Avança o mais que puderes, nesta Arte da Vida, surpreende os teus adormecidos sentidos, descobre os aromas perdidos e ataca-os, como se um poço de emoções te cobrisse com grãozinhos de areia geniais, dos pés à cabeça. Abre a tua caixa... Abre-a e enfrenta-a.
setembro 08, 2015
Colisão Frontal, eucaliptos e a dor da independência (VII)
Perdi-me no raciocínio. Assim numa impercetível rajada, fiquei atordoada e nada me conseguia elevar os sentidos, ainda que estivessem rodeados de berloques dignos de um alto nível de entretenimento. Nada. Nem luzes, nem vozes sussurradas, nem sequer o ligeiro ronco que de mim emanava, à medida que os segundos, minutos e horas passavam, e começava a ganhar volume, um som misto e sincopado, fora de tempo, em forte crescendo, suplicando por comida. Fiquei ali. Especada a olhar para o pequeno ecrã do telemóvel cor-de-rosa. Não percebia. "Estás-te a meter comigo?", atirei em silêncio.
Seria aborrecimento, uma agenda inadvertidamente vazia no último minuto ou, pura e simplesmente, um ronco semelhante ao meu, mas num piano crescendo, apelando ao fim da saudade? O palco brilhava. Centenas de cabeças, de texturas, cores e geometrias delirantes regavam o entusiasmo entre quatro paredes. Preenchidas de interesses privados, o mais publicamente possível. Dançávamos como se fosse o fim do mundo, decretado para daí a meia hora ou, quiçá, a uns meros 15 minutos. Rodas e rodas de sombrinhas humanas abrigavam o chão, roçavam nos braços das cadeiras, vermelhas e almofadadas. E eu movia-me ao som da batida mais comum, entregue às profecias vociferadas de um homem a dançar como um saco de batatas no palco e com um ténis diferente do outro. Naquela altura não fazia ideia de nada, mas o melhor é mesmo nem pensar muito. Para não criar ilusões. Parei, com a sensação de peso na mão direita e lembrei-me. Da mensagem.
Olhei para o lado. A Ana Carolina já parecia estar "despachada" da purgação dos seus pecados, ao som de uma bateria tricotada, entre buzinas, sirenes de ambulâncias e uma voz sensualmente vaga. Disfarcei o minha fixação com um sorriso e guardei o telemóvel no bolso dos calções. Levantei a cabeça, indecisa. Até que... retirei o telemóvel, para dedilhar a seguinte mensagem:
"Olá! Tudo bem? Sim, eu pensei que o carro andasse, mas ainda não é desta... Teve de voltar para a oficina. E com a mota, tudo fino?". Enviada.
Sim, era verdade, o M. tinha acertado na muche. O Twingo já estaria arranjado, mas foi falso alarme. Mal peguei nele, descobri que o motor não estaria bem. "Bop bop bop bop...". Com tantas cuspidelas de peças desencaixadas, entre bifurcações e pontos de embraiagem, ter chegado ao destino desse dia foi uma sorte. Já o destino do carro foi outro.
"Malta, já passaram cinco minutos! Agora vão partilhar o que escreveram!", interrompeu Dinis, atabalhoando os meus pensamentos. "Ah pois é, deixa cá ver", atirei para o lado. Com um ar tímido, a minha parceira de jogo deixou um riso sufocado fugir. De olhar mudo, sorrimos as duas e, sem demoras ofereci-me para dar a conhecer, em primeira instância, a minha (longa) lista.
Aquele tinha sido um ano difícil. Assim de cabeça contava duas relações destrutivas, menos cinco quilos, uma caixa de cipralex e um acidente de viação. Ah e, já agora, o desgaste emocional no seio familiar. Mas se não fosse isso, talvez não tivesse tido a coragem de dar o passo que estava prestes a dar: partilhar um apartamento com uma recente amiga em Lisboa. (In)felizmente, o único mal no mundo não é só o nosso. Diante de Ana Carolina, entendi claramente o porquê daquela tristeza nos olhos velados conseguir ser maior que as dúvidas daquele verão arrastado. "Sou farmacêutica, mas fiquei desempregada. Estou assim há ano e meio. Tenho 35 anos e não tenho um namorado há anos. A minha mãe está doente e tenho de tomar conta dela. E tu?" Engoli em seco, à espera que as palavras me saíssem certinhas e certeiras. "Tenho um trabalho estável há quase dois anos, não tive nenhum problema grave de saúde, a não ser uma pequena depressão." O outro lado parecia imóvel e é nestes momentos que um segundo pode-se arrastar pela linha do tempo, esfomeado e sedento de algo que o preencha, multiplicando-se por mil e cem prisioneiros desprovidos de vida. Não sabia mais o que dizer.
"Bora lá, malta! Partilhem as coisas, confiem." O Dinis saltava no palco, feito fantoche num festival de marionetas sob um foco de luz alérgico à retina ocular. Pi, pi. Pi, pi. O telefone toca. Uma música mix de elevador ecoa pela sala, abafada pelo conjunto das vozes.
março 28, 2015
Desesperadamente Procurando Nova Iorque (VI)
O meu lugar era junto à janela, do lado direito, mesmo na segunda fila do avião doméstico. Uma assistente de bordo, afro-americana, de cabelo curto e movimentos desembaraçado mantinha-se apoiada junto à porta, com um indumentária formal. Saia preta pelos joelhos, a combinar com um blazer e uma camisa branca, com um rosto oval pincelado por um batom vermelho em andamento. "Yes, alright then", deambulava, entre pontos finais, vírgulas e e pontos de interrogação, enquanto a perna esquerda fletida, deixava a direita em tensão. A visão arrepiou-me, ainda mais.
Desviei o olhar para a janela, à procura de sinais. Quanto tempo iríamos demorar a sair dali? Já tinham passado muitas horas desde que abandonara Portugal, perdera o contacto com a famosa A., e inclusivamente que tinha falado na minha língua. Aos poucos, o sotaque do inglês além atlântico instalava-se na minha cabeça. Os diálogo sonantes e musicados das inúmeras séries televisivas, que arrombavam o nosso sistema cognitivo, ganhavam uma nova dimensão. De mono passavam a ser uma sinfonia musical em estéreo, com direito à (in)satisfação dos outros sentidos. A música de elevador, transposta para a década de 50, começou a cruzar-se com suspiros, cofs cofs, e bips bips de máquinas fotográficas anteriores ao flash. Distraí-me com esta informação, dispersa pelo avião. Vaguei entre os vizinhos franceses, que me lembraram a vontade que tinha de saborear um croissant, a postura profissional da hospedeira, que provavelmente estava ansiosa para chegar a casa, e a paisagem longínqua da janela riscada, que eu queria ver. Saltar apenas com o poder da mente ou encarnar numa versão feminina do flash gordon, até aterrar na estátua da liberdade. Apertei bem o cinto, tapei-me discretamente com o casaco e enterrei-me naquela melodia.
"Oui... Eh... Yes, thank you". Uma moça negra, de óculos inteligentes e indumentária simples, em tons de azul, sentou-se ao meu lado. Sorri e disse olá, ansiosa para poder conversar. "Ladies and gentleman...", ouvi. Finalmente. Íamos levantar voo. E eu ia conversar com alguém antes de comer a maçã.
outubro 27, 2014
Desesperadamente Procurando Nova Iorque (V)
Descalcei-me, com alguma dificuldade. Todos os espaços e bancos, passíveis de me auxiliar nessa tarefa, pareciam ocupados com sacos, malas e máquinas fotográficas. "Just move it!", atirava a réplica nº 578 da Queen Latifah, ao fundo do corredor. Subitamente, a minha mente viajou para uma prisão norte-americana, na altura da refeição, onde a fila de espera teria sempre de ser orgânica e contínua. Sem tempos mortos. A diferença é que, no presente imediato, existiam detetores de metais em vez de cassetetes pretos, autênticas metamorfoses de uma cordilheira além da linha da terra. Uma menina, com o cabelo cor de gengibre, de tez sardanisca e olhos pestanudos mirou-me com um azul celeste. Sorri timidamente, surpreendida pela doce fixação nos meus movimentos descontinuados, à procura de um local para esperar. "Ah a eterna curiosidade das crianças". Nunca imaginei que poderia ser um dos momentos mais bonitos de sempre, o aceno de uma criança a uma desconhecida ou um gracejo redondo quando uma das minhas botas desencaixou, aflitivamente, do meu pé. E com o esvoaçar do cachecol, da boina, o deslace da alça, frouxa, nos meus cotovelos enguiçados, com os quilos de massa densa de roupa por baixo. Sem me conseguir mexer, a bebé, refastelada no seu carrinho aconchegado, sorria de lado, num esgar torcido de gozo. Duas cópias imperfeitas da bebé corriam à volta do banco, num frenesim louco, com berros, puxares de roupa e mini-maratonas infantis de Filadélfia à mistura. Os pais, disformes com os rosas e os ruivos de linhas em voo, sacudiam, arrumavam e despiam. A fila começou a avançar.
Agarrei nos pertences e meti-me em espera. O ar abafado sufocava a respiração e, por cima da tapete rolante, as caixas da plástico, desfilavam perante a plateia assustada com as possibilidade de novas tendências de pronto-a-vestir para a próxima estação. Tablets, portáteis, casacos tigresse, botas cortadas e retalhadas. De tudo um pouco se via a descoberto antes da pose, muitas vezes em mise-en-scène. Lá continuava de meias ao relento até à passagem na grande máquina. O aparelho, um detetor de metais avançado, parecia saído de um filme de sci fi realizado por James Cameron. E a minha apreensão em entrar lá dentro não passou despercebida. Depois da reprimenda, deixe-me de molenguices. Entrei e passei. Nada de metais, armas, nem lâminas se encontravam nos confins do meu vestuário casual. Desci o degrau, fugi para as minhas coisas, coloquei o cinto, calcei-me e segui para a viagem.
Porta 63. Andei às voltas pelo aeroporto, como se de um tour para dummies se tratasse. Na realidade, comparado com a Portela este espaço era gigante, com uns dez terminais, mas organizados através do alfabeto ocidental. Depois de ter encontrado o caminho certo - o oposto ao que fiz originalmente - lá apanhei um carrito e percorri os corredores como pistas de autoestrada. Estava apenas a 45 minutos da meta. Até lá... respirava fundo para não perder a calma.
outubro 13, 2014
Desesperadamente Procurando Nova Iorque (IV)
"É para aqui a fila da alfândega?". Virei-me ligeiramente para trás e foi o fim do meu aborrecimento. Devia ter um 1, 60 m, um casaco de malha cinzento e uma cascata de canudos compunham a cabeça, caindo em catadupa para os ombros. Os olhos, redondos e castanhos, eram de uma afabilidade familiar, com o sabor de um bacalhau assado e batata a murro destilado. No braço esquerdo apoiava um dossier, enquanto manuseava um smart phone branco com a mãe direita. "Sim, seja qual for o destino, tens de passar por aqui", atirei, com um misto de enfadamento e alegria. Instante passado e volvido, chegou outro, no qual a minha atenção se centrou. A A. A poucos metros de nós, precisamente na mesma fila, ei-la, com o seu grande carrapito no topo da cabeça, a mala do tamanho de um porta bagagens de um Buick e um sorriso camuflado. Alguns fãs mini miniatura aproximavam-se, tímidos, com pedidos de fotos e autógrafos. Ela, mesmo cansada, lá acedia. "É mais bonita na televisão", dizia-me a minha companhia, cujo destino final era Seattle, no norte da costa oeste, junto à linha fronteiriça com o Canadá. Eu virei a cara e ri-me, à espera de passar despercebida. Mesmo que já fosse uma tarefa impossível. "Acho que ela já te viu", falava a voz de timbre grave, entre os caracóis húmidos.
Nunca fui boa a matemática, os números sempre me assustaram, mesmo com a calculadora como eterna auxiliar. A minha vontade, sempre que tenho uma conta astronómica à minha frente, composta por vírgulas e rabos de nove, é simplesmente de apagar e dizer 'olha, vai de férias, que eu não preciso de ti'. Ou então 'não posso simplesmente arredondar? Sou adepta da simplificação!'. Porém, aqui, nesta situação em concreto, até um ceguinho vislumbrava o óbvio: as probabilidades de me cruzar, no mesmo avião, com aquela figura pública, eram reduzidas. E simplesmente não quis saber, mesmo que todos pudessem andar atrás dela a milhares de quilómetros de distância. Cruzámo-nos incontáveis vezes, ao compasso daquele andamento, que ditava o ritmo da fila, em modo staccato ou legato. Devagarinho ou mais rápido. E nenhuma de nós trocou um olhar marcado, um gesto de cumprimento ou um olá sumido. Porque ali éramos invisíveis para quem nos conhecia, subtis sombras humanas numa mancha de cor disforme e vaga, num limbo de tempo, em terra de ninguém, chefiada pelas Queen Latifahs e reconhecida pelos tapetes que nos faziam viajar para um cubo mágico. Ali éramos duas mulheres em férias, longe das escravidões da vida.
Um senhor de bigode e formas redondas analisou-me na passagem da Alfândega, sem uma réstia de sorriso ou informalidade. Hirto e seco, perguntou-me o que fazia eu ali. "I'm on vacation", respondi. "What do you do for a living?", atirou com os olhos cerrados na foto do meu passaporte. "I'm a journalist", esclareci, de imediato, com um sorriso ignorado. A placa de identificação dizia "Ben". E quando o carimbo roçou, com força, no papel do passaporte, o nervoso miudinho voou daquele ponto invisível e um sorriso iluminou-me. O bigode do Ben, farfalhudo com pelos castanhos, atravessou-se na linha do meu olhar, acompanhando o movimento ascendente da cabeça e eu pensei: "Ben... Ou antes, bem, vou-me embora!". E desapareci com um agradecimento mudo e umas Merrell voadoras.
setembro 30, 2014
Desesperadamente Procurando Nova Iorque (III)
E depois de apanhar um elevador e travar uma conversa, mais gestual do que linguística, com duas portuguesas, lá encontrei. "Customs". A placa do derradeiro beco com saída, na direção da entrada. O exame final antes da licenciatura, a inversão de sentido no exame de condução, a última fase de recrutamento com entrada para a multinacional da moda. Ou como todos os geeks diriam, a última aventura, entre fogo, montanhas e gigantes, antes de conseguir destruir o anel do poder em Mordor.
maio 17, 2014
Desesperadamente Procurando Nova Iorque (II)
À minha volta parecia que a noite tinha aterrado no avião. A A. continuava a três filas de mim, com um enorme tufo preto no topo da cabeça pendurado no lado do topo de um lugar acinzentado. As janelas alternavam, entre a negritude e a clarividência, e os ponteiros pareciam que teimavam em não avançar, embora eu estivesse perdida. Apenas era uma mancha, algures a sobrevoar o Atlântico. Uma mancha no limbo, entre dois pontos marcados no espaço, presa na linha do tempo, quase como se estivesse a atravessar um portal, onde tudo significaria mudança instantânea, adquirida e... desconhecida.
Olhei para a janela, para o conjunto de nuvens que se assemelhavam a tufos de algodão. Saltei para cima deles, como se fossem um gigante trampolim, como passaporte para as mais belas paisagens. Dei piruetas e re-voltas como se pudesse voar e cada descida era um beijo com o material, era um aparar de um golpe, tão possível e real nos dias mais comuns, um sorriso estampado nas costas ou com qualquer outra parte do corpo que chegasse ao ponto mais baixo da queda. Descansei o olhar e sorri. Agora as nuvens surgiam como baguetes e recordei as dentadas estalidas de muitas, com um "crunch" que aquecia o meu palato com novas sensações. Mesmo a tempo. "Sandes de presunto ou queijo?" Fixei o dentinhos brancos. "Presunto". E um estaladiço cremoso, variante pão de plástico, instalou-se.
abril 05, 2014
Desesperadamente procurando Nova Iorque (I)
abril 03, 2014
Desesperadamente procurando Nova Iorque (prefácio)
fevereiro 12, 2013
Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (VI)
junho 15, 2012
Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (V)
Diante de mim, com o cabelo grisalho vistoso, ainda que desalinhado, o M. escrevinhava, num esforço inesgotável, para acabar finalmente com a parte morosa da burocracia, deixando escapar um ar macambúzio e gelado, os olhos fixos no papel - que, em boa verdade, nada era senão mais um elemento ocioso, através do qual se protegia - e o lábio inferior virado do avesso mas severo, como uma criança amuada à espera do doce que não chega. O nariz, ligeiramente abatatado, não era excessivo na proporção da face, ao invés, transportava uma certa jovialidade cómica que transmitia um fervor para os dedos, ansiosos e irrequietos para lá chegar e brincar com o órgão do olfato. Porém, o que me despertou, naquele momento, foram as mãos. Dedos grossos, calejados e fortes. Dedos de quem trabalha, de quem pensa, de quem resiste. Dedos que transportam força, ainda que camuflada por tanta doçura. Pensei na bela doçura que aquelas mãos poderiam dar e o calor que poderiam fazer sentir. Todos podem sentir o que quiserem dentro de si, mas poucos podem expressar e concretizar essas emoções, carregadas pelos mistérios do cérebro. Aquelas mãos destilavam amor, carinho, força e integridade por cada ruela daqueles poros velhos. Não eram bonitas, não eram suaves, mas carregavam a natureza da vida.
Enquanto o destino me prendia àquela cadeira, desenhada com veios de uma densa antiguidade, perscrutei ainda mais aquela expressão solitária enrijecida pelas linhas do rosto, traçadas pelas partidas que surgiram desde o seu nascimento. Definidas pela reviravolta da ampulheta do tempo que, implacável no compasso do seu andar, com o derradeiro escape de cada grão de areia, não consegue provocar indiferença por onde toca. Acontece, mas não pára. Perdoa-se, mas não se esquece. Esquece-se o passado, mas influencia-se o futuro. Ou, se trocarmos as voltas às lógica do otimismo irracional, colocando o realismo na linha da frente, o tempo cria cicatrizes na nossa alma, irreversíveis, mas cujas feridas lambemos como cachorros indefesos, como se fosse a suprema cura para alcançar a vitória frente ao próximo male. Só que o próximo male tem por hábito ser maior e atingir no mesmo sítio da massacrada ferida.
Ring ring. Despertei da minha investigação com um toque constipado de um telefone bege, outrora escondido por livros, capas rijas e cinzas de tabaco, que transformavam a mesa num objeto de decoração de um café noturno. "Está? Sim, não há problema... Sim, claro." O que antes parecia ser um silêncio ensurdecedor, transformou-se praticamente num recital de poesia, com a voz forte, rouca e densa do M. a preencher as lacunas da sala, com uma dança de sorrisos com os olhos. Timidamente, comecei a rasgar o meu sorriso, não por causa da conversa - irrelevante e banalíssima -, mas pela impaciência infantil com que M. estava a lidar com o assunto. "Obrigada", atirou com firmeza, devolvendo o auscultador do telefone ao descanso, com aquela firmeza que, tantos dias depois, viria a ansiar reencontrar. "Está tudo bem?", experimentei. "Sim. Bem, sabe como é... confusões." Num discurso inflamado, contra as injustiças da sociedade, M. deu vida a mais um cigarro, mais um ponto alaranjado iluminou aquela sala com tanta escuridão, enchendo o metro e meio que nos distava com fumo que se amontoava e apalpava, tais eram as chupadelas que dali retirava. Se aquela voz enchia a sala, uma personalidade carismática e determinada começou a chegar aos meus olhos. Ainda que, até então, fosse parco em palavras, a extroversão, rara e quase considerada pela sociedade inadequada para um homem com mais de 40 anos, começou a ressurgir. E lançado o mote, não resisti. "Fuma aqui dentro porquê?! Sabe que não se pode fumar em locais fechados... e está aqui um pivete...". Manteve a postura séria, sem desarmar a expressão e frio replicou: "No meu gabinete mando eu. O gabinete é meu, trabalho aqui, portanto eu faço o que quiser, inclusive fumar." Não respondi, nem ousei. Lancei apenas um sorriso, e com sucesso, não tivesse o M. feito um convite com os seus olhos redondos e grandes, que lançaram faíscas de dor, durante aquele quarto-de-hora passado.
Ouviam-se, por certo, a largos metros de distância os nossos passos, dada a pouca afluência de alunos por aqueles corredores amarelados, com pinturas, mini-esculturas e peças de olaria a colorir a neutralidade das paredes. Como uma discípula, seguia a figura do M., que se tinha oferecido para me mostrar os recantos mais interessantes da universidade. Afinal, eu era uma entusiasta de história, de arqueologia e de arte. E nem a situação constrangedora em que nos cruzámos, graças aos misteriosos desígnios da vida, ditaram a expulsão da minha figura daquela sala de fumo, nem o fechar a sete chaves do capítulo do choque frontal na A5. Um choque de titãs. De duas almas fortes, mas com o coração em sobressalto. "Agora vou-lhe mostrar a minha sala favorita", advertiu, deixando o sorriso amarelado, desenhado com o toque persistente da nicotina, aparecer à luz do dia. Assenti e passei por uma porta, descendo meia-dúzia de escadas de pedra, com uma imagem esplendorosa a apoderar-se do meu raio de visão. "Uau", deixei escapar, com a ingenuidade de uma criança, espantada pela conjução de cores, odores e misturas históricas que se ergueram naquele instante. Dos passagens estreitas, inertes como a estrutura de um hospital, rebuscadas com pedaços de arte, saltei para uma fonte de inspiração, onde qualquer sonhador, artista e filósofo adoraria passar horas, numa comovida sensação de fazer amor com o universo, com o mais belo que há. Um estímulo sexual aos sentidos. Naturalmente, não fui exceção.
À nossa volta repousavam estantes, dezenas, centenas talvez, que cercavam toda a sala, quadrada, como muralhas de uma cidade medieval. Centenas de documentos, livros, portfolios e fotos, numa junção proveniente de uma dose elevada de loucura e também de coragem, davam o cunho histórico de uma biblioteca secular. No centro estavam uns estiradores, em forma de U, com cadeiras, que reforçavam os contornos acolhedores da sala de aula. Pincéis adornavam as mesas de trabalho e resquícios de tinta, bem como o seu cheiro, marinavam entre as paredes, gastas e escuras, fundindo-se com o bolorento odor do estuque. Pelo ar caminhava ainda o aroma a papel velho, a pensamentos queimados, uns quantos que terão ocorrido, em comunhão, numa salutar conversa entre alunos e professor, sobre princípios cujos fins ainda não estavam traçados. O que me fez recordar, num ápice, os tempos em que desejava pensar, porém com forçada atenção, naquelas mesas viradas para um crucifixo, em cima do quadro. A diferença é que, então, tudo parecia automatizado, à semelhança da minha vontade de estar naquelas aulas. Ali, tudo é natural, espontâneo, desejado e vivido até à máxima glória. Não precisei muito, apenas escassos segundos, para ter a certeza: o M. era um excelente professor e, principalmente, um excelente formador. O carisma, o sarcástico sentido de humor e aquele amor, camuflado por uma aparente frieza, mas real insegurança, eram os ingredientes perfeitos. Senti uma pontinha de inveja daqueles alunos. Será que ainda me podia permitir viajar, como uma jovem de 20 anos, trancada para sempre naquele éden intelectual, sem receber contas, despesas e responsabilidades estúpidas de um adulto típico, ou seja, sempre aborrecido de si próprio?
"Este lugar é excecional...". Aqueles olhos firmes voltaram a focar-se em mim, mas com alguma admiração, em vez de uma incontrolável raiva pelas decisões que o fado lhe trouxera como oferenda."É, não é?". Sorri, rendida. Caminhei, abraçada à humidade claustrofóbica da sala, apreciando cada segundo de cores, pinceladas, peças arqueológicas que o M. me mostrava e que tanto calor no coração me despertavam. Entre as explicações sucintas daquele homem - que as Estradas de Portugal tão amavelmente me haviam apresentado - e a catarse que os elementos causavam no meu corpo, vislumbrei umas estreitas escadas de madeira no lado esquerdo, quando estávamos virados para a porta, junto ao canto. Havia uma passagem para um segundo nível. Acima das prateleiras que me beijaram os olhos, quando ali surgi, estavam mais uns quantas, à primeira vista, abandonadas. "Que teto alto", julguei. Ao meu lado, M. sacava mais um cigarro, perante o meu olhar de espanto, antes que se transformasse numa reprovação silenciosa. Pouco tempo demorou, na realidade, tal como a minha permanência na sala mágica.
"Tenho de ir", atirei, triste. "Está a ficar tarde e estão à minha espera. Mas gostei muito desta visita... e desta sala." O M. sorriu, com o seu ar altivo, erguendo com orgulho um cigarro que me entontecia. "Quando quiser, pode aparecer", despachou, num discurso rápido, como se o medo pudesse impedi-lo de pronunciar aquelas palavras. "Obrigada, sim. Gostava muito de assistir a uma aula." Despedi-me do inebriante festival de elementos, virei costas e caminhei até à saída. Mas, naquele momento, não estava somente a virar costas a um edifício, mas a uma pessoa. Era uma despedida que, estranhamente, não queria celebrar. Deveria e poderia. Era o fim de um ciclo, o arrumar, em definitivo, a novela do meu carro, machucado, à hora de ponta, na pontinha de Lisboa. Não era isso, porém, que sentia. Era o fim do contacto com um homem diferente de todos os anteriores e que, talvez por isso, me tinha injetado no coração uma esperançosa luz. Confusa, nos labirínticos corredores, nunca deixava murchar um sorriso jovial. A cabeça não parava, como uma escada rolante em modo turbo, mas o esgar dos lábios, em forma de coração, não se apagava.
Calor. Luz em modo ecológico. Ressurge Lisboa, na sua beleza histórica, perante os meus olhos, com um elétrico amarelo a trilhar uma perpendicular vizinha. O inevitável adeus a espalhar charme. Seria a derradeira despedida? M. furtou mais um cigarro de um "não sei quê" bolso dos jeans azuis cansados. De pé, aspirava aquele prego do caixão e uma proeminente barriga despontou sob a luz da cidade. Agradeci, com um nervoso miudinho a trepar pelo estômago até se instalar, confortavelmente, na garganta. "Até um dia destes". Ele, escondido pela trepidação do fumo, tinha adquirido a proteção perfeita para se esconder da rutura. De fisionomia séria, esboçou uma despedida com os beiços, num gesto de aparente indiferença, como se nada fosse, como se o cigarro fosse a sua única amiga e amante, a sua única companheira, por lhe ser eternamente leal, mais do que fiel. Olhei. Lancei mais pensamentos através da mente do que com a fala, por uns breves segundos, até o alarme do "já chega" tocar e alcançar-se a fronteira do impoliticamente correto e bizarro. Sorri e virei costas, deslizando e empurrando o cortinado dos meus cabelos escuros compridos, por aquela rua, agora parecendo-me ainda mais preta do que tudo o que carregava, dentro de mim, até lá chegar. E assim, desliguei, esqueci, apaguei. Desemboquei noutra esquina, composta por uum arco-iris fabricado de uma feira popular, para me distrair dos momentos do tão fresco passado. Não por temer nada do que aconteceu, mas pelo temor do tudo que nunca poderia vir a acontecer.
junho 11, 2012
Colisão Frontal, Eucaliptos e a dor da independência (IV)
Afinal não tinha arrumado o incidente de viação numa gaveta, com direito a tranca, cofre e urna dourada. Não. Dias depois, o M. ligou-me e informou-me: "a declaração amigável tem um erro nos dados." Enfim o reencontro. Por último, o contacto fora daquele cubículo chamado "sala de acidente na A5". É a mesma coisa que uma sala de espera de um dentista ou de um ginecologista, na qual o constrangimento natural supera a natureza da alma mais genuína. A música mastigada por dois acordes manhosos, revistas (re)mexidas com cantos polvilhados de cuspo e impressões digitais com odor a ranço ou os sofás que sobraram da última edição do Stock Market. Tudo isto em conjunto com a hipótese da televisão com 20 anos estar sintonizada nos programas da Júlia Pinheiro ou da Fátima Lopes desenvolvem as condições - necessárias, logo, perfeitas - para que os presentes se atiram para o fenómeno da "não comunicação" de cabeça, soprados pela autoridade sublime de um deus chamado padrão cultural social. Caso contrário, serão punidos. Um sorriso ou um gesto dessincronizado do todo o poderoso, invisível mas presente naquela esmagadora sala, pode dar azo a um olhar ou sussurro, assombrosamente, esmagadores.
Assombrada continuava eu pela beleza de Lisboa. Estava a passos largos da universidade onde o M. lecionava e, portanto, a uns minutos de conhecer mais sobre a personalidade daquele homem ou de contactar com o habitat de um verdadeiro animal da estrada. O sol ainda raiava bem alto e com um brilho nos olhos, talvez devido ao grito de revolta dos meus 28 anos, que me deram a provar o acanhado sabor a independência, avancei com o cortinado preto formado pelas linhas paralelas e simétricas do meu cabelo, acarinhado pela suave brisa. A cor da pele, a roçar o guloso caramelo, fazia-me confundir com uma turista ou uma trauseunte oriunda de terras latinas, mas o ar ansioso e as passadas firmes deitavam por terra a hipótese de ser uma mera diletante estrangeira, apaixonada pelos mistérios de Lisboa. Cheguei. Respirei fundo, coloquei a mão no interior da mala branca à tiracolo da Gola e confirmei que tinha tudo: carteira, telemóvel, chaves, estupefacientes... ups. Bem, tinha umas gomas no fundo do saco. Dei um passo em direção ao topo do degrau da porta de entrada e pousei a sola da sandália à moda dos gladiadores, castanha, com tiras e fivelas, em solo firme. "Sabe-me dizer onde é o gabinete do Professor M.?" Um porteiro negro, de óculos estranhos e postura hirta, olhava-me como se fosse um E.T. Deu-me as indicações e bati à porta, sentindo os efeitos do calor, passados despercebidos pelas calças de ganga, com gotas de suor a escorrer pelas articulações das pernas "Entre." Obedeci prontamente.
Um aroma, enjoativo e intenso, a tabaco inundou-me os orifícios nasais, de imediato, à medida que observava o caos espalhado naquela sala, como se um furacão tivesse pernoitado por lá, antes de atacar uma povoação inocente das caraíbas. Dezenas de livros espalhados, por aqui e ali, quase como se fossem frutos apodrecidos, esquecidos após a colheita. Um piano vertical, velho e murcho, estava encostado à parede direita, como se de um abat-jour dos chineses se tratasse, sem direito ao simples auto-respeito, tapado pelas camadas de pó e o peso do tempo, que quanto mais depressa flui na linha cronológica, mais cicatrizes, dor e mágoa impreme às coisas. E aquela sala estava carregada de perdição, de tristeza e desilusão que atiraram a mais bela das artes à superfície interna daquele buraco, para a transformarem em panquecas, sensaboronas e insípidas. E com um perfume de tabaco. Vislumbrei o M., curvado sobre a secretária, proporcionalmente baralhada a tudo o resto, e cumprimentei-o. "Olá." Ele levantou ligeiramente a cabeça, depois ergueu-se e apertou-me a mão, sem me fitar nos olhos. Delicadamente, ofereceu-me uma das duas cadeiras à sua frente, mas sem perder tempo. Mais uma vez, executei tudo como mandam as regras. Mas o ambiente, tão cáotico quanto genial, despertou-me a curiosidade. "Toca piano?" Um inesperado olhar assustado, tão forte e tão curto, foi atirado na minha direção. "Sim, em tempos. Noutros tempos, toquei. Quando me dava prazer, quando podia e era feliz." Uma flecha atingiu-me. Não esperava, de todo, aquela resposta e a minha tendência para querer decifrar aquele mistério aumentou exponencialmente."Que giro. E porque parou? Adoro música, é uma das minhas paixões. E também tive aulas de piano há uns anos." Alternando entre a reta final do preenchimento da maldita declaração amigável e um olhar de súplica por paz, a nossa interação tornou-se um crescendo de uma sonata, oportunamente, de piano. Começou inaudível, mas o compasso final rebentou com êxtase.
junho 09, 2012
Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (III)
O negrume já havia ultrapassado o meu estado de espírito. Cobria, num rompante guloso, todo o alcatrão e todos os vestígios de movimento em redor, exceção feita para as minúsculas luzes aceleradas que, paralelamente, serviam de fogo-de-artifício às nossas expressões graves. Dezenas, centenas, milhares talvez, de carros assinalavam um desfile de tubos de escape e pára-choques urbanos, rápidos como foguetes, cujo destino parecia até ser incerto para os condutores dos mesmos. Um espetáculo de luzes que se cruzavam e entrelaçavam, como se a luz pudesse ser uma opção naquela altura, em que o frio, mais do que o medo, provocava um tilintar nos pés irrequietos, a pele de galinha e uma estranha sensação de vazio. Seria o meu carro tão vital quanto um amigo, um familiar ou simplesmente uma pessoa que me faça crescer num gesto escondido pos verborreias mentais?
"Bem, está tudo tratado, mas não a deixo sozinha. O melhor mesmo é chamar um reboque...", atirava seco M. "Persistente o sacana", contei a mim própria. "Hum.... não, deixe estar, já estou perto de casa. Vou tentar ir até lá", respondi-lhe. De cigarro no canto da boca - mais um maravilhoso exclusivo num anoitecer pré-outonal -, arregalou os olhos, retirou o cigarro com o polegar e indicador destros e fez-se entender perfeitamente, ainda antes de silabar seja o que for. "É melhor chamar um reboque... o motor pode gripar e depois é bem pior, o radiador está só a deitar água. Tem a certeza que não quer um reboque?!" Nem disse muito mais. "Não." Matou o cigarro com uma só pisadela impiedosa da sua bota escura de chumbo. E atirou um "Vamos lá."
Quinze minutos depois. O pior havia acontecido e eu, no meu desespero disfarçado pela altivez feminina da minha indumentária sexy, não queria baixar a guarda. Mas o M. tinha sido O profeta. Uma espécie de adivinho das duas rodas, com a sua roupa de um preto uniforme, indiferente e desligada das modas que faziam o mundo - e o dinheiro - girar, eternamente, como dados a rebolar para a fatalidade de uma roleta num casino. "A temperatura aumentou e temos de esperar... Mas agora parece que está mesmo difícil", afirmei, com os lábios paralisados. Os olhos, redondos e castanhos, fixavam-me sem dó. "Eu bem te disse", falaram. "Pois, ok. A carteira é surda...", respondi com um risinho seco. Estava só, apenas com o meu orgulho frio e desapaixonado, numa berma de estrada. Optei por recorrer a um amiga, aquela que me ajudou a libertar-me, nos meus 28 anos.
Sim, tinha 28 anos quando a minha vida mudou. Mas ninguém disse que foi fácil, pois não? Crescer dói que se farta. "M.J.? Desculpa... Tive um acidente na A5 depois de termos estado juntas... Vens para cá? Obrigada, querida. Até já." Baixa, de pele clara, rosto arredondado e uma voz pueril, não tardeu em aparecer. Instante em que o meu Twingo parecia andar. E, subitamente, não havia motivos para ele, o meu protetor, poder ficar. Estarava tudo resolvido, bastava o seguro entrar em ação e pagar os danos materiais. Da minha parte ainda teria esse problema para resolver. Era altura de enfrentar as feras e seguir em frente, como sempre se fez e sempre se fará. Despedi-me da voz arranhada e da aventura personificada num arqueólogo, com rasgadas linhas de sarcasmo que o tornavam tão charmoso aos meus olhos de menina-mulher. Ainda não o sabia, mas o reencontro já havia sido traçado.
Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência (II)
maio 20, 2012
Colisão frontal, eucaliptos e a dor da independência
setembro 14, 2009
Cruzamentos com múltiplas bifurcações
A conversa ia quente, em cima de um banco de pedra. A contrastar com o gelo que sentia na ponta dos dedos dos pés, falávamos vivamente sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares. Sobre a inspiração de um homem que amou alguém na aridez do deserto, de certo modo semelhante à essência daquela relaçao. Ilusória, passageira e inerte.
"Posso?". Algo dera um ponto final às filosofias sobre a obra do escritor. Pelo menos, umas reticências, cuja continuação era indefinida e estava posta em causa. Era uma rapariga loura, de cabelos encaracolados, de figura esguia e bronzeado cor de caramelo. Segurava uma garrafa de vinho tinto, numa mão, e vários copos de plásticos, na outra. Os tiques demonstravam bem o efeito que a pinga estava a ter: um pestanejar constante e veloz, movimentos hiperbólicos e uma finura ténue de desiquilíbrio. Mas, no fundinho, a rapariga, de olhos verdes, parecia só querer um pequeno espaço do nosso banco. Olhei para a "Lúcia" perplexa, mas não havia sinais de qualquer reprovação.
"Sim, claro, sente-se", assenti. "Olhem, querem um pouco?". Silêncio estranho e constrangedor. "Vá lá! Está bom!". Não que tivesse o hábito de aceitar bebidas de desconhecidos, em noites de Verão, nas quais o nosso lado mais selvagem predomina. Mas aceitei. "Vá lá, enquanto o Bruno não chega". Olhámos para a rapariga com ar interrogativo. "Namorado?". Ela abanou a cabeça, num sinal bem explícito de negação. "Qual quê! É alguém..olha, conhecemo-nos agora". Mal percebia o que se passava ali, nem entendia que estava eu a fazer, ao cheirar o aroma de um vinho tinto vindo de uma desconhecida. Mas a despreconceituosa interacção agradou-me e, por isso, fomos mais longe. Percorridos quilómetros de conversa e blá blá blá sobre as nossas confissões - porque no fundo não passávamos de três mulheres desconhecidas, contudo com idades semelhantes e, por conseguinte, com preocupações idênticas -, ele aparece.
A "Sónia" e o "Bruno" eram um daqueles casais relâmpago. cuja duração média de vida são dias ou, na melhor das hipóteses, escassas semanas. O protótipo de relação mais comum, quando já toda a gente já bateu com a cabeça nas paredes, para cima de mil vezes e está imune. O mínimo de compromisso com o máximo de luxúria e descomplicação. A fórmula que, à partida, acaba por ser mais viável e cómoda. É o típico "Enquanto há tempo, paciência e alguma sexualidade, suporta-se. Depois disto não me venham com merdas, que tenho mais que fazer, sim?" Ele, bem parecido, atraente e simpático, ofereceu-nos mais vinho e juntou-se a nós no banco - o nosso cenário para a nossa pequena história.
Brindes, brincadeiras, relatos. Um pequeno relâmpago de maluquice atingia o nosso mini quarteirão, de cinco em cinco segundos. Risos, danças, pequenos mistérios revelados. Como se fôssemos amigos há meia dúzia de anos. E, pelo menos, com várias festas e karaokes em cima. Não esqueçamos as inconfidências, que metiam um namoro mal terminado, com casamento à mistura e um passado confuso. Cada vez que a palavra "Ana" saía daquela boca, um brilho nos olhos dele cortava tudo que estivesse à sua volta. Escutei, ouvi, senti. Imaginei mágoas, tão comuns em pleno século XXI, e pensei em fuzilá-las naquela cabeça. Não, pensei mesmo numa tortura à Idade Média. "Segue em frente. Esquece. Esquece". Por detrás daquela máscara de mel trintão pré Mourinho style, os olhos escondiam um passado tenebroso. Ela, sensual e exótica, falava alto e brindava aos fortúnios e infortúnios da vida. E as pilhas deviam ser duracell.
Verão. Alentejo. Brisa mais fresca. Uma hora depois.
A música misturava-se com as nossas vozes e as ondas do seu cabelo, cruzavam-se com o meu ruivo liso. Desdobrávamo-nos em mil pessoas, todas presentes naquela pista feita de fuguras solitárias, que exibiam, principescamente, um copo de cerveja na mão. Eu e ela tínhamos parado ali, aquele era o nosso momento de libertação, o nosso prazer, a nossa declaração de amor à vida. Numa espiral sufocante, não parávamos. Não desistíamos de sermos mulheres e, mais importante. Não queríamos parar de ser animais, seres selvagens, frenéticos, alucinantes. Stop.
Play. Era tarde. Reparei que a sala se tinha enchido de casais, com cheiro a sexo e sede de desejo. O tempo retomou o seu lugar, o ponteiro dos segundos não paráva de ditar a sua inflexibilidade e eu senti que o meu lugar já não era ali. Olhei à volta uma vez mais, despedi-me, sacudi o fumo dos pulmões e regressei à normalidade de um dia de férias. E nunca mais bebi vinho de estranhos.
julho 30, 2009
Rewind & Fast Forward
Agora há que virar o jogo, mudar as placas de sítio e contornar a minha direcção, com deterinação e assertividade. Talvez com a ajuda de um mapa, inicialmente. Regularmente, virei aqui expressar algumas das minhas inócuas ideias, sem grandes manobras de diversão no português. Acho.
março 12, 2008
"Lacrimae Rerum" - continua...
Ding dong. Ouvem-se passos distantes que afunilam num crescendo sonoro até que uma voz, distintamente masculina, interroga o alegado intruso. “Quem é?”, inquere com firmeza.
A moça baixa, que estava do lado da rua, de fisionomia rebaixada e corcunda, todavia detentora de um cabelo muito louro e ondulado, envergonhou o olhar azul, acanhando-se por debaixo do boné vermelho. ”Boa tarde senhorrr, cômô ixtá?”, soletrou a medo a ucraniana ou russa, ou uma menina daquelas bandas, que segurava uma resma de papéis publicitários a uma grande superfície.
Clik. Ele já tinha visto tudo por detrás do óculo, mas decidiu dar o benefício da dúvida, já que raparigas de tez clara, cabelo fio de ouro e mau português são mais raras e ele sentia-se tremendamente aborrecido. “Estou bem obrigada e a menina?”, rematou com um sorriso arrasador.
Pum! Lá se foi a papelada para o chão, um rasgo forte de vento arrastou o boné e a boca da miúda descaiu, tal era a expressão de surpresa e fascínio naqueles olhos, que se outrora já foram misteriosos, agora não faziam quaisquer tenções de esconder um brilho de luxúria e desejo. “Senhorrr...você está a deixar-me louca..”, sussurra, à medida que se aproxima dele, em passos sensuais, com os canudos a roçarem a pele pálida. “É o homem da minha vida e vamos ser felizes..”, continua a “Nikita”, espetando lentamente os lábios finos.
Ele retribui. “Amo-te e agora que te encontrei, não te vou perder”. O céu azul profundo protege os dois amantes, que naturalmente selam o sentimento inesperado do momento com um beijo longo, suavemente, como se a ampulheta do tempo deixasse de funcionar e a constante dos segundos parasse. Perdidos naquele trocar de carícias, ele levou-a para a sua vida, pegou-a ao colo, sorriu, à medida que uns violinos acompanhavam os sorrisos pepsodent em slow motion..
“Miguelll!”. Susto. Lá se foi a ucraniana e, nem em sonhos, conseguiu o seu número de telefone. Bem, a semana passada foram brasileiras e cubanas, desta vez, a mulher da sua vida tinha hálito a “bife tártaro” mas era diferente, sem dúvida alguma, pensou, à medida que se aprumava para a reunião. E, claro, para um encontro com um dos intermináveis contactos da lista telefónica.
fevereiro 09, 2008
"Lacrimae Rerum"
"Ana, és linda". Já tinham passado mais de cinco anos e ainda hoje aquelas palavras pareciam as primeiras e, ao mesmo tempo, as derradeiras, as mais importantes da sua vida, como se fossem dádivas da linguagem humana. O som saboroso, sussurrado e silibante proveniente daqueles lábios bem delineados e carnudos, desencadeava um entorpecimento dos sentidos que, até então, jamais havia conhecido.
De pálpebras cerradas, ela permanecia, impávida e serena, no mesmo local, mas tão determinada, que seria, para quem deambulasse ao seu lado, uma forte presença, um sinónimo de força inabalável. Indomável. Saboreava a brisa cortante, que empurrava grãos de areia para o canto dos olhos, e que rasgava a face lisa de pele aveludada. Apesar das mãos compridas e finas nunca aquecerem, o coração estava numa constante ginástica, feita de avanços e recuos, jogos de flexibilidade, em dose exagerada, que a transformam no expoente máximo da inflexibilidade. Os lábios finos já se queixavam, estavam secos, o calor apertava e réstias de suor colavam o top laranja às costas.
Ana. Abriu os rasgados olhos de avelã e presenciou a revolta da natureza. E tentou sair de dentro de si, mas o mar mostrava-lhe aqueles lábios. E tudo voltou, numa agonia indescritível: a perda, a solidão, a saudade, o amor que jamais voltou a renascer. Era um formigueiro, uma comichão que crescia a cada centímetro, ardia, doía, matava, moía. Uma lágrima desceu por aquela cara linda e, dez segundos depois, a figura incontornável da indomável mulher numa praia semi-deserta desvaneceu-se, dando lugar a uma criança frágil que fugia da vida.
Ele.
"Não sei donde vens, mas sei que o teu destino é aqui". A velocidade a que corria era frenética, mas ele sonhava, com os olhos a brilhar depois de a ter conhecido, com a lembrança daquelas palavras que proferiu, gravadas no seu pensamento.
"Olha, 200 mg de adrenalina, rápido, que está a entrar em taquicardia! Mexe-te!". O cabelo raspava no H2O circundante, ele lá corria no corredor, enfiado na bata semi-branca e os dedos das mãos robustas e possantes, delineados pela circulação sanguínea palpitante, saltavam à vista como peças de dominó em escada, numa agilidade mecanizada. "Já está!", proferiu, num som saboroso, silibante, sussurrado, proveniente de uns lábios delineados e carnudos.
Miguel. Os olhos verdes, cerrados e numa expressão grave, deixavam escapar muito mais do que parecia. Virado para o jardim do hospital, o espelho da alma perscrutava as sombras das árvores, à procura de um sinal dela. Da força indomável no olhar cor-de-avelã rasgado, nos lábios finos e rosados, daquela luz de presença naquele hospital.
setembro 19, 2007
Desabafo
Não suporto gajos (e gajas, claro, não sou machista) que se armem em merdas, isto é, que fazem questão de tratar os outros como animais, abaixo de cão, não tendo em conta os seus sentimentos, com os sucessivos atestados de estupidez que gostam de passar aos outros nos tempos livres. Em vez de verem TV ou irem praticar ginástica na horizontal, não. Têm que ir melgar os outros. “Ah e tal, qual é o vosso hobbie favorito?”. “Ah então, óvio que é passar atestados de estupidez a toda a gente para além de mim, que não é ninguém”. (E sim, o “óvio” é mesmo para ser escrito assim, não há ali qualquer erro ortográfico). Já não digo para lerem grandes obras da literatura clássica, ver museus paleolíticos ou ouvirem música clássica em dias de chuva, bolas. Podiam fazer algo realmente divertido e lúdico: ver um filme que “não aquece nem arrefece” num dia qualquer, dar de comer aos pombos no Rossio ou simplesmente não fazer nada. Não, prontos. Não querem. Têm de torturar os outros, fazê-los acreditar que a pequenez das suas cabeças é literal e psicológica, e regozijar-se disso para que o encolhido ego aumente em vão.
Meus amigos, digo-vos uma coisa. Filhos da puta (que não têm outro nome, desculpem lá, mas há coisas que têm e devem ser ditas) dispenso-os bem. Aliás, posso até arranjar meia dúzia e vender na nfeira de Carcavelos. Assim têm alguma utilidade. Mas deles quero é distância e limitar-me ao mínimo dos relacionamentos, para não haver situações digamos constrangedoras e…desagradáveis. Por isso, se forem desta “raça”, não me apareçam à frente. Só conseguem pena e pfft. Uma escarreta psicológica.
julho 26, 2007
Solta mas presa
Vivemos as coisas com ligeireza, relativizamos as tragédias e as tristezas. Ya. E depois? Um dia achamos que temos tudo, que somos felizes, e depois tudo muda e regride-se, desce-se um patamar no percurso da vida, sem se saber realmente qual a direcção a atalhar. Alguém me compreende? Porque muda tanta coisa ao mesmo tempo? E porque é que só muda aquilo que não se quer mudar? Um sentimento, um amor, uma paixão, uma memória que permanece imutável no nosso inconsciente. Há coisas que não consigo mudar. Outras que posso querer mudar, mas não consigo. Mas o pior é mesmo querer que certas coisas não mudem. Nunca. Como as manter vivas dentro de nós?L.