer ficar na conversa com a minha anfitriã ou a escrever ou a meditar, fá-lo-ei sem me penitenciar por isso. Estou de férias e a vontade que surgir de fazer algo nos " tempos livres" será aceite.
5. Não há regras. Fora todos os motivos já mencionados e descritos, a livre exploração de um espaço, rua ou recôndito recém-descoberto será sempre uma tarefa a abraçar, ainda que não tivesse sido premeditada ou prevista. Não faz mal, o inesperado e a aventura são amigos do viajante, mas inimigos do turista. Eu considero-me um mix, pois irei aos locais mais icónicos da Big Apple, não poderei deixar de ir ao topo do Empire State Building ou ao Strawberry Fields no Central Park, mas também quero ver o resto. Tudo o que está fora dos cartazes e catálogos de agência porque não é bonito aos nossos olhos, tão ligados com a categoria perfeição. Não é bonito de se ver, logo não é comercial, nem vende. Mas faz parte da natureza do local, é também o que o caracteriza e, como tudo na vida, tem de ser levado com seriedade e respeito. Quero ver tudo. Ser uma viajante numa ordem de urgência, em busca de tudo o que conseguir ver. Insaciável, em corrida pelo autocarro que já está ao virar da esquina, apinhado com pessoas perdidas, mercadorias com cheiro a século XIX e galinhas anorécticas e semi-depenadas. Quero entrar e arquivar na minha cabeça tudo o que puder.

Posto isto, deixo-vos estas palavras com a intenção de transmitir quaisquer eventualidades no decurso desta viagem, de uma semana, entre três e dez de abril. Sete dias apenas, nada de invulgar na linha cronológica, nem de inovador na era do tempo fugaz e conectado em rede, com o Mundo inteiro. O olhar sobre as experiências no decurso do mesmo é que é subjetivo e único. Não por ser especial, nem mais rico ou completo do que outro qualquer. É apenas o meu. Que será certamente diferente de todos os olhos, cada par com as suas ligações, percepções e curto-circuitos.

Até já, Nova Iorque.

fevereiro 12, 2013

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (VI)


Já era quase novembro, mas as árvores ainda tossiam com o arranhar quente que lhes vibrava na garganta. Lisboa deixava saudades, não porque estivesse longe do meu caminhar solitário, mas sim porque também ela iria mudar em breve. E, como toda a gente sabe, a mudança é sinónimo de transformação. É uma incógnita, o ser empurrado para o desconhecido sem saber se existe do outro lado alguém para nos amparar ou um colchão abandonado por  um vizinho da Colunex, desfigurado e deseintegrado da sua própria sociedade. Eu ainda não sabia se havia se tinha alguma destas opções à minha espera, mas estava à beira de uma prancha numa piscina, cuja profundidade e caráter são desconhecidas, e só faltava a ponta da coragem para saltar.

Até lá agarrava-me ao calor das ainda longas noites que insistiam em não sair. "Vais sair de casa, vais deixar os teus pais, vais fazer algo de completamente novo. Cuidado para não te arrependeres!" Sim, as altas temperaturas eram tramadas, autênticas filhas da mãe que, parasitas e indiscretas, se colavam à nossa cabeça. Tentadoras e sensuais por se contentarem com remendos de blusas velhas, mini-saias oréva e havaianas que se moldaram às curvas dos pés escuros calejados, depois de muitos dias de praia e de contacto direto com o sol. Era sinónimo de loucura, de prazer já conhecido e alcançado, de sabedoria e felicidade certa na nossa cabeça. Uma zona de conforto que me prende com algemas de chocolate, frutas exóticas e um gin tónico a destilar pela minha boca. Um êxtase de sensações enche-me a boca, coloreia a minha visão de formas psicadélicas à espera de serem agarradas, faz ondular os micro pelos escondidos nas linhas mais óbvias do meu corpo, mas estou presa. É uma luta  perdida, insuficiente. Inútil. Tal como a mudança de estação me assustava - sim, também porque não tenho paciência para camisolas e andar enchouriçada -, também a explosão na minha vida estava iminente. O que fazer? Fugir? Não. Vivê-la.

"Faíscas verdes. Sabem o que é? Vão saber, malta!". Abri os olhos e despertei para a realidade. Estavam no meio de uma sala cheia de pessoas, eram centenas que, tal como eu procuravam saber que diabo andavam aqui a fazer neste jogo chamado vida, e não se importavam de se misturar com desconhecidos durante intensas horas ao longo de um fim-de-semana prolongado, onde as trocas de cadeiras e os apontamentos eram o prato do dia. A sobremesa era a tomada de consciência, na maioria dos casos bem mais amarga do que doce. Seiscentas pessoas na sala Preto e Prata do Casino Estoril a ouvir um homem inspirador, conhecido por ser o guru do auto-conhecimento em Portugal. Sabedoria ou marketing? Honestalmente, provavelmente eram as duas, mas o que me importava era aprender mais sobre a vida, sobre o ser humano, sobre o ser com o qual tinha de viver todos os dias, desde que abria a pestana. E se o Dinis Só Nascimento podia abrir-me uma janela, eu iria querer descobrir a chave para abrir a porta.

"Está na altura de... trocarem de lugar novamente! Boraaa e nada de ficarem ao lado de alguém que conheçam, não vale!", desafiou Dinis, com a sua pêra bem desenhada e a sua voz segura, perante uma audiência manipulada. Agarrei na mala preta à tiracola, no bloco de notas, no pacote de bolachas abandonado aos pés e fugi daquela cadeira aveludada. Fugi com a preocupação de não esbarrar em qualquer-objeto-ou-ser-humano-ou-parte-de-ser-humano-além-de-prolongamentos-internos. Um lugar foi-me indicado, quer dizer, vi-o depois de um senhor de óculos e gargalhada jocosa desobstruir-me a vista. "Ena." Sentei-me e reparei na rapariga, de olhar triste, no meu lado direito. Desenhei um sorriso nos lábios e atirei-lho. Ela retribuiu, do baixo da sua cabeleira morena, com franja direita e pontas alinhadas três dedos depois da orelha. Parecia ter uma alma bonita, com a fragilidade feminina a boiar no seu rosto, mas a pele baça e amarela, tal como o fundo impercetível da sua irís fez-me perder o meu olhar. "Malta, próximo desafio. Em grupos de dois vão falar e trocar ideias. Qual foram os momentos altos deste ano? E os baixos? E quem é que mais amam e mais detestam? Porquê? Reflitam, escrevam primeiro para vocês e depois mostrem. Partilhem!" A "Beatriz Costa" do século XXI olhou para mim. "Como te chamas?", perguntei. "Ana Carolina", respondeu. "Olá, eu sou a Raquel. Vamos a isto?" Confessar os podres da minha vida a uma desconhecida podia não parecer fácil, mas o problema era admiti-los a mim própria. E andava agrilhoada há muito tempo, há demasiado tempo. Fui escrevendo, linha a linha, tópico por tópico, incrédula com a quantidade de coisas que teria de admitir. Senti uma pontinha de embaraço a crescer-me como uma onda, que de inofensiva e quebrada pela prancha deficiente de qualquer puto de três anos passou para uma potencial ameaça McNamariana. Pi, pi... pi, pi.. Uma mensagem. Interrompi a dura escrita e li a mensagem de um número que, de repente, não fazia ideia a quem pertencia. "Como está o carro? Já anda? É melhor não sair de casa quando estiver arranjado". Não escondi a surpresa. Era o M.


junho 15, 2012

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (V)

Tic tac. Tic tac. Nada mais era permitido ecoar, entre aquelas quatro paredes, para além da minha voz e do bater dos ponteiros do meu relógio de pulso, tao audível que fazia tremelicar qualquer formiga esfomeada, por cima de uma migalha de comida, de arte ou de algo mais, fosse lá o que fosse, algures perdido no tempo, jazido no soalho.

Diante de mim, com o cabelo grisalho vistoso, ainda que desalinhado, o M. escrevinhava, num esforço inesgotável, para acabar finalmente com a parte morosa da burocracia, deixando escapar um ar macambúzio e gelado, os olhos fixos no papel - que, em boa verdade, nada era senão mais um elemento ocioso, através do qual se protegia - e o lábio inferior virado do avesso mas severo, como uma criança amuada à espera do doce que não chega. O nariz, ligeiramente abatatado, não era excessivo na proporção da face, ao invés, transportava uma certa jovialidade cómica que transmitia um fervor para os dedos, ansiosos e irrequietos para lá chegar e brincar com o órgão do olfato. Porém, o que me despertou, naquele momento, foram as mãos. Dedos grossos, calejados e fortes. Dedos de quem trabalha, de quem pensa, de quem resiste. Dedos que transportam força, ainda que camuflada por tanta doçura. Pensei na bela doçura que aquelas mãos poderiam dar e o calor que poderiam fazer sentir. Todos podem sentir o que quiserem dentro de si, mas poucos podem expressar e concretizar essas emoções, carregadas pelos mistérios do cérebro. Aquelas mãos destilavam amor, carinho, força e integridade por cada ruela daqueles poros velhos. Não eram bonitas, não eram suaves, mas carregavam a natureza da vida.

Enquanto o destino me prendia àquela cadeira, desenhada com veios de uma densa antiguidade, perscrutei ainda mais aquela expressão solitária enrijecida pelas linhas do rosto, traçadas pelas partidas que surgiram desde o seu nascimento. Definidas pela reviravolta da ampulheta do tempo que, implacável no compasso do seu andar, com o derradeiro escape de cada grão de areia, não consegue provocar indiferença por onde toca. Acontece, mas não pára. Perdoa-se, mas não se esquece. Esquece-se o passado, mas influencia-se o futuro. Ou, se trocarmos as voltas às lógica do otimismo irracional, colocando o realismo na linha da frente, o tempo cria cicatrizes na nossa alma, irreversíveis, mas cujas feridas lambemos como cachorros indefesos, como se fosse a suprema cura para alcançar a vitória frente ao próximo male. Só que o próximo male tem por hábito ser maior e atingir no mesmo sítio da massacrada ferida.

Ring ring. Despertei da minha investigação com um toque constipado de um telefone bege, outrora escondido por livros, capas rijas e cinzas de tabaco, que transformavam a mesa num objeto de decoração de um café noturno. "Está? Sim, não há problema... Sim, claro." O que antes parecia ser um silêncio ensurdecedor, transformou-se praticamente num recital de poesia, com a voz forte, rouca e densa do M. a preencher as lacunas da sala, com uma dança de sorrisos com os olhos. Timidamente, comecei a rasgar o meu sorriso, não por causa da conversa - irrelevante e banalíssima -, mas pela impaciência infantil com que M. estava a lidar com o assunto. "Obrigada", atirou com firmeza, devolvendo o auscultador do telefone ao descanso, com aquela firmeza que, tantos dias depois, viria a ansiar reencontrar. "Está tudo bem?", experimentei. "Sim. Bem, sabe como é... confusões." Num discurso inflamado, contra as injustiças da sociedade, M. deu vida a mais um cigarro, mais um ponto alaranjado iluminou aquela sala com tanta escuridão, enchendo o metro e meio que nos distava com fumo que se amontoava e apalpava, tais eram as chupadelas que dali retirava. Se aquela voz enchia a sala, uma personalidade carismática e determinada começou a chegar aos meus olhos. Ainda que, até então, fosse parco em palavras, a extroversão, rara e quase considerada pela sociedade inadequada para um homem com mais de 40 anos, começou a ressurgir. E lançado o mote, não resisti. "Fuma aqui dentro porquê?! Sabe que não se pode fumar em locais fechados... e está aqui um pivete...". Manteve a postura séria, sem desarmar a expressão e frio replicou: "No meu gabinete mando eu. O gabinete é meu, trabalho aqui, portanto eu faço o que quiser, inclusive fumar." Não respondi, nem ousei. Lancei apenas um sorriso, e com sucesso, não tivesse o M. feito um convite com os seus olhos redondos e grandes, que lançaram faíscas de dor, durante aquele quarto-de-hora passado.

Ouviam-se, por certo, a largos metros de distância os nossos passos, dada a pouca afluência de alunos por aqueles corredores amarelados, com pinturas, mini-esculturas e peças de olaria a colorir a neutralidade das paredes. Como uma discípula, seguia a figura do M., que se tinha oferecido para me mostrar os recantos mais interessantes da universidade. Afinal, eu era uma entusiasta de história, de arqueologia e de arte. E nem a situação constrangedora em que nos cruzámos, graças aos misteriosos desígnios da vida, ditaram a expulsão da minha figura daquela sala de fumo, nem o fechar a sete chaves do capítulo do choque frontal na A5. Um choque de titãs. De duas almas fortes, mas com o coração em sobressalto. "Agora vou-lhe mostrar a minha sala favorita", advertiu, deixando o sorriso amarelado, desenhado com o toque persistente da nicotina, aparecer à luz do dia. Assenti e passei por uma porta, descendo meia-dúzia de escadas de pedra, com uma imagem esplendorosa a apoderar-se do meu raio de visão. "Uau", deixei escapar, com a ingenuidade de uma criança, espantada pela conjução de cores, odores e misturas históricas que se ergueram naquele instante. Dos passagens estreitas, inertes como a estrutura de um hospital, rebuscadas com pedaços de arte, saltei para uma fonte de inspiração, onde qualquer sonhador, artista e filósofo adoraria passar horas, numa comovida sensação de fazer amor com o universo, com o mais belo que há. Um estímulo sexual aos sentidos. Naturalmente, não fui exceção.

À nossa volta repousavam estantes, dezenas, centenas talvez, que cercavam toda a sala, quadrada, como muralhas de uma cidade medieval. Centenas de documentos, livros, portfolios e fotos, numa junção proveniente de uma dose elevada de loucura e também de coragem, davam o cunho histórico de uma biblioteca secular. No centro estavam uns estiradores, em forma de U, com cadeiras, que reforçavam os contornos acolhedores da sala de aula. Pincéis adornavam as mesas de trabalho e resquícios de tinta, bem como o seu cheiro, marinavam entre as paredes, gastas e escuras, fundindo-se com o bolorento odor do estuque. Pelo ar caminhava ainda o aroma a papel velho, a pensamentos queimados, uns quantos que terão ocorrido, em comunhão, numa salutar conversa entre alunos e professor, sobre princípios cujos fins ainda não estavam traçados. O que me fez recordar, num ápice, os tempos em que desejava pensar, porém com forçada atenção, naquelas mesas viradas para um crucifixo, em cima do quadro. A diferença é que, então, tudo parecia automatizado, à semelhança da minha vontade de estar naquelas aulas. Ali, tudo é natural, espontâneo, desejado e vivido até à máxima glória. Não precisei muito, apenas escassos segundos, para ter a certeza: o M. era um excelente professor e, principalmente, um excelente formador. O carisma, o sarcástico sentido de humor e aquele amor, camuflado por uma aparente frieza, mas real insegurança, eram os ingredientes perfeitos. Senti uma pontinha de inveja daqueles alunos. Será que ainda me podia permitir viajar, como uma jovem de 20 anos, trancada para sempre naquele éden intelectual, sem receber contas, despesas e responsabilidades estúpidas de um adulto típico, ou seja, sempre aborrecido de si próprio?

"Este lugar é excecional...". Aqueles olhos firmes voltaram a focar-se em mim, mas com alguma admiração, em vez de uma incontrolável raiva pelas decisões que o fado lhe trouxera como oferenda."É, não é?". Sorri, rendida. Caminhei, abraçada à humidade claustrofóbica da sala, apreciando cada segundo de cores, pinceladas, peças arqueológicas que o M. me mostrava e que tanto calor no coração me despertavam. Entre as explicações sucintas daquele homem - que as Estradas de Portugal tão amavelmente me haviam apresentado - e a catarse que os elementos causavam no meu corpo, vislumbrei umas estreitas escadas de madeira no lado esquerdo, quando estávamos virados para a porta, junto ao canto. Havia uma passagem para um segundo nível. Acima das prateleiras que me beijaram os olhos, quando ali surgi, estavam mais uns quantas, à primeira vista, abandonadas. "Que teto alto", julguei. Ao meu lado, M. sacava mais um cigarro, perante o meu olhar de espanto, antes que se transformasse numa reprovação silenciosa. Pouco tempo demorou, na realidade, tal como a minha permanência na sala mágica.

"Tenho de ir", atirei, triste. "Está a ficar tarde e estão à minha espera. Mas gostei muito desta visita... e desta sala." O M. sorriu, com o seu ar altivo, erguendo com orgulho um cigarro que me entontecia. "Quando quiser, pode aparecer", despachou, num discurso rápido, como se o medo pudesse impedi-lo de pronunciar aquelas palavras. "Obrigada, sim. Gostava muito de assistir a uma aula." Despedi-me do inebriante festival de elementos, virei costas e caminhei até à saída. Mas, naquele momento, não estava somente a virar costas a um edifício, mas a uma pessoa. Era uma despedida que, estranhamente, não queria celebrar. Deveria e poderia. Era o fim de um ciclo, o arrumar, em definitivo, a novela do meu carro, machucado, à hora de ponta, na pontinha de Lisboa. Não era isso, porém, que sentia. Era o fim do contacto com um homem diferente de todos os anteriores e que, talvez por isso, me tinha injetado no coração uma esperançosa luz. Confusa, nos labirínticos corredores, nunca deixava murchar um sorriso jovial. A cabeça não parava, como uma escada rolante em modo turbo, mas o esgar dos lábios, em forma de coração, não se apagava.

Calor. Luz em modo ecológico. Ressurge Lisboa, na sua beleza histórica, perante os meus olhos, com um elétrico amarelo a trilhar uma perpendicular vizinha. O inevitável adeus a espalhar charme. Seria a derradeira despedida? M. furtou mais um cigarro de um "não sei quê" bolso dos jeans azuis cansados. De pé, aspirava aquele prego do caixão e uma proeminente barriga despontou sob a luz da cidade. Agradeci, com um nervoso miudinho a trepar pelo estômago até se instalar, confortavelmente, na garganta. "Até um dia destes". Ele, escondido pela trepidação do fumo, tinha adquirido a proteção perfeita para se esconder da rutura. De fisionomia séria, esboçou uma despedida com os beiços, num gesto de aparente indiferença, como se nada fosse, como se o cigarro fosse a sua única amiga e amante, a sua única companheira, por lhe ser eternamente leal, mais do que fiel. Olhei. Lancei mais pensamentos através da mente do que com a fala, por uns breves segundos, até o alarme do "já chega" tocar e alcançar-se a fronteira do impoliticamente correto e bizarro. Sorri e virei costas, deslizando e empurrando o cortinado dos meus cabelos escuros compridos, por aquela rua, agora parecendo-me ainda mais preta do que tudo o que carregava, dentro de mim, até lá chegar. E assim, desliguei, esqueci, apaguei. Desemboquei noutra esquina, composta por uum arco-iris fabricado de uma feira popular, para me distrair dos momentos do tão fresco passado. Não por temer nada do que aconteceu, mas pelo temor do tudo que nunca poderia vir a acontecer.

junho 11, 2012

Colisão Frontal, Eucaliptos e a dor da independência (IV)

Era um velho dia de setembro, mas um calor estonteante bafejava-me o rosto sem mostrar quaisquer sinais de misericórdia. E mesmo que o choque, das recentes horas, insistisse em martelar-me na memória, à semelhança do embate do meu pára-choques a uma Suzuki preta, empoeirada pelo sabor a eucalipto do crepúsculo, um campo de borboletas decidiu rebentar dentro de mim e o meu corpo quase levitava, embora a lei da gravidade conseguisse provar, como sempre, o oposto.

Afinal não tinha arrumado o incidente de viação numa gaveta, com direito a tranca, cofre e urna dourada. Não. Dias depois, o M. ligou-me e informou-me: "a declaração amigável tem um erro nos dados." Enfim o reencontro. Por último, o contacto fora daquele cubículo chamado "sala de acidente na A5". É a mesma coisa que uma sala de espera de um dentista ou de um ginecologista, na qual o constrangimento natural supera a natureza da alma mais genuína. A música mastigada por dois acordes manhosos, revistas (re)mexidas com cantos polvilhados de cuspo e impressões digitais com odor a ranço ou os sofás que sobraram da última edição do Stock Market. Tudo isto em conjunto com a hipótese da televisão com 20 anos estar sintonizada nos programas da Júlia Pinheiro ou da Fátima Lopes desenvolvem as condições - necessárias, logo, perfeitas - para que os presentes se atiram para o fenómeno da "não comunicação" de cabeça, soprados pela autoridade sublime de um deus chamado padrão cultural social. Caso contrário, serão punidos. Um sorriso ou um gesto dessincronizado do todo o poderoso, invisível mas presente naquela esmagadora sala, pode dar azo a um olhar ou sussurro, assombrosamente, esmagadores.

Assombrada continuava eu pela beleza de Lisboa. Estava a passos largos da universidade onde o M. lecionava e, portanto, a uns minutos de conhecer mais sobre a personalidade daquele homem ou de contactar com o habitat de um verdadeiro animal da estrada. O sol ainda raiava bem alto e com um brilho nos olhos, talvez devido ao grito de revolta dos meus 28 anos, que me deram a provar o acanhado sabor a independência, avancei com o cortinado preto formado pelas linhas paralelas e simétricas do meu cabelo, acarinhado pela suave brisa. A cor da pele, a roçar o guloso caramelo, fazia-me confundir com uma turista ou uma trauseunte oriunda de terras latinas, mas o ar ansioso e as passadas firmes deitavam por terra a hipótese de ser uma mera diletante estrangeira, apaixonada pelos mistérios de Lisboa. Cheguei. Respirei fundo, coloquei a mão no interior da mala branca à tiracolo da Gola e confirmei que tinha tudo: carteira, telemóvel, chaves, estupefacientes... ups. Bem, tinha umas gomas no fundo do saco. Dei um passo em direção ao topo do degrau da porta de entrada e pousei a sola da sandália à moda dos gladiadores, castanha, com tiras e fivelas, em solo firme. "Sabe-me dizer onde é o gabinete do Professor M.?" Um porteiro negro, de óculos estranhos e postura hirta, olhava-me como se fosse um E.T. Deu-me as indicações e bati à porta, sentindo os efeitos do calor, passados despercebidos pelas calças de ganga, com gotas de suor a escorrer pelas articulações das pernas "Entre." Obedeci prontamente.

Um aroma, enjoativo e intenso, a tabaco inundou-me os orifícios nasais, de imediato, à medida que observava o caos espalhado naquela sala, como se um furacão tivesse pernoitado por lá, antes de atacar uma povoação inocente das caraíbas. Dezenas de livros espalhados, por aqui e ali, quase como se fossem frutos apodrecidos, esquecidos após a colheita. Um piano vertical, velho e murcho, estava encostado à parede direita, como se de um abat-jour dos chineses se tratasse, sem direito ao simples auto-respeito, tapado pelas camadas de pó e o peso do tempo, que quanto mais depressa flui na linha cronológica, mais cicatrizes, dor e mágoa impreme às coisas. E aquela sala estava carregada de perdição, de tristeza e desilusão que atiraram a mais bela das artes à superfície interna daquele buraco, para a transformarem em panquecas, sensaboronas e insípidas. E com um perfume de tabaco. Vislumbrei o M., curvado sobre a secretária, proporcionalmente baralhada a tudo o resto, e cumprimentei-o. "Olá." Ele levantou ligeiramente a cabeça, depois ergueu-se e apertou-me a mão, sem me fitar nos olhos. Delicadamente, ofereceu-me uma das duas cadeiras à sua frente, mas sem perder tempo. Mais uma vez, executei tudo como mandam as regras. Mas o ambiente, tão cáotico quanto genial, despertou-me a curiosidade. "Toca piano?" Um inesperado olhar assustado, tão forte e tão curto, foi atirado na minha direção. "Sim, em tempos. Noutros tempos, toquei. Quando me dava prazer, quando podia e era feliz." Uma flecha atingiu-me. Não esperava, de todo, aquela resposta e a minha tendência para querer decifrar aquele mistério aumentou exponencialmente."Que giro. E porque parou? Adoro música, é uma das minhas paixões. E também tive aulas de piano há uns anos." Alternando entre a reta final do preenchimento da maldita declaração amigável e um olhar de súplica por paz, a nossa interação tornou-se um crescendo de uma sonata, oportunamente, de piano. Começou inaudível, mas o compasso final rebentou com êxtase.

junho 09, 2012

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (III)

Saltos altos, leggings e um estilo pin up demasiado quente para a noite ventosa que se estendeu sobre a bomba de gasolina da estação de serviço.

O negrume já havia ultrapassado o meu estado de espírito. Cobria, num rompante guloso, todo o alcatrão e todos os vestígios de movimento em redor, exceção feita para as minúsculas luzes aceleradas que, paralelamente, serviam de fogo-de-artifício às nossas expressões graves. Dezenas, centenas, milhares talvez, de carros assinalavam um desfile de tubos de escape e pára-choques urbanos, rápidos como foguetes, cujo destino parecia até ser incerto para os condutores dos mesmos. Um espetáculo de luzes que se cruzavam e entrelaçavam, como se a luz pudesse ser uma opção naquela altura, em que o frio, mais do que o medo, provocava um tilintar nos pés irrequietos, a pele de galinha e uma estranha sensação de vazio. Seria o meu carro tão vital quanto um amigo, um familiar ou simplesmente uma pessoa que me faça crescer num gesto escondido pos verborreias mentais?

"Bem, está tudo tratado, mas não a deixo sozinha. O melhor mesmo é chamar um reboque...", atirava seco M. "Persistente o sacana", contei a mim própria. "Hum.... não, deixe estar, já estou perto de casa. Vou tentar ir até lá", respondi-lhe. De cigarro no canto da boca - mais um maravilhoso exclusivo num anoitecer pré-outonal -, arregalou os olhos, retirou o cigarro com o polegar e indicador destros e fez-se entender perfeitamente, ainda antes de silabar seja o que for. "É melhor chamar um reboque... o motor pode gripar e depois é bem pior, o radiador está só a deitar água. Tem a certeza que não quer um reboque?!" Nem disse muito mais. "Não." Matou o cigarro com uma só pisadela impiedosa da sua bota escura de chumbo. E atirou um "Vamos lá."

Quinze minutos depois. O pior havia acontecido e eu, no meu desespero disfarçado pela altivez feminina da minha indumentária sexy, não queria baixar a guarda. Mas o M. tinha sido O profeta. Uma espécie de adivinho das duas rodas, com a sua roupa de um preto uniforme, indiferente e desligada das modas que faziam o mundo - e o dinheiro - girar, eternamente, como dados a rebolar para a fatalidade de uma roleta num casino. "A temperatura aumentou e temos de esperar... Mas agora parece que está mesmo difícil", afirmei, com os lábios paralisados. Os olhos, redondos e castanhos, fixavam-me sem dó. "Eu bem te disse", falaram. "Pois, ok. A carteira é surda...", respondi com um risinho seco. Estava só, apenas com o meu orgulho frio e desapaixonado, numa berma de estrada. Optei por recorrer a um amiga, aquela que me ajudou a libertar-me, nos meus 28 anos.

Sim, tinha 28 anos quando a minha vida mudou. Mas ninguém disse que foi fácil, pois não? Crescer dói que se farta. "M.J.? Desculpa... Tive um acidente na A5 depois de termos estado juntas... Vens para cá? Obrigada, querida. Até já." Baixa, de pele clara, rosto arredondado e uma voz pueril, não tardeu em aparecer. Instante em que o meu Twingo parecia andar. E, subitamente, não havia motivos para ele, o meu protetor, poder ficar. Estarava tudo resolvido, bastava o seguro entrar em ação e pagar os danos materiais. Da minha parte ainda teria esse problema para resolver. Era altura de enfrentar as feras e seguir em frente, como sempre se fez e sempre se fará. Despedi-me da voz arranhada e da aventura personificada num arqueólogo, com rasgadas linhas de sarcasmo que o tornavam tão charmoso aos meus olhos de menina-mulher. Ainda não o sabia, mas o reencontro já havia sido traçado.

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (II)

Já era noite cerrada. Ainda sentia aquele arrepio que o meu sistema nervoso me tinha enviado. Devia ser uma espécie de presente de aniversário atrasado ou - visto que a bondade abunda por estas alturas - algo que fosse similar a uma oferta natalícia adiantada. Porque não, né? O M. por ali estava a acabar de preencher a declaração que eu, atabalhoadamente, não conseguira. Foi, por esses segundos arrastados, que comecei a analisar, discretamente, aquela figura, utilizando a minha timidez pueril como disfarce. Quase parecia uma criança perdida aos olhos de um mero mortal. Mas não passava de uma rapariga assustada protegida por uma vergonha cozinhada com stress, agressão e um cheiro a eucalipto que me dava comichão. Estava todo vestido de preto, como se fosse um adepto ferrenho de motas. Na realidade era um fã de motas, mas não fazia parte daquele gangue com longas barbas grisalhas, lenço na cabeça e brinco na orelha, a ganhar ferrugem há quilhénios. "Vocês que andam em carros, parecem sardinhas enlatadas", gozou, com os olhos semi-cerrados, gozando da confusão alheia. Era de outra estirpe o M. Mais baixo do que eu, com um farfalhudo cabelo grisalho com ligeiras reviravoltas nas pontas, revelava ser um autêntico pirata do tabaco, com o constante buscar de um cigarro para confortar a alma. Uma espécie de compra por impulso, com os danos colaterais de se ter uns pulmões mais negros que o pior dos mercados. Sempre com um cigarro ao canto da boca, a sua voz era forte, com um timbre de roquidão sensual. "É o que dá fumar tantos cigarros", pensei. Sem dúvida era o tom com que se dirigia e comunicava que fazia toda a diferença. Tudo o que dizia transformava-se numa interrogação, cuja resposta seria uma incógnita. Mesmo que a dêssemos, ele replicava com uma pergunta e a nossa mente, intuitivamente, respondia: "este homem é um ponto de interrogação". Nesse dia não percecionei com a devida profundidade tal caráter enigmático, mas percebi, a posteriori, que aquele senhor superava os limites da generosidade, na era esmagadora do egoísmo. Afinal protegeu-me, com notável desapego, mesmo depois de ter sido vítima de um acidente de viação. Protegeu-me. Protegeu naquela sua concha, uma armadura de aço, a agressora da sua integridade física. Como se lhe pertencesse, como se fosse um prolongamento de si mesmo.

maio 20, 2012

Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência

Tinha 28 anos quando a minha vida mudou. Quando finalmente mudou. E num desses dias, descarreguei finalmente o peso - aquele que havia carregado, interminavelmente, como se fizesse parte do meu corpo desde sempre e do qual me sabia livrar. Sacudia, agitava, abanava, mas mesmo que, por segundos, ele voasse para outra dimensão, não tardava em regressar a cada átomo meu, como se fosse um amante-cola, sedento de toque e de chuvinha de amor.

Não chovia naquele dia, não. Mas uma tempestade obscura reinava dentro de mim, como se tudo perto de mim colapsasse e ruísse, sem piedade. Nada parecia fluir bem, fosse onde fosse e as tensões constantes em casa faziam com que tivesse o condão de irradiar energia negativa para qualquer objeto que estivesse na minha direção. Foi o que aconteceu naquele dia. Desabafei. E conheci o M.

Os eucaliptos rodeavam o caminho da auto-estrada em direção ao mar. A minha cabeça não paráva, corroía-se de pensamentos que, à força, eu temtava organizar. Tudo isto enquanto me mantinha focada no longa reta de alcatrão diante de mim. Pára, arranca, pára, arranca. Olhar para a esquerda durante meio segundo, voltar em diante...uma mota em cima do meu capot. AI! Trava! PUM!

Um solavanco percorreu todo o meu corpo que, sacudido, num ápice, assemelhou-se a um boneco, inanimado e ausente daquela realidade onde prosperavam carros e sinais de fumo. Sinais de vida, portanto. Vi que a mota parecia estar inteira. O mesmo não se podia dizer de mim, que rebentei no instante em que percebi que os danos poderiam ser irreversíveis. E foi aí que o inesperado aconteceu.

"Está bem? Sente-se bem?". Eu não respondia, escondida pela minha vergonha e pelo meu embaraço que me engoliram a língua. Esperava agressividade, cobrança, revolta, mas em vez disso recebi generosidade, compaixão e preocupação. As lágrimas apoderaram-se de mim, mas eu vi-o. Vi um enorme coração refletido nos olhos castanhos, grandes e redondos, que irradiavam força e personalidade. "Não, não estou bem...". "Mantenha-se calma, por favor. Onde tem o seu triângulo? Acalme-se, eu trato de tudo". Disse-lhe onde, mas quis ajudar, ainda que estivesse parada no meio da A5, na faixa do meio, com carros a passar por tudo o que era sítio. Sem pensar, abri a porta e fui ter com a "vítima". Ainda que por pouco tempo, é certo. "Sem colete aqui fora?! Já para dentro." Estava a ser protegida por quem tinha levado uma valente cacetada. Bem, até faz sentido. Não fosse eu, naquele momento, magoar-me.

Uma hora depois.

O radiador estava morto. O carro andava em modo de tartaruga. Eu já não tinha as cataratas do Niagara a brotar-me dos olhos, ainda que soubesse que tinha pedido aquela situação. Estava mais calma, mas, o mais estranho era que era o outro lado que permanecia calmo. E chegados à bomba de gasolina para tratar das burocracias legais da coisa, finalmente consegui ter outra perspetiva do M. "Olha, estou atrasado, uma colega tua hoje quis conhecer-me, o que se fazer?". Sorri, finalmente. 

setembro 14, 2009

Cruzamentos com múltiplas bifurcações

Verão. Alentejo. Brisa fresca.

A conversa ia quente, em cima de um banco de pedra. A contrastar com o gelo que sentia na ponta dos dedos dos pés, falávamos vivamente sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares. Sobre a inspiração de um homem que amou alguém na aridez do deserto, de certo modo semelhante à essência daquela relaçao. Ilusória, passageira e inerte.
"Posso?". Algo dera um ponto final às filosofias sobre a obra do escritor. Pelo menos, umas reticências, cuja continuação era indefinida e estava posta em causa. Era uma rapariga loura, de cabelos encaracolados, de figura esguia e bronzeado cor de caramelo. Segurava uma garrafa de vinho tinto, numa mão, e vários copos de plásticos, na outra. Os tiques demonstravam bem o efeito que a pinga estava a ter: um pestanejar constante e veloz, movimentos hiperbólicos e uma finura ténue de desiquilíbrio. Mas, no fundinho, a rapariga, de olhos verdes, parecia só querer um pequeno espaço do nosso banco. Olhei para a "Lúcia" perplexa, mas não havia sinais de qualquer reprovação.
"Sim, claro, sente-se", assenti. "Olhem, querem um pouco?". Silêncio estranho e constrangedor. "Vá lá! Está bom!". Não que tivesse o hábito de aceitar bebidas de desconhecidos, em noites de Verão, nas quais o nosso lado mais selvagem predomina. Mas aceitei. "Vá lá, enquanto o Bruno não chega". Olhámos para a rapariga com ar interrogativo. "Namorado?". Ela abanou a cabeça, num sinal bem explícito de negação. "Qual quê! É alguém..olha, conhecemo-nos agora". Mal percebia o que se passava ali, nem entendia que estava eu a fazer, ao cheirar o aroma de um vinho tinto vindo de uma desconhecida. Mas a despreconceituosa interacção agradou-me e, por isso, fomos mais longe. Percorridos quilómetros de conversa e blá blá blá sobre as nossas confissões - porque no fundo não passávamos de três mulheres desconhecidas, contudo com idades semelhantes e, por conseguinte, com preocupações idênticas -, ele aparece.
A "Sónia" e o "Bruno" eram um daqueles casais relâmpago. cuja duração média de vida são dias ou, na melhor das hipóteses, escassas semanas. O protótipo de relação mais comum, quando já toda a gente já bateu com a cabeça nas paredes, para cima de mil vezes e está imune. O mínimo de compromisso com o máximo de luxúria e descomplicação. A fórmula que, à partida, acaba por ser mais viável e cómoda. É o típico "Enquanto há tempo, paciência e alguma sexualidade, suporta-se. Depois disto não me venham com merdas, que tenho mais que fazer, sim?" Ele, bem parecido, atraente e simpático, ofereceu-nos mais vinho e juntou-se a nós no banco - o nosso cenário para a nossa pequena história.
Brindes, brincadeiras, relatos. Um pequeno relâmpago de maluquice atingia o nosso mini quarteirão, de cinco em cinco segundos. Risos, danças, pequenos mistérios revelados. Como se fôssemos amigos há meia dúzia de anos. E, pelo menos, com várias festas e karaokes em cima. Não esqueçamos as inconfidências, que metiam um namoro mal terminado, com casamento à mistura e um passado confuso. Cada vez que a palavra "Ana" saía daquela boca, um brilho nos olhos dele cortava tudo que estivesse à sua volta. Escutei, ouvi, senti. Imaginei mágoas, tão comuns em pleno século XXI, e pensei em fuzilá-las naquela cabeça. Não, pensei mesmo numa tortura à Idade Média. "Segue em frente. Esquece. Esquece". Por detrás daquela máscara de mel trintão pré Mourinho style, os olhos escondiam um passado tenebroso. Ela, sensual e exótica, falava alto e brindava aos fortúnios e infortúnios da vida. E as pilhas deviam ser duracell.

Verão. Alentejo. Brisa mais fresca. Uma hora depois.

A música misturava-se com as nossas vozes e as ondas do seu cabelo, cruzavam-se com o meu ruivo liso. Desdobrávamo-nos em mil pessoas, todas presentes naquela pista feita de fuguras solitárias, que exibiam, principescamente, um copo de cerveja na mão. Eu e ela tínhamos parado ali, aquele era o nosso momento de libertação, o nosso prazer, a nossa declaração de amor à vida. Numa espiral sufocante, não parávamos. Não desistíamos de sermos mulheres e, mais importante. Não queríamos parar de ser animais, seres selvagens, frenéticos, alucinantes. Stop.

Play. Era tarde. Reparei que a sala se tinha enchido de casais, com cheiro a sexo e sede de desejo. O tempo retomou o seu lugar, o ponteiro dos segundos não paráva de ditar a sua inflexibilidade e eu senti que o meu lugar já não era ali. Olhei à volta uma vez mais, despedi-me, sacudi o fumo dos pulmões e regressei à normalidade de um dia de férias. E nunca mais bebi vinho de estranhos.

julho 30, 2009

Rewind & Fast Forward

O tempo é implacável. Passa, convicto, sem dar-nos as oportunidades suficientes para fazer perdurar certos momentos ou para agarrar, como é devido, outros. Nos últimos anos do meu percurso, muitos caminhos desembocaram em ruas de um único sentido: becos sem saída e sem alternativas.
Agora há que virar o jogo, mudar as placas de sítio e contornar a minha direcção, com deterinação e assertividade. Talvez com a ajuda de um mapa, inicialmente. Regularmente, virei aqui expressar algumas das minhas inócuas ideias, sem grandes manobras de diversão no português. Acho.

março 12, 2008

"Lacrimae Rerum" - continua...

O momento.

Ding dong. Ouvem-se passos distantes que afunilam num crescendo sonoro até que uma voz, distintamente masculina, interroga o alegado intruso. “Quem é?”, inquere com firmeza.
A moça baixa, que estava do lado da rua, de fisionomia rebaixada e corcunda, todavia detentora de um cabelo muito louro e ondulado, envergonhou o olhar azul, acanhando-se por debaixo do boné vermelho. ”Boa tarde senhorrr, cômô ixtá?”, soletrou a medo a ucraniana ou russa, ou uma menina daquelas bandas, que segurava uma resma de papéis publicitários a uma grande superfície.
Clik. Ele já tinha visto tudo por detrás do óculo, mas decidiu dar o benefício da dúvida, já que raparigas de tez clara, cabelo fio de ouro e mau português são mais raras e ele sentia-se tremendamente aborrecido. “Estou bem obrigada e a menina?”, rematou com um sorriso arrasador.
Pum! Lá se foi a papelada para o chão, um rasgo forte de vento arrastou o boné e a boca da miúda descaiu, tal era a expressão de surpresa e fascínio naqueles olhos, que se outrora já foram misteriosos, agora não faziam quaisquer tenções de esconder um brilho de luxúria e desejo. “Senhorrr...você está a deixar-me louca..”, sussurra, à medida que se aproxima dele, em passos sensuais, com os canudos a roçarem a pele pálida. “É o homem da minha vida e vamos ser felizes..”, continua a “Nikita”, espetando lentamente os lábios finos.
Ele retribui. “Amo-te e agora que te encontrei, não te vou perder”. O céu azul profundo protege os dois amantes, que naturalmente selam o sentimento inesperado do momento com um beijo longo, suavemente, como se a ampulheta do tempo deixasse de funcionar e a constante dos segundos parasse. Perdidos naquele trocar de carícias, ele levou-a para a sua vida, pegou-a ao colo, sorriu, à medida que uns violinos acompanhavam os sorrisos pepsodent em slow motion..

“Miguelll!”. Susto. Lá se foi a ucraniana e, nem em sonhos, conseguiu o seu número de telefone. Bem, a semana passada foram brasileiras e cubanas, desta vez, a mulher da sua vida tinha hálito a “bife tártaro” mas era diferente, sem dúvida alguma, pensou, à medida que se aprumava para a reunião. E, claro, para um encontro com um dos intermináveis contactos da lista telefónica.

fevereiro 09, 2008

"Lacrimae Rerum"

Ela.

"Ana, és linda". Já tinham passado mais de cinco anos e ainda hoje aquelas palavras pareciam as primeiras e, ao mesmo tempo, as derradeiras, as mais importantes da sua vida, como se fossem dádivas da linguagem humana. O som saboroso, sussurrado e silibante proveniente daqueles lábios bem delineados e carnudos, desencadeava um entorpecimento dos sentidos que, até então, jamais havia conhecido.

De pálpebras cerradas, ela permanecia, impávida e serena, no mesmo local, mas tão determinada, que seria, para quem deambulasse ao seu lado, uma forte presença, um sinónimo de força inabalável. Indomável. Saboreava a brisa cortante, que empurrava grãos de areia para o canto dos olhos, e que rasgava a face lisa de pele aveludada. Apesar das mãos compridas e finas nunca aquecerem, o coração estava numa constante ginástica, feita de avanços e recuos, jogos de flexibilidade, em dose exagerada, que a transformam no expoente máximo da inflexibilidade. Os lábios finos já se queixavam, estavam secos, o calor apertava e réstias de suor colavam o top laranja às costas.

Ana. Abriu os rasgados olhos de avelã e presenciou a revolta da natureza. E tentou sair de dentro de si, mas o mar mostrava-lhe aqueles lábios. E tudo voltou, numa agonia indescritível: a perda, a solidão, a saudade, o amor que jamais voltou a renascer. Era um formigueiro, uma comichão que crescia a cada centímetro, ardia, doía, matava, moía. Uma lágrima desceu por aquela cara linda e, dez segundos depois, a figura incontornável da indomável mulher numa praia semi-deserta desvaneceu-se, dando lugar a uma criança frágil que fugia da vida.

Ele.

"Não sei donde vens, mas sei que o teu destino é aqui". A velocidade a que corria era frenética, mas ele sonhava, com os olhos a brilhar depois de a ter conhecido, com a lembrança daquelas palavras que proferiu, gravadas no seu pensamento.

"Olha, 200 mg de adrenalina, rápido, que está a entrar em taquicardia! Mexe-te!". O cabelo raspava no H2O circundante, ele lá corria no corredor, enfiado na bata semi-branca e os dedos das mãos robustas e possantes, delineados pela circulação sanguínea palpitante, saltavam à vista como peças de dominó em escada, numa agilidade mecanizada. "Já está!", proferiu, num som saboroso, silibante, sussurrado, proveniente de uns lábios delineados e carnudos.

Miguel. Os olhos verdes, cerrados e numa expressão grave, deixavam escapar muito mais do que parecia. Virado para o jardim do hospital, o espelho da alma perscrutava as sombras das árvores, à procura de um sinal dela. Da força indomável no olhar cor-de-avelã rasgado, nos lábios finos e rosados, daquela luz de presença naquele hospital.


setembro 19, 2007

Desabafo



Epá que há grandes bestas e filhos da puta lá isso há. Daqueles com maiúsculas por todos os lados, como se nos berrassem ao nosso ouvido, constantemente, a magnitude deles versus a nossa pequenez. E como se isso fosse a coisa mais importante, a notícia do dia e do topo da agenda noticiosa, em qualquer telejornal (ou mero jornal feito de papel escuro, daquele que suja as pontas dos dedos e etcetera e tal). Caso para reunir o Conselho de Segurança da ONU, organizar um debate para a Assembleia da República decidir se decreta um dia religioso para os portugueses venerarem ilustre personalidade.
Não suporto gajos (e gajas, claro, não sou machista) que se armem em merdas, isto é, que fazem questão de tratar os outros como animais, abaixo de cão, não tendo em conta os seus sentimentos, com os sucessivos atestados de estupidez que gostam de passar aos outros nos tempos livres. Em vez de verem TV ou irem praticar ginástica na horizontal, não. Têm que ir melgar os outros. “Ah e tal, qual é o vosso hobbie favorito?”. “Ah então, óvio que é passar atestados de estupidez a toda a gente para além de mim, que não é ninguém”. (E sim, o “óvio” é mesmo para ser escrito assim, não há ali qualquer erro ortográfico). Já não digo para lerem grandes obras da literatura clássica, ver museus paleolíticos ou ouvirem música clássica em dias de chuva, bolas. Podiam fazer algo realmente divertido e lúdico: ver um filme que “não aquece nem arrefece” num dia qualquer, dar de comer aos pombos no Rossio ou simplesmente não fazer nada. Não, prontos. Não querem. Têm de torturar os outros, fazê-los acreditar que a pequenez das suas cabeças é literal e psicológica, e regozijar-se disso para que o encolhido ego aumente em vão.
Meus amigos, digo-vos uma coisa. Filhos da puta (que não têm outro nome, desculpem lá, mas há coisas que têm e devem ser ditas) dispenso-os bem. Aliás, posso até arranjar meia dúzia e vender na nfeira de Carcavelos. Assim têm alguma utilidade. Mas deles quero é distância e limitar-me ao mínimo dos relacionamentos, para não haver situações digamos constrangedoras e…desagradáveis. Por isso, se forem desta “raça”, não me apareçam à frente. Só conseguem pena e pfft. Uma escarreta psicológica.

julho 26, 2007

Solta mas presa


Já viram que está tudo por um fio? Tudo à nossa volta não passa de uma ilusão, na maioria das vezes, um sonho que pode ser transformado em pesadelo, se deixarmos de conhecer e viver nos rituais que conhecemos, dia após dia. Crescemos nesses rituais, vivemos neles com toda a energia que conhecemos e, de repente, puf..vão-se. E depois? Depois nada. Casa, família, amigos, sexo, romance, trabalho. Escapa-se-nos tudo por entre os dedos. E cá com uma pinta..É muito difícil conquistar alguma coisa na vida, ganhar alguma coisa depois de uma luta com sabor a suor, mas é muito fácil perder tudo numa milésima de segundo. E porquê? Por que é que esta fragilidade da vida nos persegue em cada esquina que viramos?
Vivemos as coisas com ligeireza, relativizamos as tragédias e as tristezas. Ya. E depois? Um dia achamos que temos tudo, que somos felizes, e depois tudo muda e regride-se, desce-se um patamar no percurso da vida, sem se saber realmente qual a direcção a atalhar. Alguém me compreende? Porque muda tanta coisa ao mesmo tempo? E porque é que só muda aquilo que não se quer mudar? Um sentimento, um amor, uma paixão, uma memória que permanece imutável no nosso inconsciente. Há coisas que não consigo mudar. Outras que posso querer mudar, mas não consigo. Mas o pior é mesmo querer que certas coisas não mudem. Nunca. Como as manter vivas dentro de nós?L.